Dormindo Com Fantasmas - Naruto
20 Playing God
Notas iniciais
Ahhh, e eu queria muito agradecer à lubittencourt pela recomendação ♥ na verdade, já deveria ter feito isso há muitíssimo tempo, mas sou tão desligada e. Gomen. Muito obrigada e e.
Esse capítulo narrado pela Sakura, e ela vai mostrar mais o que se passava na cabeça dela por esse tempo e.
Bem, sem mais blá blá blá...
Aqueles vinte minutos foram de silêncio. Cru e impiedoso. Um silêncio que, se eu esticasse minha mão, com certeza poderia tocá-lo, de tão físico que havia se tornado. Aquela busca por fingir que a existência do outro não se evidenciava apenas de se olhar para o lado começava a me esmagar, sufocar, esbofetear e me partir num corte perfeitamente reto em duas — eu queria acreditar que só em duas.
Oh, sim, porque eu estava muito bem conservando meu papel de quem não estava nem aí, eu gostava. Não havia nenhum arranhão nisso, e se houvesse um prêmio para melhor covarde descarado, com o quesito "faz questão de só foder ainda mais a já fodidíssima vida", eu não poderia acreditar que existisse alguém mais qualificado a recebê-lo do que Sakura Haruno.
No último mês, eu não tinha deixado ninguém ciente do que se passava na minha cabeça. Minha melhor amiga não soube, minha amiga mais sensível e que iria me entender não soube, minha amiga realista que provavelmente me daria um tapas e me chamaria de boba não soube, e minha amiga responsável que parecia mais minha mãe do que a minha de verdade também não soube.
E Sasuke também não soube.
Essa última ideia eu não conseguia nem suportar. Porque, veja só, pra mim, isso parecia com uma derrota.
Não sei exatamente desde quando passei a ver minha vida como um jogo, mas era assim mesmo que eu me sentia. E eu nunca fui uma boa perdedora, podem imaginar por que. Talvez fosse por isso, por ver minha vida sob a perspectiva de um jogo, que ela soasse tanto como uma piada. Talvez Tenten estivesse certa, e esse fosse o problema comigo, afinal.
Eu passava a incômoda restrospectiva de Sasuke em minha cabeça vezes e vezes. Sim, por que eu poderia analisar, remoer, cogitar e juntar todas elas só pra mim. Enquanto fosse só pra mim, eu não perderia a cartada.
Indiscutivelmente, aquela noite no tapete da sala — e oh, sim, céus, como ver aquele tapete todos os dias pela manhã tinha se tornado estranho, no mínimo, pra mim — não envolveu mais do que meu desejo sujo, mas ainda sim, humano. Não muito mais que carência e baixa estima provavelmente aumentada pela bebida. Eu, de verdade, não sentia nada mais profundo do que esse tipo de coisa por Sasuke há um pouco mais de um mês, e toda vez que lembrava disso, o meu orgulho fazia questão de sorrir triunfante. Porque aquela tinha sido a primeira jogada, e eu tinha ganhado. A única que eu tinha ganhado, aliás, pois depois dessa, eu fui surrada e nocauteada como uma iniciante ridícula.
Eu lembro da minha primeira derrota, assim como da segunda, terceira, quarta, e até onde o meu amor próprio me deixasse contar. Na segunda-feira seguinte, ele me puxou e me jogou contra uma árvore e disse qualquer coisa sobre não me deixar em paz. Eu gritei nervosa e irritada, mas não sou muito certa sobre a proporção das origens dessa raiva. Ok, eu estava com raiva por ele ter me subjugado, mas possivelmente, eu estava com mais raiva por aquilo ter me provacado um alívio. Sim, porque depois de tudo que eu havia dito no dia anterior, ele ainda assim não iria desistir de mim, estava dizendo aquilo com todas as letras. Eu me senti esperançosa, mesmo sabendo que não havia nada sobre o que ter esperança. Eu fui tomada por um sentimento que eu não tinha arquivado, não fazia sentido e eu não conhecia. Totalmente dispensável, não fazia a mínima questão, pode passá-lo para quem quiser, eu disse.
E eu passei. Eu tratei de afastar Sasuke de mim pra que nem aquela esperança, e nem mais nenhum outro sentimento ilógico me pegasse desprevinida. Eu pisei em Sasuke como se estivesse espinzinhando e rindo na cara daquela própia parte de mim que era estranha, podre, desvirtuosa. Aquela parte que simpatizava por Sasuke e deixava que ele fosse tomando as cartas da minha mão e jogando. Eu tinha um intruso, um espião comigo, e eu obviamente precisava me livrar dele.
