Dominante

1 Parte I - I


Notas iniciais
DOMINANTE TEM SEU PRÓPRIO LIVRO! Encontre o link para comprar direto com a editora nas notas finais! Os primeiros capítulos sempre estarão disponíveis para leitura. :}

Suas mãos acariciavam o meu corpo, tocando-me, acariciando-me e explorando-me. Não havia nada no mundo que eu gostasse mais do que isso. Ele segurou meu queixo, obrigando-me a olhá-lo enquanto ele fazia amor comigo. Encarei seus olhos castanhos e segurei a vontade de chorar. Eu amava esse homem tanto que, às vezes, esse amor trazia lágrimas para meus olhos. Beijou-me com uma fome imensa, fechando seus olhos, apreciando o gosto de minha boca e a sensação que eu lhe proporcionava. Quando ele nos soltou do beijo e abriu seus olhos, eles não estavam mais castanhos, estavam de um vermelho intenso e eu sabia muito bem o que isso significava.

Virei minha cabeça para o lado, deixando meu pescoço exposto e ele passou a mão de leve sobre minha pele. Levou seus lábios até meu pescoço, a princípio mal me tocando, mas logo depois deixando um rastro de beijos desde a base de meu pescoço até o lóbulo de minha orelha. Soltei um grunhido em expectativa, ouvindo meu grunhido, ele atendeu ao meu pedido.

Ouvi um longo gemido de prazer escapar pelos meus lábios quando suas presas perfuraram a pele sensível de meu pescoço.

— Eu lhe amo, Bernard.

xxx

— Rebecca Elise Young, o que diabos você tem na cabeça?

Suspirei.

— Bernard Holland é um vampiro. Você está transando com um vampiro!

— Eu sei muito bem o que ele é — retruquei irritada.

— Ah, então você acha que você é especialista no assunto, não é isso?

Sim, era isso. Bernard me amava e ele já tinha me contado e ensinado sobre os vampiros. Eu nunca deveria ter deixado a droga da Corrie descobrir sobre meu caso com ele. Ela era uma loba, é óbvio que ela não ia gostar de vampiros e muito menos da ideia de eu estar me envolvendo com um.

Além disso, ela sempre fora muito protetora. Não que isso fosse algo ruim, pelo contrário, era com essas atitudes que você percebia como ela realmente se importava com você, como ela era uma amiga que valia ouro. Contudo, eu estava muito irritada com ela no momento para reconhecer o valor de suas atitudes. Eu amava Bernard demais e só queria que ela o aceitasse e aceitasse que, mesmo sendo vampiro, ele me fazia feliz.

— Nem responda — ela disse, adivinhando minha resposta. — Eu conheço você desde sempre. — Revirei meus olhos. Era bom ela não usar o truque da “melhor amiga preocupada que se faz de vítima” comigo, seria inútil. — Ele com certeza deve ter enfiado um monte de merda na sua cabeça. Como ele lhe ama e gostaria de viver para toda a eternidade ao seu lado, mas se recusa a lhe transformar porque não quer que você passe a eternidade tendo que sugar o sangue dos outros para sobreviver. Como os vampiros não são maus; eles bebem da vítima sem fazê-la sentir dor, às vezes até sentir prazer; não deixam nenhum machucado ou cicatriz; e ainda apagam a memória do humano para ele ou ela não ter que viver com a lembrança assustadora de ter sido mordido.

Meus olhos não mentiam, eu estava surpresa. Como que a Corrie sabia tudo isso? Como ela sabia e tinha tanta certeza que fora isso que o Bernard me dissera?

— C-como você…

— Mas aposto — ela me interrompeu — que ele não lhe contou que você está virando uma de suas ovelhas.

Está bem, agora eu estava confusa. Ovelhas? Eu nunca ouvira falar em ovelhas.

— O que são as ovelhas? — perguntei, engolindo meu orgulho. Ela tinha razão, ele não me contara sobre isso.

