Dormindo Com Fantasmas - Naruto

41 I'm out of love, but I can't forget the past


Notas iniciais
Mais um capítulo!
Oh, vocês podem ficar confusos nessa conversa com a Hitomi, onde fala de "plano", mas logo no final do capítulo, vão entender, haha. Ennnfim, espero que gostem :3

- Seu aniversário não está tão longe. Não quer fazer nada? — Seiji perguntava, enquanto dava carona para a irmã mais nova. Atrás, Louis olhava através da janela, sem vontade.

- Eu nunca fui de comemorar aniversários — deu de ombros — ainda mais agora.- Ainda mais agora o que?

Sakura girou os olhos, deixando uma respiração mais pesada escapar — Ainda mais agora, que eu não tenho tempo pra isso e que já sou bem grandinha pra essas coisas, não é?

O irmão soltou uma risada.

- Por falar em tempo, não acha que está trabalhando demais? Você é sempre uma das primeiras a chegar e uma das últimas a sair.

- É só por enquanto — ela se ajeitou no banco — quando eu conseguir o que quero, vou poder relaxar mais. Ah... A propósito, eu preciso falar com Hitomi. Seria muito incômodo pra você me levar lá?

- Claro que não — esboçou um sorriso torto.

Em pouco tempo, entraram na rua larga constituída inteiramente por mansões como aquela, parando em frente a qual Hamasaki morava.

Sakura percebeu que o irmão apenas desligou o carro, sem fazer qualquer menção de descer.

- Não quer vir? — perguntou.

- A surpresa da minha chegada já passou — deu de ombros.

- Acho que ainda seria divertido ver a reação dela, hum?

Ele olhou para trás, atraído por um barulho suspeito, constatando que o menino já tinha se livrado do cinto e havia descido do carro, sem pestanejar. Soprou.

- Fazer o que, não é? Tanto faz. Vamos.

Enquanto passava pelo jardim, Sakura viu as horas no relógio de pulso. Dez e meia. Talvez devesse mesmo começar a diminuir o tempo de trabalho. Estava exausta, e quando chegasse em casa, ainda teria uma visita.

A porta não demorou a ser aberta, e uma governanta diferente avisou que Hitomi estava em seu quarto, aguardando Sakura. Subiu as longas escadas, sem concentração disponível para notar o quão significativas elas eram. Sua cabeça estava muito ocupada montando várias vezes o diálogo que supostamente teria com a mãe.

Hitomi demonstrou certa surpresa ao ver o filho ali. Ele era diferente do que parecia nas fotos. Os traços semelhantes dos rostos dela e dele eram inegáveis, embora o maxilar mais largo e a tez mais firme de Sebastien estivessem presentes. E ainda havia a presença de seu neto. Era um menino lindo. Os cabelos pretos extremamente lisos caiam desarrumados sobre a testa, os olhos azuis vívidos iluminavam seu rosto. Pareceria um príncipe, encantador, se não fosse pela expressão tão séria, incomum para sua idade. Moveu sua cadeira para mais perto do filho, tencionando cumprimentá-lo, mas este apenas sentou-se rapidamente numa poltrona do espaçoso quarto e fez um aceno com a cabeça, seu sorriso torto à mostra. Ela não se abalou, insistindo em dizer um "bem vindo, com está?". Por um comando discreto de Sakura, Louis foi até Hitomi, e lhe deu a mão, pouco à vontade. Separou-se rapidamente e sentou-se perto do pai.

Hamasaki olhou para a filha, perguntando em silêncio se poderiam tratar de seus assuntos na presença dos outros dois. A resposta de Sakura foi apenas começar o relato.

- Tudo ocorreu bem na reunião, assim como o planejado. A Petterson não quis renegociar, como esperávamos — Hitomi revirou os olhos — e tudo já está organizado para a sequência do plano. Agora é só questão de tempo.

- Quando acha que sairá o resultado?

- Daqui há uma semana, provavelmente.

Hitomi sorriu satisfatoriamente.

- Sabe, Sakura, estou impressionada com sua atitude. Você se adiantou, teve essa ideia antes de mim. E é justamente o que eu faria.

