Os Óligos avançaram com determinação. Nos ares, ao lado de Marcos, estava uma mulher muito bem vestida, com os cabelos longos e louros balançando ao vento. Era Katrina, a líder do grupo de ataque dos Óligos.

Os Raimann não estavam totalmente preparados, mas sabiam o que fazer. Precisavam se afastar do palacete onde Lady e Adriano, que eram os únicos humanos no meio deles, ficariam escondidos. Se haveria uma batalha, eles queriam acabar com ela o mais rápido possível.

Carlos Magno foi o primeiro a saltar o muro e correr em direção à floresta. Com suas enormes árvores, terreno irregular e cipós e folhas pelo caminho, a luta seria mais complicada para o oponente, mas não para o caçador que estava habituado àquele ambiente. Quando ele correu, Heikki o seguiu, os braços abertos, segurando uma cimitarra em cada mão e cortando tudo em seu caminho.

À medida que adentravam mais a mata, movimentar-se ficava mais difícil. Heikki precisou mover os braços com mais velocidade de um lado para o outro, e pensava em como Carlos Magno conseguia ser tão ligeiro naquele lugar.

Sem interromper a corrida, Magno estendeu seu braço para trás e atirou várias vezes, porém todas as balas foram cortadas pelas lâminas do homem que o seguia. As cimitarras eram muito resistentes, e a habilidade de Heikki muito superior à dos homens, o que permitia que ele fizesse tal coisa.

— Quando vai aprender que suas armazinhas não surtem efeito, Magno? — Heikki gritou.

— Tem razão! — respondeu o caçador. — Então será espada contra espada.

Magno, de súbito, girou no próprio eixo e esticou o braço para frente. Heikki parou e franziu a testa. Ouvia um som crescente do que parecia uma lâmina sendo velozmente girada no ar e cortando tudo o que houvesse em seu caminho. Quando percebeu que estava muito perto de ser atingido, ele saltou e girou num mortal no ar. Ao cair, logo encarou o caçado que segurava uma nova arma.

O montante era uma espada muito grande e pesada, pouco usada por espadachins por exigir grande força física e habilidade, o que não faltava a Carlos Magno. Aquela arma era muita famosa entre os inimigos do soldado.

— Sua arma favorita, hein? — Heikki falou, embora não estivesse tão feliz em vê-la.

— Não vai gostar de ver o estrago que ela vai causar em você — Magno falou e atacou em seguida.

***

Em vários lugares da floresta, próximos ao palacete, se viam batalhas sendo travadas. De um lado, Jason se transformara num lobo assustador e muito feroz e lutava contra seus filhos, Jack e Jackson.

O lobo tinha uma pelagem castanha escura, os dentes longos e pontudos como como adagas. O hálito era horrível e seus olhos pareciam vazar maldade. Sua pata era um pouco maior que a cabeça de Kurt. Ao vê-lo, o homem se lembrou de que fora Jason quem tirara o olho direito de Magno e ficou pensando como seria ser perfurado por uma daquelas unhas que tinha o tamanho de uma faca de cozinha e era grosso como um cano de água. Certamente não queria saber qual era a sensação.

Jack e Jackson eram um pouco menores que o pai, mas não menos agressivos. Seus ataques consistiam em mordidas em pontos chaves do grande corpo de Jason, principalmente nas patas e no pescoço.

De outro lado estavam as meninas, Christine, Michele e Amélia. Tudo o que elas faziam era se defender, pois nenhuma delas tinha tanto poder para atacar. Christine podia apenas atirar pequenos explosivos que não surtiam muito efeito nos oponentes. Amélia criava barreiras de força que serviam apenas para se defender e Michele podia voar; isso era tudo.

As meninas estavam em séria desvantagem, visto que seus oponentes tinham poderes de ataque mais efetivos e eram bem mais experientes em combates. Alícia, no entanto,percebeu isso e correu em seu auxílio.

