Dores Reais

3 Capítulo 2 - Feridas


Notas iniciais
Oi gente... aí vai um capítulo novo... espero que gostem!

Antes de ontem fizeram dois anos... do começo do colapso em que vivo. Apenas uma pequena história antes.

" Era um dia frio e belo. Acordei no horário de costume: seis da manhã. Me preparei para a escola. Era dia dos namorados. Havia ficado até as duas e meia da manhã preparando um cartão para o John. Seis dias antes ele havia me dado uma flor e um cartão. Fiquei indagando o que significaria, e isso me deu coragem o suficiente para preparar o tal cartão. Eu já havia dito para ele que o amava, e ele aceitou muito bem. Era um belo cartão, com glitter, adesivos e desenhos. Junto com um texto que dizia: 'Eu gosto de você e da sua amizade, eu quero mais do que a sua amizade. Você aceita?' Logo que ele chegou na escola lhe entreguei o cartão. Ele não disse nada, e eu fiquei pensativa. Nunca vou esquecer aquele dia, apesar de algumas partes dele serem borrões em minha mente. Ele no final, havia apenas me usado para conseguir uma garota ruiva de olhos verdes de nossa turma. Seu nome? Melina."

Ontem o "colapso" chegou com força total. Não aguentei e me cortei pela primeira vez. Outro hoje...

O peso permanece em meus ombros. De nada os cortes adiantaram. Será que alguém sequer se importa? Será que alguém sequer nota? Será que alguém sequer vê? Eu sei que uma pessoa se importa. A única para quem eu contei. A única que sabe. A única que talvez sinta falta se eu me for... a dor me consome, cada pedaço meu. Eu apenas quero chorar. Me desfazer em lágrimas, mas não consigo. Sinto um aperto no peito, vontade de chorar, mas nada sai. Apenas a dor, que transborda de meu olhar. As pessoas nada notam. Eu ainda "sou a mesma de sempre". Eu nunca fui muito... sociável. Os meus sorrisos, por mais falsos que sejam, sempre convencem os que estão ao meu redor... dizem que os suicidas e depressivos carregam os melhores e mais "reais" sorrisos. Eu concordo.

***

Hoje já são cinquenta e oito cortes. Em apenas quatro dias esses números se multiplicaram imensamente. Os braços ardem e queimam, mas não me abalo. Eu continuo sorrindo e exibindo a minha falsa alegria. Dizem que eu sou muito criativa e que eu penso muito. Para eles isso é uma dádiva... para mim, uma maldição. Ficar sozinha com meus pensamentos é uma jaula. Eu não consigo me desligar deles.
As lágrimas queimam por trás dos olhos. Nada sai; pisco, e as pontadas continuam. Meus olhos lacrimejam, mas eu não choro. Não consigo. É impossível. Meu interior dói. Sinto como se meu coração fosse arrancado pouco a pouco de meu corpo. Três pares de olhos felinos encaram-me, com seus olhos vítreos, fixos. Meu braço sangra e pinga. Posso não estar vendo, mas sei o que é. Um dos pares se move, em minha direção. Mia, e me observa. Se olhares falassem, esse diria: "Por favor! Pare! Isso não é certo. Por favor, você está se matando aos poucos..." Pego um pano e pressiono, fazendo com que o sangramento pare. Oito cortes de uma vez... a dor não passou. Ainda está lá, como uma pontada incômoda e dolorida. Os olhares passam a exalar pureza e entendimento. Eles são mais empáticos e atenciosos do que várias pessoas que já conheci. Eles notam, vêem, se importam. Seus olhares perfuram meu ser. A noite está fria, e já começo a ouvir pequenos cantos lá fora. O dia já amanhece. A noite se passou, e com ela, mais feridas foram feitas. Levanto-me calmamente da minha cama, imaginando sobre quando essa dor vai finalmente passar. Será somente com a morte? Com o tempo? Ou apenas com o amor? Ouço uma buzina ao longe. Apago a luz, ligo o ventilador. Me pergunto sobre como seria se ele caísse sobre mim. Haveria sangue por todas as partes? Ou apenas um ou dois ossos partidos? Deito-me novamente sobre os lençóis que já esfriaram. O frio deles me envolvem como a dor e a tristeza. O frio. Meu único companheiro... Apenas ele. Minha mãe e meu irmão já dormem fazem horas e horas... daqui a pouco eles acordam, com comentários sobre o quanto eu durmo, ou o quanto eu sou preguiçosa. Ouço passos felinos se afastando. Logo em seguida, o som de gatos comendo ração. Apenas um desses três pares permanecem ao meu lado. O frio me envolve. Me pego pensando na morte, na dor. A única felina se junta a mim, deita perto e pega no sono, me passando um pouco de seu calor. Fico sozinha novamente sozinha com meus pensamentos. Logo pego no sono. Acordo levemente algumas horas depois.