A derrota mais longa e dolorosa foi esse oco entre aquele tempo e agora. Sim, era um perfeito nome para esse mês, oco.
Eu chutei Sasuke tão longe que ele desistiu de virar a mesa. Ele desistiu de cumprir sua promessa, as duas.
Sim, porque veja, ele havia me feito duas promessas. Meus ouvidos não cansavam de se deleitar com aquela frase tão herege. "Eu vou cuidar de você".
Aquele silêncio que se instalou entre ele e eu gritava e ecoava que ele havia desistido de mim. Que até mesmo alguém tão irritante como ele, e que não me interessava nada, nadinha mesmo, havia desistido de mim.
E eu me senti abandonada, como se ele realmente me devesse alguma coisa.
Eu me senti inutilizada. Setenta por cento de chance de essa ser a palavra certa.
Minha vontade era de correr até ele, segurá-lo pela manga da camiseta e perguntar — Ei, idiota, por que você está desistindo?
Minha vontade era de cobrar a ele todas as promessas que eu supostamente não deveria ter ouvido, e por isso mesmo que eu estava impossibilitada de fazê-lo.
Sasuke havia me deixado sozinha, e sozinha era uma companhia que eu já estava acostumada e enjoada, uma companhia que tinha se tornado desconfortável de tão propícia que era. Eu havia me tornado incômoda pra meus ouvidos, olhos e mãos, por que eu não conseguia me ver, não conseguia me ver de verdade, e já não fazia a mínima questão disso.
Eu voltava, parava, adiantava e pausava minhas memórias como se elas fossem uma ridícula fita cassete, música ou qualquer coisa desse modo que eu conseguisse controlar, e não encontrava o porquê e nem mesmo o talvez que explicassem por que ele me fez sentir especial. Ele não tinha feito nada tão direto comigo, mas mesmo assim, eu irritantemente sentia.
A impotência me humilhava e cobrava seu preço cada vez mais alto por ficar. Olhe, eu mantinha várias coisas comigo as quais eu abominava, e mesmo assim, pagava um alto preço para que elas ficassem comigo, me escondendo, e talvez, me confortando.
Gradualmente, toda vez que eu olhava para Sasuke, eu estava esperando alguma coisa dele. Esperando que ele me cantasse mais uma vez, que ele tentasse me beijar mais uma vez, que sorrisse de canto mais uma vez, ou mesmo que conversasse comigo mais uma vez. Então assim, eu poderia não resistir, eu poderia ter o que eu queria sem pagar a conta por isso. Eu poderia apenas dizer "ei, foi você que pediu isto" e sair sem dar mais nenhuma outra explicação.
Mas ele não fez. Não fez absolutamente nada. Por vários dias, ele sequer me causou algum mal.
Ah, sim, minha próxima derrota. Não me pergunte qual é a mais vergonhosa, já que mesmo eu desisti de dar notas. Eu me senti bem quando Sasuke efetivamente me fez mal. Me senti vergonhosamente bem e reconfortada por ele ter resolvido complicar a minha vida. Eu me senti mais viva, porque era como se ele tivesse voltado a perceber que eu existia e isso devesse ser digno de comemoração. É lógico que isso me irritou pela minha impotência tão óbvia e é lógico que eu jamais diria isso alto e em bom tom. É lógico também que eu jamais admitiria essas coisas para mim mesma num espaço de tempo maior que cinco segundos, mas eu me senti incrivelmente viva quando ele começou a pegar as cartas já sem cor alguma da mesa.
Eu não conseguia enumerar, definir ou muito menos nomear todos os sentimentos que me vinham toda vez que eu tomava consciência de que "eu não me importo" não era realmente uma verdade — e eu não fazia ideia de quando havia deixado de ser. Humilhação provavelmente era um dos maiores.
Eu olhava para trás através do retrovisor do carro e me lembrava que havia deixado Naruto dormindo naquela casa — ele provavelmente dormiria até sentir o cheiro do almoço. Naruto me dava segurança, me dava afirmação de que eu não era tão ruim quanto parecia. Porque por mais que eu geralmente achasse ridículo as coisas que minha mãe dizia a respeito de nós dois, era verdade que eu me sentia alguém melhor só pelo simples fato de estar com ele. "Ei, olhem o Naruto, ele não é maravilhoso?" era isso que eu queria dizer. E ele estava apaixonado por mim, isso não era digno de orgulho?