— As ovelhas — ela começou, dispensando sabiamente a oportunidade de esfregar na minha cara que tinha razão — são os humanos de quem os vampiros se alimentam. Não se engane, todos os vampiros se alimentam de sangue humano, não existe essa baboseira toda de “vampiros vegetarianos”, mas existem alguns vampiros que se alimentam de doações de sangue doado ou roubado de hospitais. Os mais antigos e mais poderosos não precisam de sangue humano, esses bebem dos vampiros que eles mesmos criaram ou de outras criaturas sobrenaturais, como bruxas e até lobisomens.

— Mas os vampiros que se alimentam de sangue humano quase sempre têm um pequeno bando de ovelhas – continuou. — E eu não acredito que o seu Bernard seja uma exceção. Quando um vampiro bebe do mesmo humano regularmente, esse humano virará uma de suas ovelhas, obedecendo tudo que seu mestre falar e sem envelhecer, até o mestre se cansar dele e soltar seus laços com o humano. Quando isso acontece, o humano morre de depressão ou suicídio, porque seu mestre deixou de amá-lo, o abandonou.

Isso era tudo novidade para mim. Ele nunca havia me contado nada disso. Mas ele me amava, eu tinha certeza. Ele certamente deveria ter algum motivo para esconder isso de mim.

— Conhecendo você, eu sei que você não vai parar de se encontrar com ele.

— Eu o amo — respondi simplesmente.

— Ele não havia lhe contado essas coisas. — Não era uma pergunta.

— Ele me ama.

Corrie soltou um longo e cansado suspiro. Sentou-se na cadeira de sua enorme sala de estar que ficava em frente a cadeira onde eu estava sentada. Seus olhos azuis me examinavam e sua testa estava franzida, um sinal de que ela estava concentrada, tentando resolver um problema difícil. Nesse caso, um problema intitulado Becca Young. Ela abaixou o olhar e pôs a mão nas têmporas, como se estivesse com uma forte dor de cabeça.

— Eu só consigo pensar em uma solução — ela disse por fim, após vários minutos em silêncio. — Você pode confiar nele, mas eu não confio. Eu não posso lhe impedir de ir se encontrar com ele e se ele continuar se alimentando de você, você vai virar uma de suas ovelhas — escutei atentamente. Ele me amava, mas Corrie também me amava e ela estava preocupada comigo. Com um suspiro ela continuou. — Isso é perigoso, você sabe como é perigoso, mas é a única solução. As chances de você morrer são altíssimas, mas eu prefiro que você morra dessa forma do que pelas mãos de um vampiro.

— Do que você está falando, Corrie?

— Vou transformá-la.

Engoli em seco. Para ser transformada em lobisomem eu teria que ser atacada por um. Teria que ser deixada praticamente morta. Se o lobo se empolgasse demais com a caça, eu morreria. A transformação ocorre se os ferimentos fatais começarem a se curar em uma velocidade inumana, se isso acontecesse daí eu sobreviveria. Se os ferimentos não se curassem, significaria que meu corpo não aguentou a transformação, e eu morreria.

Porém, lobisomens não envelheciam e eram muito difíceis de matar. Alguns viviam por muito, muito tempo.

Bernard…

Ele se recusava a me transformar em vampiresa, mas me amava. Se eu sobrevivesse a transformação, seria imortal como ele. Poderíamos passar a eternidade juntos.

— Tudo bem — concordei.

xxx

Eu estava deitada no chão duro da floresta. Eu conhecia esse lugar, apesar de pouco me aventurar por aqui. Esse era o território de caça e corrida da alcateia local.

A pouca luz da lua que atravessava as folhas das árvores banhava meu corpo, que morria pouco a pouco. Meu sangue manchava a grama e impregnava o ar.

Um lobo grande e cinza veio até mim. Era Joseph, o Alpha. Atrás dele veio outro lobo grande, de coloração castanho-clara e uma loba menor que os outros, seu pelo de um marrom bem escuro, parecido com a cor de chocolate meio amargo. Christian e Corrie. Corrie encostou seu focinho na dobra de meu pescoço. Olhos dourados de sua loba pediam perdão à mim.

Já fazia uma hora e meia, eu achava, que ela havia me atacado e nenhum dos meus ferimentos mostrava qualquer sinal de estarem cicatrizando. Eu estava com dor em todas as partes do meu corpo. O fato de Corrie e seu companheiro Christian mais o Alpha terem vindo até mim só podia significar uma coisa. Eles já haviam desistido de mim.