- Mais alguma coisa? — a Haruno perguntou, sem reações para o comentário de Hitomi.

- Hum, por que não escolheu os profissionais que eu te recomendei? Eles já trabalharam pra mim, seriam mais confiáveis.

- Exatamente, eles já trabalharam pra você. Não quero que liguem minhas ações com as suas. Seria suspeito.

- Certo — a mais velha sorriu novamente — Só tome cuidado.

- Entendi — ela disse — Eu já vou indo, então. Boa noite.

Os três se levantaram, mas antes que pudessem alcançar a porta, Hitomi falou.- Seiji, se importa em ficar mais um pouco?

O moreno virou-se para ela. Demorou a responder. Sakura o fitou de cima, mas ele não a olhou.

- Tudo bem — disse, por fim.

- Eu vou levar Louis pra minha casa — Sakura avisou.

- Certo. Eu pego ele lá quando voltar.

Ela assentiu.

- Não demore muito, não quero dormir na casa da tia Sakura de novo — Louis avisou mal humorado, antes de sair acompanhado de Sakura.

...

O mesmo sofá branco, a escada, o mesmo balcão da cozinha perto da sala, o tapete marrom... Aquele apartamento estava extamente igual a como era antes da mudança para a casa dos Uchiha. O irmão fizera questão de morar em outro apartamento, mas ela conseguira fazê-lo ficar pelo menos no mesmo prédio.

- Vou ver a TV lá de cima — o menino disse, já subindo as escadas sem pedir permissão.

- Pestinha — ela resmungou, balançando a cabeça. Mas antes que pudesse tentar repreendê-lo, a campainha ressoou. Naruto havia chegado antes do esperado, mas era melhor assim. Estava realmente exausta, queria dormir o quanto antes. Foi até a porta e abriu, encontrando aquele loiro sorridente de sempre.

- Desculpa por só ter tido tempo agora, Sakura, sei que é muito tarde. É que um certo alguém resolveu me encher de trabalho justo hoje.

Ela riu com a reclamação do loiro, e fez sinal pra que ele entrasse.

- Sente-se — disse — quer dizer que está tendo muito trabalho?

- Pois é... O ritmo da Teruya é uma coisa pesada, sabe? Além disso, eu tenho meus casos especiais por fora.

- Ah, o bem-feitor que faz serviço de graça.

Ele riu, meio constrangido — Não coloque as coisas nesse termo, Sakura.

- Tudo bem — ela sorriu.

O silêncio se formou por breves dois minutos. A Haruno decidiu continuar, trazendo à tona o primeiro assunto do qual lembrou.

- Sabe de uma coisa? Estou sentindo falta do Sai e do Neji, onde eles estão?

- Ah... O Sai foi chamado pra trabalhar no Japão, e o Neji, que eu saiba, está resolvendo uns assuntos pessoais em Seattle — Naruto pigarreou. Olhou para Sakura, depois para a pasta que trazia. Melhorou sua posição no sofá, virando-se mais de frente para a outra — Mas você não me chamou aqui à meia-noite pra falar deles, chamou? Aconteceu alguma coisa?

Sakura o fitou, ouvindo seu inocente tom preocupado.

- Não — forçou um sorriso. Apesar de ter ensaiado várias vezes, não conseguia começar. Resfolegou. Aquilo tinha, e ia, sair de qualquer jeito — Você tem que trazer a Hinata de volta, Naruto.

O loiro a encarou, primeiramente, supreso, passando por confuso, e depois, Sakura pôde observar irritação e frustração juntas.

- O que você quer dizer com isso? — ele perguntou, apenas para ganhar tempo.

- Você sabe. Conversar com a Hinata, fazer ela desistir desse casamento! Ela te ama, Naruto, eu sei que você também.

Ele franziu o cenho, baixando a cabeça para não encarar a Haruno.

- Eu não posso, Sakura — a voz dele era baixa, quase um sussuro — Ela está feliz agora. E eu não tenho o direito de destruir essa felicidade, ainda mais depois de tudo o que eu disse.

Sakura travou os dentes com força, sentindo toda a calma se esvair. Pegou Naruto pela gola da camiseta branca e o puxou, supreendendo-o.

