Dormindo Com Fantasmas - Naruto
13 Not just another one of your plays
Notas iniciais
Até o próprio ato de acordar foi confuso para mim. Aquelas paredes amareladas que me cercavam de repente soaram estranhas. Assim que terminei de abrir os olhos e comecei a inclinar meu corpo para levantar, uma dor aguda rasgou por toda a minha cabeça. O despertador marcava sete e cinquenta e oito. Oh sim, aquela enxaqueca, eu acordando cedo num domingo e aquela sensação irracional de que eu tinha feito alguma coisa muito errada só poderiam significar uma coisa... Eu exagerei na dose ontem, de novo.
Logo a tal sensação irracional deixou de ser irracional. Eu nem consigo dizer do que eu lembrei primeiro, mas cenas de Sasuke em cima de mim após eu contar a minha vida toda para ele atingiram em cheio a minha consciência. Eu me alarmei, mas ainda tinha mais por vir, claro. É lógico que também lembrei do trágico baile quando achei que nada poderia ficar pior.
Eu me sentia uma vadia, era isso que eu me sentia. Uma impura, falsa, suja. Por que eu tinha feito aquilo com Sasuke se eu não estava nem apaixonada por ele? E ainda mais logo depois de o meu namorado pedir um tempo! Ah sim, claro que eu ia usar essa desculpa para confortar minha consciência culpada. Eu estava bêbada e carente após ter levado um fora público do meu namorado, não poderia resistir a um cara como Sasuke dando em cima de mim naquelas condições, certo? Logicamente não, nenhuma mulher hétero poderia.
Por falar em namorado, aquele infeliz do Naruto ia pagar pela angústia que eu estava sentindo. Mesmo que ultimamente eu não esteja merecendo o prêmio de namorada do ano, ele não podia ter feito aquilo comigo. Aliás, nenhum deles podia. Por que nem aquelas que se diziam minhas amigas haviam me dado um voto de confiança? Por que todas elas tinham me julgado? Tudo bem, minhas ações foram suspeitas, mas... Não era pra nós sermos amigas pro que desse e viesse? Elas deviam pelo menos ter me dado o benefício da dúvida.
Eu não sabia o que me consumia mais, a tristeza ou a raiva. Ninguém tinha ficado do meu lado, ninguém. Todos ficaram me olhando daquele jeito patético, sem fazer nada por mim. E aquela Temari, ela é a pior. Será que ela nunca vai esquecer o assunto do Shikamaru? Será possível que essa mágoa de mim vai ficar pro resto da vida? Quer saber? Eu não duvidaria nada se fosse ela quem tivesse armado pra cima da Karin. Ela sempre foi perversa e vingativa mesmo. Embora eu ache que aquilo tudo foi armação daquela própria ruiva ridícula pra acabar com a minha vida. E olha, dessa vez, ela conseguiu. Eu nem consigo lembrar quando foi que tudo começou a desmoronar, só sei que, de um dia para o outro, é como se eu fosse outra pessoa.
Mas é domingo, ótimo. Dá pra eu ficar o dia inteiro trancada no meu quarto fingindo que morri sem encarar nada. Mas e amanhã? Ter que encarar aqueles abutres me devorando viva com aqueles olhos, ver todos dando as costas pra mim... Ah, a vontade de sumir é tentadora.
Enquanto eu fazia minha higiene matinal, percebi um erro no meu julgamento. Não, nem todos tinham virado as costas para mim. Havia uma pessoa que tinha me apoiado. Sasuke. Deus, como não pensei nisso antes? O que eu deveria fazer?
Definitivamente, não iria sair do meu quarto hoje. O que é? Não posso fazer nada. Me processe.
E não era só isso. Droga, não era só isso. Eu havia contado tudo para ele, tudo.
"Fique atenta a tudo o que eles dizem, estabeleça uma boa relação com eles e nunca fale muito sobre você mesma."
E o que eu havia feito? Justamente o contrário!
Eu não tinha a mínima ideia de como encarar Sasuke. Eu só iria evitar o máximo de contato possível com ele e fingir que não lembrava de nada. É, isso soa realmente bom.
Só preciso ganhar coragem pra fazer isso.
Ok, o plano de fingir de morta trancafiada no quarto fracassou assim que a minha barriga roncou. Não era para menos, desde a tarde do dia anterior que eu não comia nada. Além do mais, eu iria sentir sede também. E mais fome no decorrer do dia. Não dava para ficar isolada ali. Também, numa hora dessas, Sasuke não deveria estar acordado, certo? Ninguém acorda cedo depois de uma noite como a de ontem, só, claro, Sakura Haruno.
