Doppelganger - A Ordem do Arcanjo
2 Fictício
Notas iniciais

Ajeitei os pés embaixo da carteira, escorando as costas na parede fria e colocando meu caderno quase sem folhas no meu colo. Apertei a caneta de ponta fina, deslizando-a pela linha azul, totalmente avulsa ao que a professora Antucchi tanto tagarelava sobre a primeira guerra mundial.
“Era um dia calmo no meio de Outubro quando Rebekah Barnes decidiu que era hora de procurar novos horizontes. Ela pegou a chave do velho carro de pintura descascada sem planos em mente, apenas a vontade de ver o mundo e sentir os cabelos ao vento...”. Parei de escrever, mordiscando a tampa com frustração, a conversa no fundo da sala de aula tirava toda a concentração que eu tentava manter para começar o meu primeiro livro que ainda não tinha nem sequer um nome decente. Olhei de soslaio para as bolas de papel amassadas e atiradas por cima da carteira, em comparação com as outras tentativas, esse foi o melhor parágrafo que eu escrevi até o momento. Senti um cutucão na parte de trás do meu braço, olhando para o local — que agora tinha um belo risco preto feito à caneta — e em seguida para Beatrice, minha melhor amiga desde... Bem, desde sempre.
— Você está obcecada com essa história, não é? — falou baixo, inclinando-se levemente sobre a mesa para ficar mais próxima de mim, os lábios melados de gloss cor-de-rosa fazendo um biquinho divertido. Se existia alguém que entendia os meus devaneios de escritora amadora melhor do que eu, esse alguém com certeza era Beatrice.
Desde os meus doze anos de idade eu deixei de ser apenas uma leitora assídua para ingressar de cabeça no mundo da escrita. No começo eu apenas escrevia fanfics dos meus personagens preferidos — ainda me lembro da minha primeira ficção, sobre Wolverine e Jean Grey. Sempre achei que eles formavam um belo casal. Nada contra o Scott, é só que... Ele não é o Logan —, mas ultimamente tenho tido vontade de fazer uma história própria. O problema é que ela está enfiada em algum lugar dentro da minha cabeça e, quando eu pego na caneta ou no notebook, ela simplesmente evapora. Isso é extremamente frustrante.
— Leia isso e me diga o que acha. — entreguei o caderno para a mesma por cima da classe. A ruiva de cabelos repicados na altura do pescoço abaixou os olhos verdes e analíticos para as palavras por cerca de um minuto.
— Está bom para começar, mas você está “começando” faz uma semana. — ela arqueou a sobrancelha.
— Eu sei, acho que estou com bloqueio criativo — bufei enquanto pegava meus rascunhos de volta.
— A melhor coisa quando se está com bloqueio, minha cara, é não forçar. — indicou folheando o próprio caderno até as últimas páginas e colocando em minhas mãos — Tome, leia isso para se distrair. É o vigésimo capítulo da minha fanfic.
Ajeitei o mesmo no meu colo e foquei as palavras na caligrafia impecável da minha amiga, muito diferente da minha, que mesmo com algum esforço ainda ficava pouco legível.
— “Eu nunca havia me sentido assim com ninguém antes, a forma como seus braços me envolviam causava um ardor eufórico e quase doloroso dentro do meu peito, despertando meus sentidos mais urgentes. Ao sentir sua respiração ofegante próxima ao meu rosto e seus olhos azuis tão intensos me fitando, eu até podia afirmar que havia um ímã que ligava Damon a mim.” — parei de ler e revirei os olhos — Tá excelente, mas você devia usar seu talento para escrever um original com isso. Damon Salvatore? Sério? — fiz uma careta e Beatrice deu um sorrisinho sacana.
— O que você quer que eu diga? Esse homem me inspira. — a ruiva suspirou, olhando para cima por um instante — E quem ouve você falando desse jeito até acha que não gosta de vampiros.
