Notas iniciais
Leia as notas finais para melhor entendimento de algumas 'brincadeirinhas' que fiz com os nomes e também com o Título ^^"

Fic de conteúdo gay, mas, eles não chegam a ter nenhum relacionamento além da amizade, então.. não sei exatamente como classificar isso.. ^^"

Era isso pessoal, espero que gostem e não atirem tomates em mim..

Tags dela no AS eram: Suicídio. Só uma dica..

Acordei com os olhos inchados, o travesseiro molhado, cabelo bagunçado, a roupa desalinhada e metade do corpo para fora da cama, era hoje, dia 27 de setembro que faríamos 17 anos de amizade, mas, as coisas nesse ano seriam diferentes, bem diferentes.

Levantei e segui em direção ao banheiro, abri a torneira e senti os primeiros pingos daquela água gelada baterem contra minha mão, liguei-a mais forte e então enchi minhas mãos com a mesma lavando meu rosto, não importava quantas vezes eu lavasse o rosto com a água gelada, eu não conseguia acordar para a realidade, sair do pesadelo em que me encontrava.

Já havia lavado o rosto no mínimo 30 vezes, mas mesmo assim as coisas não mudavam, eu continuava com as cenas do dia anterior repassando em minha cabeça, então, aquilo tudo tinha realmente acontecido, não fora apenas um sonho.

Eu usava minhas roupas costumeiras, uma calça preta agarrada, camiseta branca um pouco larga, gola V não tão chamativa como era moda, colete preto desabotoado e chapéu preto com uma pequena fita branca, estava decidido, era hoje que contaria a ele tudo o que sentia, tudo que havia guardado dentro de mim durante todos esses anos de amizade.
Iriamos ao parque naquela manhã, um presente de aniversario adiantado porque ele teria um jogo importante no dia seguinte.

Como planejado nos encontramos de baixo da árvore que havíamos nos conhecido e passaríamos aquele dia como todos os anos, cheguei lá e meu sorriso só fez aumentar assim que o vi deitado sob a grande árvore, ele parecia muito relaxado, totalmente o oposto de mim que tamanho era o nervosismo não conseguia nem me conter, as mãos suavam frias, os dedos prensavam o tecido negro entre eles, sentei-me ao seu lado e só então ele pareceu notar minha presença.

-oi. –disse baixo, soando quase como um sussurro, o que já não era mais comum para mim.

-oi Na –disse ele ainda meio sonolento, adorava sua expressão de sono, os olhos semicerrados, o sorriso um pouco bobo, o cabelo meio bagunçado, tudo aquilo era tão lindo que eu me perdia naquela visão.

-então.. eu, ér.. tenho que te falar uma coisa Fuyu-kun. –disse serio porém envergonhado e corado.

-então diga, Na –ele se sentou na minha frente esperando que eu dissesse.

Respirei fundo procurando um jeito certo de dizer tudo aquilo a ele, eu tinha ensaiado varias vezes antes de sair de casa, mas não era a mesma coisa, meu espelho não refletia a imagem dele.

-eu, eu, bem, como dizer isso. –suspirei derrotado sem saber o que dizer e então senti suas mãos apertando as minhas.

-vá em frente, diga o que quiser, sabe que eu sempre estarei aqui com você Natsu. –aquelas palavras foram o empurrão que eu precisava.

Eu sorri e ele sorriu de volta, sabia naquele momento que ele me aceitaria, mesmo que não correspondesse os meus sentimentos, sabia que ele estaria comigo até o fim dos tempos e foi com esse pensamento que eu abri a boca e consegui dizer –eu te amo Fuyu.

Seu sorriso foi morrendo aos poucos e deu lugar a uma expressão de asco, ele soltou rapidamente suas mãos das minhas e se levantou apressado.

-eu tenho nojo de você Natsu, como pôde, todos esses anos de amizade e você, você sendo assim, essa, coisa. Eu confiava em você, quantas vezes dormimos juntos, tomamos banho juntos e você, você era gay, quantas vezes não se aproveitou da nossa amizade pra suas perversidades gays e coisas nojentas? Eu, não quero você perto de mim, nunca, nunca mais chegue perto de mim.

Eu não aguentaria mais ouvir nada daquilo, chorava desde seu primeiro movimento, mas, se eu ouvisse mais uma palavra seria obrigado a olhar nos seus olhos e confirmar tudo o que eu ouvia, levantei dali e sai correndo, meu mundo estava acabado, corri até chegar em casa, adentrei a mesma e me atirei na cama, tudo que eu fiz até pegar no sono foi chorar, chorei tanto que acho que não conseguiria chorar novamente pelo resto de minha vida.

