Dormente - Livros dos Filhos da Loucura
2 Capítulo I - Oculto
Notas iniciais
Há, também, a capacidade dos Nobres de se valer da Ordem com mais eficiência. O grau da linhagem determina o alcance do comando, influenciando mais Altos a cada proximidade com o Rei. Especula-se que uma Ordem vinda de um Príncipe pode alterar por completo a Sociedade Alta.
(Fragmento extraído de documentos da Biblioteca Noturna — 'A Divergência entre Nobres e Ordinários: A Evolução do Sangue'; cap. 12, pg. 167)
Com a chuva caindo preguiçosamente do lado de fora, não era uma surpresa a quantidade de clientes que se amontoavam entre as prateleiras da pequena livraria. Alguns deles tentavam disfarçar e passavam a mão pelos livros, fingindo interesse. Outros mal se importavam, apenas conversando entre si sem muita preocupação. Os verdadeiros compradores eram poucos, incomodados com o barulho excessivo e pouco usual.
— Caramba. Tem umas quinze pessoas aqui dentro e não vendemos um livro há quase uma hora. – comentou uma das vendedoras que se apoiava no balcão. Ela mascava um chiclete de boca aberta, mas ostentava uma bela aparência com sua pele de cobre.— Minha comissão seria maior se eu estivesse vendendo guarda-chuvas.— Franzindo o cenho em uma careta, ela encarou a caixa por alguns segundos esperando uma resposta. A outra, porém, continuou apenas fazendo contas num pedaço de papel. — Você poderia ao menos fingir que está me ouvindo.
— Eu estou, Ana. Só achei que estivesse conversando consigo mesma, como sempre. — A caixa sequer levantou os olhos para respondê-la. Ela parecia concentrada fazendo as contas, mas a verdade era que as fazia de modo automático. Estava, de fato, extremamente entediada. — E se quer aumentar sua comissão, por quê não vai atender os clientes como deveria? — A jovem finalmente levantou os olhos para a vendedora, encarando-a por trás dos óculos de acetato.
Ana estreitou os olhos e fez um bico, bufando. A atitude seca da caixa não era incomum, mas todas as vezes a morena gostava de demonstrar como aquilo a magoava. — Cat-Coração-de-Pedra. Você é uma péssima amiga, sabia? E eu já fui atender os clientes. Mas eles "só estão dando uma olhadinha".
Cat não respondeu dessa vez, apenas voltando sua atenção para os próprios pensamentos. A caneta em sua mão rabiscava o papel com velocidade, escrevendo os números tão rápido que eram quase incompreensíveis. Não que a letra dela fosse muito legível, mas aqueles garranchos estavam ainda piores. Por trás da aparência calma da mulher, notava-se que ela estava tensa. Cinco horas e vinte e sete minutos. Seu horário de trabalho estava quase no fim, e seus pés batucavam no chão embaixo do balcão.
— Bem, terminei aqui. - anunciou por fim, dobrando o papel com cuidado e colocando entre o teclado e o tampo de granito. — Estamos com pouco troco disponível e a Sra. Artez não está mais autorizando parcelamento em 0+5. Agora só com entrada, ok? E a máquina do cartão está quase sem bateria, coloque para carregar. Ah. A chefe te segue no Twitter. Então pare de de fazer postagens em horário de trabalho ou vai ser demitida. - A jovem de óculos disparou mais um olhar por entre as prateleiras lotadas, arqueando uma sobrancelha. — Boa sorte, então.
Durante o discurso, Ana abriu a boca para falar e fechou diversas vezes. A fala monotônica de Cat sobre as instruções para o trabalho mal foram ouvidas, já que tudo que conseguia pensar era que ela estaria sozinha durante um tempo. — Woah, woah! Cat, Cat, Cat! Calma aí! A Joana ainda não chegou pra te substituir! Poxa, você sabe que eu odeio ficar no caixa... Faz uma horinha extra, por favor? Só até a Jo chegar?