Oh, sim. Toda vez que eu olhava naqueles olhos azuis, eu via refletida minha culpa, que não me deixava em paz. Não que eu alguma vez tivesse sido moralista ou gostasse de fazer as coisas do jeito "certo" e convencional, muito pelo contrário; dez minutos expondo minhas opiniões e eu era comumente taxada de "vulgar" e "absurda". Fora isso, nós não estávamos realmente compromissados quando eu estive com Sasuke. E mesmo assim, lá estava a culpa, sempre, me enchendo o saco, como se achasse que os vários outros pensamentos já não estavam dando conta de fazer isso.
Talvez fosse culpa por jamais me achar capaz de contar isso a ele.
Talvez.
Eu me contentava com o talvez, e só o talvez, pois aquela já me era uma certeza irresponsável, descabida.
Eu olhava entediada para a paisagem de mato, montanhas, pedra, areia e mais mato que nunca mudava, através da janela do carro.
- Tem certeza de que ainda estamos na América? — puxei assunto, como se falar com o próprio causador de minhas pertubações tivesse uma possibilidade razoável de diminuí-las.
- Possivelmente não — ele respondeu imparcial, olhando para a pista.
- Já estamos perto? — insisti.
- Não era você quem deveria saber disso?
- Minha memória é fotográfica. Só vou saber te instruir quando estivermos perto. Por enquanto, só siga esta pista. Quanto tempo passamos aqui? — eu perguntei, mesmo já sabendo a resposta, apenas para garantir que ele daria sequência àquilo que eu ainda não estava certa sobre chamar de "conversa".
- Uns vinte minutos.
- Hm. Você vai querer alguma coisa em específico?
- Sei lá. Será que eles têm tortas de morango e chocolate?
- Talvez.
- Se não tiverem, eu não garanto que o Gaara esteja vivo amanhã.
Eu ri, com certa dúvida se eu deixaria Gaara vivo — Sabe o que eu nunca entendi? Como você come tanto e não engorda. Tipo, eu também nunca te vi fazendo algum exercício — Sasuke soltou um "hum" de leve riso — Não, sério, eu tenho que fazer dieta cinco meses e outro não pra não engordar. Não é justo.
- Eu não me importo de ficar gordo. Prefiro comer tudo o que quiser. Deve ser por isso.
- Ha, diga isso quando tiver sessenta anos — debochei.
- Não pretendo viver tanto assim. Morro antes.
Ele anunciou, totalmente convicto. Parei um pouco.
- Como?
- Não tenho vocação pra ser velho.
Essa frase, que deveria ser apenas divertida, arranhou minha cabeça de um modo extremamente incômodo. Eu não estaria lá para ver Sasuke ficar velho ou não ficar. Daqui a alguns poucos anos, eu não tinha planos de precisar continuar vendo ele ou sabendo de sua vida. Eu não deveria me importar, mas me importei. E àquela altura, eu não estava mais cuidadosa em relação à isso.
- Ah, eu pensei que o cara que queria tomar conta da Teruya precisasse viver um bocado — disse, rindo um pouco, para clamufar o tom pesado que sua frase despreocupada me tinha causado.
- Veja o lado bom, pelo menos você vai poder ficar com ela. Daqui a uns quarenta anos.
- Você que pensa, meu caro!
- Eu não-
Sasuke foi interrompido por um solavanco do carro. O jeep simplesmente avançou e depois parou bruscamente. Eu avancei numa velocidade incontável até o painel do carro, batendo meu queixo com toda a força.
- Ai — eu murmurei, enquanto massageava meu queixo e tratava de constatar que não sangrava.
- Falei que era pra por o cinto — ele advertiu, meio responsável e divertido, pulando para fora do carro.
Eu apenas revirei os olhos, saindo também.
- Não foram os pneus — ele confirmou.
- Tem certeza que não furou? Com todas essas pedras, não seria difícil.
- Não, os pneus estão ok.
Sasuke franziu o cenho. Tirou a camisa azul escuro enquanto fixava-se somente naquele objeto esverdeado que por um momento curto me causou inveja, e eu pude visualizar todo aquele abdomen que não exibia nenhuma pista de que o garoto em questão era um candidato forte à diabetes.
