Dormindo Com Fantasmas - Naruto

33 These clouds are just explosions in the sky


Notas iniciais
Yo! Mais um capítulo, com mais Naruhina!

Naruto não disse nada durante todo o percurso, o que deixou Hinata levemente decepcionada e, ao mesmo tempo, aliviada. Melhor assim.

Subitamente, o trânsito estava lhe exigindo muito mais atenção do que exigia na maioria das vezes. Ele ainda abriu a boca em incontáveis tentativas de iniciar uma conversa, pois o silêncio era realmente algo que, na opinião de Naruto, sempre se tornava um incômodo. Mas as palavras morriam no meio do caminho, porque tudo parecia idiota demais para ser falado depois do que tinha acontecido.

Parou o carro em frente ao grande prédio onde ficava o apartamento de Hinata. Todas as suas tentivas frustradas tinham agora um número definido. Ele não teria mais tempo de acrescentar nenhuma à lista.

Hinata ajeitou sua bolsa de frente para si, e ainda com uma voz fraca, agradeceu e avisou que estava indo, sempre impedindo sua visão periférica de alcançar o loiro.

Naruto parou o movimento dela e encostou o ombro de Hinata de volta ao banco, delicadamente. Ela virou-se automaticamente para ele, sem chance de evitar encará-lo.

- Eu só queria dizer que... Está tudo bem, sabe? Eu não sei das suas razões, mas eu sei que você deve ter algumas, então eu... Anh, o importante é que você me falou a verdade, você criou coragem sozinha e me falou, antes que eu soubesse de outra forma — ele sorriu. Não um daqueles sorrisos gigantes e inebriantes, um sorriso mais contido, mas que passava toda a confiança que Hinata precisava. Ele a havia perdoado, e de forma tão compreensiva que chegava a doer em seu coração inseguro. Não conseguiu conter as lágrimas tão quentes, que se rebelavam contra o frio ao redor deles.

- Ei, ei — Naruto disse mais baixo do que o usual, chegando mais perto para enxugar as lágrimas da garota, fazendo uma trilha com seu polegar até os olhos incrivelmente distintos dela — não precisa chorar. Não combina com você — ele sorriu mais uma vez — escuta. Isso sempre ficou só entre a gente, nós dois, e vai continuar assim se você quiser, certo? Eu não falo pra ninguém.

Hinata assentiu, dando uma leve fungada e pensando se deveria levantar sua cabeça subitamente tão pesada para encarar o Uzumaki à sua frente.

- Eu... Apenas realmente não entendo — ele disse, e ela colocou seus olhos de encontro aos dele, por fim — Digo, você é incrível, Hinata. Sério, eu fico pensando em como uma pessoa pode ser tão talentosa, inteligente, legal e ainda bonita como você — ele sorriu de canto, sem se dar conta das próprias palavras — quer dizer, você não precisa se sentir inferior a ninguém, porque você não é. Pelo menos é o que eu acho. E eu só quero explicar com isso que eu não quero mais te ver num conflito por algo assim, certo?

Ela assentiu, mas ainda havia algo por trás do seu olhar. Ela compreendeu que Naruto a encorajava para que falasse.

- É que... Obrigada por tudo, mas, não é querendo ser teimosa nem nada, só que... Eu só sou uma pessoa normal, Naruto, eu não sou incrível. Eu sou só a irmã mais velha de uma família nem rica nem pobre, com uma história que sinceramente, deveria ter sido mais preenchida. Mas acho que até isso é normal também. Não é que eu esteja reclamando, é só que eu sou do tipo mais comum de pessoa, do tipo que se confundiria na multidão. Entende? E você, Naruto, você jamais se confundiria a qualquer outro na multidão. Nós somos diferentes. Isso pode parecer uma grande bobagem, mas...

