Notas iniciais
She seems dressed in all the rings
Of past fatalities
So fragile yet so devious
She continues to see
Climatic hands that press
Her temples and my chest
Enter the night that she came home (forever)

Vermillion – Slipknot ~

As pessoas, na maioria das vezes, se perguntam “quando é que minha vida ficou tão difícil?”. Bom, eu sei quase exatamente quando tudo começou a desmoronar. Não que a minha vida fosse fácil, pelo contrário, sempre tive dificuldades com quase tudo ao meu redor. Mas definitivamente quando eu completei 17 anos as coisas foram por água abaixo.

A primeira lembrança da vida de algumas pessoas é sempre daquele aniversário de 5 anos em que você ganhou o primeiro presente que realmente te interessou, ou aquele cheirinho de avó de quando vocês passavam tardes juntas e provavelmente ela te enchia de coisas gostosas para comer. A minha primeira lembrança é vaga, mas ao mesmo tempo nítida. Eu não sei quantos anos eu tinha, mas eu era pequena. Bem pequena. E aquelas palavras nunca saíram da minha cabeça.

Não é todo dia que sua mãe sussurra ao seu pai o quanto ela não gosta de você, mas que estava se esforçando para tê-lo de volta. O “esforço” era estar comigo. Bom, de fato valeu a pena, eles estão juntos até hoje, mesmo com todas as amantes que ela finge não saber que existem e suas crises existenciais. Se esse é o preço que se paga para ter o homem amado ao lado, certamente ela não se incomoda com as dívidas e juros.

Quando completei 17 anos as coisas começaram a mudar na minha vida. Quer dizer, eu não tinha amigos no meu colégio antigo e também não teria no colégio novo. Recomeçar no último ano do ensino médio não parecia ruim, pelo contrário, talvez aquele fosse um sinal de que as coisas realmente começariam a se ajeitar. Sinais. Eu odeio sinais, são tão complexos. Mas eu finalmente acreditava em um e, por acreditar, ele poderia ser real.

***

No meu primeiro dia de aula no novo colégio eu não tive a companhia da minha mãe. Não que isso fosse importante, por favor, eu não preciso de companhia aos 17 anos. Mas eu não conhecia o lugar e tampouco sabia como chegar. Fui sozinha mesmo, na cara e na coragem, tentando parecer o menos assustada possível. Era a primeira vez que estudaria longe de casa, longe dos olhos dos meus pais.

Dessa vez era diferente do antigo colégio, onde cada um vestia o que queria e chegava na hora que acordasse (ou quisesse). Eu tinha um uniforme, um horário, livros e carteirinha estudantil. Eu precisava pegar ônibus para chegar lá e isso de alguma forma me deixava feliz, porque eu nunca havia estudado tão longe de casa. Pela primeira vez eu senti um pingo de liberdade chegando sozinha ao local. O medo fora embora.

As aulas já haviam começado há uma semana e eu era a estranha no ninho. Mais que isso, eu era a estranha e ponto. Meus olhos contornados de preto com minha pele super branca, meus cabelos longos e castanhos que brilhavam em vinho no sol, minha mania de morder os lábios quando não sabia como agir... Eu estava sendo observada por todos, mas eu tinha um único foco naquele momento e era achar a sala onde eu ia passar o resto do ano sendo mais uma excluída.

Quando eu entrei, percebi ao olhar no celular que havia chegado um pouco mais cedo que o horário combinado. A sala estava vazia; ela era azul e branca, com cadeiras separadas, um quadro branco de caneta, uma mesa lateral onde os professores se sentariam e... Havia mais alguém naquela sala vazia. Era um garoto, eu podia dizer. Ele estava sentado na outra lateral da sala, mas sentava de lado assim como eu.

Diferente de mim, ele estava com a cabeça baixa mexendo no celular, provavelmente escutando suas músicas já que estava de fone de ouvido. Pude perceber que seu cabelo preto se desajeitava com o rodar do ventilador e a maneira como ele ajeitava sem por no lugar. Ele era bem branco, assim como eu. Mas ele não parecia surpreso com tudo ao seu redor. Quero dizer, dã, eu era a aluna nova. Mas a minha surpresa não era só com tudo isso.

A minha surpresa maior era de perceber como ele me chamava a atenção. Eu o conhecia de algum lugar? Acho que não. Eu queria ir lá e puxar assunto, mas era tímida demais pra isso. Eu queria que ele me chamasse, mas ele parecia distraído demais. E eu aproveitava essa distração para observar cada detalhe daquele momento. Da sua perna esquerda apoiada na cadeira, na mochila no chão, no bater do sinal... O sinal! Seria esse um sinal? Eu queria saber tudo sobre ele naquele momento, mas minha visão foi tampada com quase 40 pessoas pensando em outro tipo de situação: estudar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.