Dont Cry
1 Dont you cry tonight, I still love you
Notas iniciais
Boa leitura.
Mais uma briga. Isso já havia se tornado constante na vida de Kohara e Shinji. Fosse por ciúme incabido de uma das partes, ou de ambas, fosse por Shinji sempre deixar roupas espalhadas pela casa, ou porque o loiro odiava os tão adorados filmes de terror do moreno. O fato é que as brigas antes inexistentes se tornaram diárias, qualquer ínfimo detalhe era motivo para colocar o apartamento que os dois dividiam a três anos, sendo os últimos quatro meses de brigas, praticamente abaixo.
Como agora, que Shinji chegara do trabalho duas horas mais tarde e Kohara simplesmente não aceitava que a culpa fosse do caótico trânsito de Tóquio.
Mais um vaso de vidro voava em direção a cabeça de Shinji, se espatifando contra a parede da sala, e o moreno se amaldiçoava por deixar tantos objetos perigosos em sua casa, sabendo da fúria assassina de seu namorado.
– Fala a verdade Amano! Diz logo onde você se enfiou por duas horas! – o loiro gritava, e mais um objeto era lançado em direção ao moreno, desta vez um dos fragmentos de vidro fazendo um leve corte em sua bochecha.
– Eu disse a verdade Kohara, se não acredita em mim ligue o rádio e descubra sozinho como o trânsito está. – o moreno já havia perdido a paciência, tudo que fez foi desviar novamente do que Shou lhe atirava, se trancando no quarto do casal, sem se importar se o loiro faria o que havia dito ou não.
Ama Kohara, mais do que já havia amado alguém em sua vida que não fosse da própria família, afinal, o amor entre familiares não se assemelhava em nada ao amor de amantes, físico em certos momentos, porém completamente intenso e verdadeiro que sente por Kohara. O amor que os dois partilham é algo mágico, que encanta e completa, só quem já sentiu é capaz de entender. Mas dessa vez Kohara havia exagerado, e Shinji não daria o braço a torcer. Jamais engoliria seu orgulho, não foi a toa que lhe deram o apelido Tora durante a faculdade.
Enquanto este analisava todos os acontecimentos desde o início de seu namoro com Shou, o último ouvia desesperadamente as notícias sobre o trânsito, constatando que Shinji lhe dissera a verdade e percebendo o quanto foi estúpido.
– Eu sou mesmo um idiota Shin... – murmurava para si mesmo, sabendo que o moreno não ouviria, tentando entender como um relacionamento tão lindo caiu nessa rotina desgastante. Era isso que Shou mais temia, o lugar em que esse desgaste os levaria. Seria melhor terminar a relação e tentar seguir em frente? Ou continuar nesse inferno até que alguém acabasse morto? O que seria pior, separar duas pessoas que se amam, para que ambas tentassem seguir suas vidas separadamente, ou forçar algo que já beirava o fim, embora admitir isso fosse como cravar uma estaca em seu coração?
Sem pensar bem em como agir, o loiro caminhava até o quarto onde sabia que o namorado estaria, pensando no que poderia falar, no que poderia fazer, em como pedir desculpas, pois Shou sabia que nem todo seu orgulho sem comparava a um milésimo do orgulho de seu tigre. Seu. Sempre utilizava o pronome possessivo com o moreno, será que inconscientemente o tratava como uma propriedade e não um ser humano? Tantas dúvidas, tantas suposições, tantos questionamentos. Kohara nem ao menos se deu conta de quando atravessou a porta do quarto, voltando a si somente quando seus olhos e os de Shinji se encontraram, notando o corte já devidamente tratado no rosto do moreno, sentindo as cascatas de lágrimas deixarem seus olhos, e pedindo perdão, lançando-se nos braços de Shinji.
– Me perdoa Shin, eu sou um maldito idiota cego e ciumento, por favor, me perdoa. – Kohara dizia aos prantos, tornando transparente com suas lágrimas a camiseta branca do moreno.
Tora nada respondeu. O silêncio do moreno cortava o coração de Shou, que erguia seu rosto, encarando profundamente a expressão indecifrável de Tora, antes do mesmo lhe puxar em um beijo sedento e necessitado, lhe dando todas as respostas que procurava. Kohara sorria entre o beijo, ignorando completamente o fato de minutos atrás ter cogitado a hipótese de findar sua relação com Shinji.
– Eu te amo Kohara, por mais que eu tente, não consigo ter raiva de você. Talvez uma irritação passageira, nada mais que isso.
– Mesmo que eu tenha destruído os vasos chineses que sua mãe lhe deu e que com certeza ela vai perguntar onde estão quando vier nos ver? – Shou abria mais o sorriso, as lágrimas parando de cair.
– Mesmo você tendo feito isso. Cá entre nós, aqueles vasos eram horríveis, você me fez um favor ao quebrá-los. E nós sempre poderemos culpar o gato. – dizia rindo e apontando para a bola de pêlos que dormia tranquilamente sobre os travesseiros do casal, como se a briga de instantes atrás tivesse sido em outra dimensão. – Como esse bicho conseguiu dormir com toda aquela confusão na sala?
– Não sei, vocês que são felinos que se entendam. – O loiro dizia rindo, aquela gargalhada única e maravilhosa, capaz de derreter até mesmo um iceberg, parando de rir somente quando o moreno o puxou para seu colo, se acomodando entre suas pernas, beijando-o intensamente e acariciando seus fios descoloridos, enquanto os braços de Shou contornavam os ombros do moreno, colando-o ao próprio corpo, quase fundindo os dois com aquele abraço.
