Dont Let Me Fall
43 Como o tempo passa...
Notas iniciais
Capítulo 43 – Como o tempo passa...
Alguns anos depois
Narrado por Matheus
Felipe era tão fofo dormindo, eu queria ficar eternamente deitado ao lado dele só para ver essa expressão que ele fazia. Infelizmente tive que levantar, meu expediente começava cedo, era tão ruim acordar quando o sol ainda nem tinha aparecido.
Tomei um banho para despertar e fui de toalha para o quarto, me vesti e por último peguei meu jaleco, colocando-o. Me dirigi à cozinha e fiz o café da manhã. Já tinha passado uma meia hora desde que levantei, o sol começou a dar seus primeiros indícios de raios da manhã, para levar embora aquele frio da madrugada.
Eu tinha que acordar Vinícius antes que ele se atrasasse para ir para a escola, preparei sua lancheira e fui até seu quarto.
–Filho, acorda... –O chamei tocando-o no ombro.
Ele se remexeu na cama, sonolento, enquanto esfregava os olhos.
–Não quero ir... –Disse Vini, manhoso.
–Você não gosta da professora Vitória? Ela ficará chateada se você faltar... –Falei abaixando perto da cama.
Ele fez um pouco mais de manha, mas consegui convencê-lo a se levantar, era sempre aquela luta de manhã, parecia que tinha pegado a mania de Felipe, ambos dorminhocos.
–O que você quer comer hoje? –Perguntei enquanto ele se sentava na cama.
–Panquecas iguais as da vovó Ana.
–Vou tentar... –Falei rindo. –Vá tomar banho enquanto isso, tá bom?
Ele se levantou, indo para o banheiro, e fui até a cozinha, pegar a receita que minha mãe tinha me dado, é claro que mesmo seguindo ao pé da letra as instruções, eu não conseguia fazer as panquecas iguais as dela, e Vinícius era quem dava o veredito final, quem diria que com seis anos alguém pudesse ser tão exigente.
Ao terminar, preparei o prato dele e fui até seu quarto, arrumando sua cama e deixando seu uniforme sobre ela. Coloquei sua lancheira dentro da mochila e ele apareceu, de roupão de banho e com os cabelos molhados.
–Vem, o papai vai te ajudar a se trocar.
Ajudei-o a colocar seu uniforme, e depois o tênis, ele ainda não sabia amarrar os cadarços, e sempre prestava muita atenção quando eu fazia os nós. Peguei o pente em cima da mesinha de seu quarto e penteei seus cabelos para o lado, que por serem lisos bagunçavam facilmente.
Fomos para a cozinha e nos sentamos à mesa juntos, eu achava muito importante aquela conversa que tínhamos na mesa enquanto tomávamos o café da manhã, mesmo que fosse por coisas bobas, às vezes Felipe também estava junto conosco, mas hoje era seu dia de folga, então resolvi deixá-lo descansar.
Assim que Felipe se formou, ele voltou para a cidade, deixando de morar no condomínio, para alugar um apartamento aqui, e saí da casa da minha mãe, levando apenas algumas coisas e fui para o apartamento com ele. Minha faculdade ainda duraria um tempo a mais, e eu teria que me especializar em alguma área se quisesse trabalhar, foi assim que segui o sonho de fazer pediatria.
E quando concluí o curso, eu e Felipe fomos comemorar, mas não como quando éramos jovens, indo ao cinema e essas coisas, pela primeira vez tivemos um jantar romântico, já havia um tempo que estávamos fazendo mais e mais planos para o nosso futuro, mas eu não imaginava que naquela noite receberia uma proposta tão... Séria...
Eu realmente não esperava aquilo, naquela noite Felipe estava todo calmo enquanto me fazia a pergunta mais importante da minha vida, e meu corpo gelava por completo. Olhando em seus olhos, eu mal acreditava no que eu ouvia, foi então que ele completou a frase abrindo a pequena caixinha, deixando à mostra duas alianças douradas.
–Quer se casar comigo, Math?
–I-Isso é s-sério Felipe? –Perguntei gaguejando, eu estava terrivelmente envergonhado, sem saber como agir.
–Não, na verdade era só uma desculpa para trocar as alianças, as nossas já estão meio velhinhas, né? –Felipe falou, em seguida rindo. –Claro que é sério, que pergunta boba...