Assim que tirei a minha deliciosa torta de dentro da geladeira, tive a certeza de que eu estava errada. Claro que eu estava errada. Quando, mesmo em sonhos, a Lei de Murphy me deixaria acertar?
Ouvi aqueles passos vindo para a cozinha, cada vez mais perto de mim. Pela peso deles, não poderia ser a minha mãe, e pela agilidade deles, não poderia ser Fugaku. Merda, Sasuke, o que diabos você está fazendo acordado às oito da manhã?
Eu congelei. Não tinha coragem de olhar para ele, então apenas fiquei ali, de costas, comendo minha torta como se nada estivesse acontecendo. Só que eu não poderia esperar realmente que ele fizesse o que eu implorava mentalmente e desse meia volta dali. Entretanto, o que ele fez me causou uma dolorosa surpresa.
Sasuke chegava cada vez mais perto de mim, eu podia sentir isso. As mãos dele percorram a minha cintura, me abraçando por trás. Eu não queria ter nenhuma reação, mas ele pôde sentir o meu sobressalto.
– Bom dia — ele falou no meu ouvido, com aquela voz baixa e rouca, tão... Sasuke.
Se aquilo continuasse daquele jeito, não ia prestar. Tomei um impulso e me afastei dele, ficando frente a frente.
– O-o que é isso?
– Isso o que? Só estou cumprindo a parte em que o homem dá bom dia para a mulher.
E agora era a minha parte. A parte em que eu perguntava se ele estava louco e dizia que não lembrava de nada. Mas onde estava a minha coordenação motora para que eu pudesse formular isso?
– O que foi? Por que você está agindo desse jeito?
Eu não te devo explicações, Uchiha! Mentira, devo sim, mas não sei como fazer isso.
– D-desse jeito como? Como você queria que eu agisse?
– Não sei? Talvez eu quisesse que você não agisse feito uma maluca, como se tivesse alguma coisa errada?
Ele exprimia todo aquele sarcasmo que bem sabia usar.
– Porque é claro que tem alguma coisa errada!
– Ah, é? O que, por exemplo?
– Eu trai meu namorado dormindo com o meu irmão!! Leve isso pra um juiz, aposto que nenhum deles diria que não há problema nisso!
– Isso é ridículo. Sakura, nós somos tudo, menos irmãos, e, pelo que eu saiba, você foi dispensada por aquele cara na frente de todo mundo.
Ok. Ponto pra você, demônio. Me lembrou de tudo o que eu queria esquecer.
– Isso por enquanto.
– O que você que dizer com isso? — Sasuke estava com raiva agora. Eu podia até enxergar a raiva saindo dele — O que você pretende, Sakura?
E agora ele achava que podia me colocar contra a parede?
Como se eu soubesse o que eu pretendo. Boa piada, Sasuke.
– Eu é que te pergunto. O que você pretende com isso tudo? Quais são seus planos agora? Ah, não me diga, agora você vai querer que eu vire uma espécie de namoradinha trouxa sua?! Me poupe!
– Não só isso — ele disse, calmamente. Agora tinha seus olhos fechados, em sinal de relaxamento e aquele sorriso despreocupado no rosto — O que eu pretendo é simples. A gente termina esse High School idiota e vai pra uma bela universidade um pouco distante desses malucos dos nossos pais e vivemos felizes para sempre. Ótimo, não é?
Foi naquela hora que a ficha caiu. Eu tinha sido levada àquela armadilha feito uma patinha. O que era que aquele palhaço estava dizendo? Aquilo não era ele, não soava como Sasuke Uchiha. Então ele queria me levar pra um lugar qualquer, casar comigo e no meio da faculdade eu iria descobrir que estava grávida e então iria passar o resto da vida cuidando de moleques e cozinhando pra ele enquanto ele comandava um dos maiores conglomerados do mundo? Enquanto ele comandava o MEU conglomerado?
Hitomi tinha razão em dizer que eu era estúpida. Eu realmente tinha caído na conversa mole dele que nem uma menininha ingênua e imatura. Mas a profecia dela ainda não tinha se realizado por completo. Eu ainda não estava apaixonada por Sasuke. Eu ainda podia fugir, ainda podia correr pra longe daquele futuro que não servia pra mim.