Fechei meus olhos. Se os próprios lobos achavam que eu não ia aguentar a transformação, que chance eu tinha? Tentei não prestar atenção na dor, mas eu estava morrendo, era inútil. A dor só ia passar quando eu realmente morresse. Ou pelo menos era isso que eu achava.

A dor começou a lentamente se dissipar e eu senti meu corpo e alma serem envolvidos por uma sensação estranha, mas boa, uma sensação de segurança. Magia. Abri meus olhos e encarei os olhos dourados de Corrie. Sua expressão em seu rosto lupino me parecia um sorriso e ela começou a correr em volta de mim, ocasionalmente parando para mordiscar o Christian, que também sorria. Olhei para meu peito e meus braços e vi que os ferimentos se fechavam.

Eu estava me transformando.

Uma outra sensação tomou conta de mim. Uma sensação de que eu não estava sozinha. Eu soube de imediato o que era, graças à várias perguntas curiosas que eu fizera à Corrie.

Era a sensação de dividir meu corpo com minha loba.

xxx

— Bernard, eu tenho a melhor notícia do mundo! — disse para meu amante vampiro. Falávamos pelo telefone.

— Ah é, minha preciosa? — ele respondeu. Sua voz rouca somada com o apelido carinhoso que ele usava somente comigo faziam minha pele formigar de um jeito muito bom. — E o que é que você tem para me contar?

— Não vou lhe contar, vou lhe mostrar. Estarei aí em dez minutos. — Desliguei o celular e liguei o carro.

xxx

— Rebecca, você está cheirando a cachorro — Bernard disse assim que eu entrei. Ele estava no seu porão, onde dormia, e por isso não havia percebido a realidade ainda.

— Suba aqui! — falei, ignorando seu comentário sobre meu cheiro.

— Em poucos segundos ele já havia subido e se encontrava em minha frente. Ele carregava consigo um sorriso, mas logo sua expressão mudou para uma de nojo.

— Você não está fedendo a cachorro, está fedendo a lobo! — exclamou chocado. — Onde você andou se metendo? O que andou fazendo?

— Eu fui transformada em lobisomem, Bernard.

Mais uma vez sua expressão mudou. Primeiro parecia que ele tinha se dado um tapa na testa, mas se ele deu foi rápido demais e eu não vi; como se ele não acreditasse que ele não havia percebido antes. Eu não apenas cheirava a lobo, mas era uma loba agora. Meio segundo depois seu rosto estava com uma expressão de surpresa e desgosto, como se eu tivesse acabado de cuspir em seu prato de salada enquanto ele o comia. Metaforicamente falando, claro.

— Você o quê? — ele perguntou. Com minhas novas habilidades de lobisomem, pude sentir o cheiro de sua fúria. Os lobos podiam sentir o cheiro de emoções quando elas estavam mais fortes do que o normal, como medo, raiva, excitação, etc. Mas por que ele estava tão bravo?

— É uma coisa boa! — insisti. — Eu sou imortal agora. — Dei os dois passos que faltavam até ele e passei meus braços por seu pescoço. — Você não vê? — Beijei a ponta de seu queixo. — Agora nós podemos viver juntos para sempre. Nada vai nos impedir.

O cheiro de sua fúria diminuiu um pouco, mas nem de longe o quanto eu gostaria que diminuísse. Fiquei na ponta dos pés, como eu sempre precisava, e depositei um beijo em seus lábios. Rápido. Apenas para fazê-lo perceber que estava tudo bem, mesmo eu nem sabendo o porquê de ele reagir dessa maneira.

Talvez fosse aquele velho problema. Os lobisomens não gostam de vampiros e vice versa. Talvez o Bernard não gostasse de namorar uma loba, porque todo lobo tem sua alcateia, e isso significava que ele teria que lidar não só comigo, mas com todo um bando de lobos. E a alcateia de Seattle era tudo menos pequena. Mas eu amava ele. Por ele eu abriria mão de uma vida em alcateia, onde os lobos eram uma família. Ele seria toda a família que eu precisasse.

Ele também morava sozinho. Tinham outros vampiros em Seattle, mas ele quase não tinha contato com eles, escolheu viver distanciado. Nós só precisávamos de um ao outro, não precisávamos das nossas “espécies".