Eu sorri, deixando as lembranças me dominarem, até que desperto dos meus devaneios.
–Pai?! –Chamou Vinícius.
–Oi?
–Você vai me levar na escola?
–Ah, vou sim, você já escovou os dentes?
–Já. –Diz ele com a mochila nas costas.
–Então vem... –Falei me levantando.
Já no carro, ficamos conversando durante o caminho, ele gostava de sentar na janela para observar as coisas da rua, e ele sempre me perguntava sobre as coisas que via, estava na fase dos porquês, era normal, até que ele diz algo que não era comum de seu interesse, e que me surpreendeu.
–Pai, quem é minha mãe?
Respirei fundo, e disse:
–Bom filho, eu não sei te dizer isso...
–Todo mundo tem uma mãe, menos eu, e eu não sei falar quando me perguntam quem ela é, e não entendem quando eu digo que tenho dos pais...
–Existem famílias diferentes, não são todas iguais...
–Mas... Me falaram que só pode ter um neném com um papai e uma mamãe...
–O quê?! Quem... Quem te ensinou isso? –Senti meu rosto ferver, não imaginava que teria que conversar aquilo com ele tão cedo.
–Eu perguntei pra tia Vitória da onde os nenéns saem...
–E o que ela disse?
–Ela me deu um livro, e nele fala que quando o papai e a mamãe ficam juntos, o amor deles faz um bebê aparecer dentro da barriga da mamãe...
–Mais tarde conversamos sobre isso, Vini. –Respondi engolindo seco.
Saí do carro e acompanhei Vinícius até a entrada da escola.
–Seu pai virá te buscar, fique o esperando, e não fale com estranhos...
–Mas pai, você não me respondeu...
–Eu já disse, nós vamos conversar mais tarde, eu prometo, tá bom? Vá para sua sala, a tia Vitória está te esperando...
Vinícius já ia entrando na escola, quando eu o chamei:
–Vinícius! Cadê o beijo do papai?
Ele veio correndo, e me abaixei, Vinícius beijou minha bochecha e voltou a correr para dentro da escola, ao ouvir o sinal bater.
Ele era uma criança esperta, e muito curiosa, mas às vezes esse seu lado observador me deixava com medo de que descobrisse coisas inapropriadas para sua idade. Ele nunca tinha comentado aquilo sobre sua mãe comigo antes, mas eu não poderia evitar, de qualquer maneira, eu sabia que aquilo aconteceria um dia...
Voltei para o carro, e no caminho, fiquei pensando sobre tudo aquilo. E quando chegasse a hora? E quando eu tivesse mesmo que conversar sobre ele ser adotado? Será que ele reagiria bem? Será que ele entenderia? Ele ainda é tão novo...
Quando completamos seis meses de casamento, Felipe e eu decidimos ter uma criança, fomos atrás de orfanatos, procurar entender um pouco mais sobre adoção. Mas nas primeiras tentativas, nosso pedido não foi aceito, e eu percebia que não havia nada de errado, tínhamos condições financeiras boas, e nossa entrevista tinha ocorrido perfeitamente bem, mas nos dois primeiros orfanatos que tentamos, percebemos a mesma reação dos diretores.
Saímos do apartamento e fomos para uma casa maior, já estávamos querendo ter mais espaço, e mais quartos, e conseguimos uma casa num ótimo local no centro, pensávamos que nosso pedido de adoção estava sendo recusado por conta do apartamento, que era um lugar pequeno para a criança crescer.
Depois de estabelecermos nossa vida nessa nova casa, tentamos novamente. Fomos a outro orfanato, onde havia crianças um pouco maiores, a diretora do local conversou comigo, fazendo algumas perguntas parecidas com as que eu já tinha ouvido nas outras duas vezes, e para finalizar, meu pedido seria concluído depois de fazerem uma pequena visita ao lar onde a criança passaria a morar.
Eu estava nervoso, não queria que desse errado como nas outras vezes, eu já tinha organizado um quarto somente para a criança, com brinquedos, várias prateleiras com decorações e bichinhos de pelúcia, não faltava nada, e a casa estava impecavelmente arrumada. Eu e Felipe recebemos a assistente social, que fez uma breve inspeção, conversamos um pouco mais sobre a adoção e ela disse que nos ligaria em breve.
