Dopping Oliver X Explicações

3 Capítulo 2 - Entre garras e faróis


Notas iniciais
Olá, gente. Primeiro, obrigado por ler. Segundo, obrigado àqueles que comentaram. A hsitória está terminada, mas estou revisando e ajustando. Ela é registrada, aviso. Foi registrada ano passado. Estou postando os capitulos periodicamente, um ou dois por semana. Depende de como vai o movimento. ;P Comentem, indiquem, critiquem se gostarem!

Capitulo 2 – Entre garras e faróis

Eu simplesmente não acreditava ter matado Charlie. Não lembro o que aconteceu depois que percebi o que eu havia feito. Talvez eu tivesse fugido da escola, corrido sem rumo ou simplesmente fiquei perambulado feito um saco de concreto sem vida. Só sei que no final eu me encontrei no recanto preferido. Ele ficava além da cidade; Próximo a encosta da praia de Sumerfall. Isso, eu morava em Summerfall, um lugar pacato, sempre com clima de veraneio e com incríveis paisagens naturais. De lá, no topo das rochas que contornavam a praia de águas cristalinas e esverdeadas, o oceano se estendia como um carpete repleto de luxúria, sem vergonha nenhuma de esbanjar o que lhe havia de mais valoroso e belo.

Duas árvores arqueadas projetavam uma sombra deliciosa em meu recanto, do qual eu desfrutava de toda a vista confortante que não encontrava em nenhum outro lugar. Larguei a mochila no chão de terra-batida e caminhei até a ponta do imenso penhasco rochoso. Eu era um ponto na vista de quem se banhava lá em baixo... Fechei os olhos e escutei o grito das ondas ao se lançarem sobre as pedras recobertas de crustáceos.

Senti-me envergonhado pelo que fiz. E se eu fosse mesmo um assassino? Um monstro sem honra ou pudor, que não escolhia vítimas. Mas eu fora abusado por eles... Meu ego fora ferido. E desde quando um ego valia mais que uma vida?

A polícia viria atrás de mim. Mesmo que Charlie não tivesse morrido, eu o espanquei. Certamente o garoto não deixaria passar tal vergonha batido. Meu pai arranjaria um jeito de me espancar e eu acabaria preso, atrás de grades maciças por ter defendido a mim dos males que os outros traziam. O que me tornava diferente dos outros depois de cometer isso? Porque eu? E se não fossem grades a me prender, um reformatório faria o favor de acolher-me contra minha vontade. Eu não estava pronto para aquilo.

Abri os botões de minha camisa e deixei meu peito pálido à vista. O vento roçou-me a pele afetivamente, refrescante e fervoroso como sempre. Sentei e cruzei as pernas, abaixando levemente a cabeça.

Eu tinha que pensar rápido em uma alternativa. Se eu for mesmo um assassino, então deveria agir como um. Nada mais me prendia em casa. Nem meu pai, nem meus estudos... Muito menos meu passado. Não havia mais lembranças que me mantivessem em casa. Estava na hora de ir embora... Encontrar um lugar no qual pudesse ser aceito. Convenci-me aquela tarde de que o acontecido me servira para abrir os olhos. Eu estava com medo, sozinho e confuso... Isso me tornava um assassino monstruoso em potencial.

Quando o sol já tocava o fim do oceano, mesclando a sua imensidão alaranjada e amarela com as águas, me levantei e acordei de minhas reflexões. Decido a fugir, mantive apenas uma coisa em mente: Pegar minhas economias, que eram poucas, mas ainda sim sustentáveis, e ir embora. Deixaria uma carta para Dette e minha tinha. Elas entenderiam que eu precisava evoluir, buscar por novas oportunidades de me encontrar.

A descia do penhasco até o final da floresta foi longa. Levei cerca de quinze minutos para alcançar a metade do caminho. Precisei parar para recuperar o fôlego, por isso encostei-me em uma árvore ao pé de um bosque arejado e escuro. As sombras já me espreitavam, tingindo o cenário de tons cinzentos e de difícil vista.

Tive um pressentimento não muito bom. Olhei para os lados, desconfortável. Eu estava com medo, muito medo, mesmo com os meus um metro e noventa de altura, mesmo com meus oitenta e cinco quilos. O que eu podia fazer? Eu completaria dezessete anos e não tinha quem me defendesse.

Ouvi o som de folhas secas sendo amassadas.

Virei-me para o lado, atento. Contraí os músculos e comprimi meus dentes, receoso.

— Quem está ai? – Perguntei juntando o pouco de coragem que me sobrava.

