Dolovan Breus
9 Elsa
Notas iniciais
ELSA
Sentiu uma pontada de dor na panturrilha direita, e permaneceu com os olhos fechados por alguns instantes, tentando, em vão, se lembrar do que a levara até o lugar onde ela estava – seja lá qual fosse. Abriu-os devagar, a visão ainda turva e embaçada. Viu um teto branco com uma luminária modesta – falhando. Estava em uma cama, lençóis e travesseiro brancos. O assoalho era de madeira recém-polida, e as portas da varanda estavam abertas e deixavam uma brisa suave entrar. Sobre uma escrivaninha havia um maço de papéis e canetas, além de um livro, cujo título estava em uma língua que ela desconhecia. Havia também um armário de carvalho impregnado de pó, que lhe pareceu ser a coisa mais antiga no aposento. Lembrou-se do ocorrido e comprimiu os lábios, desejando que nada tivesse acontecido. Que tivesse sido apenas um pesadelo. Olhou para as próprias pernas nuas, alguém lhe havia tirado as calças e o casaco. O pensamento a fez estremecer. O local onde a bala a atingira fora tratado e coberto por ataduras, mas estas não diminuíam a dor. Pelo clima, imaginou que já teriam deixado a Rússia. Içou-se para fora da cama, apoiando-se nas paredes para não cair. Abriu as portas do armário, erguendo uma nuvem de poeira que foi de encontro ao seu rosto. Ela tossiu. Não haviam gavetas, apenas uma estante. Sobre a estante, havia um conjunto de roupas com um bilhete onde se lia Elsa. A caçadora se despiu devagar, e olhou as vestimentas que lhe haviam sido reservadas. Deu de ombros, ignorando o fato de que desde que se juntara à Ômega começara a usar uniforme, coisa que não era obrigada a fazer caçando vampiros. Vestiu a calça azul, estremecendo quando o tecido roçou o ferimento, a camiseta simples na mesma cor e prendeu o cabelo. Olhou-se no espelho da porta do armário, o rosto pálido livre de qualquer maquiagem. Deu de ombros e caminhou lentamente até a porta, perguntando-se onde estava. Esgueirou-se para fora do quarto. O corredor era comprido e cheio de portas, a maioria das quais abertas. Mancou até o final do corredor, que dava para um salão. O teto era abobadado, representando em mosaico pessoas em uma colheita e o chão era de ladrilhos claros. Havia uma escadaria branca que dava para o andar inferior. Ela desceu, hesitante. Viu-se em uma sala de estar, o chão da mesma madeira de seu quarto, e, sob duas poltronas e um sofá púrpura, um tapete branco. Havia uma mesa de centro de vidro, onde estavam depositadas as mochilas da equipe. Ouviu vozes vindas do cômodo à sua direita, a porta estava entreaberta. Caminhou devagar até ali e empurrou a porta. Era a cozinha, e a equipe estava reunida ao redor de uma mesa, rindo. Uma desconhecida pegava algo na geladeira. Todos se voltaram quando ela entrou e se calaram, o que a fez sentir ridicularmente indesejada. Comprimiu os lábios.
– Você está bem? – perguntou Sal, embora o seu tom contrariasse a preocupação na pergunta. Elsa deu de ombros. Sal revirou os olhos. – Tivemos sucesso, graças a você e o seu dispositivo. Tenho de admitir que mandou bem.
Os outros concordaram silenciosamente. Embaraçada com toda a atenção e tentando ignorar a preocupação evidente no olhar de Frost, ela voltou-se para procurar um lugar onde se sentisse desejada.
– Por que não se junta a nós? – perguntou Sandy, hesitante. Noel concordou com um aceno de cabeça e indicou uma cadeira vaga. Elsa estava ciente de que era só educação, então sorriu sem convicção e balançou a cabeça negativamente, sem vontade de agradecer. Afastou-se do local, sentindo um estranho peso. Não sabia o que havia pensado. Quer dizer, ela imaginara que, por algum motivo desconhecido, ela era parte do grupo deles. Mas estava enganada. Está mais do que óbvio que ali ela era apenas uma agente. Só estava ali porque poderia ajuda-los... Durante as missões. Fora delas, ela não passava de uma intrusa. As risadas vindas da cozinha depois que ela saiu só serviram para confirmar as suas teorias. Comprimiu os lábios e deixou o edifício. Era circundado por um jardim bem-cuidado, arbustos cortados em formatos específicos, flores exalando um cheiro agradável de primavera, pedregulhos formando um caminho entre as plantas. Havia algumas árvores frutíferas. A propriedade era completamente cercada por um muro alto revestido de hera, e os portões de ferro estava enferrujados. Deixou que a sua mão roçasse as flores conforme andava sobre os pedregulhos. Leu algo como “Pousada São José” em uma plaqueta de madeira diante da porta de entrada, e imaginou que talvez houvesse mais gente além de sua equipe ali. Ponderando sobre isso, descobriu uma fonte de pedra, com uma estátua de São José sorrindo de braços abertos. O fluxo de água deveria sair das pontas dos dedos do santo, e o interior da fonte estava coberto de moedas. Havia dois bancos de madeira, um de cada lado da fonte.
– Eles só ligam a fonte a partir da uma hora da tarde, e a deixam ligada até o anoitecer. – uma voz com forte sotaque disse atrás dela, fazendo-a virar assustada. Ele – seja lá quem fosse – não olhava para ela. Os olhos acinzentados estavam fixos no sorriso de São José. Ela não respondeu e voltou-se novamente para a fonte, imaginando que seria um hóspede da pousada. Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos, ouvindo apenas as respirações um do outro.
– Quem é você? – Elsa perguntou afinal, sem olhar para ele.
– Jean-Baptiste Pascal. – ele respondeu. – E você?
– Elsa.
– Quer se sentar?
Ela assentiu, e os dois se dirigiram para um dos bancos de madeira. Ela o observou. Tinha a expressão serena e tranquila, os cabelos castanho-escuros estavam desalinhados.
– É hóspede aqui? – ele perguntou.
– Suponho que sim. Eu não me lembro de como vim parar aqui.
– Veio com os amigos da Rachel? – ele voltou-se para ela. Ela ergueu uma sobrancelha. – Os vampiros e tudo mais.
– Sim.
– Por que não está com eles?
Ela deu de ombros e desviou o olhar, contendo-se para não responder que não era bem-vinda. Ele assentiu, compreendendo, e deixou a cabeça pender para trás, olhando o céu.
– E você? É hóspede?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– Eu sou o jardineiro. – ele disse. Ela analisou as flores que desabrochavam.
– Fez um bom trabalho aqui. – comentou. Ele sorriu.
– Muito obrigado. Dedico a maioria do meu tempo a plantar. Faz com que eu tenha algum objetivo, uma meta. Algo com o que ocupar a mente. Já sentiu que não servia absolutamente para nada?
Pensou por um instante.
– Não.
– Costumo me sentir assim. Mas então o jardim faz com que eu me sinta melhor.
Ela assentiu devagar. Jean parecia ser uma boa pessoa. Mal pensara isso quando a porta da casa se abriu estrondosamente e Sandy correu esbaforida até Elsa e ele. Voltou-se para a caçadora com olhar preocupado e disse:
– Pegaram a sua irmã.
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