Dona Iracema
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estou namorando há seis meses e venho omitindo isso da família da minha madrinha. Durante um almoço de domingo, a Dinda, desconhecendo a minha situação, propôs que eu saísse com o sobrinho dela, e, mesmo eu sendo apaixonada pelo meu namorado, aceitei de modo sujo e egoísta passar o meu número de telefone para esse parente.
Isso tudo porque o afeto que tenho pelo meu namorado não é suficiente, essa fome de amor vem da minha infância, de um antigo e abandonado “eu”. Esse buraco vazio em mim não é causado pela minha mãe ou pelo meu pai, pois esses sempre foram quem podiam ser. Meu problema era a herança que recebi como neta, mas não pelos meus avôs. Esses não completaram uma linha nos meus sentimentos, e agora não existe razão de eu entregar alguma relevância, não depois de estarem sete palmos abaixo da terra, enterrados juntos de seus descasos e olhares tortos.
São as minhas avós que me doem a alma.
Porque existiu um momento que eu fui amada e esse tempo me foi arrancado. Elas foram arrancadas de mim ao encontro da morte.
Com a lacuna de não-pertencimento, me afundei no azul.
E a razão de eu não ter negado o pedido da minha madrinha foi na verdade o olhar que a mãe dela, Iracema, me entregou. Foi a Dona Iracema quem me acolheu, me amando como se eu fosse neta dela, me chamando desse jeito com carinho. É por isso que não consegui dizer “não” quando me pediram para conversar com aquele rapaz.
Mais neto do que sobrinho, mais significativo que a minha paixão.
É por isso, meu amor, que te trai.
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