Don't Look Back
3 Cap.3 Aceitando as Circunstâncias
Notas iniciais
Cap.3 — Aceitando as circunstâncias
Hermione's pov
Já estávamos quilômetros distantes do colégio; haviam se passado apenas alguns minutos de nossa fuga. A van passava tranquilamente pela rua; Malfoy já tinha deixado a correria de lado. Tudo parecia mais cinza; cada casa, cada árvore e até mesmo o sol havia perdido a cor. Gritos podiam ser ouvidos ao longe.
O sentimento de perda foi enorme. Parvati estava destruída, e todos estavam sendo contagiados por aquela energia, afinal, não foi fácil para nenhum de nós ver uma pessoa, que esteve por perto por anos, sendo morta bruscamente.
Neville possuía um olhar aterrorizado; Luna tirva constantemente peles dos dedos. Gina, Malfoy e Nott estavam no banco da frente; as duas janelas mantinham apenas uma brecha aberta, para que o ar entrasse. Lilá havia cochilado nos braços de Simas, que tinha um enorme corte perto da sobrancelha.
A van se tornava cada vez mais sufocante. No início parecia um espaço enorme, em que todos caberiam, mas quando nossos nervos foram se acalmando ficou perceptível a falta de espaço, afinal, éramos 14 adolescentes; para piorar, cada minuto parecia durar uma eternidade.
Pude ver o veículo contornado uma rua, por onde eu nunca havia passado, e chegamos num condomínio de mansões, aparentemente deserto.
— Sempre teve um porteiro aqui... — comentou Malfoy, girando o volante. -, pelo visto todos fugiram.
A casa de Malfoy era a terceira; se a primeira vez que a tivesse visto fosse em outra ocasião, teria ficado de boca aberta. Ela era completamente elegante; tinha dois andares e era decorada num tom de madeira branca, com um telhado preto e diversas árvores rodeando-a.
Deixamos a van estrategicamente parada perto da porta; por final, encontramos a chave jogada no chão. Todos pareciam muitos desgastados ao passar pela porta da casa; Malfoy foi o último a adentrar, trancando a porta.
A casa era digna da fachada; tudo parecia ser muito caro e único. O tom das paredes era num lindo verde esmeralda. Nos sentamos num sofá enorme; alguns preferiram o chão. Não sei por quanto tempo ficamos parados, presos em nossos próprios pensamentos.
— Gente, o que vamos fazer? — a voz de Luna cortou o silêncio de uma maneira que ninguém esperava.
— Bom... — disse Malfoy, ao perceber que ninguém se pronunciaria. -, acho que todos vão querer achar suas famílias. A maioria, pelo menos... — completou ao receber um olhar de Pansy, que provavelmente não iria querer procurar a sua.
— Meu pai é policial... — comentei, sentindo uma voz fraca tomando lugar. -, ele está viajando.
No momento, um pensamento repentino veio em minha cabeça. Será que ele sabia? Será que ele sabia e não me falou nada?
— Gente, eu e Rony estamos decididos. Vamos atrás da nossa família. — disse Gina, enquanto trocava um olhar com o irmão. — É claro que vocês não precisam ir com a gente. — ela completou, mais segura.
— Bom, eu não vejo problema nenhum. — comentou Malfoy, dando uma palmada nas costas de Rony, que estava ao seu lado. — Somos um time agora, não é? — completou, ao perceber que todos estavam boquiabertos.
Companheirismo não era uma atitude esperada de Draco Malfoy; ele parecia estar mais sereno e confiante, e arriscaria dizer que sem aquela expressão de desprezo que ele carregava todos os dias, era até um garoto bonito.
Decidimos que procuraríamos pelos Weasley primeiro, até porque eles estavam em maior número, fator facilitador para os acharmos. Iríamos planejar o próximo passo assim que alcançássemos o primeiro objetivo, e assim seguiríamos.
Após alguns minutos, Nott ficou encarregado de nos mostras a casa, para que, em caso de ataque, todos soubessem como explorar o ponto forte daquele ambiente; o primeiro cômodo foi a cozinha, um lugar que, apesar de escuro e pouco arejado, era enorme e elegante; não deixava de abusar no contraste entre o verde esmeralda e o preto. O andar de cima continha um banheiro e três quartos; um de Malfoy, um dos pais dele e o outro pertencia a visitas.
— Tudo bem, somos quatorze e só temos três camas. — observou Zabini, num tom de arrogância.
— A gente da um jeito. — Malfoy estava impaciente; podia ver pelos seus olhos que ele tentava criar uma solução rápida para aquilo.
— Que tal se as meninas dormirem lá em cima e o resto fica jogado pela sala? — sugeriu Rony, feliz com a ideia de estar ajudando.
— Isso é uma ideia imbecil.... — observou Nott. — As meninas precisam ficar perto da gente. Se acontecer algo, estaremos por perto.
— Sem contar que no segundo andar estaríamos mais seguros... — comentou Luna, que, até então, estava meio aleatória na conversa.