— Tem razão, eu gosto de vampiros. Mas não desse tipo de vampiros. — gesticulei para o caderno como se pudesse apontar todas as características que não me atraiam — Prefiro as histórias clássicas, como Drácula, por exemplo.
Ela comprimiu os lábios.
— Isso é preconceito alienado, veja a série e leia o livro antes de criticar. — bufou com o tom de voz mais ríspido. Se tinha uma coisa que eu havia aprendido durante esses anos de amizade era que Beatrice odiava ser contrariada.
— Ok! Não discuto mais sobre isso! — levantei as palmas em rendição — Mas de qualquer forma, não acho que ler alguma coisa vá acabar com meu bloqueio.
— Então vamos sair, beber e procurar uns gatos por aí. — falou alegremente, a troca de assunto mudando totalmente a sua postura da água para o vinho.
— Espero que você esteja falando de felinos, do tipo que arranha, mia e caça ratos. — apontei entediada.
— Você é tão séria. — ela rolou os olhos.
— Demetria, em que ano teve fim a primeira guerra mundial? — perguntou a professora em frente à lousa, tão rápido que eu mal pude processar direito. Várias cabeças se inclinaram para trás, um silêncio repentino se estabelecendo no ar enquanto aguardavam a minha resposta que não vinha. Minha mente tinha dado um branco total.
— Ah... Mil novecentos e... Setenta? — arrisquei e a mesma caminhou com passos rápidos até a minha carteira, retirando o caderno de Beatrice das minhas mãos e pondo-se a ler por alguns segundos.
— Vocês deviam prestar atenção na aula, e não fantasiar com personagens fictícios. — ela devolveu-me as anotações com uma expressão desaprovadora.
— Desculpe, professora Antucchi. — murmurei com os olhos baixos, tanto por ela ter lido aquilo que nem era meu e também pela sala inteira ter ouvido.
— Não vai se repetir. — acrescentou Beatrice mais baixo ainda, a cara quase enfiava para dentro dos livros, tamanha a vergonha.
§
Assim que o sinal tocou, eu terminei de arrumar meus cadernos dentro da mochila e a joguei sobre o ombro, esperando o grande amontoado de estudantes desocuparem a entrada da sala onde estavam se acotovelando para sair e poderem respirar livres a última aula da semana. Percebi a figura alta abrindo espaço naquele aglomerado, lançando um olhar autoritário e ameaçador para aqueles que ousavam esbarrar na sua roupa perfeitamente alinhada.
— Demetria, posso falar com você um instante? — anunciou a professora.
— Claro. — assenti rapidamente, me virando para Beatrice, que esperava ao meu lado pacientemente — Te vejo depois?
— Pizza e filmes? Estarei na sua porta igual a um cachorro esfomeado antes que possa imaginar. — ela botou a ponta da língua para fora com um sorriso impertinente e então foi em direção à porta, desaparecendo pela mesma. Aproximei-me da mesa da senhorita Antucchi enquanto ela ajeitava uma pilha de provas dentro de uma pasta azul transparente.
Enrosquei os dedos pelo meu colar prateado — objeto que eu tinha desde que nasci e que era como se fosse meu amuleto da sorte —, já imaginando o sermão que iria levar. E possivelmente uma advertência por escrito que não deixaria Roger nada feliz. Apesar de se dedicar constantemente ao trabalho no hospital, ele nunca descuidava das minhas notas e coisas da escola.
— Você é uma aluna exemplar, não tenho do que me queixar. Suas notas em português e literatura são impecáveis, segundo os professores dessas matérias. — começou guardando a pasta na bolsa e virando o rosto sério para me encarar — Mas você anda totalmente avulsa nas minhas aulas, parece que nem está presente. E também fiquei sabendo que a sua média em matemática e geografia está abaixo da linha vermelha.
— É, eu tenho tido alguns problemas. — sibilei constrangida.
