Don't Go Breaking My Heart
1 S: you put the light in my life
Notas iniciais
Sirius Black
Sirius destrancou a porta de seu apartamento, nem acreditava que finalmente estava em casa. Ao entrar a primeira coisa que fez foi tirar o seu coturno e logo em seguida se jogar no sofá.
Estava exausto, talvez estivesse ficando velho. Com quase 30 anos, a sua estamina não era a mesma da adolescência. Provavelmente estava exagerando, mas, de fato, sentia-se muito cansado.
Normalmente quando tocava no Três Vassouras, voltava para casa pelas 3 da manhã no máximo, além de jamais ficar até tão tarde em dias de semana. Costumava também pedir abrigo a Marlene, já que ela morava em um apartamento em cima do bar, mas aquele havia sido um dia atípico.
James Potter, o seu melhor amigo, havia finalmente recebido uma promoção no escritório que trabalhava e tinha insistido que eles ficassem após o show para comemorar. E vamos dizer que as coisas haviam saído um pouco do controle e assim Sirius acabou chegando em casa às 8 horas da manhã de uma quinta-feira.
Pegou o celular no bolso e avisou Peter que ele não iria para loja naquela manhã, apenas após o almoço.
Sirius tinha uma loja de instrumentos musicais bem no centro de Londres. Havia montado ela quando terminou o Ensino Médio e anunciado para todos que não pretendia cursar faculdade. Portanto, como vinha de uma família muito rica, havia recebido uma grande ajuda financeira para montá-la. A única coisa que os seus pais se importavam era que ele não se envolvesse em escândalos e/ou morresse de fome ou algo do tipo, então o ajudaram sem hesitar.
Black Bass, a sua loja era sem dúvidas um dos seus bens mais preciosos. Amava passar o dia entre os instrumentos musicais e os discos. Ele ajudava desde crianças que estavam descobrindo sobre o mundo da música até senhores que procuravam por vinis do Elvis Presley. Também flertava com estranhos, que ocasionalmente rendiam bons momentos em seu escritório.
O cansaço havia mesmo tomado conta do seu corpo naquela manhã, mas a ideia de dormir com as roupas do dia anterior deixava Sirius enjoado. Precisava de um banho urgente para tirar todo aquele cheiro de cerveja e cigarros de seu corpo.
Quando venceu a preguiça e saiu do sofá, uma melodia familiar chamou a sua atenção. Olhou ao redor confuso, não se lembrava de ter ligado o seu rádio.
Don't go breaking my heart
(Não vá partir meu coração)
A música parecia entrar dentro de seu apartamento. Intrigado com aquilo, andou até a janela que dava acesso a saída de incêndio, em uma tentativa de identificar de onde vinha aquele som.
I couldn't if I tried
(Eu não poderia mesmo que tentasse)
Não era possível que alguém estivesse dando uma festa naquela hora da manhã, muito menos uma que a trilha sonora fosse do Elton John. Não que ele não gostasse, amava as músicas do cantor, mas achava improvável algo assim acontecer.
Ao se aproximar percebeu então que a música vinha seguida de um som de chuveiro. Provavelmente estava ouvindo a playlist de banho de algum vizinho.
E algum vizinho novo.
Portanto, ao invés de tomar o ato como exemplo e tomar uma ducha, sentou-se na janela e ficou escutando as canções. Queria julgar as escolhas da pessoa, porém, como um bom músico, ficou genuinamente impressionado com a playlist.
Lá para a terceira música, pegou um caderninho em cima da bancada da cozinha e começou a anotá-las. Estava encantado, ou até apaixonado com o set.
O chuveiro parou de fazer barulho e uma última música tocou. Dessa vez, Sirius pôde ouvir claramente a voz do estranho. Nunca havia ouvido alguém cantar com tanta veemência Mamma Mia do Abba, chegou a ficar preocupado.
Era claro que amava a música e sabia a energia única que passava. Mas a maneira como o indivíduo a cantava, parecia estar sentindo tudo aquilo naquele momento.
Olhou para as músicas que havia anotado e percebeu um padrão entre elas: era uma bela playlist de corno manso.
Talvez não manso, mas definitivamente corno.