— Bernard, está tudo bem? — perguntei, ignorando o cheiro de sua fúria que parecia que não ia sumir de jeito nenhum.

Ele apenas me olhou e depois suspirou. Virei minha cabeça para baixo, olhando para o piso de madeira perfeitamente encerado, e esse meu ato arrancou dele mais um suspiro.

— Eu fiz isso por você. Por nós, Bernard. Você não vê que isso significa que podemos nos amar para sempre? Com minha transformação eu acabei com todos os nossos problemas! — tentei fazê-lo entender novamente. Minha voz estava fraca e baixa, por conta das lágrimas que ameaçavam invadir meus olhos. Ah como eu odiava chorar.

Eu nunca chorava. Ou, pelo menos, tentava.

— Eu sou um vampiro de sorte — ele disse num sussurro tão baixo que, eu tenho certeza, se não fosse pela minha nova audição eu não teria ouvido. Mais alto ele prosseguiu. — Você jogou fora sua vida humana por mim. Por nós, como você diz. Como eu nunca lhe transformaria, você achou outro jeito de conseguir o que você queria, sem minha permissão e sem eu saber — ele não carregava mais fúria em suas palavras, mas o cheiro persistia. Ele deu uma risada baixa.

— Eu nunca fui mulher de pedir permissão, Bernard. — Levantei a cabeça.

— Eu já deveria saber disso, não é? — Nós rimos juntos e ele me levantou com uma facilidade que somente seres inumanos possuíam. Empurrou-me contra a parede, segurando-me pelas coxas. Passei meus braços por suas costas enquanto ele mordiscava de leve meu pescoço, só para me provocar.

— Eu sempre dou um jeito de conseguir o que eu quero, Bernard.

— Mhm. E o que você quer agora, preciosa? Alpha da alcateia de Bernard Holland? — Ele disse com sua voz rouca em meu ouvido, seu hálito esquentando minha orelha de uma forma incrivelmente sedutora. Lambi seu pescoço até sua própria orelha, minha língua passando tão de leve por sua pele que quase não encostava, fazendo-o gemer baixinho contra mim. Mas, mesmo assim, algo me dizia que ainda havia algo errado.

— Desde quando você é homem que segue ordens na cama, Bernard? — ele riu.

— Bem lembrado — ele disse, levantando minha saia e puxando minha calcinha.

xxx

Apertei pela centésima vez o pacotinho contra meu peito, meu coração. O inspecionei de novo, para ter certeza que estava tudo no lugar e bonitinho. O papel de presente roxo escuro com bolinhas brancas estava completamente desamassado e uma fitinha prateada formava um laço na ponta, com um adesivo escrito: “Para Bernard Holland, com amor de sua Preciosa.” Tudo feito com uma perfeição digna de, ninguém mais, ninguém menos que Rebecca Young.

Vampiros são criaturas antigas e, até onde os humanos sabem, são apenas lendas. E, nessas lendas de onde eles vieram, existem muitos mitos, alguns verdadeiros, alguns falsos. O mito de que um vampiro não pode encostar em uma cruz é um exemplo de mito falso, mas o mito de que eles não gostam de trechos do Livro é verdadeiro.

Bem, o fato é que eu estava tão contente que nós dois iríamos viver juntos para sempre, que eu decidi comprar um presente para Bernard. Não era um presente de verdade, era mais uma brincadeira, mas mesmo assim eu esperava que ele gostasse.

Comprei um colar com uma cruz.

O colar era todo feito de ouro puro e, bem no centro da cruz, onde estaria o coração de Jesus Cristo, havia uma pequena pedra de safira. Era bem pequena. Mesmo. Muito pequena. Pequeníssima. Mas, era uma safira. Eu havia raspado até o último centavo que eu tinha para conseguir comprar esse presente para ele. Eu vinha de uma família consideravelmente pobre, graças ao meu pai morto e minha mãe alcoólatra, então foi mesmo um sacrifício comprar essa cruz de ouro e sua bendita safira.

Ah, era bom o Bernard gostar do “presente” ou eu iria fazê-lo engolir o negócio.