— Você não tem mãe e seu pai, pelo trabalho que ele tem, suponho que esteja ausente na maior parte do tempo. — falou lembrando-me que ele era médico de rede pública e na maioria das vezes fazia tantos plantões que eu ficava até quatro dias sem vê-lo. Isso desde que Megan, minha mãe, havia falecido vítima de um assalto à mão armada. Aconteceu quando eu tinha nove anos, e desde então ele nunca mais foi o mesmo. — Mas isso não é desculpa, Demetria. Não é uma bronca, só estou preocupada com o seu desempenho.
Ela me fitou e eu inspirei profundamente, sabendo que a mesma tinha razão no que falava. Eu não podia ficar me deixando levar por universos fantasiosos e esquecer-me de viver.
— Eu prometo que vou me dedicar mais aos estudos, professora. — prometi comprimindo os lábios.
— Espero que sim. — a mesma deu um sorriso fechado, um gesto de aprovação. E antes que eu pudesse me despedir, continuou — Ah, e o diretor pediu para que você vá vê-lo depois da aula.
Fiz uma careta, se eu demorasse muito poderia perder o ônibus e teria que ficar quarenta minutos esperando. A ideia não me agradava.
— Sabe se é alguma coisa urgente? Eu pretendia ir para casa antes que pudesse começar a escurecer.
— Vá para a sala do diretor, sozinha. — sentenciou, dessa vez o tom automático e autoritário me deixou um pouco perplexa. Era quase como uma ordem.
— Como quiser. — franzi a testa e a mesma sacudiu a cabeça enquanto eu me dirigia para a saída.
Trilhei meu caminho nos corredores silenciosos e vazios da escola Grateford, todos os alunos já haviam ido embora para começar o fim de semana. Aproveitei e enviei um SMS para Beatrice, avisando que iria chegar mais tarde, sem muitos detalhes, pois já me aproximava do meu destino. Suspirei e girei a maçaneta, franzindo a testa ao constatar que a secretária não estava na sua mesa, como deveria. Mas a pilha de papéis espalhados e telefone fora o gancho indicavam que a mesma não tinha ido embora, provavelmente devia estar tomando um café ou fofocando com as professoras. Dirigi-me para o final da sala, batendo na porta duas vezes e esperando que o diretor Jones me mandasse entrar, mas isso não aconteceu.
Além de pé no saco é surdo.
Entrei calmamente, dando alguns passos pelo cômodo e percebendo que não havia ninguém ali também. Ou melhor, era o que eu pensava. Ouvi a porta fechar e a chave girar, trancando-a por dentro. Virei-me por reflexo e então meus olhos se arregalaram em surpresa e confusão para a figura que estava a minha frente.
Ele era alto, cabelos negros e rebeldes, a pele pálida tinha um leve tom bronzeado contrastando com o azul mais intenso que eu já havia visto no olhar de alguém. Porém o que realmente chamava atenção eram suas roupas, que pareciam ter saído de algum tipo de filme medieval, com uma longa capa preta de veludo por cima. Fiquei vários segundos encarando o estranho — que me encarava de volta inexpressivo — e com uma risada de escárnio eu finalmente o reconheci.
Que bela piada.
— Ok, Beatrice, eu realmente aprendi a minha lição. Nunca mais vou falar mal dos seus preciosos vampiros! — abri os braços ao redor, olhando para cima como se uma câmera pudesse cair de lá a qualquer momento — Agora já pode sair de onde quer que esteja.
— Quem é Beatrice? — perguntou o mesmo seriamente, o tom de voz baixo e controlado.
— A garota que pagou você para vir até aqui fazer essa pegadinha comigo. — apontei para ele que franziu a testa — Nossa, ela deve ter gastado uma fortuna... Eu sou Demetria e você é o ator que faz aquele vampiro ridículo do seriado, certo? — questionei ácida, irritada pela situação.
— Se isso faz você se sentir melhor, podemos fingir que é verdade. — sibilou desviando o olhar para retirar um objeto afiado do bolso, uma espécie de adaga com palavras em uma língua esquisita incrustadas por toda a extensão metálica.