- Ela não está feliz, seu idiota! Ela não sente nada pelo Itachi!

- Claro que sente! — Naruto acompanhou o tom de Sakura, quase gritando — Ela vai se casar com ele! A Hinata não é do tipo que se casaria por qualquer coisa, sem gostar da pessoa! Você deveria saber disso! Desse jeito, está até ofendendo ela!

Sakura afroxou a força na gola da camiseta de Naruto, até soltá-la. Retomou seu lugar no sofá, fitando o teto. Sim, ela estava exagerando. Estava obcecada naquilo, em tirar Hinata de Itachi, em devolvê-la para Naruto, e ainda não entendia o porquê. Embora não quisesse admitir, sabia que aquilo não era apenas solidariedade. Ela estava se agarrando desesperadamente à ideia de que Hinata não sentia absolutamente nada pelo Uchiha mais velho, que tudo era um erro. Mas não era bem assim. Em um ponto, Naruto tinha razão. Se Hinata iria se casar com Itachi, ela com certeza tinha sentimentos suficientes para isso.

- Não importa — ela disse, por fim, voltando a encará-lo com determinação — Eu não sei o que diabos há com a Hinata e o Itachi, mas é completamente inegável que ela te ama.

Naruto voltou seu olhar para ela, formando uma ruga entre as sobrancelhas, balançando a cabeça em negação.

- Por que está tão empenhada nisso? Será que você não pode parar de ser um pouco egoísta e respeitar a felicidade dos outros? Pra mim, aceitar isso está sendo mais difícil que qualquer coisa, garanto que muito mais difícil do que seria pra você, se você tentasse! Por que tudo sempre tem que ser do seu jeito? — ele parou, vendo a expressão estática da pessoa à sua frente. Murmurou um pedido de desculpas, baixo demais pra ser ouvido.

Sakura respirou com mais força. A pouca tranquilidade que ela havia adquirido esgotou-se por inteiro. Levantou do sofá rapidamente, apontando para o Uzumaki.

- Seu imbecil! Eu fui falar com a Hinata, sabia? E sabe o que ela fez quando eu falei de você? Chorou! Ela chorou! — Naruto olhou para ela espantado — E daí se ela está feliz com Itachi? Estaria muito mais feliz com você! E desde onde eu sei, você não é um covarde que desiste por qualquer coisa! Qual é, Naruto, você nunca foi disso!

Ele demorou a tirar os olhos surpresos de Sakura. Jogou-se no sofá, colocando a cabeça para trás, e esfregando os olhos com força, enquanto soltava um sopro cansado. Levantou-se num pulo, balançando a cabeça exageradamente para os lados.

- O que foi? — a Haruno perguntou, vendo que ele ia para a direção da saída sem dizer mais nada — Promete que vai falar com ela?

Ele virou apenas a cabeça, já exibindo seu sorriso outra vez.

- Prometo que vou pensar.

Resolveu se dar por vencida, pelo menos até ali. Já havia conseguido alguma coisa, dali para a frente, era só monitorar o modo como ele iria agir. Não se incomodou em subir, iria esperar pelo irmão ali mesmo, por uma meia hora. Decidiu que, caso ele não chegasse, iria dormir e deixar para devolver o sobrinho no dia seguinte. Mas não se passaram nem vinte minutos e o moreno surgiu na porta.

- O que ela queria com você? — perguntou assim que ele chegou. Não conseguia imaginar o tipo de conversar que havia existido entre os dois.

- Nada demais — ele falava enquanto atravessava a sala, subindo as escadas sem delongas — Só perguntou trivialidades da minha vida, mas eu sei que ela apenas quer saber se minha presença aqui pode ser algum tipo de ameaça pra ela — sorriu — aquela velha não muda nunca.

Ele desapareceu pelo corredor do segundo andar. Sakura esperou até que ele voltasse, trazendo Louis segurando sua mão, que contava com empolgação os golpes do personagem favorito dele em um desenho qualquer que acabara de ver.