–" Ela dorme demais... foi se deitar ontem antes da gente..."

–" É verdade..."

***

Eu nunca durmo antes de ninguém. Apenas vou para o meu quarto e faço silêncio, esperando que todos durmam. As horas se passam, e calculo que já está de tarde. Umas três horas.

– Bom dia... — Estou com calor, mas não ouso tirar o casaco.

– Oi... dormiu bem Lily?

– Sim. E vocês?

– Também. O almoço e o café da manhã estão na mesa.

– Valeu. Já são quantas horas?

– Três e quinze...

– Bom, vou comer. Depois vou arrumar meu quarto...

– Pelo menos faz alguma coisa além de dormir... — Meu irmão resmungou. Ele não sabe o quanto tais palavras machucam. Dói. Mais ainda. Sinto um ímpeto de correr para o quarto, e pegar minhas amigas que estão escondidas.

– Obrigada pela importância que você dá a mim, querido irmão..

– Ei, sem briga. — Minha mãe intervêm. Ele que começa as intrigas. — E você Lily, eu concordo com seu irmão. Você deveria se esforçar mais.

Ótimo. Ela sabe o quanto eu luto diariamente para conseguir parar? A dor que eu sinto, todos os dias? Agora são duas pessoas contra mim.

– Ok. Depois de arrumar o meu quarto, eu posso ligar para o Finn? Chamar ele para sair?

– Talvez.

***

O tempo passa. Já é a noite. Saí com meu amigo. O único que sabe. Ele me pediu para ver. Seus olhos lacrimejaram.

–" Não doeu?"

–" Não. Eu só queria aliviar o peso da minha alma... sinto como se ninguém se importasse..."

–" Eu me importo. Nunca duvide disso, eu vou sempre estar aqui. Sempre, por você..."

–" Eu simplesmente não consigo aguentar. É muita coisa..." Da última vez que ele havia visto meu braço, eram apenas nove cortes. Só no braço são trinta e dois cortes.

–" O que quer que seja, vai melhorar, e essa dor vai passar..."

–" Quando? Ainda vai demorar?..." Meus olhos lacrimejam, mas nada sai. Pisco, e sai uma única e solitária lágrima. Tantos sentimentos, nessa única lágrima...uma lágrima que leva a cor do mundo junto, pingando no chão, e colorindo novamente o meu redor. Nada mais sai depois dela... ainda há uma pontada em mim. Dessa vez dói mais.

***

Um Poema de Adeus...
A dor nada mais é do que esquecimento...
A dor nada mais é do que peso...
A dor nada mais é do que cortes e sangue...
A dor nada mais é do que desespero...
A lâmina brilha,
junto de algumas gotas solitárias de sangue,
em meu pulso...
Três gotas...
Três pontos escarlates e eternizados...
Três cortes, ardendo por baixo dos casacos escuros...
Três pares de olhos felinos observando, encarando...
A dor ainda ali está...
Uma pontada, um aperto na boca do estômago...
Um adeus em um bilhete,
em um poema sobre a minha mesinha...
Um lembrete de que o passado nunca se vai...
A dor...
A morte brilha, debaixo de meus olhos...
Em uma lâmina avermelhada pelo sangue...
Apenas...
Adeus!

Notas finais
Esse é bem deprê... espero que gostem, e quero comentários, talvez recomendações....