— Uau, essa faca de mentira parece mesmo... De verdade. — engoli em seco, vendo o brilho da lâmina cintilar levemente na minha direção. Instintivamente recuei um passo, medindo a distância entre onde eu estava e a porta. Se isso era uma pegadinha, estava indo longe demais. — Sabe, eu acho que eu vou buscar um refrigerante. — comecei falando rápido e enrolado, gesticulando para todos os lados, algo que eu fazia sempre que ficava nervosa. O homem continuava a se aproximar com o objeto em mãos e os olhos fixos no meu rosto. — Você quer um refrigerante? Veio de tão longe, deve estar com sede. Você... Quer... Uma Coca-cola? — indaguei com um sorriso sem graça, enroscando os dedos no meu colar com tanta força que ele poderia se partir.
— Não se mova e não grite. — ordenou e pareceu que suas pupilas haviam se expandido um pouco. Mas eu estava tão atônita que não faria essas duas coisas nem que pensasse nelas.
— Isso tá muito sinistro, cara. — falei com descrença e nervosismo — Normalmente essa deveria ser a parte que eu sairia correndo gritando feito uma louca porque tem um ator surtado com uma faca ameaçadora apontando para o meu peito...
— Não fale. — pediu me interrompendo do meu falatório, novamente suas íris se expandindo. Então passos ecoaram do outro cômodo e eu soube que estava salva, alguém havia vindo me livrar desse maníaco. — Droga, ela está aqui! — chiou exasperado, olhando de soslaio por cima do ombro.
— Graças a Deus! — sibilei aliviada e o homem me lançou um olhar surpreso.
— Verbena? — indagou como se eu soubesse do que ele estava falando, porém sua voz foi abafada por um baque violento que arremessou a porta para longe.
Mas antes que eu pudesse ver quem entrara, uma luz brilhante me cegou completamente, me envolvendo e então eu senti como se estivesse caindo. Tudo ficou branco por milésimos de segundos, em seguida um vento frio cortou minha pele conforme eu piscava repetidas vezes para adequar minha visão. Tudo estava escuro, a não ser por pequenos pontos de luz que cintilavam pairando harmonicamente.
Apertei os olhos, constatando com certo terror que se tratavam de estrelas e eu estava me distanciando delas, ou seja, caindo.
Gritei, sacudindo meus braços e pernas no ar enquanto árvores enormes entravam no meu campo de visão, o que significava que eu estava próxima do solo. Levei as mãos ao rosto, me preparando para o impacto que iria me levar à morte dolorosa e iminente, porém eu parei de maneira brusca e repentina quando dedos gelados se firmaram no meu tornozelo esquerdo.
— Desde quando chove mulher? — questionou uma voz masculina, procurei o ser que tinha surgido, aparentemente, do nada e qual não foi a minha surpresa ao constatar que era o mesmo que havia tentado me matar com uma faca segundos atrás.
— Você! — engasguei me remexendo violentamente, o sangue que subia depressa pelo meu corpo esquentava o meu rosto.
— Nos conhecemos? — ele arqueou uma sobrancelha, me erguendo mais para cima para que pudesse me encarar melhor. Eu me sentia um cacho de bananas de ponta cabeça.
— Você me apontou uma faca, seu esquisito! Vai fingir que tomou boa noite cinderela e não lembra? — exclamei furiosa, tentando me desvencilhar novamente, mas sem nenhum êxito. De repente ele me soltou no ar, deixando que eu caísse alguns centímetros e então me pegou novamente no meio de um grito agudo.
Encarei o chão — ou a falta dele —, abaixo de mim e percebi que eram muitos metros de altura e no final dele tinha várias pedras. Nós estávamos no alto do que parecia uma montanha.