O pensamento fez com que Sirius risse sozinho. Enquanto estava ali havia registrado um total de 8 músicas, além de Don’t Go Breaking My Heart, que era a mais positiva de todas elas.
Sirius começou a fantasiar sobre o que havia acontecido com o vizinho, enquanto pensava na letra de cada canção. Com isso se viu rabiscando uma possível história que ele julgava não ter tido ainda um final feliz.
“Mas a vida ainda continua / eu não consigo me acostumar a viver sem, a viver sem / viver sem você ao meu lado” I Want to Break Free, Queen.
Esse era um hino libertador para Sirius. Mas a sua intuição dizia que não era exatamente isso para o coitado de coração partido que morava ao lado. Será que a namorada dele havia o largado depois de anos de namoro?
E ele poderia estar sofrendo muito, pois ainda estava apaixonado por ela ou simplesmente não sabia como era uma vida antes de ter companhia.
“Ela me deixou um bilhete na porta / ela disse que não poderia, não poderia aguentar mais” She’s Gone, Bob Marley.
Quem sabe ele não fosse uma pessoa famosa? Poderia ser um ator e, por ter ficado meses na Escócia gravando uma série de época, negligenciou a sua amada e, ao retornar, ela já tinha feito as malas.
“Se eu pudesse voltar no tempo / se eu pudesse achar uma maneira / e retiraria todas as palavras que o magoaram / e você ficaria” If I Could Turn Back Time, Cher.
Então quando ele voltou e ficou sabendo do acontecimento falou coisas terríveis a ela. Porém, arrependeu-se amargamente e correu atrás dela, mas era tarde demais.
“Você pode contar todas as suas piadas desesperadas / para um mundo que coloca seu amor em espera” Cry Wolf, A-ha.
Bem, tal música deixou Sirius um tanto confuso. Quem sabe aquela era uma faixa apenas dramática, aquelas em que a letra pode não ter muita relação com o seu problema, mas de certa forma tocam a sua alma.
Definitivamente era isso.
“Pois nada dura para sempre / e nós dois sabemos que os corações podem mudar” November Rain, Guns N’ Roses.
Então, quem sabe nesse tempo que ele estava fora, a sua amada se apaixonou... pelo porteiro? Sim, pelo porteiro do prédio de luxo que eles moravam. E agora não queria se mudar e sim ficar para ela aquele que eles já dividiram.
Contudo, aquela parte não combinaria com a história que Sirius havia criado para a segunda música, She’s Gone. O que era um problema.
Tudo bem, aquela não tinha sido a melhor teoria, mas não a tornava menos real na cabeça de Sirius. Talvez a consagrada houvesse feito as malas, saído de casa e depois voltado e pedido pelo apartamento.
Perfeito.
“Eu tenho sido traída por você desde não sei quando / então eu decidi que isto tem que acabar / olhe para mim agora, será que algum dia aprenderei?” Mamma Mia do Abba.
Essa sem dúvidas havia sido a música que mais havia tocado o seu vizinho, provavelmente por ser a mais autobiográfica. O hino atemporal dos que já receberam chifres.
Como Sirius amava essa música e amava mais ainda uma performance dela. Lembrou-se que tinha que comprar ingressos para o musical quando voltasse para os teatros de Londres.
Rabiscou mais um pouco o seu papel, que continha todos os seus pensamentos sobre o vizinho desconhecido. Mais do que nunca sentiu que precisava conhecer o dono daquela playlist.
*
— Peter, você acha que dá para se apaixonar por alguém, apenas pelo gosto musical? — Sirius perguntou, enquanto se apoiava no balcão da loja.
O dia estava bem tranquilo. Sem muito movimento lá dentro, o que fez Sirius questionar se não deveria ter ficado em casa, afinal havia dormido muito mal. 2 horas de sono já não eram mais o suficiente para o seu corpo de quase 30 anos.
Mas era isso ou conseguir sair só no horário da transa semanal de Alice e Frank Longbottom. O casal vizinho, parecia ter um organizado horário para as suas atividades sexuais e Sirius infelizmente havia decorado, graças as finas paredes do prédio. Se coubesse a ele julgar, diria que eles tinham horários bem peculiares e Alice andava bem satisfeita.
