Don't fear the reaper
1 The reaper is coming.
Notas iniciais
Fugir. Gritar. Implorar. Sobreviver.
Entre as gargalhadas que ecoavam no meio daquelas árvores feias e destruídas, era possíveis escutar o grande ceifador gritar o nome da garota.
Outro pedaço de galho perfurou-lhe pele. Já não se importava mais com a dor, ela não era mais a mesma. O vento passava nas suas madeixas cinzas e as embaraçava. Mas isso era o menos preocupante na sua situação atual.
Corria desesperadamente e sem rumo dentro daquela ampla floresta. Não sabia como acabou naquele lugar. Mas isto não passava em sua mente, só pensava em fugir.
Seu vestido, que antes era branco e aprazível, agora estava retalhado em vários lugares e totalmente sujo de lama. Dava para ouvir os barulhos ao redor. Uivos. Mas ela não se preocupava de onde esses uivos vinham, somente se preocupava de fugir dele.
Por fim conseguiu chegar no final daquela floresta espessa. E encontrou-se em uma torre. Mesmo o tempo tendo sido cruel, pelo menos ainda restavam suas ruínas. Tijolos caindo aos pedaços ao redor da porta, e esta, devassada, como se convidasse a garota para ali se abrigar, ou melhor, se esconder.
Não pensou duas vezes. Pôs-se a correr para dentro, fechando a grande porta e trancando-se ali dentro. Mesmo assim, era possível ouvir a sombria gargalhada e o impiedoso barulho de uma lâmina. De repente, cessaram. Como se aquilo tivesse deixado o local. Tivesse parado de perseguir a pequena garota.
O ar passava pelos seus pulmões, mas não trazia o mesmo conforto. Sua cabeça parecia uma bomba relógio, contando a cada passo, seu tempo de vida.
Sorriu. Deixou os ombros relaxarem. Ainda era cedo para fazer isso. Iria começar a pular de felicidade quando ouviu um grande estrondo. O pavor subiu novamente pelo seu corpo, lhe deixando paralisada.
"Ainda estou aqui."
Só estas insignificantes palavras ditas pelo ceifador, foram necessárias para fazer a garota gritar em angústia e correr a escadaria a cima em desespero, tropeçando nos seus próprios pés.
Gritava sua mãe, gritava seu pai, seu irmão ... Todos. Todos que foram deixados para trás. Totalmente sem alma e sem vida. Seus olhos já ardiam de tanto chorar em desespero. Lembrou-se do estado da sua família ao sair correndo de sua moradia.
Totalmente desfigurados e destruídos.
Raiva invadiu seu frágil corpo. Xingou fortemente o ceifador que lhe perseguia e este, sorriu. Ver a desgraça de uma pessoa o alegrava.
Chegando ao fim das escadarias, encontrou-se na porta para um porão acima de tudo. Bateu a mão com força, com a única força que ainda lhe restava. Mas não foi o suficiente. Ao ver que não estava conseguindo, seu desespero cresceu. Começou a gritar e bater naquela pequena porta mais e mais vezes.
Ouviu um riso.
"Ele está perto".
Um calafrio lhe correu no corpo ao pensar que aquela terrível besta estava se aproximando, deixando escapar mais lágrimas. Bateu com tudo naquela porta e esta, pulou para cima, se abrindo em fim. A garota saltou para aquele lugar, batendo a portinha com força no chão.
Correu para todos os lados, pegando mesas, cadeiras, tijolos, tudo. Tudo que fosse lhe ajudar a deixá-lo longe daquele cômodo. Ao colocar tudo que estava no cômodo em cima da porta, se encolheu em qualquer canto e começou a rezar.
Mas Deus não estava naquele momento com ela.
Percebeu que as risadas, e todos os barulhos haviam sumido. Ficou relaxada, mas ainda totalmente desconfiada. Olhou ao redor do pequeno quarto e viu que havia algumas velas acesas. Havia deixado passar a percepção destas velas ao entrar desesperada.