— Se eu fosse você, não insultaria aquele que está evitando que você despenque penhasco abaixo. — observou com sarcasmo, os olhos azuis se estreitando levemente. Grunhi, sentindo o sangue começar a latejar na minha cabeça, se concentrando totalmente ali, eu devia estar com a cara mais vermelha que um tomate agora. Notei que o homem usava roupas diferentes das de antes, agora ele vestia uma calça jeans e uma camiseta preta de mangas curtas. Seu tom de voz também havia mudado, estava mais grave e menos baixo e ameaçador. — Espera, que droga é essa? — perguntou franzindo a testa e fixando o olhar no meu colar em formato de lua que balançava próximo ao meu queixo. O mesmo esticou a mão livre para tocar o objeto e eu o afastei rapidamente enquanto uma teoria absurda se formava na minha mente.
Ou eu estava em um tipo de viagem psicodélica muito louca ou esse homem na minha frente se tratava do vampiro Damon Salvatore. Era absurdo sequer imaginar algo desse tipo, mas era a única explicação plausível para eu estar dependurada no alto de um penhasco com ele segurando meu pé depois de cair do céu por uma espécie de portal mágico.
Eu estava completamente louca ou tudo ao meu redor havia enlouquecido.
O moreno aproximou a mão novamente para tentar pegar meu colar e por instinto eu dei um tapa para que se afastasse, o mesmo grunhiu contrariado e retribuiu o gesto desferindo uma batida rápida sobre os meus dedos que arderam, puxando o cordão antes que eu pudesse revidar.
— Ei, isso é meu! — me balancei para tentar pegar da sua mão, mas o mesmo levantou para cima, segurando minuciosamente pela corrente enquanto analisava com uma careta curiosa e desconfiada — Damon! — gritei e o mesmo me encarou desconfiado.
— Como você sabe o meu nome? — indagou com o tom ligeiramente mais alto — Quem diabos é você, garota?
— Meu nome é Demetria Rosenwood e eu tenho motivos muito fortes para acreditar que está acontecendo uma grande confusão aqui! — expliquei abrindo as palmas no ar e respirando com dificuldade devido ao fato de estar suspensa — Pode me soltar?
— Não, eu estou bem assim, obrigado. — devolveu com um sorriso irônico, jogando o meu colar para cima e o pegando no ar como se fosse uma moeda. Mas o pingente de lua começou a queimar na sua pele e quando o mesmo tentou jogá-lo fora, o cordão se grudou no seu pulso até parte do braço, como uma cobra que se enrola na sua vítima — Verbena enfeitiçada! Que inferno! — gritou balançando a mão que queimava para tentar livrar-se do colar, e no pavor de tirar acabou me jogando para trás sem o mínimo cuidado, sobre o gramado áspero e duro. Damon conseguiu arrancar o cordão depois de segundos de esforço e pôs-se a analisar os hematomas que se curavam rapidamente — Você é uma bruxa! Eu devia saber.
— Eu não sou bruxa... — gemi sentindo minhas costelas doloridas pelo impacto protestarem, meus braços também ardiam na parte de trás e na altura dos cotovelos, provavelmente ralados. Tratei de ficar de pé, limpando a terra úmida que havia monopolizado o tecido da minha calça jeans. E logo que o fiz, o sangue desceu da minha cabeça para o meu corpo subitamente, ocasionando uma tontura imediata — E não mandei você tocar no meu colar. — devolvi apontando um dedo acusador para ele que me lançou um olhar mortal.
— Acho que hoje não foi um dia bom para você resolver cair da vassoura, eu odeio bruxas. — começou com o tom rude e ameaçador, andando até mim e eu logo procurei uma rota de fuga. Loucura ou não, eu preferia não ter ossos quebrados.
— Ei, espera aí... — recuei para trás e vi uma pequena trilha escura e assustadora entre as árvores, onde poderia pular todo tipo de animais peçonhentos, estupradores e assaltantes, mas pelo menos eu estaria salva do vampiro furioso. Por algum motivo inconsciente, eu achava que não tinha chance nenhuma de negociar com Damon, logo o jeito era correr pela minha vida. Porém antes do segundo passo, eu fui interceptada por ele, que havia se colocado a minha frente com uma velocidade sobre-humana.
Merda.
