Dor

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Fic no mesmo estilo de Suspiros.

Hoje, enclausurada em meu quarto, pego-me não só pensando, mas escrevendo sobre ela: a dor. Peço por seu sincero perdão, leitor, por importuná-lo com os devaneios de uma mulher. Embora, seja em parte tua a culpa por ler minhas palavras.

Conto-lhe de antemão que nem sempre fui fria e racional, como hoje me projeto. Pelo contrário, já fui uma criança feliz, uma adolescente rebelde, uma mulher apaixonada e até mesmo a mais sensual das meretrizes. Hoje, nessa noite de inverno, sou como o tempo: uma geleira.

Por quê?

Porque a vida me fez assim. O maldito filho de Nix me fez assim.

Antes de censurar-me leitor, ou antes mesmo de virar esta página, permita-me que me explique.

O fato resume-se na simplicidade da vida. Assim como a dor, a vida é simples em sua performance. Ou você luta por seus ideais e aceita a conseqüência dos mesmos, ou fica a mercê do Destino. Eu, particularmente, optei pela luta.

A vida difere completamente das belas imagens idealizadas pelos poetas apaixonados. Afinal, o que melhor do que o amor para adoçar a vida?

A morte.

Desculpem-me se os assustei, mas digo apenas a verdade. O amor é lindo, mas na vida, nesta vida, não existem contos de fada, nem príncipes encantados ou amores eternos. Aliás, assim como nos contos de fada só existe o amor, na vida só existe a dor; Seja por um amor perdido, por um amor vivido ou pela ânsia de um.

A dor, assim como a morte e diferentemente do mentiroso amor abre-nos os olhos. Através dela percebemos que tudo é tão fútil como a mera necessidade de respirar. Percebemos que o amor é fútil, que a esperança é fútil e que a vida, por fim, é tão fútil quanto seu objetivo inicial.

A dor é o resultado singelo e puro de todas as escolhas de nossa imperfeita raça mortal.

É verdade que sofro com isso, afinal, sou uma mera mortal, assim como tu, leitor. Todavia, escolhi trilhar um caminho diferente, não fácil, mas diferente; o caminho da verdade. Já que hei de sentir dor, prefiro ser afligida de olhos abertos e plenamente consciente de seu poder devastador.

Sou fria, pois somente assim se pode viver em um mundo frio e cruel. Onde não existe o ontem e nem o amanha; só o agora. Porque o ontem está trasbordando de dores mal cicatrizadas, e o amanhã, recheado por esperanças que com o término do dia morreram e tornar-se-ão dores passadas.

E o amor? Ah sim, não me esqueci dele. Bem, quem sou eu para dizer-lhe se existe ou não? A bem da verdade espero sinceramente, leitor, que tu possas desfrutar de suas dores. Mas essa resposta não cabe a mim lhe contar.

Alguns dizem que desisti da vida, outros, que perdi a alma ou mesmo a vontade de viver. Para mim, leitor, não perdi nada, afinal, não se pode perder aquilo que nunca se teve.

E a dor, bem... ela está aqui, e sempre estará. Consumindo-me a cada segundo que morre até o final de meus dias.

Fim

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