Abri então o registro da banheira deixando que a mesma se enchesse e fui separar uma muda de roupas, peguei outra calça agarrada e preta, eram minhas favoritas, e uma camiseta verde musgo, presente dele, ela possuía a mesma cor de seus olhos, eu, me perdia olhando aqueles olhos, lembro-me de tantas vezes em que tive de me segurar para não beija-lo, retirei meu colete e coloquei tudo sobre a cama antes que eu encharcasse as roupas com minhas lagrimas que desciam insistentemente desde a hora em que comecei a me lembrar de tudo aquilo.

Voltei para o banheiro e a banheira já estava cheia, entrei de roupa e tudo na mesma e fiquei ali, submerso por um tempo que parecia interminável, apenas ouvindo suas palavras que ecoavam em minha cabeça “eu tenho nojo de você Natsu”, “Eu, não quero você perto de mim, nunca, nunca mais chegue perto de mim”, eu chorava tanto, embora não pudesse ter mais lagrimas dentro de mim, era como se elas estivessem em um ciclo sem fim, saindo e voltando misteriosamente para dentro de mim, assim como esse amor que eu sentia que voltava por mais que eu tentasse mata-lo a cada dia que se passava desde os meus 13 anos, eram 6 anos com essa paixão e a cada dia eu tentava mata-la, mas, é difícil sabe, esse amor só faz aumentar e a dor de não tê-lo correspondido é tão grande que aumenta proporcionalmente a cada sorriso dele.

Fiquei lá, submerso até que achei já estar na hora de sair da água, e assim o fiz, retirando a roupa e esvaziando a banheira, deixei as roupas encharcadas no chão e me enrolei numa toalha, caminhei até perto da cama me secando, vesti a roupa que havia separado e coloquei um par de Allstar preto, vasculhei na cama em busca do meu aparelho celular, assim que o achei coloquei no bolso de trás da calça e então comecei uma busca quase interminável pelo quarto a procura de meu inseparável canivete suíço que pelo visto mamãe havia escondido novamente, a cada movimento que fazia era como se uma faca se cravasse mais profundamente em meu peito, por todos os lados, fotos, presentes, roupas, objetos, acessórios, a onde quer que eu olhasse, lá estava ele, e bem onde eu menos esperava encontrei meu canivete, dentro de seu violão, atirei o objeto tão adorado longe, fazendo com que se partisse devido ao forte impacto contra a parede.

Coloquei o canivete no bolso e sai de casa, andei sem pressa até o parque que ficava a poucas quadras de onde eu morava ignorando completamente o celular que vibrava no bolso traseiro. Chegando lá fiz o caminho decorado até nossa árvore favorita, me apoiei contra seu tronco e peguei o canivete e escrevi um pouco a cima da linha onde ficaria minha cabeça assim que eu me sentasse “Fuyu no sayonara”¹ , as lagrimas caiam insistentemente mas não deixaria que elas ou as lembranças dele me impedissem de fazer o que eu estava pronto para fazer.

Sentei-me sob a árvore apoiando minhas costas no tronco e então fiz um grande talho em meu pulso, deixando que o sangue se esvaísse de mim levando junto minha vida, já passado algum tempo, juntei minhas ultimas forças para dar um ultimo sorriso e fechar os olhos, queria que ele pensasse que morri feliz, apesar de tudo o que ele me disse, afinal eu deveria ser radiante como o verão e quente por nós dois, até meu ultimo momento.

~~

Eu já havia ligado para ele milhares de vezes, sim, eu sentia nojo dele, sentia nojo do que ele havia se tornado, mas éramos amigos desde os dois anos de idade, não podia simplesmente abandona-lo sem saber como ele estaria, sai do jogo e liguei para ele milhares de vezes, resolvi então ir até o parque, com sorte o encontraria lá, havia perdido tantas chances de gol, procurei por ele na arquibancada durante todo o jogo, mas não conseguia encontra-lo e a falta de seu sorriso e apoio me desconcertavam, eu tinha que admitir para mim mesmo, não imaginava um mundo sem ele, um mundo sem seus sorrisos, sem seus abraços, mas eu era Fuyu, o frio, eu não podia demonstrar isso, não podia demonstrar fraquezas, não podia demonstrar afeto, isso era o trabalho dele, dever dele, sim, era o dever dele ser afetuoso o bastante por nós dos.