- Ei! p-por que fez isso e-
Eu gaguejei, pedindo que ele me explicasse a razão daquele ato que estava me deixando inorportunamente nervosa.
- Segura — ele apenas jogou a peça de roupa para mim, ainda sem me olhar, abrindo o capô esverdeado.
Eu comprimia aquele tecido que parecia conter a própria áurea, essência, energia espiritual ou qualquer coisa assim de Sasuke numa mão e noutra. Era quase como se eu estivesse segurando uma parte do corpo de Sasuke. Eu arrastava meu pé meio frenética, sem sair do lugar, penosamente julgando que era demais para o meu resto de sanidade mental e integridade pessoal.
Depois que ele me permitiu observá-lo incontáveis vezes se curvar e endireitar-se ao redor daquele motor, finalmente virou-se pra mim, sério, sem nenhuma gota de suor que o relativo frio não proporcionava.
- Encontrei o problema — ele anunciou, limpando as mãos sujas na calça jeans clara.
Eu continuei calada, encarando-o e refletindo sobre assuntos não muito diferenciáveis, de modo que não deveria aparentar muito consciente.
- Ei! — eu ouvi ele exigir minha atenção.
- Hã? Oi! — exclamei, num sobressalto.
Ele me olhou brevemente de um jeito que eu interpretei como um "Qual o seu problema?", e depois piscou, olhando brevemente para o carro, e logo em seguida para mim.
- Péssimas notícias. Houve apenas uma simples falha, mas há outro problema agora. O problema é a água.
Eu pisquei, meio incrédula e incerta, graças à minha total ignorância sobre o assunto "motores" — ...Água? Água?
- É. Isso é estranho, considerando que o carro é novo. Mas pode ter sido total falta de cuidado do dono, o que é mais provável — ele reclamou — Enfim, o nível de água do radiador está muito baixo. Por isso está saindo essa fumaça, aliás.
- Ok, mas como se resolve isso?
- Com mais água — ele fez uma expressão de tédio, e eu me senti irremediavelmente burra — Mas não tem nenhuma por aqui, parece.
Torci o nariz, irritada — Beleza, e agora? Faça alguma coisa! — exigi irritantemente — Vamos ficar aqui, de braços cruzados?
- A outra opção seria subir nesse carro e continuar o percurso, mas aí provavelmente ele iria explodir em cinco minutos. Se quiser morrer, vá em frente — ele jogou as chaves para mim, afastando-se da pista e escorando-se numa grande pedra empoeirada.
- Não, sério, mas o que a gente faz agora? — eu perguntei, seguindo-o automaticamente — E veste essa camiseta! — eu disse, nervosa, jogando-a com força contra o peito nu dele.
Ele franziu as sobrancelhas, vestindo a camiseta, e mais uma vez tive a impressão de que ele não achava que eu girava bem — Gaara e Ino disseram que viriam atrás da gente, certo? Vamos esperar eles chegarem.
- Mas e se eles desistirem? E se não encontrarem transporte lá? E se tiverem problemas também? E se-
- Olha, se você quiser ir o resto caminhando, por mim tudo bem. Apenas traga a minha torta.
- Humphf — resmunguei, sentando-me numa rocha menor — Tudo bem. Talvez passe alguém por aqui e a gente possa pedir carona.
Sasuke continuou olhando para o nada, sem confirmar nem protestar contra a minha suposição.
Uma hora depois, ainda continuava do mesmo jeito. Eu o observava, perguntando-me como conseguia ficar tão tranquilo e imóvel, no que estaria pensando, o que estaria cogitando. Eu, por outro lado, já tinha levantado, andado em círculos, quadrados, retas e todos os polígonos que conhecia — o que me fez lembrar dos exercícios de matemática que tinha pra resolver, e parei imediatamente. Já tinha feito ritmos de música com os pés e até mesmo feito desenhos na areia, mas minha impaciência não diminuía.
Eu odiava esperar.
Odiava ainda mais esperar enquanto morria de frio e levava rajadas de vento cheias de terra na cara e estando acompanhada de alguém com o qual eu sequer sabia iniciar uma conversa, mas que era o assunto de praticamente quatro em dez pensamentos e e conjecturas minhas — sempre com temáticas desagradáveis, claro.
E alguma parte das outra seis geralmente tinha alguma relação com ele.
