Don't Go Away - Capitulo Unico
1 Don't Go Away
Notas iniciais
O misto de sentimentos e pensamentos que torturavam aquele pequeno e frágil corpo feminino eram tão intensos, que era um milagre que ela conseguisse força para viver sua vida normalmente. Ela já havia tentando de todas as formas, fosse convidando- o para um simples café — “Preto e com duas colheres de açúcar, estarei lá em cima!”, foi a curta e seca resposta que ouviu — ou fosse se arrumando para chamar sua atenção durante uma festa de natal. Ela ainda se lembrava dele revirando os olhos, com ar de impaciência, quando a viu. Reação bem diferente da que ela desejava.
Ela tentou seguir em frente, mas todos os caras com quem saia serviam apenas para tentar chamar a atenção dele ou para substituí-lo, numa outra tentativa, totalmente vã, de enganar a si mesma. Nada adiantava. Nada do que fizesse poderia tirar o sentimento que ela inutilmente nutria por ele.
- Molly, por favor, preciso da análise dessa substância em 10 minutos!
Aquela voz, aquela incrível voz. Sua inteligência, suas maneiras tão polidas, seu jeito infantil. Tudo nele era encantador aos seus olhos. Como ela poderia resistir? Ela queria que ele a notasse, ela queria que ele contasse com ela, que precisasse dela, então por que ela respondeu daquela forma?
- Você é formado em química, não pode analisar você mesmo?!
Sherlock retirou seus olhos do visor do microscópio e encarou a garota surpreso. Molly abaixou o rosto, fingindo continuar concentrada nas suas pesquisas. Tentava evitar olhar para Sherlock, sabia que ele a estava encarando e a analisando nesse exato momento.
- Algo errado, Molly? – perguntou o detetive. Molly ruborizou.
Por que dissera aquilo? Não era culpa dele! Ele era um sociopata, ela sabia disso. Sabia que ele tinha dificuldade em lidar com sentimentos, dos outros e os dele. “Janine” – respondeu uma voz em sua cabeça. Ele afinal, não estava namorando com ela? Foi isso que um atônito John disse na tarde do mesmo dia em que o trouxera para o exame de urina. Ela sempre acreditou que ela não o teria, mas a confortava saber que nem ela e nem ninguém o teria, por que ele não suportava esse tipo de relacionamento. Mas então, Janine o conquistara. Ela se lembrava dessa moça no dia do casamento, fizera par com Sherlock. Janine era linda, será que por isso Sherlock havia topado ficar com ela? Talvez ele não tivesse um problema real de relacionamento, talvez só não quisesse ficar com ela.
- Molly?! – chamou de novo o detetive.
- Sherlock, estou tentando me concentrar aqui, por favor! – disse Molly, agora virando-se de costas.
Um breve momento de silêncio tomou aquele laboratório, porém era apenas o silêncio físico pois havia muito barulho dentro das cabeças de Molly e Sherlock.
- Você não veio me visitar no hospital quando levei aquele tiro. – comentou de repente Sherlock, enquanto voltava sua atenção para o microscópio.
- Eu não queria atrapalhar...- Molly parou de falar. Sabia que se continuasse, Sherlock iria perceber seus sentimentos. Ele iria notar toda a amargura e ciúmes que estavam tomando conta dela naquele exato momento, e se ele percebesse isso, ela sabia que ele iria zombar dela.
- Atrapalhar?! – repetiu Sherlock – Como uma visita a um amigo ferido poderia atrapalhar?!
- Eu não sei, Sherlock! – respondeu Molly, visivelmente irritada.
Sherlock analisou Molly por um tempo, ela tentou evitar seu olhar o máximo possível. De repente, ele sorriu. Molly pode sentir seu coração gelar quando o ouviu dizer:
- Ohh, Janine! Deixe- me adivinhar, John contou para você que eu estava em um relacionamento sério com Janine, a madrinha do casamento de Mary!
Molly respirou fundo, numa tentativa de buscar auto-controle. Sherlock continuou.
- Então, isso explica esse seu mau – humor, visto que você sempre foi...
- Basta, Sherlock! – interrompeu Molly. Não aguentava ouvir mais nada. – Basta!
Sherlock parou de falar. Molly finalmente virou-se para ele e o encarou. Os olhos dela estavam lacrimejando e sua face estava com um tom avermelhado.