Rony corou fortemente, arrumando um objeto dourado, que estava numa das prateleiras da sala, para se distrair.
— Olha... — comecei, assim que os parafusos do meu cérebro funcionaram e me trouxeram uma ideia concreta. — Vamos todos para o quarto do Malfoy, já que é o maior. Eu e Gina dormimos juntas em um colchão; Lilá e Parvati ficam em outro; Luna, Pansy e Dino dormem no de casal... — pude ver uma leve expressão de leveza tomando conta do rosto de Parkinson, ao me ouvir chamá-la pelo primeiro nome.
— A gente pode subir com os sofás da sala também. — lembrou Malfoy. — Nós temos dois colchões de ar também. — completou ele, indo até um armário e tirando duas caixas de lá.
— O Neville e o Nott podem dormir lá... — sugeriu Harry, falando pela primeira vez desde muito tempo. -, já que eles estão mais machucados.
— Isso. — concordou Malfoy. — Cabem uns três nos sofás, e pro resto a gente improvisa uma cama com os edredons.
O momento em que algo que queríamos daria certo pareceu animar um pouco a gente. Nós tínhamos um plano; tínhamos algo concreto. Em seguida todos se organizaram para subir com os sofás e transitar os colchões até o quarto de Malfoy.
Foi uma tarefa um tanto trabalhosa, levando em consideração que todos já estávamos exaustos; o peso dos sofás foi deixado para os meninos. Fizemos uma pausa quando Neville declarou que estava morrendo de fome; o peso da palavra “morrer” pareceu preencher todo o ar presente da casa. Quem diria que uma expressão tão simples poderia trazer um significado diferente dentro de algumas horas.
Fomos até a dispensa procurar algo digerível; o estômago de todos deveria estar tão sensível quanto a Luna quando fica sem pudim. Cada um escolheu um biscoito leve para enfiar goela abaixo; não que fosse a única comida disponível, mas sim porque era o mais prático a se fazer. Nos reunimos novamente na sala, em completo silêncio.
— Olhem o que achei. – Malfoy se levantou, tirando de uma mochila cinco walk talk’s.
— Onde conseguiu isso? – perguntou Harry, maravilhado.
Malfoy jogou um na direção de Harry, outro na de Simas, o seguinte foi parar nas mãos de Pansy e o último foi destinado a Luna.
— No quarto dos meus pais. – explicou, voltando novamente ao chão. – Eles se amarram nessas coisas. Mais tarde testamos pra ver se funcionam com eficiência.
Eu continuava me sentindo insegura, mesmo após termos resolvido, resumidamente, qual seria o nosso plano. Um nó se formava em meu estômago cada vez que pensava que poderia estar vendo meus amigos pela última vez. Chega a ser surreal, porque, dentro daquela casa, tudo parecia normal; nunca diríamos que o mundo estava acabando do lado de fora.
Resolvi caminhar sem rumo pela casa, tentando me preparar mentalmente para encarar o mundo lá fora.
— Ei... – Ouvi a voz de Rony me chamar por trás. – Se tiver com medo, não precisa ir.
— É claro que vou. – afirmei, me virando para encará-lo nos olhos. – Você sabe que nem eu, nem Harry deixaríamos você e Gina sozinhos nessa.
— Eu sei... – concordou ele, parecendo inseguro. -, mas não quero que vocês se arrisquem por isso.
Ele se apoiou em uma mobília, suspirando pesadamente.
— “Isso” é simplesmente sua família, Rony. – interrompi-o, indignada com o que ele estava dizendo. – Não tem jeito. Nós vamos.
Me retirei da cozinha com passos firmes, deixando para trás um Rony boquiaberto e preocupado. Eu não podia culpá-lo, talvez dissesse a mesma coisa se estivesse no lugar dele; mas a raiva que queria sentir no momento foi direcionada a ele.
Olhei para a tela bloqueada do celular; o relógio marcava 21h36min. Resolvi subir para o quarto de Malfoy. Queria me acomodar o mais rápido possível; Gina e Malfoy já estavam lá.
Talvez se eu possa estar sonhando; só preciso dormir, pensei, mesmo com a voz da razão ecoando em minha cabeça, dizendo que era mentira.
— Até que eles fizeram um bom trabalho aqui. – comentou Gina, olhando em minha direção; ela tinha os olhos inchados, típicos de quem havia chorado.
— Quem diria... – comentei, somente para não deixá-la no vácuo.
Eles tinham realmente feito melhor do que eu esperava; os colchões formavam uma cama enorme, circulada pelos dois sofás. Não seria a melhor dormida do mundo, mas com certeza era algo pelo qual podíamos ficar felizes.
Analisando melhor o quarto pude perceber uma estante pendurada na parede, carente de livros; haviam somente quatro: “O Pequeno Príncipe”, “A Dama e o Vagabundo” e “Viajem ao Centro da Terra”; o outro era um caderninho em branco, com as laterais num tom verde e prata.