Naruto desencostou-se do banco do carro, de modo que pudesse girar o corpo e ficar diretamente de frente para Hinata. Olhou-a com uma ruga longa na testa, algo como uma expressão reprovadora. Balançou rapidamente a cabeça para os dois lados, e deixou sua mão esticar até a orelha direita de Hinata, colocando mechas de cabelo para trás, deslisando seus dedos por entre os fios. Analisou seu rosto como se fosse uma foto antiga da qual ele quisesse captar cada poro, cada curva daquela face, e seu olhar recaiu nas orbes peroladas e nos lábios pálidos. Aproximou-se, sem que qualquer outra imagem, a não ser aquela à sua frente, tomasse conta dos seus pensamentos, e apoiou a cabeça de Hinata com as mãos, fazendo com que seus lábios se encontrassem. Ela sentiu suas pernas enfraquecerem, e não pensou em mais nada. Qualquer ordem lógica de pensamentos havia se esvaído dela, e ela só conseguia tentar se concentrar em conter toda a efusão de sentimentos que chacoalhavam seu peito como fogo. Colocou sua mão no pescoço de Naruto, aprofundando mais o beijo. Naruto estava ali, não apenas com ela. Ele estava ali para ela. E todo o resto era secundário.

...

Naquele domingo, ela acordou antes do despertador, e, pela primeira vez, não fez cara feia pra o dia sempre monótomo da semana que havia acabado de começar. Sua cabeça ainda estava nas nuvens com o beijo de Naruto na noite passada. Fez sua higiente, seu café, fez uma rápida limpeza na casa — o que a fez perceber que os estudos estavam deixando-a com muito pouco tempo para aquela tarefa — e sentou-se no sofá para assistir à reprise de Garfield na televisão, com uma caneca de leite quente.

Mas sua atenção dedicada ao gato laranja foi roubada pelo som estridente da campainha. Olhou para a porta intrigada, como se ela fosse lhe dizer magicamente quem estava do outro lado.

Era Naruto.

Ela sorriu automaticamente para ele, ao que o loiro passou a mão pela nuca, como sempre fazia quando estava nervoso ou confuso. Não havia avisado que viria, mas não era realmente de se surpreender, visto que se tratava de Naruto Uzumaki.

- Ahn, eu queria... Hum... Saber se não quer sair comigo? Tipo, hoje, agora

.Hinata fitou-o abobada, piscando os olhos algumas vezes antes de responder.

- A-a-ah, sim! Sim, sim, claro! Eu só vou e pegar minha bolsa e... — ela olhou para a calça de moletom que vestia, e sorriu constrangida para Naruto — mudar a roupa! Eu volto já!

Entrou novamente no apartamento e encostou as costas na porta, sem se dar conta de que havia praticamente fechado na cara de Naruto. Quinze minutos. Sim, quinze minutos era certamente tudo que ela precisava.

Do lado de fora, no corredor, Naruto olhava surpreso para a porta brutalmente fechada. Quase perdera o nariz. Hinata Hyuuga era maluca. E ele sorriu ao perceber que gostava disso.

....

Um mês se passou. O outono se passou. Tudo o que estava presente agora era o frio e a neve que dificultava os passos dos ianques que teimavam em andar, e cobria todas as folhas do jardim dos Uchiha. Haviam passado pelo sufoco das provas finais, que causaram dores de cabeça de diferentes níveis em cada um dos alunos. Sasuke com certeza foi um dos menos afetados.

Mas, naquele dia, nem ele escapou de ter seu cérebro invadido pela ansiedade. As cartas de resposta de quase todas as Universidades chegariam naquela manhã.