- Sabe, eu acho que você deveria reclamar o que é seu. Você tem direito. Mesmo que não tenha interesse nenhum na companhia, é muito mais fácil ser reconhecido na arte quando você pode financiar a si mesmo.

Ele fez uma careta — Tsc. Nem pensar. Eu abdiquei totalmente desse dinheiro. Não preciso de nada que venha dela.

- Eu entendo que você não queira manter relações com a Hitomi, mas use o que ela pode te oferecer a seu favor. Queira ou não, você é filho dela, interprete isso de uma forma boa. Está sendo estúpido com esse orgulho todo.

- Você quer que eu entre numa briga judicial pelo dinheiro de uma pessoa que nunca fez questão de significar alguma coisa pra mim?

- Se isso vai te beneficiar, qual o problema? Se há uma coisa que eu aprendi é que a gente tem que aprender a tirar o melhor das pessoas, aquilo que nos favoreça. Não importa de quem. Seria até uma forma de ela te ressarcir por tudo o que te fez.

Seiji olhou para a irmã, cerrando os olhos, e Sakura soube que ele havia perdido a paciência. Ele esboçou um sorriso torto, sem humor.

- Até parece que eu estou ouvindo a Hitomi falar. Sabe de uma coisa? Tome cuidado, porque se não, você vai ficar igual a ela.

As palavras a pegaram de surpresa. Ficou sem reação, apenas encarando o irmão, que balançou a cabeça negativamente. Seu olhar era reprovador. O menino olhava de um para o outro, sem entender nada, até que fosse arrastado pelo pai porta afora.

...

A semana se passou calma, sem muitos acontecimentos. Sakura mal viu Naruto, e não o procurou mais. Daria um curto prazo a ele, para que pensasse. Enquanto isso, todos os dias pela manhã, abria os jornais ansiosamente, na esperança de que ali estivesse a notícia que ela tanto queria. A quebra da Petterson. Naquela manhã de quinta-feira em especial, não havia sido diferente. Porém, nada acontecia. O clima de tensão na companhia começa a se espalhar, alguns temiam ter tomado a decisão errada.

Ela também começava a ficar nervosa, e era justamente por esse motivo que andava de um lado para o outro da sala, quando a porta foi violentamente aberta por um loiro que não conseguia conter sua animação.

- Sakura! Sakura! — ele gritava energicamente, e ao ver a expressão assustada da Haruno, se conteve, ajeitando a gravata azul. Ela não pôde evitar pensar em como era engraçado vê-lo de gravata — É... Não sei se isso é bem um motivo para que eu esteja feliz, mas dane-se! Acabamos de saber! A Petterson anunciou quebra, falência! Falência! Você estava certa! A gente ia fazer um péssimo negócio!

Sakura apertou os dedos, o sorriso crescendo em seu rosto — Sério? Sério? — Naruto fez que sim exageradamente, ainda com seu enorme sorriso. Ela o abraçou, compartilhando sua alegria. Sim, tudo tinha dado certo. Tudo. Seu primeiro passo estava concluído.

- Parabéns, Sakura. Acho que alguém vai te avisar, mas já que estou aqui... Pediram uma reunião pra amanhã. Com certeza, vem coisa boa para o seu lado!

Sakura juntou as mãos, indo até sua cadeira e colocando o cabelos para trás da orelha. Estava indo melhor do que havia pensado. Seu sorriso não poderia ser maior nem mais sincero. E não pôde evitar o pensamento de que tinha ganhado de Sasuke. Imaginou a cara dele naquele exato momento.

Ergueu os olhos para enxergar Naruto, e percebeu algo diferente nele. Algo que provavelmente ele estava em dúvida sobre sobre falar ou não, mas que interessava a ela.

- Aconteceu alguma coisa, Naruto?

Ele a olhou rápido, sorriu sem graça e passou a mão pelo cabelo, sentando-se na cadeira à frente dela.

- É que... Eu fui procurar a Hinata no trabalho dela — ele disse, meio incerto — só que disseram que ela não estava. Bem, de qualquer forma, eu decidi que vou lá outro dia, talvez hoje. Eu definivamente vou falar com ela — sorriu — E também... Obrigado, Sakura. Obrigado por ter me dito aquelas coisas, eu... Acho que estava errado. Com certeza estava — o loiro fez uma careta envergonhada, e ela sorriu.