— O pequeno príncipe sempre foi meu favorito. – disse Malfoy, se aproximando de mim.
Recuei sem graça; foi como se eu tivesse invadindo o mundo particular dele sem permissão.
— Me desculpe, eu... – comecei, devolvendo o livro para onde pertencia.
— Não tem problema. – respondeu ele, com um sorriso. – Não é como se eu fosse vê-los novamente, sabe?
Um nó se formou em meu estômago novamente; aquela era uma sensação que seria recorrente na minha vida.
— Por que só três?
— Não são os únicos, mas são os que me marcaram. Eu dou os que já li para quem precisa. – explicou ele, puxando novamente “O Pequeno Príncipe”. – Mas não abro mão desses três.
Sua resposta me deixou boquiaberta, e ele percebeu meu estado de choque; retribuiu com um sorriso e continuou a conversa.
— Toda a vez que leio esse daqui, o sentido muda para mim. – disse ele, sentando no chão. – É como se ele me fizesse enxergar e ter conhecimento de um novo “eu”.
Ele me explicou a importância de cada exemplar que ele possuía. “A Dama e o Vagabundo” era sua história preferida quando criança; ele disse que sempre se sentiu como um vagabundo, mas um simples filme infantil o fazia enxergar que isso não era algo ruim, e que um dia ele teria alguém para chamar de dama. Já “A Viagem ao Centro da Terra” o fazia acreditar nas coisas mais surreais que o universo tinha à oferecer, e ler todos os detalhes, supostamente vivenciados por alguém, com exatidão, o fazia crer que tudo era possível.
Eu fiquei maravilhada com aquele momento. Foi algo extremamente leve e que eu nunca poderia imaginar acontecendo; eu e Draco Malfoy juntos, sentados no chão de seu quarto conversando sobre livros.
— E pra que você guarda esse livro em branco?
— Talvez um dia eu seja capaz de contar minha própria história. – respondeu ele, admirando o pequeno livro em suas mãos. – Mas acho que não vai adiantar tanto se a humanidade for extinta.
Uma ideia se passou pela minha cabeça. Me levantei no impulso; Malfoy copiou meu movimento, momentaneamente assustado.
— Posso escrever nele? – perguntei, encarando seu olhar de angústia se transformar em alívio.
— Que susto, garota. – exclamou, pousando ironicamente a mão direita no coração. – Claro que pode.
— Ótimo. Muito obrigada. – agradeci, abraçando o mesmo; minha atitude resultou num clima estranho um segundo depois. Parece que os dois se deram conta de quem eram, e o que já foram um para o outro.
Ficamos calados por uns minutos. Gina parecia estar adormecida no colchão que dividiríamos, pelo menos ela parecia adormecida; eu analisava o pequeno livro esmeralda e prata quando Malfoy quebrou o silêncio.
— Posso escrever com você?
Ele não precisou ler minha mente para entender o que eu pretendia. Eu não sabia se um dia o mundo voltaria a ser o que era antes, muito menos se um dia alguém desconhecido chegaria a ler minhas palavras, mas eu tinha que tentar. Afinal, qual outro jeito encontraria para desabafar em paz? Aquela seria minha fuga e a fuga de Malfoy da realidade, da realidade em que estávamos vivendo.
— Nós podemos construir isso juntos. – sugeri; um sorriso enorme se abriu em seu rosto. – Cada dia um escreve, assim a gente não se abandona.
Peguei uma caneta que estava largada na escrivaninha dele; fui em direção ao Malfoy, mas parei no meio do caminho, voltando para pegar um lápis, afinal, tinha que ter um material de emergência. Ele suspirou e riu para mim. Pousei a caneta sobre a primeira página em branco; comecei a escrever:
Diário de Bordo
PS: não estamos em um navio
este livro pertence a:
Hermione Granger e Draco Malfoy
2 de julho de 2016,
Talvez não seja tão difícil decifrar sobre o que falaremos aqui, principalmente se, em um futuro próximo, o mundo tiver voltado ao normal; aposto que essa data entrará para todos os livros de história existentes. Caso o contrário, se por acaso o mundo continuar nessa merda, você terá em primeira mão experiências de um grupo de jovens que juraram batalhar até o fim.
Começamos com 15 pessoas; este é o fim do primeiro dia, e nos restam 15. Só posso desejar que todos continuemos vivos, e o mais importante: juntos. Estamos temporariamente na casa d Draco Malfoy; pretendemos resgatar os membros restantes da família Weasley. Não sabemos o que o destino tem reservado para nós, mas espero que tudo saia bem e que eu nós possamos continuar contando nossa história. Talvez eu não tenha dado explicações o suficiente nessa primeira página, mas pretendo fazer isso amanhã; hoje estamos exaustos e são quase 23h, porém, continuamos aqui, e vamos ficar mesmo após nossas forças terem se esgotado.
Em memória de: Padma Patil
Ass: Hermione Granger
Na companhia de Draco Malfoy.
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