Olhou diretamente para a chama. Parecia dançar, indo de um lado para o outro, mudando de cor constantemente. Amarelo. Laranja. Vermelho. E até azul.
Azul .... Sua cor predileta.
Havia um laço azul em seu vestido, mas juntamente com este, havia sido destruído na fuga. Vários pensamentos correram-lhe pela cabeça sobre como seriam seus últimos momentos de vida. Nós seus últimos momentos de desespero.
Já havia relaxado por ter ficado minutos sem escutar a gargalhada grotesca do ceifador. Já estava até feliz.
"Uma pena que esta sua felicidade não durará mais".
Ele voltara. Na verdade, nem sequer havia ido.
A mão da pequena tremeu, a respiração ficou ofegante e difícil, arregalou os olhos e não pensou em mais nada. É difícil pensar em momentos de total desespero.
Então a pequena porta se abriu, lançando todas as coisas que ali estavam para lugares quaisquer do quarto. O forte vento apareceu. As velas sopradas de uma e uma, e de uma a uma foram desaparecendo. A garota não podia fazer nada. Só olhava.
Nem chorar mais ela chorava. Havia se entregue ao medo.
A grande janela, foi aberta com violência e então ele apareceu.
Todo preto. No meio da noite. Em uma floresta. Em uma torre. Só ... para ver o desespero da garota.
"Não tema".
Ele falou, entrando no cômodo. A garota começou a gritar coisas quaisquer sobre sua família e sobre o que ele queria com ela.
"Diversão".
É isso. Bastou isso. Só isso.
Ele não acredita que ela teve tamanha coragem.
A raiva tomou conta da sua cabeça. O desespero foi jogado longe. Sorriu.
...
Mais três ou quatro batidas e não sobraria mais nada. Ela deixou seu crânio imaculado em pedaços. Havia tomado coragem para se impor ao ceifador. Para atacá-lo. Foi como se estivesse no paraíso.
Tirar a vida daquele que tirou a vida de sua família apenas por diversão era fantástico. Agora, era a vez do ceifador olhar para a garota em desespero.
O sangue deste escorria em seus braços e por toda parte. Limpou este sangue infernal que escorria em seu rosto, que entrava em sua boca. Que entra e suja seu coração e alma. Era preto. Sangue preto... desagradável.
Ao perceber que aquele que lhe aterrorizou não se mexia mais, ficou de pé e com um sorriso demoníaco no rosto, caminhou até a janela. Segurou a sacada e soltou uma gargalhada. Igual a que o ceifador dava antes de ter sua cabeça triturada com apelas um tijolo pela garota.
Ficou aliviada. Era bom não estar mais sendo perseguido por aquele crápula. Olhou para cima e relaxou totalmente a tensão que estava em seu corpo.
Uma mão grande e ossuda envolveu o ombro da garota.
"Ainda é cedo para relaxar, Nataly".
Ele disse.
Como? Porquê? Ela havia visto sua cabeça triturada no chão. Havia visto seu olhar de desespero. Havia visto seu sangue escorrer. Ela o havia matado com as próprias mãos!
Escuridão, desespero, crueldade, medo ... Tudo isto envolveu o corpo da garota em apenas uma fração de segundo ao virar-se e olhar para o rosto do grande ceifador.
Fugir? Gritar? Implorar? Sobreviver?
Não... nada disso iria ajudá-la. Fechou os olhos. Sentiu sua última lágrima correr pelos seus olhos até a sua bochecha. Tomou o último ar, e foi levada pelo ceifador.
Aquela alma que havia corrido, gritado, implorado e sobrevivido até ali, estava sendo levada pelo cruel ceifador. Seu corpo foi deixado no último quarto daquele sótão. Sem esperanças, sem vida ... sem alma. Oco.
O ceifador sorriu, não perdia por esperar quem seria a sua próxima vítima.
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