- Eu cansei! –continuou – Cansei totalmente disso! Cansei de gostar de você e de esperar que você me notasse, cansei de me fazer de difícil para me fazer as coisas que você me pede, só para ouvir você me elogiando. – Sherlock iria interromper aqui, mas Molly não permitiu – É, eu sabia que nenhum daqueles elogios eram sinceros! Eu sabia que você só os dizia para que eu fizesse o que você me pedia, e quer saber?! Eu poderia fazer o que você me pedia na mesma hora, só dava desculpas para ouvir você me elogiando, mesmo sabendo que os elogios eram falsos. Quão patética eu sou, não é?!
Molly já não segurava mais seu choro e sua tristeza, mesmo diante de Sherlock.
- Eu não aguento mais tentar seguir em frente, mas sempre voltar para o seu lado, e secretamente, nunca ter realmente saído do seu lado! Sempre me preocupando com você, sempre tentando ter notícias suas através de John ou Mary! Quão baixo uma pessoa pode chegar?! – Molly respirou fundo. Sherlock a olhava confuso, ainda estava absorvendo tudo o que tinha ouvido até agora.
- Eu não posso mais viver assim! Me desculpe, Sherlock!
Molly saiu correndo do laboratório, deixando um Sherlock confuso para trás.
Sherlock ficou por bastante tempo sem se mexer. Dificilmente até piscava. Estava absorvendo tudo o que tinha ouvido de Molly. Não era segredo nenhum para ele os sentimentos que a legista nutria pelo detetive, ele sempre soube, desde o primeiro dia. Sempre soubera e sempre os evitara.
Mas apesar disso, Molly sempre esteve ao seu lado, ajudando-o em tudo que precisava, como um cachorrinho. Sim, era dessa forma que Sherlock via Molly no início: como um cachorrinho inteligente que o ajudava e o seguia por toda a parte. Ao perceber isso, Sherlock censurou seus próprios pensamentos. Como poderia pensar dessa forma?! Quantas vezes usara os sentimentos de Molly para seu benefício! A visão de Molly chorando, estafada daquela situação, trouxe à tona um pensamento em Sherlock: “Eu realmente não a mereço! Mas eu a avisei, não?! Avisei para ela não se envolver comigo! Eu disse que isso só iria magoá-la!”.
- Sherlock! – chamou John.
- John?!- disse Sherlock olhando para o lado e vendo o amigo o encarando – Quando você chegou?
- Há...- John olhou para seu relógio – Trinta minutos! E faz exatamente trinta minutos que estou te chamando! Está tudo bem?!
- Sim! Estou só pensando!
- Cade Molly?! Ela não iria ajuda-lo com as análises enquanto eu interrogava aquela noiva maluca?
- Molly teve um contratempo! – respondeu Sherlock, desconversando. – Ela teve que sair!
- Contratempo?! – repetiu John preocupado – Que tipo de contratempo? Será que ela está bem?
Sherlock suspirou impaciente, não queria falar sobre esse assunto agora.
- Ela está bem! Só teve um contratempo! Podemos falar de outra coisa, por favor?! – disse mentindo. Ele sabia que ela não estava bem e nem sabia se ia ficar tudo bem. Ela nunca havia explodido com ele daquela forma antes.
- Vamos embora! – disse o detetive por fim, pegando seu casaco e saindo do laboratório. Ele tinha que sair de lá, precisava desvendar um caso e não tinha tempo para pensar em Molly Hopper agora.
John olhou confuso para o amigo e o seguiu.
No dia seguinte, Sherlock e John tiveram que voltar para o laboratório. Era necessário terminar as análises. Sherlock estava apreensivo, mas talvez Molly estivesse mais calma, talvez ela tivesse notado que aquele namoro com Janine não passava de outra de suas manipulações. Caso ela tivesse descoberto, Sherlock sabia, ela estaria envergonhada por ter sido tão injusta com ele. Mas apesar de todas as probabilidades que Sherlock formava em sua cabeça, em nenhum momento ele pensou na que realmente havia acontecido.
- Se demitiu?! – repetiu Sherlock surpreso e incrédulo.
- Por que se demitiu?! – perguntou John à figura do homem gordo e de óculos que estava no laboratório de Molly e Sherlock.