— Sirius, eu tô tentando fazer a contabilidade do mês, não poderia ligar menos para isso. — Peter respondeu em um tom mal-humorado. Apesar de rabugento e, às vezes, um tanto desagradável, era um dos melhores funcionários de Sirius. — Alguém tem que trabalhar aqui.
— Olha como você fala com o seu chefe — respondeu, assumindo um falso tom sério. — Posso te mandar embora.
— Ai vai arrumar dois problemas, ficar com menos um funcionário na loja e sem um baterista para a banda — Peter disse com um sorriso debochado e Sirius se deu por vencido.
Talvez o romance estivesse morto, ele pensou enquanto observava um homem analisar a vitrine de sua loja e logo continuar a caminhar.
Estava intrigado com a própria curiosidade. Sabia que o estranho da playlist não morava ali há muito tempo e Sirius tinha certeza que nunca havia o visto andar por lá. Ele conhecia todos no prédio, desde os dois porteiros, o zelador, até cada morador dos três andares de residência.
Sentia que talvez devesse ficar sentado nas escadas da saída de incêndio para ouvir outras canções da setlist do estranho antes de tomar qualquer atitude precipitada. Um dia ele poderia acordar e, ao invés de Elton John e Abba, o seu vizinho poderia estar ouvindo We Built This City do Starship e ele seria obrigado a se mudar dali, pois não suportaria alguém com tamanho mal gosto.
O seu celular vibrou o tirando de seus pensamentos e o nome de James brilhou em sua tela.
prongs
três vassouras hoje, 20h
Ele suspirou. E antes que pudesse negar, várias outras mensagens apareceram.
prongs
pffff
hoje é noite de karaokê
e você sabe...
preciso de apoio moral
apoio moral para superar mais um toco de Lily Evans.
black
cara, você não dorme não?!
vc deve ta com uma cara de peixe morto,
deixa pra semana que vem isso
prongs
MAS HOJE É DIA DE TRILHA SONORA DE CINEMA
minha chance de mostrar meus dotes:
de canto
e de cinéfilo
É MINHA ÚNICA CHANCE
Sirius releu as mensagens, respirou fundo se segurando para não digitar que James dizia que toda quinta-feira seria a sua última chance de tentar conquistar a ruiva.
black
eu vou, mas você paga minha conta
*
Sirius chegou no bar e logo encontrou os seus amigos. Havia saído da loja umas 18h e só teve tempo de passar em casa para um rápido banho enquanto ouvia Bohemian Rhapsody. 6 minutos e 39 segundos eram o suficiente para uma ducha rápida sem lavar o cabelo, certo?
Já James, parecia que tinha vindo direto do trabalho para o Três Vassouras, ainda usava o seu terno cinza e tentava afrouxar o nó de sua gravata sem muito sucesso. Suspeitava que ele havia chegado há apenas alguns segundos antes de Sirius. E Lily Evans estava sentada em uma banqueta e conversando alegremente com Marlene, do outro lado da bancada preparando bebidas. Lily era uma das frequentadoras mais fiéis da noite do karaokê do Três Vassouras e a paixonite de seu amigo desde a primeira vez que ele a havia visto.
— Vou querer um Martini — James pediu, enquanto se juntava as meninas no bar. — Batido não mexido.
Sirius revirou os olhos ao ouvir a referência. O amigo era um cinéfilo e incurável fã do James Bond.
— James Potter, mais uma referência a 007 e eu te expulso do meu bar! — Marlene exclamou, apontando para a porta.
O comentário fez Lily engasgar-se com a própria bebida. Sirius massageou as têmporas. O seu amigo estava dando um show de vergonha alheia e, se continuasse dessa forma, aquela seria mais uma noite perdida.
— Okay, da próxima vez venho com uma frase de A Princesa Prometida — James respondeu cabisbaixo.
— Com certeza — Lily provocou, logo depois dando mais um gole em sua bebida. — Melhor um romance clichê do que um Dinossauro misógino.
Os olhos do garoto se iluminaram ao ouvi-la rebater com uma citação de 007 contra GoldenEye.
— Como quiser, Evans — James se aproximou dela e a olhou bem nos olhos. — Mas bem que você soube usar uma referência perfeita de um dos filmes dele. Talvez eu não seja mesmo o seu James favorito.