Lembrei-me de que antes, isso era mais fácil. Antes eu não precisava me preocupar sobre o que estaria sentindo por ele. Antes apenas ver Sasuke não me gritava nada tão difícil de traduzir.
Recostei-me de novo na rocha menor, com os ombros caídos e uma expressão de derrota.
- Ahhh, eu vou ligar pra minha mãe — eu disse, num tom infantil e baixo, mais para mim mesma, sem certeza de que ele tinha realmente me ouvido.
- Mesmo se aqui tivesse cobertura para isso, não ia adiantar. Eles estão na Rússia agora.
- Sério? E ela não me falou nada. Ok, Sakura, isso não é novidade.
- Ah, sim. Na verdade, ela me pediu pra te avisar, só que eu esqueci.
Sorri sarcástica — Hm, lógico, entendo. Do mesmo jeito que esqueceu de me acordar ontem.
- Dessa vez, eu esqueci de verdade.
Eu me calei.
- Eu vou me ferrar por ter faltado ontem, sabia?
- Aham — ele apenas confirmou, sem me olhar, sem dar importância alguma.
E mais uma vez, era como se ele estivesse falando claramente que eu tinha sido deixada de lado. Senti a irritação me percorrer por uma trilha fina, correndo para me salvar da vergonha que era o óbvio.
- E com certeza, não se importa nem um pouco. Você é um saco, sinceramente. Se não fosse o idiota do Naruto, por mim, você não estaria nem aqui — franzi as sobrancelhas, me lembrando do fato.
Sasuke suspirou irritado, torcendo o nariz e virando-se para mim — Olha só, eu estou no meio do nada, comendo poeira nesse frio dos infernos, sem coisa alguma pra fazer e tudo por sua causa, pra te fazer um favor, então você não tem o direito de reclamar, ok? Aliás, se você não fosse tão tapada e usasse a memória, iria se lembrar dos incontáveis favores que eu já te fiz. Então para de ser chata e não me enche.
Estreitei os olhos. "Tapada". "Chata". "Não enche". Aqueles eram belos motivos para revidar, mas eu avisei que a minha irritação era apenas uma corda fina em que eu caminhava, vendo a humilhação e necessidade lá em baixo, não avisei? E você sabe como é tentadora a vontade de se jogar lá embaixo e não precisar mais lutar pra nada.
Olhei para ele, que no momento chutava pequenas pedrinhas na areia, enraivado. Eu desagarrei convicta e indubtavelmente desencorajada daquela corda fina, sem pegar qualquer porção de orgulho como proteção. Eu queria fazer Sasuke sentir que eu estava ali, eu exigia do meu auto-governo irresponsável que deixasse Sasuke saber que eu ainda era algo pelo qual fosse possível lutar. Ou talvez ainda fosse sim meu orgulho que tinha pulado nas minhas costas e tinha ficado lá escondido, e agora gritava que precisava ser reconhecido, que precisava roubar a atenção. Mas eu gostava mais de acreditar na primeira suposição.
- Foi mal — era tudo o que eu conseguia dizer. Por mais que o orgulho me fosse inexistente, aquilo foi tudo o que eu consegui dizer. Talvez tivesse sido obra da minha salvadora covardia, e eu agradecia.
- Não foi nada — ele disse, como se completasse com um "foi mal também".
- Você sempre diz isso — ri.
- É verdade. Da próxima vez, vou impor condições, então tome cuidado — sorriu torto.
E aquele sorriso sacana estava enfim, de volta. Eu o fitei, enquanto ele imitava minha ação, até que, num clique, baixei o olhar semi consciente, e não consegui mais levantá-lo.
Balancei a cabeça e peguei um graveto no chão, desenhando um triângulo e um círculo dentro dele, e depois desenhando o raio do círculo, um traço tortuoso desde o centro até a borda. Risquei o desenho todo com força.
Ouvi um barulho, que não era nem meu, nem de Sasuke, nem de qualquer animal que pudesse estar por perto. Olhei para a pista, prestando atenção ao máximo que podia ver, colocando a mão sobre a testa para abrigar meu olhos; uma atitude inútil, já que não fazia sol suficiente para incomodar. Sorri. Era um carro que vinha. Levantei-me apressada e corri até a beira daquela pista de terra. Quanto mais o veículo azul se aproximava, mais eu constatava que aquele motorista não era Ino ou Gaara, ou qualquer conhecido. Mas, tudo bem, ainda dava pra apelar para um carona, quem quer que fosse.