A garota em seu quarto, ainda sobre os lençóis, olhava particularmente para o teto, buscando alguma real motivação para se levantar. O baile de Inverno e a festa de formatura do dia anterior a haviam deixado especialmente cansada. Daquela vez, tudo parecia estar certo. Gaara bebia com Ino, apenas dançando a partir da hora em que o DJ entrou em cena, sendo, na verdade, arrastado pela loira através da gola de sua camisa social. Temari anunciara que ficaria em Nova Iorque assim que concluísse seu curso. Claro que disse que isso era por causa de Gaara, mas aquilo era um código que permitia que seu acompanhante a entendesse. Tenten e Neji faziam o tipo de par responsável que provocava inveja a todos pela destreza com que conduziam seu relacionamento. E Hinata não mais parecia deslocada entre todos eles. Pensando bem, Sakura achava que aquela havia sido a primeira vez em que aquela garota realmente não se sentia assim com eles. Ela estava com Naruto, e Naruto pareceu ser o lugar certo para ela. Ainda sentia um ponta de algo parecido com inveja, mas, dessa vez, se sentia verdadeiramente feliz pelos dois. Ela havia tentado veemente fazer com que Naruto fosse seu lugar certo, mas não era suficiente. Nada lhe parecia ser o suficiente, se fosse considerar ao todo. Nem Sasuke, com as mãos em volta de sua cintura, sob a valsa lenta que tocava, parecia ser o suficiente. E oh, céus, como aquela constatação poderia ser mal compreendida. Não que ela quisesse estar com mais alguém além dele. Ele era Sasuke Uchiha, e Sakura não sentia que realmente necessitasse de outra pessoa. Mas ainda não era daquela vez que o vazio, que mais parecia uma bolha de ar desprovida de qualquer sentido, vagando de um lado para outro em seu peito, murchasse. Não fazia ideia de qual seria a natureza daquilo que precisava. No final, ela sempre dava de ombros e engolia qualquer coisa em sua garganta vazia, dizendo que aquilo devia ser normal. É, deveria ser mesmo. Afinal, tudo que escapa da normalidade tem a tendência de desaparecer entre o tempo e o espaço, como a areia esmagada em uma ampulheta.

Moveu sua cabeça até que sua bochecha batesse na superfície macia do colchão. Sasuke vestia sua calça jeans, tirando um cigarro do maço e fazendo dele sua primeira respiração de verdade do dia. Sakura inalou aquela fumaça também. Havia aprendido a gostar dela, e completava somente em sua cabeça, que era porque aquilo fazia parte de Sasuke. Fechou os olhos e pôs as pernas pra cima, levantando-se o mais rápido que pôde, sem se dar outra chance de voltar para a cama desnecessariamente grande que parecia muito mais convidativa do que suas tarefas naquele dia. Não que fossem muitas. Teria apenas que ir à caixa de correio, pegar sua talvez inexistente carta de aprovação. Depois iria até o quarto de Hitomi, perguntar como ela estava, como sempre fazia, apenas por alguma educação ou consideração. Dependo de sua aprovação ou não aprovação, teria alguma conversa com ela. E depois, à noite, encontraria-se com todos os amigos. Naruto tinha dado a ideia de que eles se reunissem em algum lugar para contar os resultados de seus destinos, todos juntos.

Mas aquela primeira tarefa parecia a mais difícil de se cumprir. Normalmente, ela adiaria sua ida até o jardim — e consequentemente à caixinha de correio — até a hora do encontro com o pessoal, apenas para dar a eles a informação, concentrando-se no fato de que aquilo não era realmente grande coisa, independente do resultado. Mas Sasuke consultaria sua resposta assim que saísse daquele quarto, sem pestanejar, e obviamente, também acabaria vendo se havia ou não mais uma carta com bordas douradas por ali. Não havia escolha. Colocou seu short curto e folgado, praticamente não visível sobre sua camiseta igualmente folgada, e enorme. Passou as mãos pelos cabelos róseos e seguiu Sasuke porta afora, enquanto se dizia que aquilo continuava não sendo mesmo grande coisa.

- Olha só — Sasuke dizia, sem se importar ou se encolher ao menos um pouco com aquele frio desumano que fazia Sakura bater o queixo — Tem mais correspondência aqui do que eu imaginava — ele resmungava, passando os envelopes de cores diferentes entre os dedos, finalmente detendo-se em um.

