Dopamina

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Presente de amigo secreto (não tão secreto assim) para Matheus / Matt the Robot. Secretamente eu estava torcendo para tirar você, juro que não fiz nenhum vodu/magia/praga para você ficar sem presente e surgir essa chance (ou será que fiz?!) Boa leitura!

— ...cantina.

— Nabi.

— Biblioteca.

— Cakesniffer? – Klaus arriscou, sabendo que era inválido, mas os dois riram gostosamente, o tipo de risada que não era comum a nenhum deles.

Klaus Baudelaire e Duncan Quagmire estavam na biblioteca da Academia Preparatória Prufrock fazia horas. Uma das raras noites onde o Vice-Diretor Nero não tinha realizado seus horrorosos recitais de violino; a oportunidade perfeita para investigar mais sobre VFD. Mas eles tinham pesquisado por horas, lidos diversos livros e catálogos, até mesmo um apanhado de revistas e jornais velhos e não encontraram nada sobre a sigla ou seu significado.

Quando Klaus começou a bocejar e coçar os olhos, Duncan sugeriu uma pausa, mas o jovem Baudelaire não podia sair dali sem ao menos uma nova descoberta. Então, Duncan sugeriu uma pausa, um jogo de palavras que ele fazia com os irmãos.

Word Chain era um jogo simples onde a cada um deveria dizer uma palavra começada com a última sílaba da palavra anterior, dentro de um tema preestabelecido.

— É mais difícil do que parece – Klaus admitiu.

— Tem sorte que não estar jogando com Isadora, ela sempre vence – Duncan sorriu. – Mas o seu repertório de palavras é muito bom, eu nunca teria usado nabi.

Klaus sentiu o rosto corar diante do elogio e agradeceu a luz da biblioteca ser tão fraca e amarelada, de forma que, mesmo naquela curta distância, Duncan não veria suas bochechas rubras.

Não era como se Klaus não estivesse acostumado a receber elogios sobre sua inteligência, mas era diferente quando Duncan o fazia. Talvez porque Duncan fosse tão inteligente quanto ele ou talvez fosse a maneira como o garoto sempre sorria quando o elogiava e que fazia as pernas de Klaus ficarem dormentes. Ele não sabia bem quando tinha começado: quando o garoto os defendeu da Carmelita ou talvez depois, quando disse que era para isso que os amigos servem, mas fosse como fosse, Klaus sempre sentia um formigamento estranho quando estava com Duncan.

— Que tal uma nova rodada? – Quagmire sugeriu.

— Acho melhor voltarmos para as pesquisas…

— Só mais uma rodada – o garoto pediu – pode escolher o tema que quiser, não precisa ser elementos da Prep Prufrock como na rodada anterior.

— Livre então?

— Por mim, tudo bem.

Klaus se concentrou, qualquer palavra servia para começar a rodada: barraco, cachorro, conde, amor. E os lábios se abriram justamente quando essa palavra cruzou seus pensamentos.

— Dopamina.

— Química não é bem a minha área.

— O significado das palavras efetivamente não vale nada, você sabe.

— Claro que sei, mas o jogo também serve para aprender palavras novas – Duncan lembrou.

— Certo, dopamina é um dos neurotransmissores mais famosos do sistema nervoso. É conhecido, junto com outros neurotransmissores, como a química do amor.

Duncan assumiu uma expressão curiosa enquanto o cérebro processava a informação aprendida. Era quase como se Klaus pudesse ouvir engrenagens na cabeça do garoto.

— Você deve ter muito dessa dopamina – Duncan concluiu e Klaus corou absurdamente.

— P- por que diz isso?

— É visível o seu amor pela Violet e a Sunny, mesmo para quem não os conhece…

— Bem, não é exatamente esse tipo de amor – Klaus corrigiu. – Seria um amor mais romântico – completou diante do olhar confuso do Quagmire.

— Como ter uma namorada?

— Algo do tipo.

— Você já sentiu esse tipo de dopamina?

— Claro que não! Digo… depois de tudo o que me aconteceu, romance é a última coisa com que eu deveria me importar.

— Você acha mesmo que romance é algo que você não deva se importar?

— Bem, com o Conde Olaf nos perseguindo e todos esses segredos envolvendo a morte dos nossos pais… parece errado.

— Momento errado ou só errado?

— Um pouco de cada. Momento com certeza, mas eu não sei se eu realmente saberia gostar de alguém agora.

— Eu entendo o que quer dizer.

— Entende?