Acenei fremente para o homem de cabelos pretos, seus prováveis cinquenta anos e um expressão insatisfeita. Passou sem parar ou sequer olhar para mim.
Senti a poeira deixada pelo carro bater em meu nariz alérgico, junto com o deboche e descaso que aquele caipira estrangeiro parecia fazer questão de esfregar contra a minha cara.
- AAAH — eu impulsivamente gritei, numa altura considerável, fazendo questão de que o motorista ainda pudesse me ouvir revidar que eu não era tão descartável assim — SEU FILHO DA P-
O restante da frase foi apenas abafada pela mão de Sasuke, que comprimia minha boca com força. De certa forma, a presença dele ali tinha me pegado de surpresa. Foi como se, de tanto passar por assuntos relacionados a ele, eu tivesse esquecido de que, na verdade, ele estava ali, ao meu completo alcance. "Uhmmhmmm" murmurei, minha voz ainda abafada por aquele cheiro forte da mão dele.
- Está louca? Imagina se esse cara escuta. Estamos sozinhos, em outro país, no meio do nada e você não sabe que tipo de cara ele pode ser, não banque a valentona — ele disse, meio irritado.
Puxei sua mão, tirando-a de perto dos meus lábios, para que pudesse falar com clareza, segurando-a.
- Nós somos dois contra um! — exclamei infantil, olhando para seus olhos pretos que passavam de leve raiva para certeza.
- Eu não mexeria um músculo, só pra você saber — ele disse, me desafiando.
Murmurei qualquer coisa não tão compreensível propositalmente. Ele soltou um "hum" humorado.
- Já é a segunda vez só hoje que você faz coisas que poderiam colocar sua vida em risco. Você tem algum tipo de fixação com isso?
Eu ri, e já sem um pingo do amor próprio que tanto me era abundante, permiti-me sentir feliz por isso — É só que eu não consigo parar pra pensar antes de fazer as coisas.
Olhei acidentalmente para minha mão, a mesma que ainda tinha uma cicatriz em quase toda a extensão pela noite em que havia quebrado o vidro da garrafa de bebida no chão. Por muito tempo, torci para que ela desaparecesse logo, e até mesmo tentei esconder, para que ninguém me perguntasse como a adquiri. Mas não me importava mais. E eu ainda segurava a mão de Sasuke.
Levantei meu olhar até que pudesse ficar frente àqueles olhos escuros e sempre tão distinguíveis, agora não muito longe de mim. Meu peito queimava, meu coração ia de um lado para outro, martelando contra as costelas que o detinham, rebelando-se contra elas da mesma forma que a minha parte irracional e julgada por mim como fraca se rebelava contra o resto de sensatez desanimadora. Minha mão tremeu e a estabilidade ficou incerta. Sasuke me encarava. Levou a outra mão levemente ao meu rosto, que deveria estar quase azul. Ele me beijaria. Sim, se era certo ou errado, ou se eu arrepender depois, não estava nem ai. Eu queria aquilo e tinha a dolorosa e contraditória certeza de cada possibilidade. Ele deslizou a mão por minha bochecha fria mais um pouco, fazendo-me fechar os olhos. Olhos esses que foram novamente abertos pelo impacto dos dedos de Sasuke batendo na minha pele, não para acariciá-la como eu esperava, mas para dar três leves e penosos tapinhas.
- Não pode ter tudo o que quer, mocinha — ele sorriu, e eu não pude ter certeza de que era um sorriso humorado. O canto de sua boca desenhava amargura, pouco perceptível, e ele deu pequenos passos na direção que me afastaria dele, com as duas mãos metidas nos bolsos e sua postura mais encurvada que o nomal.
Eu tinha cedido à ele. E ele tinha me rejeitado facilmente.
Mas a questão não era essa. Isso passou por mim como um detalhe indgno de qualquer importância, porque eu tinha captado aquela pequena e talvez apenas imaginária amargura e contragosto em seu sorriso, e me pareceu suficiente. Eu já tinha me desprovido de todo o orgulho, não restava nada que fosse me socorrer. Tomei uma das decisões provavelmente mais estúpidas e dignas de pena que poderia tomar, mas uma das poucas que eu não me arrependeria.
Eu não precisava tomar consciência de me mover, aquela sensação no meu peito fez todo o trabalho, antes que me desse conta. Abri a boca, mas não consegui falar nada. Apenas meu braço direito se moveu, puxando delicadamente a barra inferior da camiseta azul escura.