Aquela discussão ficava mais interessante a cada minuto. Sirius e Marlene só faltavam observar a cena com um balde de pipoca.
— Sabe um filme que você deveria referenciar? — James ouviu a ruiva com atenção, estava genuinamente interessado. — De Volta Para o Futuro, e aproveitar e ir de volta para casa — e com uma piscadela Lily se levantou.
Sirius riu e observou James ir atrás da garota igual a um cachorrinho. Como conhecia bem o amigo, provavelmente iria implorar por um dueto.
— Quando será que eles vão finalmente se beijar? — Marlene perguntou, já preparando uma cerveja amanteigada para ele. A essa altura da vida, Sirius não precisava mais pedir, ela sabia exatamente o que ele normalmente bebia.
Afinal, Marlene era amiga dele há anos. Ele havia ajudado inúmeras vezes a cuidar do bar, carregando caixas, montando mesas novas, além de performar todas as sextas religiosamente ali.
— Ela parece estar aguentando firme — comentou, observando o casal discutir sobre alguma coisa. Lily estava de braços cruzados e tinha uma expressão de desdém no rosto, enquanto James parecia tentar convencê-la de algo. — Mas não sei... talvez daqui há um mês?
— Boa estimativa — Marlene pontuou. — Eu dou uns 3 meses, Lily é boa em se fazer de difícil.
Não demorou muito para James Potter e Lily Evas subirem no palco. Pelo que parecia a noite do amigo estava indo perfeitamente bem e nem havia precisado da ajuda de ninguém para isso.
O casal saiu do palco pingando de suor e Sirius podia ver a satisfação no rosto de seu melhor amigo. Talvez James havia conseguido alguns pontos com Lily naquela noite, pois havia a convencido de cantar You're The One That I Want do Grease e juntos conseguiram mais de 90% da pontuação do karaokê.
— Da próxima vez quero ver vocês com a trilha sonora de Dirty Dancing! — Marlene gritou animada.
— Com direito a coreografia — Sirius completou.
Lily olhou para os dois com desdém — única expressão que ela parecia ter quando estava muito próxima de James — e pediu um Cosmopolitan no bar, deixando um James com um sorriso bobo e muito satisfeito para trás.
O restante da noite baseou-se em Sirius tentando se manter acordado, ir ao palco tentar cantar Live and Let Die do Paul McCartney e depois fazer um dueto de Endless Love com James. O dueto foi capaz de agitar todos na plateia. Era um misto de risadas e pessoas cantando junto dos dois, além de gritos de incentivo.
Por fim, não conseguiram nem chegar aos 50%, afinal, naquele momento, a performance era mais importante que os vocais e a salva de palmas após descerem do palco.
*
Sirius chegou em casa um pouco antes da meia-noite e, como uma cena de um filme melancólico, tirou as suas botas ao som distante de Vienna do Billy Joel, que vinha do apartamento de seu novo vizinho. A melodia suave e lenta parecia massagear os seus músculos cansados e preencher o seu peito de uma estranha nostalgia. A sua mente foi bombardeada de lembranças do seu irmão, que era um grande fã da canção, e Sirius não pôde evitar ficar triste ao se recordar disso.
Notou que a playlist do banho da noite era mais melancólica e reflexiva, do que a do banho da manhã. Cada vez ficava mais impressionado com o gosto impecável do estranho.
Sirius sentiu as mornas lágrimas descerem por suas bochechas, enquanto se livrava da jaqueta de couro, deixando-a largada no sofá. Fazia muito tempo que também não sabia o que era chorar. Passou pela janela e sentou-se nas escadas da saída de incêndio, pela segunda vez naquele dia. Com a cabeça encostada na parede, fechou os olhos apenas se deixando levar por alguns segundos. A noite estava fresca e Sirius já não sabia se era o vento frio que estava deixando os seus braços arrepiados, a letra da música ou as suas lembranças, que ele tinha atreladas a ela.
Too bad, but it's the life you lead
(Uma pena, mas é a vida que você tem)
You're so ahead of yourself that you forgot what you need
(Você está tão à frente de si mesma que esqueceu o que precisa)
Assim que a melodia cessou, Sirius ficou imóvel ali na esperança da próxima música que nunca começou. Pelo horário em seu relógio, desconfiava que o vizinho havia ido dormir, coisa que ele deveria fazer também. Porém, apesar de estar quase 48h acordado, naquele momento ele se sentia desperto demais.