— Estamos na mesma situação, não é? Nossos pais e irmão morreram e a vida foi bem difícil depois disso, então qualquer pessoa que ofereça um ombro amigo, é como se seu coração batesse loucamente e meio que se apaixonasse por essa pessoa. Mas você sabe que está em um período fragilizado da vida, então, você não tem certeza se realmente gosta dessa pessoa ou está só colocando suas expectativas sobre ela.

E Duncan descreveu com precisão, sem tirar nem pôr, exatamente como Klaus se sentia. A vida tinha sido horrível desde a morte dos pais e ele se sentia bem desesperançado até conhecer o Quagmire.

Isadora era inteligente e adorável, e Klaus teve certeza de que queria ajudá-la e protegê-la, como se fosse uma de suas irmãs, mas Duncan era diferente. Ele sempre tinha um sorriso gentil, um olhar caloroso, palavras doces que pareciam acalmar seu coração e diminuir suas aflições. Quando Duncan o elogiava, o fazia se sentir especial e quando conversavam, era como se todos os problemas do mundo deixassem de existir por aqueles segundos.

E mesmo que ele nunca tivesse se apaixonado antes ou soubesse algo sobre o assunto, suspeitou que perto do garoto, suas dopaminas se ativavam, fazendo se sentir eufórico e apaixonado.

— E você já se apaixonou antes?

— Antes não – Se antes não quer dizer que ele estava agora? Mas por quem? Certamente não era por nenhuma das professoras. Violet? Era uma chance enorme. Alguma outra garota da Prep? Mas Klaus não o via interagir com mais ninguém. Carmelita? De jeito nenhum. – Eu sinto que atualmente minha dopamina anda funcionando – E sorriu inocente – mas talvez seja como eu disse, só a ilusão de estar apaixonado porque a pessoa é sempre boa comigo.

— E você não sabe se a pessoa gosta de você?

— Bem, estou usando meu lado de futuro jornalista para descobrir isso – deu um sorriso enviesado – você sabe, ser jornalista não é só escrever um texto, mas conversar com as pessoas, ouvir suas histórias e perceber os sinais que elas mandam não intencionalmente.

— E o que você descobriu?

— Quando eu converso com essa pessoa, os olhos dela brilham como se eu fosse a coisa mais valiosa do universo e a respiração fica ofegante, mas eu sei que essa pessoa não é exatamente o tipo atlético e qualquer esforço já a deixa ofegante, então talvez não seja por mim. E ela presta atenção em cada coisa que eu digo, como se eu fosse a fonte de conhecimento universal, por outro lado, tem horas que me ignora completamente e mesmo eu chamando-a pelo nome, nem percebe que estou ao seu lado. Eu gosto dessa oscilação de reações, é fofo, mas me deixa confuso se o sentimento é recíproco ou só estou vendo o que quero ver.

— Talvez você devesse perguntar.

— Hm?

— Você sabe, estatisticamente a maior causa de divórcio e separação é falta de comunicação entre as partes e… – Klaus comentou lembrando do que lera em um artigo certa vez.

— Acho que você tem razão.

— Você vai perguntar a ela? – E sentiu as palavras tremerem.

— Ela?

— Violet?!

— Você acha que eu estou apaixonado pela Violet?

— Er… sim, bem… quer dizer…

— Eu adoro a sua irmã, mas eu não gosto dela mais do que como amigo.

— Entendo.

— Está ficando bem tarde, é melhor recolhermos tudo e irmos antes que alguém nos descubra aqui – Duncan disse, mudando de assunto e se levantou.

— Mas nós ainda não descobrimos nada.

— Amanhã nós teremos outra chance e você está quase dormindo sentado – e Klaus não queria admitir, mas estava realmente muito cansado e seu foco tinha migrado totalmente para a conversa sobre romance.

Relutante, concordou e começou a ajeitar a mesa e devolver os livros de volta às prateleiras. Terminaram rapidamente e saíram da biblioteca.

Caminharam pelo corredor escuro em completo silêncio até chegar à bifurcação que levava Duncan para seu quarto e Klaus de volta ao Barraco dos Órfãos.

— Duncan, boa noite e obrigado pela ajuda…

— O que você diria se a pessoa que eu estivesse apaixonado fosse você? – Duncan interrompeu.

O corredor estava tão escuro que os garotos não podiam se ver nitidamente. Duncan não viu como Klaus corou furiosamente ao mesmo tempo que seus olhos brilharam como um céu estrelado em uma noite sem nuvem. Por outro lado, Klaus não podia ver como Duncan estava suando frio e as mãos se retorciam nervosas.