Sasuke virou-se para mim, surpreso. Encarou minha mão com se estivesse tentando se convencer de que não era algum truque, depois percorreu os olhos pelo meu braço, até chegar ao meu rosto, que deveria estar pálido e emoldurado por cabelos nada arrumados. Estava séria, não dizia nada. Ele procurava alguma coisa em minha expressão, talvez a irritação ou o autoritarismo que sempre vinham acompanhados à minha seriedade, mas como provavelmente não os encontrou, fixou-se nos meus olhos. Eu segurava apenas frouxamente aquele tecido azul em minhas mãos. Qualquer mínimo movimento e ele poderia ter se livrado facilmente, mas ele não o fez. Ele continuou lá, preso a mim.
Ele parecia incerto, sem ter noção de que o tempo e o limite da minha coragem — ou covardia, ainda precisava descobrir qual dos dois — passava. Dei dois passos na direção dele, deixando-nos indiscutivelmente próximos.
Eu soube, naquele momento, que não daria mais nenhum passo. Não faria nada, simplesmente. Eu não levantaria meus pés minimamente para que pudesse alcançar a boca dele, eu não me movimentaria mais nenhum milímetro. Eu apenas ficaria ali, olhando abobada para Sasuke, na mesma exata posição, até que ele se cansasse de esperar e virasse as costas novamente, com mais um de seus sorrisos. Nós ficaríamos naquela paisagem morta, totalmente calados, e eu soltaria um suspiro aliviado.
Só que ele me beijou.
E eu o beijei. Beijei como se tentasse sentir aquele vazio acumulado em meu peito se esvaziar através do contato de nossos lábios. Beijei com a consciência dolorosa que ele era a última pessoa que eu queria que estivesse ali, e ainda assim, era a única que deveria estar. Beijei sabendo que renegava tudo o que acreditava, todos os dogmas que havia criado para mim mesma só pelo simples fato de beijá-lo, mas o beijei. Acima de tudo, beijei Sasuke com a consciência de que aquilo não era algo que eu pudesse riscar depois, e com a dúvida amarga que exigia a minha franca resposta sobre se poderia eu lidar com esta certeza quando voltasse ao meu posicionamento na inconstante base de razão que me pertencia, e que eu havia feito de meu lar.
Sasuke passou a mão esquerda por trás do meu pescoço, sua pele macia e nostálgica, afastando meu cabelo fino. Senti o impacto dele trazendo meu corpo para mais perto do seu, atráves da mão direita que comprimia a minha cintura.
Separei-me, com pouco ar, enxergando seus olhos fundos e sua expressão satisfeita. Encostou brevemente seus lábios nos meus, de um jeito divertido, brincando com o meu cabelo. Eu me vi distribuindo pequenos beijinhos no pescoço dele e de novo em seu lábios, aprofundando-os. E sabia que ele sorria. Não fazia ideia de como, mas tinha a clara impressão de que ele sorria enquanto me beijava.
Naquele lugar desértico onde o silêncio era total, mas se fazia agora tão natural, em que podíamos ouvir cada alto e baixo de nossas próprias respirações, um som diferente chamou minha atenção, e logo depois a de Sasuke. Num reflexo, me afastei minimamente, ainda com tempo de ver um pouco de seu semblante que parecia protestar contra isso.
Progressivamente, notei um carro vermelho com um design não muito atual surgir. Retirei as mãos que ainda pousavam no corpo dele, e ele fez o mesmo. Nos afastamos imediatamente, cada um dando dois passos para o lado oposto. Logo pude distinguir Hinata dirgindo, vindo com Gaara ao lado, e Ino atrás.
Notas finais
Hm, vocês me abandonaram nos reviews legal, hein? kkk mas sério, podem me falar se está ruim, ou lixo, ou sei lá, e.
Ah, uma coisa que queria comentar, caso alguém não tenha entendido: há uma diferença entre os capítulos narrados pela Sakura e aqueles trechinhos em negrito. Aqueles trechinhos são tipo flashes, digamos que, na época que ela estava falando aquilo, ela tinha uns 30 anos (só um exemplo) e se lembrando do que aconteceu quando tinha 18. Já a narração como a desse capítulo, é uma narração presente, comum mesmo.
É isso, até mais! E apareçam, ok? Tchau!
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