Ficou ainda uns minutos pensando no possível significado dessa música para o estranho ao lado. Já que, nas primeiras notas do piano, Sirius havia sido inundado com uma saudade e uma sensação de solidão que nem mesmo ele sabia que habitava em seu peito.
Amava o poder que a música tinha.
Saiu da sacada quando começou a sentir frio e foi tomar um banho. Cantarolou a música de Billy Joel enquanto sentia a água morna cair pelo o seu corpo. Sabia que não iria sossegar até conhecer o dono das playlists que havia ouvido naquele dia.
Talvez ele devesse fazer a sua própria playlist e enviar para ele.
Talvez.
*
Havia muito tempo desde a última vez que Sirius acordou tão disposto antes de 10 da manhã.
Saiu de sua cama e foi logo lavar os cabelos, que estavam oleosos e inapresentáveis. Felizmente não precisou pensar em uma trilha sonora, o seu vizinho havia pensado em tudo e a doce voz de Tracy Chapman ecoava por todo o seu banheiro, como se ali fosse a fonte da música.
Maybe we can make a deal
(Talvez possamos fazer um trato)
Maybe together we can get somewhere
(Talvez juntos nós possamos ir para algum lugar)
Sirius amava músicas longas e sabia que Fast Car tinha quase 6 minutos. Tempo o suficiente para as duas passadas de shampoo em seus fios.
Anyplace is better
(Qualquer lugar é melhor)
Starting from zero, got nothing to lose
(Começando do zero, não teremos nada a perder)
Enquanto massageava o seu couro cabeludo, ficou imaginando que o seu vizinho talvez tivesse acordado de bom humor naquele dia e ele seria abençoado com uma bela playlist calma, mas não sofrida como a do dia anterior. Pois, apesar da letra não ser das mais alegres, a melodia da canção fazia crescer uma sensação boa e positiva no peito de Sirius.
Maybe we'll make something
(Talvez nós façamos algo)
Me and myself, I got nothing to prove
(Eu mesma não tenho nada para provar)
Algumas músicas depois, Sirius terminou o seu banho e o vizinho aparentemente também.
Colocando a roupa, pensou no que poderia fazer para conhecer o estranho de bom gosto musical, ou pelo menos ter acesso a conta do Spotify dele.
Foi trabalhar pensando em uma solução para aquietar a sua vontade.
Os pensamentos o acompanharam o dia todo, de forma que, quando voltou ao final da tarde, fez questão de perguntar sobre o novo morador do prédio para o porteiro, que apenas sabia que ele era um professor e havia se mudado para ali há alguns dias.
Tentou falar com Alice quando a encontrou no elevador, que parecia recém-chegada do trabalho também. Tudo que ela soube dizer era que havia esbarrado com ele no corredor e o descreveu como “tímido e gentil”.
Sirius bufou, sentindo-se levemente derrotado. Mal sabia ele que estava prestes a entrar em uma rotina quase de stalker, graças a sua tamanha curiosidade.
A próxima semana de Sirius consistiu da seguinte rotina: acordava cedo, ouvia as canções que o estranho colocava para tocar e tentava, sem grandes resultados, cruzar com ele nos corredores.
Testou ficar na porta da frente até o vizinho sair para trabalhar, mas todos os imprevistos do mundo pareciam querer separá-los. Primeiro foi o alarme de Sirius que foi acionado, porque esqueceu da sua torradeira ligada. Depois foi James, que bateu o carro e ligou com urgência para Sirius ir ajudá-lo. Além das diversas manhãs que ele havia acordado atrasado demais para aparecer no corredor.
O destino e a incompatibilidade de horários dos dois estavam o enlouquecendo.
Após muitas playlists cheias de músicas do Abba e divas do pop, Sirius teve uma ideia, enquanto terminava de amarrar o seu coturno, antes de ir para o trabalho.
Resolveu que se não conseguia se encontrar com o estranho, talvez fosse melhor ele mesmo se apresentar.
E Sirius tinha o modo perfeito para fazer isso.
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