Se alguém olhasse pela janela da sala daquela pequena casa, a visão que teria seria, no mínimo, curiosa: viam-se homens com piercings e tatuagens, com os mais estranhos tipos e cabelos, falando alto e rindo, enquanto bebiam garrafas de cerveja e entre eles, destoando completamente, estava uma menina ruiva, de vestes leves e floridas.
O mais curioso era o quão bem incluída ela parecia estar no meio, sentada ali no chão, com as costas apoiadas no sofá onde um menino de cabelos verdes estava com as pernas esticadas.
O céu já estava escuro, a adrenalina de mais um dia fugindo de policiais havia passado. Os rapazes agora tinham seu momento de descontração, falando sobre os acontecimentos recentes e outros assuntos aleatórios que surgiam. Lily estava muito surpresa ao notar seu próprio preconceito em relação ao grupo se desmontando, eles seriamente fizeram uma análise da conjuntura política e econômica e, mesmo que de forma despojada, citaram na conversa autores e pensadores que nem ela conhecia.
A ruiva estava mais surpresa ainda ao notar como Scorpius parecia muito diferente do menino que ela vira pela primeira vez na manhã. Agora ele usava uma camisa larga branca e calça de moletom, ainda que o cabelo verde fosse algo peculiar, ele estava baixo por estar molhado do banho. Os piercings na sobrancelha e no lábio brilhavam pelo reflexo da lâmpada toda vez que ele falava, usando o tom arrastado que não mais soava incômodo.
Mais uma vez, enquanto divagava sobre o garoto ela teve um estalo, se lembrando que precisava encontrar o irmão e os amigos. Ela arfa quando esse pensamento a acerta em cheio, imaginando a preocupação de Albus e subitamente fica de pé, interrompendo a fala do de cabelos escuros — que agora ela sabia se chamar Anthony.
— Meu irmão! Eu preciso ir, agora — ela fala rápido, correndo até onde sabia ser o quarto de Scorpius e pega as sandálias que estavam no banheiro.
Enquanto isso, os quatro garotos se entreolham e riem do jeito esbaforido que Lily sai do cômodo. O de cabelos verdes franze o nariz e se senta, ele sequer lembrava que ela tinha um irmão a quem devia voltar e dar sinais que estava viva. Faz um esforço para lembrar do rosto do garoto e, automaticamente, pensa que talvez ele tenha sido detido na confusão; em suas lembranças, o menino não parecia ser do tipo ágil, sendo sincero, parecia um molenga.
Ri baixo para si mesmo com o pensamento, ao mesmo tempo em que a ruiva chega na sala, jogando os cabelos para trás dos ombros e os encara confusa:
— Onde é aqui? — Ela se sente meio idiota pela pergunta mas realmente não sabia onde estava, havia chego desacordada e não pensou em perguntar antes.
Tonks, que tinja cabelos azuis caindo pela testa sorri pra ela e arqueia as sobrancelhas, antes de falar:
— Para onde você quer ir? Estamos consideravelmente perto do Anfiteatro, mas não acredito que seus amigos ainda estejam lá.
— Sherman Park. Você está certo, eles não devem estar mais por lá, já devem estar em casa. Meu irmão já os levou para casa, eu tenho certeza — diz mais para si que para qualquer outro.
Anthony solta um assobio e ri:
—Está um pouco longe de casa, ruiva. Mas o Scorpius te leva lá -indica a mesa de metal que ficava no canto da sala, onde se encontrava cinzeiros com bitucas e pontas, alguns copos e três molhos de chaves. Lily olha para aquilo mas não entende muito bem, então desvia o olhar ao de cabelos verdes, que tinha o rosto fechado.
— Eu levo?! — ele questiona assim que ouve. A verdade é que ele não se incomodaria, mas só pelo amigo ter soado presunçoso ao assumir que ele o faria, não consegue evitar franzir o cenho. Ele odiava que o mandassem fazer algo que ele já ia fazer de qualquer forma.
— Sim! Não pedi para que me trouxesse para cá, agora preciso ir embora e você vai ter que me ajudar — ela diz séria, levando as mãos na cintura, fazendo as pulseiras sacudirem.
Os meninos riem e voltam a se acomodar nos puffs e pelo chão, enquanto Scorpius arfa ofendido e fica de pé, passando por ela até a mesa anteriormente indicada. Pega um dos chaveiros e vai andando até a porta de entrada:
— "...Não pedi que me trouxesse..." -ele murmura debochando do que ela diz, com tom mal humorado- Não dá para tentar ajudar alguém a merda de UMA vez, na próxima vou te deixar ser esmagada por cavalos — abre a porta e aponta pra fora- Vamos logo antes que eu desista.
Ela contém uma risada pelo jeito que ele foi pisando forte até o lugar, puxando a porta com força, como uma criança fazendo algo obrigada pelos pais. Assim, ela se vira para os garotos que encaravam a pequena cena em divertimento e acena desejando uma boa noite antes de sair da casa, ouvindo um "Eu gosto dela", o que a faz abrir um sorriso grande. Ela também havia gostado deles.
— Será que dá pra ser antes da chuva, boneca? -a voz do menino se faz presente e ela vira para encara-lo, rindo em descrença logo em seguida.
— Qual a probabilidade de eu morrer caindo dessa coisa? — questiona se aproximando da motocicleta, puxando a saia até acima do joelho para se sentar atrás dele.
— Grande -Scorpius diz, parecendo sincero, o que a faz arregalar os olhos- Mas para sua sorte você não vai cair enquanto eu dirigir.
O tom confiante dele a deixou menos tensa Porém, quando ele ligou o motor, fechou o descanso com o calcanhar na bota preta e arrancou da calçada, a tranquilidade a deixou. Involuntariamente a menina envolve o tronco dele com os braços com força, encostando o rosto em suas costas.
O caminho foi silencioso, fora o barulho do bairro no final de tarde e o tronco da moto. Ele esteve o tempo todo ciente do corpo dela contra o próprio, sentia o coração da ruiva batendo em suas costas, dada a proximidade. Não admitiria em voz alta, mas também havia gostado dela.
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