Um jovem andava pelas ruas enlameadas de Berlin com sua jaqueta de couro. Era muito alto e atraente, mas não gostava de chamar atenção fora do palco, por isso era discreto. Resolveu entrar num café que frequentava desde a adolescência, onde os preços eram baixos e a comida era boa. Não havia mesas vazias, como de praxe, mas ele delicadamente se aproximou de uma onde havia apenas uma jovem mulher, tão discreta quanto ele mesmo. Perguntou-lhe se poderia sentar-se e ela assentiu, sorvendo do seu café puro.

Till estranhou a escolha dela, porque ele mesmo se arriscava pouco a pedir café puro. O atarefado garçom logo veio atendê-lo e como numa demonstração de "poder masculino" pediu um café puro, sem açúcar. A moça riu. – Posso saber o motivo do riso, srtª...?

– Rafaela.

E ele agora reparou em como seus lábios, ao pronunciar o F faziam um perfeito e delicado coração rosado. – Se você tenta me provar alguma coisa peço que refaça seu pedido, por que o café está especialmente forte hoje.

A forma como ela dizia aquilo, a fina ironia que beijava seus lábios naquele sorriso de canto, o encantaram. Porém, o tom dela era de advertência e Till preferiu não arriscar, e também por que passar por idiota com uma senhorita tão fina quanto ela era simplesmente... idiota. E ele pediu café com leite. Ela também sorriu com o novo pedido, mas dessa vez foi um riso sensato.

Rafaela, que não dissera seu sobrenome de propósito, lia um folhetim de música, desses que hoje em dia não mais existem. Num dos anúncios que ela marcara, ele notou, estava a chamada para vocal de apoio de uma banda. Era o que ele precisava saber. – Você canta? – Ela hesitou, pois ele podia fazer aquilo de propósito; lembrou-se da careta de seu pai ao saber o que ela pretendia fazer com seu talento e imaginou se aquele rapaz não seria um dos seguranças de Alyandra, para impedi-la de ir à audição. Sensata, respondeu que não.

– Então por que marcou um anúncio de vocal de apoio?

– Gostei da imprensa dele.

– Não tenho tanta certeza assim. E por que está nervosa, olhando para o relógio à minha esquerda por sobre o meu ombro? – Till fez uma pausa, esperando uma resposta, e como ela não viesse sorveu de seu café e prosseguiu em seguida: – Olha, eu venho de lá e a fila está enorme. Se você quiser ter uma chance é melhor correr.

Rafaela hesitou ainda mais, poderia ser uma armadilha. Mas e se ele falasse a verdade? Se a fila fosse tão grande assim ela certamente não seria ouvida, e sua voz se tornaria novamente enfeite dos saraus de sua mãe. Sua feição altiva desvaneceu deixando a delicada e insegura mulher que não tinha experiência à mostra. Sem notar o que fazia Till disse:

– Ou você pode cantar para mim.

Notas finais
A autora aprecia comentários.