- Sim, se demitiu ontem à noite! – explicou o homem – Disse que tinha que viajar para resolver problemas de família!
- Família?! Que família?! – começou Sherlock, visivelmente alterado — Seu pai foi embora quando ela era ainda criança e sua mãe morreu há quatro anos! Ela é filha única e não conhece seus tios, logo, presumo que também não saiba da existência de nenhum primo, então...
Sherlock parou de falar. Não havia família nenhuma! O motivo de Molly Hopper ter ido embora, era ele.
- Sherlock, sabe de alguma coisa?! – perguntou John vendo a expressão no rosto do amigo.
- Não! – mentiu secamente — Eu não a conheço tão bem! – Sherlock virou-se para o homem gordo — Quero a análise dessas cinco substâncias feitas quando voltar – Sherlock ia sair pela porta, mas virou-se novamente para o homem gordo que assumira o lugar de Molly e complementou – por favor!
John pareceu surpreso pela reação do amigo. Sabia que Sherlock conhecia o motivo da demissão inesperada de Molly.
- Sherlock, aonde vai?! – perguntou o amigo, já imaginando a resposta.
- Tenho que resolver umas coisas! John, fique aqui e ajude nosso novo amigo com as análises!
John sorriu e concordou.
- Sherlock, só uma coisa – chamou o amigo, fazendo a cabeça de Sherlock reaparecer pela porta – Molly está lá em casa, com Mary!
Sherlock ficou meio sem-graça e John parecia se divertir com isso.
- Molly, tem certeza?! – perguntou Mary a amiga que estava sentada em seu sofá.
- Sim, eu acho melhor eu ir mesmo! Posso arrumar um trabalho no interior, só não posso mais ficar aqui! – respondeu Molly.
- É por causa do Sherlock, não é?!
Molly pareceu meio sem graça.
- Sei que o namoro dele com Janine foi uma mentira, sei que fui injusta explodindo com ele por causa disso também. Até poderia dizer que explodir injustamente me deixou tão sem jeito, que esse é um dos motivos de eu não querer vê-lo mais, mas não é! Eu não posso mais continuar com isso, Mary! Se eu não me afastar definitivamente dele, tenho certeza de que nunca conseguirei seguir com a minha vida! Se eu continuar a vê-lo, nunca deixarei de amá-lo e de nutrir esperanças!
Mary abraçou a amiga. Um abraço confortante, daqueles que só mães dão.
- Minha querida – disse Mary ao pé do ouvido de Molly, enquanto a abraçava – Temo que você nunca deixe de amá-lo, mesmo que vá para bem longe!
Molly concordou com um aceno de cabeça.
- Eu sei disso! – respondeu Molly com a voz embargada. – Mas eu preciso tentar!
As duas limparam as lágrimas de seus olhos, sorriram e se abraçaram de novo.
- Mary, obrigada! – disse Molly a amiga – Obrigada por tudo, você foi uma grande amiga e foi um prazer enorme tê-la conhecido!
- O que está dizendo?! Pode fugir de Sherlock à vontade, mas certamente não fugirá de mim e de John!
Molly riu.
- Queria pedir desculpas também, por ter mandando todos aqueles sms’s quando Sherlock levou aquele tiro! Você também estava com as suas complicações, então eu...
Mary a interrompeu.
- Molly, querida! Por favor, não! Como mulher, acredite, eu sou capaz de te entender! Não precisa me dar explicações!
Molly sorriu novamente para a amiga e concordou. O celular de Mary tocou nesse instante.
- Ah, é John! Só um segundo! – Mary atendeu – Oie querido! Sim, ela ainda está aqui comigo! – Molly olhou para Mary, intrigada. Era dela que eles estavam falando? – Não diga! Sério?! Tem certeza?! — Mary tapou o bocal do telefone e disse à legista – Molly, eu acredito que você vai receber uma visita em 3...2...
Ao falar “1”, Sherlock abre a porta da sala e vê as duas mulheres sentadas olhando para ele. Molly estava totalmente surpresa e não emitiu uma única palavra.
- John, ele chegou! Vou desligar agora, ok?! Até a noite! – Mary desligou o celular e foi até Sherlock – Achei que você não ia chegar nunca! — Mary se aproximou e sussurrou para o detetive — Você tem dez minutos até ela ir embora para poder pegar o trem no horário, aproveite-os!