Ficamos ansiosos esperando a resposta, e quando recebemos sua ligação, ela disse que o pedido tinha sido negado, não consegui dialogar com a mulher, passei o telefone para o Felipe e saí da sala, ouvi os gritos dele ao telefone, ele realmente estava nervoso, naquele momento, tínhamos entendido que o problema não estava na nossa casa, nem na nossa condição, mas sim em nós.
Éramos dois homens...
Descartamos a hipótese de ir novamente a outro orfanato, tinha outra maneira de adotar uma criança, era complicada, mas eficaz. Fizemos um cadastro no site da Vara da infância e juventude, entrando com a petição com todos os documentos necessários, demorou um tempo até nossos dados serem aceitos.
Mas depois seguimos todos os passos, mesmo sabendo que demoraria, não desistimos. Tivemos que colocar as características da criança que pretendíamos adotar, e como esperávamos um garoto de dois a três anos de idade, ficamos na lista de espera até alguma criança compatível ao nosso perfil estar disponível para a adoção.
Depois disso um psicólogo nos visitou, para conhecer o lar do menino, e conversar conosco. Todo esse processo durou mais de seis meses, e mal vimos a hora de chegar o período de adaptação para a adoção, que teríamos alguns encontros periódicos com o menino para irmos nos adaptando, e assim também, nos analisarem.
Mas o melhor dia foi a chegada permanente do nosso filho, depois de termos a guarda definitiva, o juizado emitiu uma nova certidão de nascimento já com nosso sobrenome, e com seu novo primeiro nome.
Vinícius tinha três anos quando chegou, ele era um bebê incrivelmente lindo, todos ficavam impressionados por onde ele passava. Tinha pele clara, olhos iguais aos de Felipe, e cabelos loiros, mas o mais importante, uma ótima saúde.
Quando Vini completou cinco anos de idade, decidimos adotar uma garota, que foi o mesmo processo, batizamos a pequena de Ana Luísa, ou como a chamamos, Ana Lu, isso foi ano passado, tudo aconteceu como da outra vez, e não houve complicações, ela chegou com um aninho de idade. A menina mais linda que eu já vi, com cabelos lisos escorridos e bem pretinhos.
Meus dois novos amores da minha vida...
Estacionei o carro ao chegar à clínica, olhei no relógio de pulso, tinha chegado na hora certa, dei bom dia para as senhoras secretárias que trabalhavam ali, e fui para a minha sala.
Eu tinha terminado de arrumar minha mesa quando recebi a primeira paciente, uma mulher idosa com sua netinha de cinco anos, a garotinha tinha sintomas de gripe e febre alta, fiz algumas perguntas, e depois a examinei.
–São seus filhos? –A senhora disse, apontando para o porta-retrato em cima da minha mesa.
–Sim. –Falei sorrindo.
–São lindos... A garota parece muito com você... –Diz ela enquanto olhava a foto em que Ana Lu brincava com Vinícius no quintal.
Agradeci a gentileza dela, e por fora eu agia normalmente, mas por dentro meu coração palpitava como um louco, de tanta felicidade. Imprimi a receita médica, carimbando com o logotipo da clínica, e assinando em cima.
–Prontinho. –Disse lhe entregando a receita. –Fique atenta, caso depois de ela começar a usar os medicamentos, aparecer alguma reação alérgica, recorra a clínica o mais rápido possível.
–Obrigada, doutor.
POV MATHEUS OFF
Narrado por Felipe
Acordei assustado com o barulho da baby sitter eletrônica, Ana Lu estava chorando. Fui até o quarto dela, e quando cheguei, Ana Lu estava em pé, dentro do berço, segurando a grade. Peguei-a no colo e disse:
–Calma, calma... O papai chegou...
Fui até o banheiro, enchendo a banheira com poucos dedos de água morna, para lhe dar um banho. E depois de já limpinha, a troquei, colocando um conjuntinho florido e arrumando seus cabelos. Na cozinha, deixei-a na cadeira alta para fazer sua comida e depois de alimentá-la, fiz meu almoço.
Tirei seu babador e a levei na sala, deixei o canal infantil ligado e a coloquei sentada em meu colo, virada para TV, ela ficava vidrada nos desenhos que passavam, mas de repente ficou enjoada, e começou a fazer manha, balbuciando coisas que eu não entendia.
–Quer brincar com o papai?
–Peta...