Mas ela já estava tirando o avental marrom da cintura e jogando embaixo do balcão, enquanto puxava a bolsa de lona com seus pertences. — Você sabe que eu não faço hora extra. E por favor: essas pessoas só estão aqui para fugir da chuva. Ninguém vai comprar nada. Cinco e meia. Até amanhã.
Quantas vezes ela já não tinha feito aquele caminho para casa? Centenas, talvez milhares de vezes. Nenhuma delas, porém, comparava-se àquela. O exterior calmo da garota não condizia com seu interior borbulhante. A cada passo, ela controlava-se para não correr — correr direto para casa, esquecer toda a sua metódica rotina que garantiu sua sobrevivência até aquele dia. Mas ela se controlou: manteve os passos uniformes, a expressão vazia. Atentou-se ao caminho, acenou para os vizinhos e pegou a correspondência. Caminhou até a porta e virou a chave na fechadura, abrindo e fechando a porta com uma tranquilidade falsa e demorada. Uma vez dentro, ela não relaxou.
Aquela não era sua casa, certamente. Uma casca, um teatrinho inventado para ocultar a verdade. Uma farsa eficiente, que a manteve viva em sua luta por tanto tempo. Tomando seu tempo no hall de entrada, Cat inspirou profundamente, o ar parado da casa vazia invadindo suas narinas com o pesado aroma de desinfetante.
A quantidade de produtos de limpeza que ela tinha que usar para se livrar do cheiro de sangue não era pouca.
Pendurando a mochila num gancho, ela ignorou completamente a belamente decorada sala de estar, ou ainda a brilhante e convidativa cozinha. Seus passos a levaram para o segundo andar, para um corredor de portas fechadas. Todas pareciam iguais à vista, mas uma saltava-lhe aos olhos. Seu prêmio estava ali — tudo que esperou durante quatorze anos estava para começar. Do bolso puxou uma chave cromada e acertou a fechadura; era pesada e custava a girar, mas não foi um problema para abrir. Ela sabia que todas aquelas travas e fechaduras eram necessárias.
Mas não por muito tempo.
— Acorde.
O tom de voz usado diferia em demasia do utilizado em sua vida pública. Se com sua companheira de trabalho ela usava um tom seco, o atual era quase raivoso. Mas nada se comparava com o brilho em seu olhar.
Talvez fosse aquilo que as pessoas descreviam como "queimar de raiva".
— Acorde! — repetiu, finalmente adentrando a sala escura e respirando o metálico cheiro de sangue. Os dedos tatearam a parede e encontraram o interruptor, acendendo fortes focos de luz direcionado para o centro da sala. Os olhos de Cat arderam e por alguns segundos ela ficou cega, mas seus ouvidos identificaram claramente os gritos que a luz trouxe. Ela por muito tempo disse para si mesma que não sentiria prazer em sua vingança, mas o sorriso escapou do controle enquanto suas pupilas se ajustavam à exacerbada quantidade de luz. O que era então apenas um vulto se distinguiu em uma forma masculina, atada à uma cadeira de metal com correntes. E era ele que gritava.
Olhando agora, depois de um tempo de distanciamento, a jovem notava que havia exagerado. As estacas que se fincavam na pele do homem estavam fundas demais, os cortes eram em um número acima do necessário e a quantidade de unhas arrancadas seria suficiente para nausear uma pessoa resistente. Não que isso importasse, claro — assim que conseguisse a informação que precisava, iria executá-lo. Como todos os outros antes dele.
— ME MA... MA-TE... ME-MATE... MEMATE...!
As súplicas do prisioneiro não a afetaram. Ela continuou seu passo firme até o centro da sala, apertando os olhos contra a luz forte. Maldita precaução! — Logo, logo. Antes, eu preciso responda algumas perguntas. Acho que depois do meu tratamento, você estará bem solícito, hm? — A cada passo dado por ela, o homem se encolhia com terror, os gritos continuando sem pausa. "Se essa sala não fosse acusticamente isolada, eu teria um péssimo relacionamento com vizinhos" pensou enquanto se posicionava do lado dele. Analisando-o com cuidado, ficou impressionada ao notar que as queimaduras nos olhos já estavam cicatrizando. Altos de Sétima Linhagem eram incríveis, mesmo. — Shh, shhh! Cale a boca!