- Tudo bem. Fico feliz que você tenha se decidido.

Naruto riu alto, estridente, mas sua possível resposta foi impedida pelo som da porta sendo aberta sem avisos, brutalmente. E, quando se virou, viu a última pessoa que esperava ver. Sasuke Uchiha. Ele não parecia muito feliz, mas o Uzumaki pôde captar qualquer dose de satisfação em sua face, que se extinguiu ao ver o loiro ali.

Naruto olhou insitintivamente para Sakura, e seu olhar ainda estava petrificado na porta.

- Eu... Eu já estava de saída — disse, olhando cauteloso para Sakura. Ela deixou-se fixar nele e em seu movimento até o fim da sala, estranhamente nervosa pelo que iria acontecer quando ele saísse. Não estava nos seus planos ficar em uma sala à sós com Sasuke novamente, e jamais numa iniciativa dele próprio. Aliás, o que ele estava fazendo ali? Sabia que ele não iria parabenizá-la, nem muito menos reclamar sobre a recente notícia da Petterson. Ele definifivamente não faria isso. O Uchiha caminhou até a cadeira em frente à mesa em que Sakura estava, sem tirar os olhos negros de cima dela. Tinha uma expressão intraduzível, ainda mais pelo cérebro da Haruno, já tomado pela ansiedade. Carregava um envelope amarelo e grande, que colocou imediatamente sobre a mesa de madeira escura.

- O que está fazendo aqui? — ela perguntou séria, recuperando sua estabilidade.

Sasuke colou os lábios, esticando-os num sorriso prazeroso. Pôs a mão esquerda apoiando o queixo, e repousou o cotovelo na mesa, aumentando a proximidade entre os dois. Sakura recuou minimamente as costas, automaticamente, o que pareceu divertir o Uchiha.

- Parabéns, Sakura — ele disse, sem mudar sua posição.

Ela ficou paralizada. Por que ele estava sorrindo? Havia acabado de perder uma aposta silenciosa e estava sorrindo? Estava parabenizando-a?

Acalmou-se. Olhou para ele com todo o dessinteresse que conseguia fingir.

- Só fiz meu trabalho.Sasuke deixou uma risada baixa escapar por entre os dentes.

- Estou vendo. Você faz seu trabalho direitinho.

- Veio aqui só pra me dar parabéns? — ela perguntou, duvidosa.

- Sabe, Sakura, acho que todo mundo iria adorar saber, na reunião de amanhã, a bela trapaceira que você é.

Esboçou um sorriso debochado, ignorando o impacto que aquela frase causou — Do que está falando? Não tenho tempo pra ouvir insinuações descabidas.

Sasuke tirou a mão do apoio do queixo, abrindo prontamente o envelope e retirando duas folhas brancas de lá — Veja só o que acabou de chegar na minha sala, por engano, junto com as minhas correspondências.

Deu de ombros — O que é isto?

Ele passou as folhas para Sakura. Ela pegou-as sem interesse, mas não pôde acreditar no que viu.

- Conhecendo as pessoas certas, fica até fácil manipular ações na bolsa, não é? — ele falou — E é desastroso, pra uma empresa de capital aberto, como a Petterson.

Não, não era possível. Ela havia dado ordens especiais para que não enviassem aquele relatório para a empresa, e sim para seu endereço residencial, justamente para que não houvesse a possibilidade de qualquer erro. E então, isso acontece. Justo Sasuke.

Sakura não podia perder aquela primeira aposta de jeito nenhum. Todo seu esforço, os últimos seis anos, não, sua vida inteira estava dependendo daquele resultado. Não que ela não confiasse em sua decisão. Acreditava veemente no escorrego da Petterson. Mas não era uma questão para dúvidas. Ela precisava ter certeza. Cem por cento. Por isso, orquestrou o plano todo. Antes mesmo de chegar a Nova Iorque, já tinha tomado conhecimento da possível fusão e da situação da Petterson, e começara a planejar tudo. E logo agora, com a última fase do projeto executada, há uma falha...