A idéia de solidão assustava mais que o perigo à espreita. Passei a manga do casaco em minha testa. Só então percebi o quanto suava... Senti o ar mover as minhas costas e virei mais uma vez, assustado.

— Isso não tem graça! – Bufei numa falsa raiva, queria dar a impressão para quem estivesse lá de que eu não era nenhum retardado.

Como não vi ninguém resolvi continuar.

Ou a loucura me perseguia ou a culpa por ter possivelmente assassinado Charles me comiserava. A idéia de que havia um par de olhos a cada esquina me cuidando incomodava minhas idéias. Andei apressado pela rua escura até alcançar a travessa Churchill. Não sei por qual motivo minha cabeça começou a doer com intensidade, atordoando meus pensamentos já complicados. Me senti mais idiota ainda, como se mergulhado em um filme policial no qual meus inimigos fossem frutos de minha imaginação.

Parei na porta de casa. As luzes estavam acesas, isso significava que Jacob provavelmente não saíra de casa hoje graças a sua ressaca. Eu não queria vê-lo; Um dia, pensei, quando eu morasse longe, lhe enviaria uma carta dizendo o quanto eu o agradeço pelo sustento e a bronca de cada dia. Sem a sua educação o que eu poderia ser? Um fracassado? Um idiota? Um assassino? Ops, espere, eu já era isso.

Entrei sem fazer barulhos e fui direto para o meu quarto, caminhando pé ante pé. Jacob estava assistindo televisão em seu quarto, cuja porta encontrava-se entreaberta. O som alto abafaria qualquer ruído produzido por mim. Minha fuga estava planejada para ser um sucesso...

Enquanto esvaziava minha mochila escolar e a preenchia com meus pertences, impressionei-me com a minha falta de remorso. A certeza da morte de Charlie não fora confirmada, mas se eu ainda insistisse na versão verídica, o pesar da culpa não afundava em minha consciência. Onde diabos eu estava com minha cabeça?

— Alô, Oliver, volte para a terra... – Grunhi para mim ao arrancar todas as roupas do meu armário e atirá-las no chão, aos meus pés.

Encontrei uma lata de refrigerante no fundo da terceira prateleira. Eram lá que se jaziam minhas economias, enfiadas no minúsculo buraco de sorver. Ergui a mão para pegá-la e parei, imóvel. Meus olhos pousaram sobre o minúsculo desenho de escaravelho cravado na parede de fundo do armário. Eu nunca o notei lá, o que não significava que nunca estivesse. Lembrei-me do escaravelho de marfim e retirei-o do bolso, posicionando-o ao lado do desenho recém encontrado. Eram idênticos, feitos da mesma substância. A diferença era que o símbolo do escaravelho no armário se encontrava em seu centro, ao invés de abaixo.

Empertiguei-me e retirei a prateleira de encaixe. Fiz isso com as outras seus, até sobrar apenas um imenso vão com uma divisória de madeira no meio. Havia um quilombo de roupas, calçados e cabides sob os meus pés. A preguiça nunca me deixou arrumar minhas coisas. Agarrei a divisória e puxei com força, partindo-a e retirando de meu caminho.

A madeira podre cedeu facilmente perante a minha força. Olhei para o corredor; O estalo do armário mal chamou a atenção de meu pai. Permaneci um tempo imóvel, escutando o som abafado do jogo de futebol que passava na televisão.

Ofeguei e continuei minha exploração. A tensão, a expectativa... A esperança de que algo novo estava prestes a florescer para mim. Um segredo que eu, e apenas eu, desfrutaria e que ninguém mais mudaria isso. Um vento fresco e noturno adentrou a janela, as estrelas já dominavam o céu e os postes acendiam-se monotonamente como em todos os dias. Percebi logo que o fundo do meu armário não era de madeira, mas sim de papel de parede.

— Grande novidade. – Murmurei esboçando um sorriso sádico.

Passeis os dedos pelo papel e senti uma saliência no extremo esquerdo do armário. Segurei-o firmemente para puxá-lo com cautela para não estragá-lo. Arregalei os olhos conforme a parede cinzenta por baixo ficava visível; Quando finalmente arranquei metade do fundo, engoli a seco enquanto deslizava meus olhos por sobre as escrituras em vermelho. Minha garganta secou; Havia centenas de pequenos desenhos que, em minha opinião, se tratavam de palavras em algum idioma que não reconheci. Embora um imenso escaravelho rodeado por dois Anúbis com as mãos cruzadas sobre o peito predominasse no centro do armário, eu tinha certeza que as escritas não eram em egípcio. Os símbolos assemelhavam-se ao quase triângulo de meu escaravelho de marfim, dispostos em várias posições ou sobrepondo uns aos outros.