— Eu diria que isso é confusamente recíproco – A voz saiu tão baixa e o garoto de óculos gaguejou tanto, que ele não tinha certeza se Duncan tinha ouvido.

Klaus podia ouvir o próprio sangue correr pelas veias e o coração bater como uma fanfarra. Havia uma vontade absurda de rir e sair correndo, era a maldita dopamina, junto de outras coisas, funcionando no seu cérebro.

— Eu sou tão covarde de fazer isso dessa forma – o garoto Quagmire riu constrangido.

— Então nós dois somos…

O silêncio desceu sobre eles, aquilo tinha sido um jeito estranho e torto de se declarar, e um ainda mais esquisito de aceitar os sentimentos, mas o que era normal na vida de Duncan e Klaus?

— Você se importa se eu fizer isso direito amanhã? Olhando nos seus olhos?

— Eu não sei se eu vou conseguir olhar nos seus olhos. Mas eu gostaria de tentar – Klaus sentiu as mãos gelarem e o rosto corar ainda mais, como eles iriam se encarar no dia seguinte?

— Ótimo, me espere do lado leste do teatro antes do concerto do Vice-Presidente Nero.

— Combinado.

Mas nenhum deles se moveu, ficaram se encarando no escuro, sem realmente se enxergarem. Aquilo era estar apaixonado? Aquilo explicava o coração eufórico e as pernas dormentes ou porque toda vez que Duncan sorria, sentia como se fosse derreter? Aquilo era a dopamina agindo e o impedindo de ser racional? Mas o que aconteceria agora? Andariam de mãos dadas pela escola? Contariam as meninas? Se beij…

Klaus sentiu uma mão em cada lado do seu rosto, os dedos se enroscando nos cabelos castanhos, os óculos ficaram tortos no rosto quando sentiu algo quente e molhado contra os seus lábios. Aparentemente, ele não era o único totalmente dominado pelo torpor da dopamina no corpo.

Foi estranho, atrapalhado e totalmente inexperiente. Algo que ambos sabiam que não bastava ler nos livros para entender como realmente funcionava. Mas tinha sido divertido, novo e interessante. Algo baque ambos queriam repetir de novo e de novo, até ficarem experientes.

— ‘Isso’ eu não sei se vou ter coragem de fazer olhando nos seus olhos – Duncan confidenciou quando os lábios se separaram.

Klaus riu e sentiu o outro sorrir também.

— Boa noite, Klaus.

— Boa noite, Duncan.

Enquanto voltava para o Barraco dos Órfãos, o lado lógico de Klaus tentava por sua cabeça no lugar. Duncan gostava dele, e Klaus provavelmente sentia o mesmo. Eles tinham se beijado e no dia seguinte, Duncan se declararia oficialmente, o que faria deles namorados ou algo similar. Ele ainda não sabia como contaria a Violet, mas tinha certeza de que ela (e Isadora e Sunny) entenderia e daria todo o apoio que ele precisasse.

Naquela noite, mesmo em meio ao mofo que escorria do teto e aos caranguejos, Klaus teve sonhos bons e felizes, cheio de dopamina correndo pelas veias.

Mal podia imaginar que a declaração nunca aconteceria e que ele e Duncan nunca mais teriam tempo para se preocupar com coisas como romance. Na manhã seguinte, o Vice-Diretor apresentou o novo professor de ginástica, o instrutor Genghis.

Notas finais
N/T: [1] Nabi significa profeta em hebraico, mas também é um estilo artístico francês do século 19, com pinturas simbolistas, esboços grossos, cores brilhantes, achatada dimensionalidade e uma variedade de motivos, incluindo a paisagem e retrato. Eu não conseguia lembrar palavra alguma que terminasse com 'bi' que não fosse flexão verbal. Eu não lembro dos quadros que tem na escola (ou se tem algum) mas vamos fingir que algum deles é estilo nabi. [2] Traduzi quase tudo, exceções para o VFD e o cakesniffer, porque eu adoro a sonoridade de cakesniffer. [3] Tenho certeza que fiz uma mistureba entre passagens da série e dos livros. [4] Dos seus requisitos acabei deixando eles com as idades originais. [5] Eles não ficaram tão inteligentes como realmente são. [6] Carmelita, menina-diaba, casa comigo! Espero que tenha gostado, ou que sirva para data não passar totalmente em branco. Beijokinhas e até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!