–Você quer pintar?
–Peta, peta!
–Ah, chupeta! –Levantei e fui até o porta-chupeta, que estava dentro da gaveta.
Mais tarde ficamos brincando com blocos, pega-pega, desenhos, e li alguns livros de conto de fadas que ela adorava, eu estava ficando exausto, mas quando vi, já tinha chegado a hora de buscar Vinícius, como a escola dele era em tempo integral, ele saía às quatro da tarde. Fui até o carro, colocando Ana Lu na cadeirinha, que estava com a chupeta na boca e segurava a boneca. Era fácil convencê-la a passear, ela adorava.
E quando chegamos em frente a escola, o portão tinha acabado de abrir, e ficamos olhando na janela, esperando Vinícius. Quando ele entrou no carro, perguntei se ele queria ir ao mercado comigo, ele sempre queria ir, sabia muito bem que eu não resistia quando ele pedia para que eu comprasse biscoitos.
POV FELIPE OFF
Narrado por Matheus
Cheguei em casa, e fui até a sala, as crianças estavam lá vendo TV e brincando, Vinícius estava colorindo um desenho e cheguei dizendo:
–Foi você que fez?
–Foi.
–Tá lindo, filho. –Disse dando um beijo no topo da sua cabeça.
No sofá uma criaturinha estava sentada, com a chupeta na boca, vendo seus personagens preferidos na TV, peguei Ana Lu no colo, a abracei, dando milhares de beijos na sua bochecha.
–Ah! Que saudade que o papai tava...
–E eu? Fico sem beijo? –Diz Felipe chegando.
Coloquei Ana Lu de volta no sofá e fui para o quarto, sem responder Felipe, e ele me seguiu:
–O que foi aquilo? –Diz ele chegando ao quarto.
–Você sabe que eu não gosto dessas coisas perto das crianças, principalmente do Vini, que começou a questionar as coisas...
–Que coisas?
Fui até a porta do nosso quarto e a tranquei.
–Adivinha o que ele me perguntou hoje?
–Não sei, o quê?
–Enquanto o levava para a escola. –Falei tirando o jaleco e o pendurando no guarda roupa. –Ele me perguntou quem era a mãe dele...
–O quê?!
–Fiquei sem saber o que fazer... Mas falei que existiam famílias diferentes. –Falei me sentando na cama.
–E aí? –Diz ele se sentando ao meu lado.
–Bom, ele me falou de um livro que leu, sobre precisar de um pai e uma mãe para ter um bebê. Eu nunca fiquei tão envergonhado, o que eu falaria para ele? Por fim acabei dizendo que nós conversaríamos hoje a noite, mas creio que ele não esqueceu, eu estou nervoso, não sei como fazer isso...
–Conversamos nós dois juntos com ele depois do jantar, que a propósito já está até pronto.
–Você fez o jantar?
–Pois é.
POV MATHEUS OFF
Narrado por Felipe
Arrumei a mesa com a ajuda de Matheus, e jantamos todos juntos, fizemos o máximo para não tocar no assunto da conversa durante o jantar, pois Vinícius parecia muito curioso.
Depois de colocar Ana Lu para dormir, e arrumar as coisas, Vinícius não parecia com sono, só cada vez mais curioso para conversar conosco. Falei com Matheus que era a hora certa, e nós fomos até a sala, sentando todos no sofá, e Vinícius no meu colo.
–Filho, lembra o que você disse pra mim? –Perguntou Matheus. –Enquanto conversávamos no carro você queria saber quem era a sua mamãe. E depois você me disse que pra ter um neném, precisava de uma mamãe e um papai, não é?
–É... –Disse Vini.
–Esse não é o único jeito de ter um bebê, filho... Sabe, existem famílias diferentes, como a nossa, e quando elas se amam bastante, podem ter um neném... –Concluiu Matheus.
–Eu, por exemplo, tenho duas mamães, e um papai. –Falei, entrando na lógica de Matheus.
Matheus viu que eu estava o ajudando, e disse:
–Mas existem famílias que são só duas mamães... Entendeu?
Vini gesticulou positivamente com a cabeça, e depois ligamos a TV, para vermos um filme com ele, com o passar do tempo, Matheus e Vinícius foram ficando sonolentos, e tratei de levar duas crianças para a cama, uma tinha seis anos, e a outra trinta.
Fale com o autor