E foi isso o que eu fiz.
Claro.
Eu olhava estática para Sasuke. Acho que fiz alguma coisa como balançar a cabeça negativamente de um jeito exagerado, e lógico, sair correndo dali logo em seguida. Ele ficou parado, pelo que pude ver com a minha visão periférica. Eu não olhei para trás, especialmente para que ele não pudesse perceber que eu estava chorando. Eu nem sequer sabia por que estava chorando. Acho que eu preciso mesmo de ajuda profissional.
Sai naquela rua desesperadamente à procura de um táxi. Mas não seria fácil, por ali, os táxis não eram frequentes, pois ninguém naquela área precisava deles, todos tinham seus próprios carros. Ah, é, por que eu não tenho carro? Nem eu sei. Acho que tem algo a ver com eu querer me pupar do estresse que é o trânsito, mas nessas horas eu vejo que essa ideia tem que mudar. Conversarei com Hitomi assim que conseguir vê-la novamente.
Depois de já cansada de tanto andar, ou melhor, correr, eu encontrei um táxi. Mas quando entrei, me dei conta de um pequeno detalhe: pra onde eu estava indo?
Obviamente, eu não poderia ir para a casa do Naruto, pra onde eu sempre ia nessas ocasiões. Não fazia ideia no que minhas "amigas" estavam pensando de mim, e, pra ser sincera, também não queria vê-las. Vaguear por qualquer lugar era com certeza a melhor opção para mim.
– Riverside Park, por favor.
Sim, eu pertenço à gama de pessoas clichês. Toda aquelas árvores, flores e arbustos do Upper West Side eram o que tinham mais chances de me fazer bem. Eu acho que poderia ficar ali, observando o fluxo do rio Hudson o resto do dia. Afinal, eu ainda não havia decidido quando seria a melhor hora para ir para casa. Arranjar um lugar para ficar estava se tornando realmente um problema.
De uma coisa eu sabia: não iria para a escola no dia seguinte. Paciência para aguentar aquilo tudo era algo que eu não tinha reunido ainda.
Comprei um almoço por ali mesmo — se é que aquilo poderia ser chamado de almoço — e voltei para o mesmo lugar, ouvindo as conversas de todos que vinham observar o rio perto de mim. Todos iam e voltavam, só eu permanecia ali. Logo iria chamar atenção. Realmente, tinha que pensar logo em um lugar para ir.
Senti meu celular vibrar no bolso. Quem seria agora?
Shikamaru. Shikamaru?
Eu juro, se fosse aquela loira falsa da Temari, eu juro que atiraria o celular no Hudson no mesmo instante.
– Alô? — Sakura! Até que enfim! Estávamos preocupados com você! Eu te procurei ontem a noite inteira, mas não te achei. E depois, a Ino te liga milhões de vezes e você não atend- SUA TESTUDA!!! POR QUE SUMIU DESSE JEITO?? ACHEI QUE TIVESSE MORRIDO!
Ah, Ino não muda mesmo. Ainda consegui ouvir um "ei, não toma o celular dos outros assim!" do Shikamaru ao fundo.
Mas espera ai. Eu não tinha visto nenhuma ligação da Ino. Oh, sim, elas estavam lá. O que eu estava fazendo que não vi isso? Claro, estava vendo o interessante movimento das águas.
– Olha só, eu, a Hinata, o Shikamaru e o Chouji estamos naquele Café de sempre. Você pode vir pra cá?
– Sim, claro, estou indo. Só uma coisa: vocês não estavam, tipo, me achando a pior pessoa do mundo?
– Não! Olha, desculpa por ontem, está bem? É só que... Eu fiquei surpresa. Não acho que tenha sido você, mas se foi também, não importa. Aliás, eu iria achar muito legal se você tivesse dado aquela lição na vakarin!! Foi tão engraçado!
Pude ouvir a gargalhada estridente de Ino, e não me segurei também.
– É, bem que eu deveria ter feito isso. Mas, não foi dessa vez. Não fui eu. Eu sei que pareceu suspeito, mas eu só fui atrás da vendedora pra ver se ela conhecia alguma outra loja que vendesse aquele vestido. Eu queria ir com o mesmo vestido da Karin, pra ver a cara dela. Só que ela negou, e eu depois fiquei com vergonha de falar pra vocês.