Sasuke Uchiha.

Sim, era para ele. De Yale diretamente para ele. Sorriu levemente, não se surpreendendo com a existência do papel, mas sim com a não existência de outro. Olhou automaticamente para Sakura, que tentava manter uma expressão comum.

- Acho que eles não se atrasam, não é? — ela tentou brincar, e Sasuke devolveu numa risada meio baixa e sem real humor.

- Não.

Fechou a porta larga assim que a mais baixa passou, vendo-a balançar um pouco os braços por estar de volta a um lugar mais quente.

- Ainda tem jeito, você sabe, não é? — ele perguntava, e Sakura o olhou com as sobrancelhas erguidas enquanto se sentava no sofá, sem o interesse habitual no que ele dizia — aposto que três minutos de ligação de sua mãe e eles mudariam bem rápido de ponto de vista.

A Haruno soltou o ar contido na boca e prendeu o cabelo atrás com as duas mãos, soltando-o logo em seguida e balançando a cabeça para os dois lados.

- Eu sei. Mas eu já não fiz isso de primeira justamente porque queria ter meus próprios méritos. Queria Yale pelo meu esforço, não pelo que a minha mãe é. Por isso mesmo omiti o nome Hamasaki da seleção.

- Tsc. Não acredito que você fez isso — ele soltava um sorriso mal humorado — a maioria das pessoas só entram nessas universidades pelo status que têm mesmo, Sakura.

Ele soava como se estivesse falando com uma menina de sete anos, e, por alguns instantes, achou mesmo irônicamente que estava.

- E agora? — continuou — O que vai fazer?

Sakura pareceu pensar um pouco para responder, inquieta sobre o assento do sofá.

- Hitomi me matriculou em alguma universidade da França, mas eu não me sinto interessada em ir. Acho que, não sei, vou fazer outra por aqui mesmo. Mesmo que não seja numa grande universidade. Dá pra formar, afinal. Nâo vai me dar o status de uma Yale, mas enfim.

Sasuke a encarou por um momento, e mudou brevemente seu foco, escondendo um olhar de resignação. Rosnou algo para si mesmo e depois disse, firmemente — Vá para a França.

Sakura levantou a cabeça imediatamente, olhando surpresa — O quê? — perguntou, mas não obteve resposta — Eu quero ficar aqui, não vou me enfiar na Europa.

- Você é mesmo tão estúpida a ponto de ficar aqui e comprometer seu futuro pra ficar perto de mim? Sério mesmo?

Ela o encarou com o cenho franzido, e em seguida, deixou uma gargalhada ecoar pela sala.

- Seu tosco arrogante! Que história é essa? Haha, acha mesmo que eu ficaria num lugar só por sua causa? Minha mãe está aqui e está precisando de mim, meus amigos estão aqui, tudo que é meu está aqui!

Ele fungou o nariz, de modo levemente irritadiço, e caminhou até Sakura. Ficou de joelhos no chão, de frente para ela, igualando suas alturas e deixando a fumaça acinzentada se espalhar entre seus rostos.

- E desde quando isso te importa? — ele indagou, olhando fundo nas íris verdes, que não lhe responderam — não tente camuflar suas vontades em razões falsas só porque elas lhe são mais convenientes — ele parou — mas talvez você só sirva mesmo pra ficar em casa como uma boa mulher, enquanto eu pego o cargo que já é devidamente meu. Na verdade, eu nunca realmente duvidei de que essa fosse sua verdadeira vocação. Obrigado por facilitar as coisas, Sakura.

Sorriu amplamente e levantou-se, desaparecendo pelas extensas escadas.

Notas finais
Espero que tenham gostado e.
Essa última cena pode ter parecido estranha da parte do nosso Uchiha, mas vocês vão entender o sentido por trás do que ele fala em muito breve, prometo. Beijos!