Chequei como eu estava no espelho, arrumando minha franja e dando uma última penteada na minha sobrancelha e saí do carro, o pacotinho seguro em minhas mãos.

Eu não havia dito que eu vinha visitá-lo. Eu sempre avisava quando ia passar na casa dele, mas, como nós iríamos começar uma vida nova juntos, achei que não fazia mal eu fazer outras coisas novas com ele. Como dar presentes satíricos e aparecer quando eu bem entendesse em sua porta. O bom do Bernard era que ele nunca trancava sua porta, então eu podia dar mais surpresa à minha surpresa.

Enquanto eu ia subindo as escadas de pedra até a porta da frente, eu ia pensando em como dar o presente. Gostei da ideia de chegar por trás, minhas mãos tapando seus olhos, como nas brincadeiras de crianças. Daí quando ele adivinhasse, eu lhe daria o pacotinho. Não que fosse muito difícil para ele adivinhar que era eu, mas mesmo assim seria divertido.

Abri sua porta silenciosamente e sorri ao ver que ele não estava nem na sala, nem na cozinha, onde ele poderia me ver entrando. Fechei a porta com cuidado e fui até a porta do porão. Quando cheguei mais perto, pude ouvir alguns gemidos abafados. Estranhei. Será que Bernard estava se masturbando? Eu nunca o vira se dar prazer. Tem alguns homens que parecem que nunca fazem essas coisas, simplesmente porque eles parecem o tipo de homem que sempre conseguem uma mulher quando querem e, portanto, não precisam fazer isso sozinhos. Bernard era um desses homens e isso me assustava também. Estaria ele com outra mulher?

Abri a porta e comecei a descer os degraus do porão. Eram de carpete, então eu não precisava me preocupar com barulho.

Os gemidos estavam mais claros agora que eu estava mais perto. Não eram só de Bernard. Cerrei meus punhos, amassando o pacote de presente. Desci até o final das escadas.

Bernard estava em cima de uma moça, transando com ela, seu pescoço ensanguentado manchando os lençóis. Entre o rosto dele e o dela estava um outro homem, nu, com o pescoço exposto para o vampiro, esperando-o o morder. Acho que eu nem precisava dizer que a boca do Bernard estava manchada de sangue. Em choque, derrubei o pacote, atraindo a atenção dos três.

— R-Rebecca? — Bernard disse, saindo imediatamente de cima da moca, limpando sua boca no lençol e vestindo um robe cinza ao levantar. O homem e a moça sentaram na cama, o homem me olhava curioso, mas a mulher me lançou um olhar gélido.

Eu não consegui dizer nada, apenas o encarei incrédula.

— Rebecca…

— Qual é o problema, preciosa? — a mulher interrompeu, ganhando toda minha atenção com o uso de meu apelido.

— Preciosa? – consegui perguntar.

— Preciosa. — O canto de seus lábios levantou em um sorriso maroto. — Ele não lhe chama assim também?

Também?

— Rebecca, o que você está fazendo aqui? — perguntou rispidamente, ignorando a mulher.

Abaixei-me e peguei o pacotinho do chão, que agora já não estava mais tão perfeitinho como estava no carro.

— Eu apenas vim lhe dar isso — eu disse e joguei o pacotinho nele, acertando-lhe o peito. Não joguei com força e ele não saiu do lugar porque não quis. O pacotinho caiu novamente no chão do porão.

Virei de costas para eles e andei até as escadas. Foi quando pisei no primeiro degrau que a mulher retornou a falar.

— Não seja ingênua. Você achou que você era a única “preciosa” dele? — Parei na hora, mas não virei meu rosto.

— Já chega, Jéssica — Bernard ordenou. Eu nunca vira o vampiro agindo assim antes. Na hora ela se calou e parecia triste e brava, como se ela fosse uma criancinha e seus pais tiraram a jarra de bolachas recheadas da mão dela.

Continuei subindo, mas parei no penúltimo degrau.

— Você, por acaso, me amou? — perguntei, olhando fixamente para minha sandália.

— Amei — ele respondeu e senti uma única lágrima escorrer dos meus olhos. — Todos os vampiros amam seus humanos, Rebecca.