Mary subiu as escadas e deixou os dois sozinhos.
Molly ainda estava visivelmente em choque, Sherlock se aproximou do sofá aonde ela estava sentada, mas não se sentou ao lado dela, permaneceu em pé.
- Ia embora sem se despedir?! – perguntou Sherlock, tentando ganhar tempo.
- Eu ia escrever uma carta!- respondeu Molly de cabeça baixa, claramente envergonhada – Não poderia encará-lo mais depois da minha explosão de ontem!
- Você acha que eu tive um relacionamento com Janine, mas não passou de uma fachada para um caso! – explicou Sherlock.
- Eu sei – confirmou Molly – Mary me contou! Mas Sherlock, mesmo que você tivesse tido, eu não tinha o direito de explodir daquela forma com você! Você tem sua própria vida, e eu não tenho o direito de ficar brava pelas decisões que você toma!
Sherlock pareceu surpreso ao ouvir isso da boca de Molly, considerando que ela o esbofeteara alguns dias atrás por ele ter voltado a usar substancias ilícitas .
- O que quero dizer é que, não é por que eu sinto algo por você que eu devo esperar que você sinta algo por mim, ou que deva ficar brava quando você não corresponde às minhas expectativas. Eu nem deveria nutrir qualquer tipo de expectativa, o problema é que eu não consigo evita-las!
- Você tem sentimentos, e sentimentos não são possíveis controlar! – disse o detetive. Molly riu.
- Sim, você está certo! – concordou Molly.
- Em todo o caso, — começou o detetive – embora a maioria das pessoas acredite que eu não possa sentir nada, posso garantir que se você for embora, sentirei terrivelmente a sua falta!
Molly engoliu em seco, não sabia o que responder a isso. Sherlock, notando o silêncio da legista, continuou.
- Molly, eu sou um perfeito babaca, e sempre disse isso a você! Me considero casado com meu trabalho e nunca quis relacionamentos para que ele não fosse prejudicado!
- Eu sei, mas..- Começou Molly, mas Sherlock a interrompeu.
- Eu me lembro claramente de ter dito à você para não se envolver comigo! Disse que eu tenho dificuldades de sentir as coisas, de me importar com as pessoas e de levar qualquer sentimento em consideração! Expliquei a você que eu sou frio e calculista e que no geral uso as emoções alheias para meu próprio benefício!
- Mas você não é assim, Sherlock! – disse Molly se levantando e ficando frente a frente com o detetive – Você se importa com as pessoas, se importa com John, com Mary, com a Sra, Hudson e até com seu irmão! Você é capaz de fazer qualquer coisa por eles! Você é justo e bom, mesmo sendo excêntrico às vezes!
Sherlock sorriu.
- Molly, você sempre foi capaz de enxergar além do que eu sou! – ele acariciou o rosto dela, Molly ruborizou e Sherlock sorriu ao vê-la dessa forma pelo simples toque dele. – É por isso que eu não posso deixar você ir!
Molly o olhou surpresa. Nunca havia imaginado ouvir essas palavras da boca de Sherlock. Isso estava mesmo acontecendo?!
- O que eu vou dizer e o que vou fazer agora, provavelmente serão as coisas mais egoístas que poderiam surgir de mim! – disse Sherlock – Fique, Molly! Eu não posso prometer um relacionamento agora, mas eu prometo que vou trabalhar minhas dificuldades para que isso aconteça, para que eu possa ter um relacionamento sério com você! Só, por favor, não vá embora! Não fique longe de mim!
A legista entrou em choque. Não sabia o que fazer ou o que dizer. Jamais imaginara tal coisa. Ela sabia, que com certeza, estava com a expressão mais boba que sua face poderia fazer. Então, de repente, sem nenhum tipo de aviso prévio, Sherlock a beijou.
Um beijo tímido e sem jeito, mas que conforme ganhava prática, se tornava mais profundo e carinhoso. Molly sentia-se no céu, ela estava realmente beijando os lábios daquele homem. Quando finalmente se separam, Sherlock sussurrou para a moça:
- Sabe Molly, acho que afinal nem vou demorar tanto tempo assim para trabalhar minhas dificuldades!
Molly riu. Um riso entre as lágrimas de felicidade. Uma felicidade que só ela, e talvez Sherlock, conseguiriam explicar.
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