– Shin... O que acha de irmos beber naquele bar que fica na beira da estrada que sai de Tóquio? Eu ouvi que o trânsito está melhor, e como nosso apartamento é bem longe do centro, no máximo em meia hora estaremos lá. – Não queria tocar nesse assunto, simplesmente não conseguiu evitar. Agora temia a reação do moreno.
– Eu acho ótimo. Vamos nos trocar e sair? – o loiro assentia com um aceno de cabeça, e em cerca de vinte minutos, os dois já estavam na garagem do apartamento, indo ao carro de Shinji, este entrando pelo lado do motorista, abrindo a porta do passageiro por dentro para que o namorado se acomodasse.
Já era tarde, e como Kohara ouvira, o trânsito estava extremamente calmo, se tratando da sempre agitada Tóquio. Aproximadamente vinte e cinco minutos depois, o carro já apontava na estrada que saía da cidade, mais alguns metros e Tora saía do veículo, abrindo a porta para Shou, deixando o carro no amplo estacionamento do bar e adentrando o mesmo.
Apesar de ser um bar de estrada, aquele era um ótimo lugar, espaçoso, decorado com cores claras, chegava a transmitir até certa calma. Talvez por isso Kohara gostasse tanto daquele lugar, mesmo não sendo um grande fã de álcool. Ao contrário do moreno. Mal haviam escolhido uma mesa e ele já virava o segundo copo de sakê, enquanto Shou ainda dava o terceiro gole em uma bebida qualquer, que escolheu somente por achar a cor interessante.
Mais e mais copos de sakê eram virados pelo moreno, e Shou começava a se preocupar em como iriam para casa. Sua carteira estava suspensa, e o hotel mais próximo ficava a uma distância considerável, não conseguiria levar Shinji bêbado e a pé até lá.
– Shin, é melhor parar, já está tarde e precisamos voltar, você sabe que eu não posso dirigir.
– Mais que inferno Kohara! Me deixa beber em paz! – gritou, dando um tapa na mão do loiro que tentava inutilmente retirar o copo de sakê do moreno, porém Shou encarou esta última atitude como um afronta, deixando algumas notas sobre a mesa para pagar o consumo da noite e arrastando Shinji para fora do bar.
Tora estava completamente bêbado, e furioso por ter sido arrancado do bar. Andou cambaleando até seu carro, abrindo com certa dificuldade a porta, se acomodando no banco, após algumas tentativas falhas inserindo a chave na ignição, abrindo a janela e gritando para o namorado:
– Vai entrar ou não? Você não queria tanto ir embora?
Shou temia o que poderia acontecer, mesmo assim entrou no carro e Shinji imediatamente deu a partida.
– Se você não ia me deixar beber, por que me chamou até aqui?
– Beber é uma coisa Shin, entrar em coma alcoólico por isso é outra completamente diferente! Será que você não pensa nas consequências?
– Já te disseram que você é certinho demais?
– Certinho demais? CERTINHO DEMAIS? Eu sou “certinho demais” por querer evitar um acidente?
– SIM! Você é muito exagerado Kohara! – Tora largava o volante, segurando o namorado pelos ombros e sacudindo-o, sem notar a curva fechada logo à frente, o veículo perdendo o controle, rolando penhasco abaixo, parando após bater em uma árvore, completamente destruído, um furo gigantesco no tanque de gasolina, faíscas saindo devido a pancada brusca.
Shinji olhou para o próprio corpo, estava ferido, mas nada grave. Conseguiria sair andando dali perfeitamente. Kohara não tivera a mesma sorte. As ferragens atravessaram seu corpo, uma delas perfeitamente cravada em seu pulmão esquerdo.
O olhar do moreno estava aterrorizado. Precisava tirar Kohara dali, mas como? Sabia que se tentasse remover alguma das ferragens o loiro teria uma hemorragia e não resistiria. O que faria? O amor de sua vida estava morrendo, tudo por um erro seu! Não escutou o namorado, e agora corria o risco de perdê-lo!
– Shi... Shin... ji... – Kohara balbuciava seu nome completamente sem forças, e Shinji agradecia a todas as entidades superiores por ele estar vivo. – Shinji... Eu não tenho... muito tempo...
– Não diga isso meu amor, me perdoe, me perdoe por tudo, eu nunca mais vou ignorá-lo ou brigar com você, mas por favor, fique comigo!
– Eu não vou conseguir Shin... Me desculpe. – Kohara reunia todas suas forças para dizer: Eu te amo, sempre vou amar, nessa vida e em todas as outras.
– Eu te amo mais que tudo Kohara. – o moreno dizia, se entregando as lágrimas.
– Isso era exatamente o que eu queria ouvir. – um sorriso discreto, porém satisfeito se desenhava nos lábios do loiro, enquanto seus olhos se fechavam e a vida deixava seu corpo.
– NÃO! Koraha, não! NÃO! – Tora estava desesperado, cego de ódio, e mais um misto de sentimentos indecifráveis. Shou estava morto, tudo por sua estupidez.
Foi quando se deu conta do vazamento no tanque de gasolina, e das faíscas se transformando rapidamente em chamas.
– Eu também te amo nessa vida e em todas as outras Kohara. Estou indo me encontrar com você. – Ao dizer isto, selou levemente os lábios gélidos do namorado sem vida, abraçando-o, fechando os olhos e sentindo as chamas engolirem o veículo.
Um estalo e tudo ia pelos ares. O carro havia explodido. Porém Kohara e Shinji estariam sempre juntos, em todas as vidas.
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