— Últimas palavras? — questionou com sarcasmo ácido, veias vermelhas começaram a emoldurar os olhos que faiscavam de raiva juntamente com duas grandes presas pontiagudas em sua boca. Mas ao invés de sentir medo, eu só conseguia sentir uma vontade intensa de revidar, o que não seria sensato. E ao mesmo tempo em que aquilo parecia incontrolável, me dava certo medo de mim mesma.
— Vampiro de merda... — cuspi as palavras e Damon deu um rosnado feroz, os olhos completamente vermelhos e animalescos fixando meu pescoço. E quando ele botou-se para frente, uma voz encheu o local fazendo com que parasse bruscamente.
— Damon, não! — me virei para ver a garota de cabelos pretos correr na nossa direção com a expressão aterrorizada, a mão erguida na direção do vampiro. Três vultos passaram como um vento rápido e violento por mim, quase me jogando para trás.
— Bonnie, desgraçada... — grunhiu o mesmo, que agora estava levantando-se do chão com uma cara nada feliz. Ao lado dele havia outro rapaz loiro que parecia disposto a segurá-lo se fosse preciso, juntamente com uma garota também loira e de olhos extremamente azuis. Próxima a mim tinha uma morena de cabelos lisos me fitando de maneira confusa.
Ela deu um passo na minha direção e eu instintivamente dei outro, nesse momento o vampiro tentou atirar-se entre nós duas, porém foi impedido pelo loiro que em um rápido movimento o segurou pelos braços e fez com que cedesse ao chão sob um joelho.
— Não se aproxime dela! — latiu tentando desvencilhar-se — Me solta, Stefan!
— Ela não vai me machucar. — garantiu a garota ao meu lado, erguendo uma das mãos para que ele se acalmasse.
— Como você sabe, Elena? — devolveu imediatamente e a tal Elena franziu a testa. Parece que nem ela sabia direito, porém eu jamais faria algo para machucá-la. Era estranho pensar assim sobre uma desconhecida, mas eu sabia, bem lá no fundo, que não poderia mesmo que quisesse.
— Eu apenas sei. — murmurou a mesma, voltando-se para mim novamente. Então eu vi a confusão dos olhos dela espelharem a minha própria. E aquela sensação de saber de uma coisa que você não faz ideia do que é estava me frustrando e assustando.
— O que está havendo aqui? — indagou a loira, quebrando o pequeno silêncio que havia se instalado no ar.
— Essa garota caiu do céu, Caroline. — explicou Damon, ainda rendido no chão e com a expressão ameaçadora. Acho que precisaria mais do que alguns minutos preso para que ele não tentasse vir para cima de mim e afundar suas presas pontudas — Até mesmo no nosso mundo algumas coisas são bizarras.
— Por que todos estão me tratando como se eu fosse o monstro? — exclamei atônita, abrindo os braços ligeiramente — Eu sou humana, os vampiros aqui são vocês! — terminei de falar e me senti tão estúpida que tive vontade de voltar no tempo. A situação que eu me encontrava agora, no meio dos vampiros de um universo fictício, era algo que eu precisaria de mais do que um pouca parcela de minutos para digerir e assimilar.
Todos se viraram para a garota de cabelos pretos que mantinha os olhos fixos em mim. E ao encará-la, a mesma sensação que eu senti diante de Elena voltou. O que estava acontecendo, afinal?
— Bonnie? — perguntou Stefan, pronunciando-se pela primeira vez. O semblante calmo disfarçava um pouco da preocupação explícita em suas feições.
— Eu não sei explicar... — começou a mesma, as palavras saindo trêmulas — Eu tive uma visão e essa garota estava caindo do céu, e de repente eu sabia que precisava mantê-la segura.
A confusão nas expressões deles era quase palpável.
— Me manter segura do quê? — questionei e ela ficou muda, os olhos esverdeados e aflitos fixando-se nos meus como se eu pudesse me desfazer em mil pedaços dali a segundos. Então ela os desviou, respondendo a minha pergunta enquanto fitava Damon que ainda tinha uma careta mordaz direcionada exclusivamente para mim.
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