Em suas mãos, ela segurava o relatório especificando cada passo, cada balancete, cada ação, que ela havia forjado. Mas mesmo assim...

- Você não pode provar nada com isto — ela disse — Eu não faço ideia de por que isso está endereçado para mim, mas dizer que eu manipulei alguma coisa?

- Você teve até sorte de isso ter parado nas minhas mãos — ele se limitou a dizer — já imaginou como seria se Kakashi, por exemplo, visse isso? É só juntar as peças. Você precisa se firmar aqui dentro. Você apostou na queda da Petterson. A Petterson anuncia quebra de um dia para o outro. Esses esquemas endereçados a você, com um remetente suspeito. Você não teria por que querer saber tantos detalhes da organização interna da Petterson, que estão ai. E nem teria como saber, de forma limpa, é claro. São informações naturalmente sigilosas. Só isso já te incrimina. Qualquer idiota conseguiria juntar essas peças. E não existem idiotas por aqui.

Sakura não movia um dedo. Ele havia descoberto tudo. E ela estava encurralada. Sentiu seu corpo gelar, a garganta travar. Já não tinha nenhum controle. Sasuke respirou mais pesado, passando a mão na testa. O sorriso havia desaparecido, e ele estava sério.

- Você criou uma empresa fantasma, e com isso, manipulou as ações da Petterson, e se aproveitando da atual fragilidade da empresa, ajudou sua falência. O que você fez é ilegal, sabia?

Sentiu seus olhos queimarem. Sua voz saiu diferente, parcialmente bloqueada pelos dentes cerrados.

- E vai fazer o que? Me entregar para a polícia?

Amaldiçou-se por suas próprias palavras. Havia acabado de confessar, sem dúvidas, mesmo que soubesse que não existiam provas suficientes para que fosse presa. Estava perdendo a cabeça, precisava se acalmar. Mas era impossível, com olhar dele cravado nela.

- Eu não faria isso — ele disse, levantando-se e fechando os olhos brevemente. Sakura observou o movimento completo, e aquelas palavras automaticamente pareceram ter outro significado. Sentiu alguma coisa vibrar dentro de si, mas tudo se silenciou na próxima frase — Se quiser ganhar de mim, Sakura, vai ter que jogar limpo. Sem trapaças.

Ela olhou para o Uchiha, já de costas, e sentiu uma raiva descomunal lhe atingir, revirando-lhe o estômago, fazendo um giro em seu peito e subindo até a garganta. Levantou-se bruscamente e socou a mesa com as duas mãos. O som do impacto, somando ao estojo de metal que caiu, prendeu a atenção de Sasuke, e ele instintivamente se virou, para enxergar um rosto que se contorcia em fúria.

- E quem diabos é você pra falar em trapaças? Quem é você pra me acusar de jogar sujo? Logo você? — ela gritava com tudo o que tinha, sua voz saiu falha e trêmula, seus ombros subiam e desciam, com a respiração descompassada, os lábios tremiam. Sasuke a encarava, a boca levemente aberta e uma expressão surpresa e estática, incapaz de qualquer reação.

Quando finalmente se deu conta do que tinha falado, Sakura desabou na cadeira, baixando a cabeça e apoiando a testa nas mãos que apertavam o cabelo, em desespero. Tinha perdido o controle, qualquer controle. Jamais poderia ter dito aquilo, jamais poderia ter expressado uma raiva que nem ela sabia que tinha. A frustração e a vergonha a impediram de levantar a cabeça, e ela permaneceu daquele mesmo modo pelos longos minutos. Minutos esses, em que sabia que Sasuke continuava ali, parado no meio de sua sala, sem se mexer um centímetro, sem falar nada. A vontade que tinha era de sair correndo dali, mas não aguentaria passar por ele. A ideia ia e vinha a todo o instante, e a insistente presença de Sasuke começa a se tornar aterrorizante. Quando as primeiras lágrimas, tornadas invisíveis a qualquer um por causa do cabelo, começaram a cair, finalmente ouviu o som libertador da porta batendo, e se sentiu livre pra desabar sobre a mesa.