Levei as mãos ao meu rosto ao sentir o liquido quente escorrer por minhas bochechas, olhei para o céu e ao redor, não estava chovendo, o que seria aquilo então? Lagrimas? Impossível, eu não chorava, nunca havia chorado antes, e agora, derramava lagrimas e mais lagrimas enquanto apressava os passos para chegar mais rápido ao parque.

Foram com esses pensamentos que avistei a entrada do parque “só mais um pouco, estou quase lá, por favor, esteja aí Natsu”, quanto mais eu pensava nele, mais lagrimas escorriam, e agora, eu já nem tentava mais conte-las apenas apressava o passo cada vez mais para chegar até ele o quanto antes, entrei no parque já correndo e continuei assim até chegar na árvore, lá estava ele, escorado a baixo dela com o que me parecia um sorriso, um sorriso tão inocente que me fez sorrir, mesmo entre as lagrimas, gritei seu nome algumas vezes enquanto me aproximava, mas ele parecia não me ouvir e só quando cheguei ao seu lado pude notar a poça de sangue que manchava a grama e saia de seu pulso esquerdo, olhei para seu sorriso e desabei a chorar, levantei um pouco mais o rosto e pude ler sua ultima mensagem para mim.

-isso, não é um adeus Natsu. –foi tudo o que consegui dizer entre as lagrimas, antes de começar a procurar o canivete que ele utilizara para escrever aquelas palavras, ao encontra-lo ao lado de seu corpo, utilizei para escrever ao lado de suas palavras “Natsu Aishiteru”², me sentei ao seu lado, perfurando meu pulso direito e enlaçando nossos dedos, vendo o meu sangue se misturar ao já um pouco seco dele, escorei minha cabeça contra o tronco da árvore e sorri olhando para o céu, as lagrimas continuavam a escorrer assim como o sangue e quanto mais fraco eu ficava, mais me esforçava para sorrir, encontraria-o aonde quer que estivesse, já não imaginava mais meu mundo longe dele.

Era verão, um verão bem quente por sinal, uma mulher alta de cabelos negros caminhava com um garotinho de cabelos espevitados e olhos verde-musgo em seu colo, eram novos na vizinhança e não conheciam ninguém, haviam resolvido então dar uma volta naquela tarde ensolarada e comer algum sorvete no parque que ela havia visto ao passar de carro para ir ao trabalho, péssima ideia, o local estava lotado, cada banco, cada sombra, tudo ocupado, mas ela não se dava por vencida facilmente, continuou caminhando com seu filho e um pouco mais afastada da entrada, encontrou outra mulher, também acompanhada de um garotinho de tamanho mais ou menos igual ao seu, sorriu e perguntou se podiam se juntar a eles, a outra mulher, de cabelos castanhos, animadamente disse para que se juntassem a eles, Erika então colocou seu filho no chão para que fosse brincar com o outro menino.

-Fuyu, seja educado com o menininho. –advertiu-lhe ela, sabendo bem do tom frio que seu pequeno de apenas dois anos já possuía.

Enquanto as mulheres Erika e Maia conversavam animadamente, os dois garotinhos brincavam alheios a tudo a sua volta, tanto que nenhum dos dois pediu o tão esperado sorvete, ao contrario do que Erika esperava, seu filho parecia brincar com o pequeno de cabelos longos como se fossem longos amigos, o que era de se espantas visto que nem com o primo de mesma idade Aki ele agia daquela forma.

A tarde passou animadamente para todos os quatro que ao voltarem para casa, no entardecer, descobriram-se vizinhos.

-Sinto saudades deste tempo, Natsu. –foram as ultimas palavras do moreno antes de seu coração parar.

~~

Pouco tempo depois de Fuyu ter morrido seus amigos Aki e Haru que passavam ali por perto os encontraram e ao constatarem que nenhum dos dois possuía pulso ligaram para a emergência e com a arma dos dois suicídios escreveram acima da linha de escrita dos dois “Don't have Fuyu without Natsu.”³, as mesmas palavras que dias mais tarde foram colocadas em suas lapides.

Notas finais
¹-adeus Fuyu
²-te amo Natsu
³-Não existe Inverno sem Verão.

Do japonês:
- 冬(Fuyu) Inverno
- 夏 (Natsu) Verão
- 春 (Haru) Primavera
- 秋 (Aki) Outono
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!