Aparentemente o papel de parede esteve lá tanto tempo que acabou reproduzindo em sua parte aderente uma cópia idêntica ao desenho. Engoli a seco, repleto de expectativas. Minha concentração desmoronou em seguida, como uma queda da água, quando ouvi a campainha tocar. Corri até a porta e a encostei, deixando apenas uma minúscula brecha para que pudesse espiar.

Jacob surgiu no corredor, instantes depois, capengando como um velho por dormir depois de tanto tempo na mesma posição. Resmungou algo, coçando a barriga antes de abrir a porta. Seu rosto inchado e bolachudo expressou um espanto tremendo quando fitou os três homens de trajes policiais.

— Nós estamos aqui atrás de Oliver Brommer.

— Meu filho!? – Questionou com um quê de dúvida.

Era óbvio que Jacob duvidava que seu filho poderia fazer mal a alguém. Oliver , o queridinho. Oliver, o carinhoso. Oliver, o paciente e saco de pancadas.

Meu coração explodiu de adrenalina. Era a polícia chegando mais rápido do que imaginei. Charlie estava morto, então. Ofeguei duas, três, quatro vezes. Pousei minha mão sobre o peito e quis vomitar, mas acabei apenas engasgando-me com minha saliva. Não havia jeito... Não continuei acompanhando a conversa, simplesmente fechei a porta, apanhei a mochila sobre a cama e saltei a janela, sem antes, é claro, arrancar o papel de parede preso ao meu armário. Enrolei-o, ainda correndo, e enfiei entre a minha calça e a minha barriga, certificando-me em seguida de que não cairia.

Escalei o portão baixo que separava a minha casa e a de Dette e olhei para trás; Talvez eu tivesse conseguido fugir mais facilmente se tivesse me abaixado e permanecido quieto, mas os três policiais me observavam da janela de meu quarto. Se eu corresse, eles jamais me pegariam. Eu conhecia aquela cidade... melhor do que qualquer policial.

Ao invés disso, eles permaneceram imóveis, observando-me. Encaravam-me como se pudessem ler minha mente com um mero olhar. Não consegui me mover também. Meus músculos pareceram não desejar obedecer a minha mente e o meu coração, que gritavam exacerbados para que eu fugisse.

“Céus”, “céus”. Essa foi a única coisa que consegui pensar quando um dos policiais saltou pela janela, adquirindo uma forma meia estranha no decorrer do salto. Quando alcançou o chão, já estava transformado em um engomado preto disforme a primeira vista, mas quando se ergueu em minha direção, vi que tinha a forma de um cão. Uma hiena, talvez, enorme e disforme. Pensei que fosse ter um ataque cardíaco, pois meus ouvidos latejavam doloridamente de tamanha tensão.

Os outros dois policiais também saltaram pela janela. Acreditei, ou desejei internamente, que as coisas não ficassem piores. Entretanto os dois policiais caíram sobre o primeiro, sofrendo a mesma transformação até que todos tivessem o tamanho de ursos. Suas caras de beiços arreganhados e caninos expostos rosnavam tão alto e ameaçadoramente que por muito pouco não desmaiei.

Ao invés disso, por puro reflexo, minha mão moveu-se sozinha e desferiu-me um tapa na cara afim de acordar-me do choque. Dei-lhes as costas, deixando para trás seus olhos azuis flamejantes, seus espinhos nas costas, suas patas grossas de garras enormes.

Eu soube que me alcançariam em instantes, mas não desisti. Ao invés disso fechei os olhos assim que burlei a cerca de Dette e tomei a rua. Não me renderia aos pesadelos ambulantes, nem que isso me custasse algum membro do corpo.

Foi então que, sem perceber, eu estava parado no centro da rua. Abri meus olhos ao ouvir o atrito dos pneus do carro ao frear contra o asfalto. Os faróis ofuscantes mais pareciam o portão do paraíso comparado aos meus perseguidores. Não consegui fazer nada além de observar, de soslaio, um dos monstros que, num salto, atravessava a distância de minha janela até onde eu estava. Ele estirou as garras, abriu a boca e eu até senti seu bafo fétido em meu rosto, entretanto o veículo me apanhara primeiro.

Uma fisgada no estômago. Foi tudo isso que senti antes de tudo ficar escuro... Uma sensação estranha e molenga tomou conta de meu corpo, como se eu estivesse em uma casca que não me pertencia. Tentei me mover, gritar ou o que fosse. Em vão. Eu havia morrido em um acidente de carro.

Mas esperem... Essa foi apenas a minha primeira morte, minha história mal começou.

Notas finais
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