— Ovelhas — corrigi e terminei meu caminho para fora de sua casa.

xxx

Ao contrário de muitas outras mulheres e garotas, eu não choro por um coração partido. Na verdade eu não choro por nada. Graças à minha mãe eu aprendi que chorar não resolve nada. Depois de tantas madrugadas que eu a esperava voltar, depois de tantos homens e mulheres estranhos passando a noite na nossa casa, depois de tantos dias tendo só os restos do pão feito na casa da nossa querida e bondosa vizinha para comer…

Depois de chorar tanto, de pedir tanto que as coisas melhorassem, eu aprendi que, se você quer consertar alguma coisa, você tem que fazer o que tiver que ser feito, não chorar. Não estou dizendo que eu nunca choro. Eu sou mulher afinal e, de vez em quando, uma lágrima escorre, mas nada mais do que isso. Uma lágrima. Uma única lágrima.

E foi uma única lágrima que escorreu pela minha face e aterrizou na ponta de meu tênis quando eu terminei de subir o último degrau de pedra até a porta da frente daquela terrível casa. Chequei mais uma vez para ver se a estaca de madeira estava em seu lugar na minha cintura. Tirei e coloquei meus óculos de sol na cabeça ao entrar. Estava muito calor lá fora e o sol estava forte.

Andei até a cozinha e coloquei um pouco de limonada num copo com gelo, tomando-o devagar e sem pressa. Lavei o copo e o coloquei no escorredor. Em seguida me dirigi até a porta do porão e a abri só o suficiente para eu passar, sem deixar muita claridade entrar.

Fechei a porta e desci as escadas, olhando fixamente para o caixão de Bernard. O caixão ficava em um canto do porão, o canto mais escuro e longe das janelas, mesmo as janelas tendo cortinas grossas que impediam os raios do sol, e a cama onde ele estava com as ovelhas uma semana atrás, a cama onde eu me deitei várias vezes, ficava no centro do cômodo bem na frente das escadas. Tirei a estaca de seu lugar e a segurei com força enquanto eu andava até o caixão.

Uma parte de mim não queria fazer isso. Uma parte de mim sabia que era errado. Eu fui burra. Ingênua, como a mulher havia dito, em pensar que eu era a única. A Corrie me disse que eles tinham um pequeno grupo de humanos, mas meu cérebro decidiu deletar essa parte, eu achei que ele só precisasse de mim.

Por outro lado, outra parte de mim queria isso mais do que qualquer outra coisa. Talvez fosse minha loba, talvez fosse por causa da minha transformação que eu agora tinha sede de violência, de vingança. Mas talvez fosse só meu coração mesmo. Ele até podia ter um grupo de humanos dos quais ele se alimentava, mas isso não significava que ele tivesse que ter relações com eles. Até onde Corrie me disse, e até onde eu supunha, as ovelhas serviam para alimentar. Apenas. Claro que, se ele quisesse comer todas as mocinhas e mocinhos que ele controlava, ele podia, mas ele tinha a mim. Depois de todas as palavras de amor que trocamos... Bem que dizem para não acreditar nas palavras faladas na cama.

Pousei minha mão na tampa do caixão, minha pele clara em contraste com a madeira escura. Contei até dez. Não tinha como sair dessa agora, não depois de ter ido tão longe. Cuidadosa e silenciosamente abri a tampa.

— Ah, Bernard — sussurrei ao ver seu corpo adormecido. Seus cabelos loiros perfeitamente penteados e no lugar. Seus olhos castanhos que eu tanto amava estavam escondidos pelo véu do sono.

Segurei a estaca com as duas mãos e a levantei acima de minha cabeça, pronta para agir, mas meus olhos perceberam uma caixinha nas mãos do vampiro. Abaixei minhas mãos e, com uma mão, consegui tirar a caixinha da posse dele sem o despertar. Assim que ela estava em minhas mãos eu a reconheci. Abri a caixinha, esperando ver o colar que eu havia comprado e mais tarde jogado no Bernard, mas ela estava vazia, o colar não estava lá.

Deixei a caixinha de lado, confusa. Por que ele estava segurando a caixa se ela estava vazia? O que ele fizera com o colar?