– Ah, Sakura, tudo bem. Não vamos ficar de mal por isso.
– E cadê a Tenten?
– Hm.. Ela... Não pode vir.
– Ok. Agora fala a verdade.
– Mas não fica com raiva, 'tá? A Temari não quis vir e ficou bricando comigo e com o Shikamaru porque nós viemos. A Tenten ficou com ela. É o último dia da Temari aqui, entenda.
– Bem, não vamos discutir isso por telefone, não é? Eu estou indo agora.
Desliguei e coloquei o celular novamente no bolso. Olhei para o rio mais uma vez, aproveitando aquele raro e confortável vento que batia no meu rosto.
Comecei a ouvir passos se diringindo até mim. Passos nem lentos, nem apressados, passos de saltos médios, passos firmes. Não era qualquer tipo de passos. Eu os conhecia.
– Mamãe — falei, ainda sem me virar para olhá-la
– Este rio deve ser realmente interessante para manter sua atenção o dia inteiro — ela segurava a grade, olhando o fluxo do Hudson, que corria logo abaixo, com seu sorriso habitual. Não, não realmente o habitual. Aquele que parecia mais sincero, mesmo que eu não soubesse se era.
– Como sabia que eu estava aqui?
– Eu sou sua mãe. Que tipo de mãe não saberia os lugares que a filha gosta de ir?
– O seu tipo — olhei para ela, rindo. Ela também riu.
– Eu soube o que aconteceu.
Soube o que aconteceu? O que ela queria dizer com isso? Sasuke não poderia ter contado a ela, poderia?
– Mas está bem, eu não achava que um talento como o Uzumaki ficasse com uma menina tão imatura quanto você por muito tempo. Acho que ele ainda aguentou bastante.
Beleza. Palavras reconfortantes. Às vezes eu tinha dúvidas se o Uzumaki que a minha mãe falava e o Uzumaki ex-namorado meu eram a mesma pessoa.
– Se você veio até aqui pra me criticar, é melhor ir embora. Não estou com paciência.
– Não, eu não vim para isso. Vim pra te levar de volta para casa.
– Eu não vou voltar.
Hitomi ficou calada por um momento, encarando o vento fresco que vinha ao nosso encontro.
– Você se envolveu com o Sasuke, não foi?
– E-ele te disse, não foi? Desgraçado!
– Ele não precisou me dizer nada. Vocês não sabem disfarçar, entende? Primeiro você sai de casa e não quer voltar. E então, quando eu pergunto sobre você para ele, ele vira uma fera — Hitomi soltou um sopro — Ah, e agora, conhecendo a minha filha, ela está num dilema interno sobre seus sentimentos. E depois de tudo o que eu disse... Eu te aconselhei a não se aproximar dele, não foi?
– Foi só um deslize, nada demais. Não vai mais acontecer, eu prometo! Não precisa ficar preoc-
– Sakura, você está enganada se acha que eu vou ficar vigiando cada passo que você dá. Faça o que você quiser, só não estrague tudo, está bem? Você diz que ama tanto a Teruya... Lembre-se de colocar seu amor por ela em primeiro lugar, acima de tudo, acima de qualquer coisa ou pessoa.
Eu assenti. Era mesmo isso que eu estava pensando em fazer — e iria.
– Quanto tempo pretende ficar aqui?
– Não sei. Não vou voltar para casa hoje e não vou para a escola amanhã também.
– Ah, não vai?
– Todo mundo viu o desastre. Não estou afim de ver aqueles idiotas me olhando como se eu fosse uma bruxa.
– E daí? Ser a bruxa da história às vezes é bom, não acha? Sempre vão haver pessoas te julgando, Sakura. Sempre vão jogar carapuças em você. Cabe a você decidir qual delas vai pegar.
Olhei para ela. Hitomi sorria para mim. Eu não me lembrava de outro momento como esse com a minha mãe. Sorri de volta. Ela tinha razão, não podia me esconder sempre que me acusassem de algo. Pelo contrário, tinha que aprender a tirar proveito disso.
– Eu estou voltando, você quer uma carona? — ela disse, já saindo de perto de mim
– Ah, sim! — eu acompanhei — Sim, mãe, eu estou precisando de um carro.
– Ok, ok. Só não me venha com italianos, odeio italianos.
– Como quiser — eu disse, rindo.
Notas finais
Não fiquem com raiva da Tema, tudo vai se resolver no próximo capítulo!
Até logo!
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