O comando foi obedecido de imediato. Os dentes de fecharam com um estalo, os olhos arregalados, a respiração ofegante. Em nada ele lembrava o homem que Cat enganara no dia anterior, atraindo-o de uma boate ao fingir ser uma presa fácil. Bernard Zola era seu nome — há meses a jovem vinha rastreando-o, investigando tudo que podia sobre ele. Quando conseguiu a informação de que se tratava de um vampiro de linhagem curta, quase gritou de alegria. Talvez ele pudesse falar. A captura tomou semanas de planejamento; e agora, sua recompensa.
— Muito bom. Agora, por onde começamos...? Algo bem básico e fácil, que tal? Me diga quem é você.
— Be-be... Bernard Z-Zola. Alto de... Sé-s-tima Linhagem. Tra-transf-o-rmado por... Air... Aira Mellest em 1816 e-...
— Certo. — A mulher o interrompeu, impaciente. Arrumando os óculos no nariz, continuou. — O que você pretendia fazer comigo?
O cativo hesitou. Seria aquele o motivo de estar preso? Pensando no que iria responder, distraiu-se ao ver o pescoço exposto da mulher. Com sua visão aguçada, conseguiu observar o sangue pulsando. Tão fresco, tão quente...
O suficiente para perder o pouco controle que tinha.
— SANGUESANGUESANGUESANGUE! RASGAR O PESCOÇO, ESTRAÇALHAR OS PULSOS, BEBER DIRETO DAS VÍSCERAS! SANGUESANGUE! ME DÊ SEU SANGUE!
Cat sequer piscou. Após perder tanto sangue como ele havia perdido, era esperado que entrasse em frenesi logo. Suspirando, enojada, caminhou lentamente até o outro lado da sala, acompanhada pelo som das correntes prendendo Bernard. Alcançando seu destino, ela analisou demoradamente a mesa encostada no fundo da sala assim como os objetos sobre ela. Decidiu-se por uma estaca longa — maior a distância, menor a probabilidade de ter que tirar sangue das roupas depois. Com um movimento rápido, arremessou-a.
Até aquele momento, ela duvidava que uma criatura pudesse gritar tão alto.
— Certo. Você queria me matar. — O homem voltara a ficar silencioso na cadeira, apenas ganindo quando movia-se e a nova estaca aprofundava-se na carne. — Há quantos anos você caça nessa região?
— Set... Não... Oit-Oitenta anos... M-mas nunca... Nunca! Nunca f-fiz matança-ças... So-sou civilizado...! Acre-credite em mi-mi-mim!
— Seus hábitos alimentares não me interessam. Há outra coisa que quero saber...
Cat suava. Era o momento — depois de anos em dúvida, vendada dos fatos, ela poderia avançar em seu plano. — Há quatorze anos... Quem era o Nobre que dominava essa área?
Assim que a pergunta foi feita, os olhos de Bernard mudaram. Era diferente dos outros — ele não ficara confuso com a pergunta, mas sim tentava acessar a memória. A jovem aguardou, a respiração rápida enquanto observava as sutis mudanças em seu olhar.
— Quem era?!
O vampiro a encarou com olhos assustados. Havia algo errado, ela pode perceber. Antes que pudesse reagir, o homem sufocou. Arqueando-se para trás como se enforcado por uma força invisível, seus membros se contorceram em desespero por meros segundos antes de jazerem flácidos.
Atônita, Cat encarou o cadáver por alguns instantes antes de urrar de raiva. Ela achava que dessa vez conseguiria a informação. Mas por que era tão difícil? Um vampiro de linhagem tão curta como aquele deveria ser capaz de lutar contra uma Ordem dada há tanto tempo.
Seu surto de ódio durou alguns minutos. Quando finalmente se acalmou, ajoelhada no chão, sua mente começou a trabalhar. Precisava caçar outros vampiros — mais fortes, mais perigosos.
E ela sabia onde procurar.
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