O dom de Alícia era melhor desenvolvido e servia tanto para ataque como para defesa. Consistia na manipulação de terra e rochas, e ela sabia usá-lo muito bem. Com as mãos estendidas na direção dos inimigos, levantava paredes de terra e lançava rochas a velocidades tão exorbitantes que pequenos fragmentos eram suficientes para perfurar o crânio e sair pelo outro lado da cabeça dos rivais.

O Raimann lutavam bravamente, embora tivessem várias desvantagens. Guilherme, que tinha o dom de controlar os ventos, usava técnicas mais para afastar os inimigos do que de fato matá-los. Os amigos, Cássio e Thiago, que estavam próximos a ele, tinham mais dificuldades e estavam em sérios apuros por estarem cercados.

Os óligos, naquela situação, perceberam que atacar os dois amigos de uma vez seria fatal, pois não poderiam se defender. Porém, no mesmo momento em que avançaram, uma águia voou por cima deles, os assustou e acabou por atrair sua atenção.

A águia de asa redonda pousou no braço de Heitor, que olhava para os homens com cara de descaso. Na verdade, estava sonolento e parecia muito contrariado em ter que estar ali. Nenhum dos óligos havia notado sua presença. Como e quando ele aparecera?

A águia planou novamente. Ambos os olhos amarelos dela e de Heitor brilharam juntos. No ar, a ave começou a se contorcer e a crescer. Seu corpo se esticava, tomando proporções cada vez maiores, seu bico se alargava, suas penas cresciam, até que ela ficou do tamanho de um pinheiro.

Os oponentes olhavam para aquilo, atemorizados, e sequer se mexiam. Até mesmo Guilherme, Cássio e Thiago ficara hipnotizado pela visão da águia crescendo, afinal, eles nunca a viram fazer aquilo.

Quando os combatentes se recuperaram do susto, reagiram, mas foi tarde. Do dedo indicador de Heitor saiu uma espécie de corda que se enrolou no pescoço da águia. Ele montou no animal que levantou voo e bateu as asas fortemente, causando uma ventania que desequilibrou todos que estavam próximos.

A ave emitiu um som estridente. Seu olho amarelo fitava cruelmente os homens que correram para se proteger do jeito que podiam. Um deles se voltou para o animal e esticou as mãos, de onde saíram faixas de fogo que acertaram o bico da águia. Irritada, ela avançou sobre eles e os esmagou com o bico contra o chão.

Heitor incitou o animal a perseguir outros que ali estavam. Um deles foi engolido pelo animal, outros dois foram pegos por suas patas. Ela levantou voo e os largou do alto para que se espatifassem contra as rochas.

Elric, de seu lado, não parecia ter sérios problemas, embora os combatentes que o atavam fossem muito habilidosos. Apesar disso, seus poderes não pareciam tão efetivos contra os de Elric, pois o terreno lhe era muito favorável. Como sua habilidade consistisse em manipular todo o tipo de planta, a floresta era o seu território, e nem raios, nem fogo pareciam ser fortes o bastante para pará-lo.

Enquanto o combate seguia, Marcos apenas observava tudo do alto. Apesar de haver muito óligos, ele notou que estes estavam tendo muitas baixas e o principal responsável por isso era Christophe Raimann. Sua força brutal e resistência de aço eram simplesmente inquebráveis. Mesmo os poderes de vários atacantes reunidos, como raio, fogo, água, ou o que quer que fosse, não eram o suficiente para detê-lo. Ele os esmagava com as próprias mãos.

O rapaz continuava a lutar como uma máquina. Marcos temeu. O que pairava na sua mente ao ver o sobrinho lutando era uma frase simples e arrasadora; ele não tem fraquezas.

A atenção de Marcos estava tão presa em Christophe que ele só percebeu uma espécie de raio vindo em usa direção quando recebeu o golpe e caiu no chão, abrindo uma pequena saliência no chão.

Embora não quisesse machucá-lo, Kurt não tinha escolha senão duelar contra o irmão mais novo. Assim, se aproveitou de sua distração para atingi-lo com uma esfera de coloração amarelada que ele disparava a partir das palmas de suas mãos.