‘Esquece o colar e vamos terminar logo com isso.’ Eu disse para mim mesma. Bem, parte de mim sabia que não era bem eu quem dissera isso, era minha loba. Porém, minha loba era parte de mim, então não estava errado eu supor que eu mesma havia dito isso.

Concordei com a cabeça e levantei a estaca novamente, Bernard ainda estava imóvel, como todos os vampiros quando dormiam.

Um pouco de sangue respingou em meu rosto quando dei a primeira estocada em seu coração e olhei horrorizada para Bernard. Não por causa do sangue, mas por causa do grito que ele deu e por causa de seus olhos castanhos furiosos.

— O-o quê... — ele tentou dizer, afogando-se no sangue que saía de sua boca.

Ignorei-o o máximo que pude e dei a segunda estocada.

— Reb…

Dei mais uma estocada bem quando uma de suas mãos havia pegado meu braço direito com aquela força vampírica. Com essa última estocada ele afrouxou sua pegada e caiu de volta no caixão. É claro que eu não ia deixá-lo assim, vampiros não são tão fáceis de matar como muitos pensam. Sim, eu o havia matado com as três estocadas no coração, mas ele voltaria a vida até o final do dia.

Levantei seu corpo do caixão e o arrastei escada acima para o andar térreo da casa, até a sala. Lá havia uma lareira elétrica onde eu poderia queimá-lo e depois sumir com o que sobrasse. Larguei seu corpo no tapete da sala em frente à lareira por um momento, para observá-lo. Não que eu havia me sentido bem em matar o Bernard, eu não era uma assassina e não estava contemplando o bom trabalho que eu fizera. Eu estava apenas olhando para o rosto do homem que eu um dia amara mais que minha própria vida, mais que minha própria humanidade.

— Eu dei minha humanidade por você, Bernard – falei ao corpo, olhando fixamente naqueles olhos castanhos. Estiquei minha mão e fechei seus olhos e boca, fazendo-o parecer adormecido novamente. Se você ignorasse o sangue por todo o lado, é claro.

Liguei a lareira e acompanhei o crescimento do fogo, as chamas dançavam. Carreguei o corpo do vampiro mais para perto da lareira e percebi algo que eu não havia percebido antes. Em volta de seu pescoço estava um colar de ouro com uma cruz também de ouro, com uma safira no centro. Tirei o colar de seu pescoço e o contemplei em minha mão um pouco.

O que isso significava? Por que Bernard estaria usando o presente? Um sinal de amor eu sabia que não era. Se ele realmente me amasse, ele não estaria me traindo e enganando com as ovelhas. Lembrei-me da Corrie e pensei em como eu tinha que agradecê-la. Por pouco eu não virei uma das ovelhas também.

‘Era isso que ele queria desde o início. Você ser uma de suas ovelhas.’

— Eu sei — suspirei. Não importava o porquê de ele estar usando a cruz, podia ser por milhares de motivos. Mas de uma coisa eu e minha loba tínhamos certeza: não era por amor. Admiração talvez, eu via em seus olhos como ele gostava de minha personalidade, e talvez ele até gostasse de mim, de algum modo.

‘Gostava, mas não amava. Não como nós.’

Limpei o colar na minha blusa e o fechei em meu pescoço. Peguei a cruz e a beijei.

— Ok, vamos terminar isso – falei determinada. Senti minha loba concordar e parecia que eu tinha ganhado mais força, mais propósito, mais apoio.

Levantei o corpo e, ao jogá-lo às chamas, vi meu reflexo em uma bandeja de prata antiga que Bernard usava como decoração acima da lareira. Tenho olhos cor de mel, mas os olhos refletidos não eram os meus, eram olhos de um azul tão claro, que pareciam cor de gelo.

E foi com esses olhos cor de gelo que eu acompanhei o corpo do meu ex-amante vampiro queimar.

Notas finais
Pré-venda >> https://constelacaoeditorial.lojaintegrada.com.br/dominante << Link do livro e da editora no facbeook >> https://www.facebook.com/LivroDominante/ << >> https://www.facebook.com/EditoraConstelacao/ << Continuação que continua a ser postada gratuitamente aqui no Nyah, assim como no Spirit e no Wattpad. >> https://fanfiction.com.br/historia/701001/Valente/