Quando abriu os olhos, Marcos se esforçou por levantar, mas Kurt caiu pesadamente do céu e desferiu um potente soco em sua barriga. A dor que ele sentiu pareceu ser sentida pelo irmão em cima dele. Enquanto o golpeava, Kurt mantinha uma expressão dolorosa, como se ele mesmo recebesse todos aqueles golpes.

Soco atrás de soco, esfera amarela contra esfera roxa, assim foi o duelo dos irmãos. Ambos tinham vantagens semelhantes naquela luta, mas havia uma desvantagem principal para Kurt; ele não suportava ter que lutar contra um parente tão chegado.

A cada golpe recebido, Kurt se lembrava de algo do passado; das vezes em que ele e Marcos brincavam juntos, quando saiam para ir ao cinema ou a outro evento que fossem, quando comemoravam os aniversários junto aos demais irmãos. E a cada golpes desferido, pensava nas vezes em que se desentendiam, mas sempre faziam as pazes no final.

Chegou a um momento em que o homem chorava ao ter que estender as mãos para golpear o irmão mais novo.

***

Em uma clareira em meio a floresta, havia pelo menos setes corpos ao redor de Preta. Seus olhos completamente escuros intimidavam até mesmo os mais fortes do rivais.

Um homem de longos cabelos ruivos, que segurava uma foice, se aproximou da garota, caminhando, e sorriu. Gostara da aparência assustadora de Preta, cujos cabelos negros se movimentavam como se tivessem vida própria. Os vetores saídos de suas costas balançavam tenebrosamente e seu sorriso se abria literalmente de orelha a orelha.

— É uma visão realmente bela, — o homem falou com voz doce e girou a foice, batendo-a contra o chão. — Meu nome é Azazel, conhecido como anjo da morte. Eu gostaria de poder conhecê-la melhor. Isso será possível?

O homem sorria. Seus olhos eram estreitos e puxados, o rosto afilado e bonito. O sorriso parecia inocente e sincero, o que o tornava ainda mais perigoso.

Os vetores de Pretas começaram a se agitar mais e seu sorriso permaneceu inalterado em seu rosto. Era impossível saber o que ela pensava, tanto por causa do sorriso tétrico e fixo, como pelos dois orbes que eram seus olhos.

— Você quer me conhecer? — ela perguntou com voz alterada, mais grossa e fria.

Azazel sorriu e passou a mão nos longos cabelos ruivos. De suas costas emergiu um par de asas de morcego muito grandes. Ele fez um movimento circular com a foice e a segurou com as duas mãos, seus olhos amarelos brilharam e ele avançou.

Preta teve uma sensação de perigo e seu sorriso diminuiu. Azazel exalava um odor de ruindade, uma aura tão perigosa quando ela podia supor. O sorriso dele se alargava cada vez mais, e uma sede de sangue sem igual emanava dele como um perfume muito forte.

Preta esticou os braços e, das sombras, saíram diversas lanças, todas na direção de Azazel, que habilidosamente as com sua arma. Ele rodopiou no ar com a foice, porém Preta se desviou do golpe.

— Então seu dom é a umbracinese! Você é muito boa para quem não tem experiência em batalhas — Azazel falou.

Preta esticou os braços e, de suas costas, saíram mais setes vetores, dessa vez, com cinco metros de comprimento. Ao ver aquilo, o amarelo dos olhos de Azazel ficou mais intenso, e seu corpo começou a tremer de leve.

— Isso é realmente lindo! — falou em êxtase.

O homem avançou novamente, girando a foice acima da cabeça, porém os quatorze braços da garota avançaram em sua direção com maior rapidez. Ele cortou dois, mas os demais o enrolaram e o suspenderam no ar. Ele se moveu, tentando se desvencilhar da prisão quando duas lanças negras transpassaram seu abdômen.

Azazel abriu a boca e cuspiu sangue. Sorriu, um pouco do líquido rubro escorrendo pelo seu queixo. Usou sua foice para cortar os braços escuros, então caiu no chão ainda em pé. Apesar dos vetores se desfazerem em sombras, as perfurações em sua barriga estavam ali.

— Você materializa as sombras de forma... excepcional! — Azazel falou, parecendo estar em transe. — Eu definitivamente quero conhecê-la.