Dolovan Breus
2 Anna / elsa
Notas iniciais
ANNA
Colocou a alça do avental sobre o ombro. Ela insistia em cair. Anna estava em um desafio, tentando equilibrar o telefone entre o ombro e o ouvido, impedir que a alça esquerda do avental caísse e batendo a massa de bolo. Casar-se não parecia tão difícil em filmes e contos de fada.
– Não, querida, eu quero seiscentos bem-casados. Eu disse S-E-I-S-C-E-N-T-O-S, não oitocentos. Não estou interessada. Se puder me dar um desconto... Não? Mas eu ainda quero apenas seiscentos. Entendeu?
Sentiu os braços fortes do noivo envolvendo a sua cintura e riu.
– Não, não estou rindo de você... Seiscentos, depois eu te ligo para fechar os preços... Até mais. – Anna deixou cair o telefone e colocou o pote com a massa de bolo sobre a pia, entrelaçando os braços ao redor do pescoço de Kristoff. Ele a beijou carinhosamente.
– Como vai?
– Louca. – ela bufou. Pegou o telefone do chão e o colocou sobre o balcão de madeira. – Essa moça dos bem casados que a sua mãe indicou tem sérios problemas de compreensão, sabe? Entregou a carta?
Ele assentiu. Ela lhe lançou um olhar de expectativa. Ele suspirou e deu de ombros.
– Não a vi lendo a carta, mas falei com ela. Ela parece bem tensa. Mas convicta. Realmente acha que vai conseguir. Eu não sei não, Anna.
– Ela é uma teimosa. Nem que eu tenha que dirigir até lá e interromper o meu bolo, eu não vou deixar ela se arriscar assim. – Anna bufou.
– Talvez só tenha que dar uma chance a ela.
Anna estreitou os olhos e pôs as mãos na cintura.
– Aquele foi o único caso com um garoto que ela já teve na vida.
– Ela tinha doze anos.
– Ela não superou! – Anna bufou.
– Você é quem sabe.
Anna voltou a bater a massa de bolo. A situação da irmã realmente a assustava, e ela já previra a sua teimosia. Teria de chegar cedo no dia seguinte se quisesse impedi-la, apesar de que era possível que ela fosse no mesmo dia para evitar uma discussão com a irmã.
– Vai ficar tudo bem. – Kristoff disse. – E esse bolo é do quê?
Ele enfiou o indicador na massa de Anna e o levou aos lábios.
– Baunilha! – exclamou.
– Kristoff! Longe do meu bolo!
Ele sorriu e a deixou, não sem antes beijar-lhe a testa. Ela sorriu e mordeu o lábio inferior. Despejou a massa de bolo na forma e a colocou no forno. Caminhou devagar até a varanda do apartamento. Apoiou-se na parede e comprimiu os lábios. Apesar de Elsa ser a mais velha, Anna às vezes sentia como se ela fosse a responsável entre as duas. Desde a morte dos pais das irmãs em um acidente marítimo, Elsa se desesperava com muito mais facilidade. Anna sentia que tinha que cuidar dela, e a situação na qual ela queria se colocar naquele momento era perigosa demais. “Ela sabe que não consegue” ela pensou “Mas não quer admitir.”.
ELSA
Elsa apoiou a cabeça na almofada – nem tão macia – do avião. Não era esperado que fosse confortável, afinal, era um avião restrito aos caçadores – que deviam adaptar-se a quaisquer circunstâncias. Ela tentava concentrar-se no vigésimo quinto capítulo de Moby Dick, mas simplesmente não conseguia. Estava insegura a respeito da sua escolha. Devia realmente ter ido? Talvez fosse melhor se tivesse seguido os conselhos da irmã. “Não” pensou “Eu fiz a escolha certa”. A ficha completa do seu alvo parecia pesar no bolso da jaqueta jeans. Ela tentara ignorar o peso nos últimos minutos, mas ele continuava ocupando um lugar na sua mente. Jack Frost. A aeronave aterrissou com um solavanco e ela agarrou-se ao banco da frente para não voar. Ficou parada por alguns instantes e se levantou, desatando o cinto de segurança. Jogou a bolsa sobre os ombros e pulou para fora do avião. Estava em solo irlandês. Ali o seu alvo havia sido visto pela última vez, infiltrado em um festival local de São Patrício. Ela olhou ao redor e despediu-se de seu piloto com um aceno de cabeça. Jogou-se no interior de um táxi.
– Para a Basílica de São Patrício, por favor. – Elsa bufou. O motorista do veículo apenas assentiu. Com um pouco de hesitação, ela tirou a ficha do bolso. Evitou olhar para a fotografia sorridente do vampiro, concentrando-se nos pontos fracos. Assustou-se com o quinto item. Garotas morenas de olhos azuis. Levou involuntariamente a mão a uma madeixa de seus próprios cabelos castanhos. Estremeceu o enfiou novamente o papel no bolso. O taxista estacionou diante da Basílica e ela enfiou o maço de notas na sua mão sem realmente prestar atenção em seu rosto.
– Boa tarde – ele disse. Ela se voltou. Lançou-se sobre ele.
– Você! Sabia que eu viria atrás de você. Sabia que eu estaria lá, por isso passou com o carro, não foi? Resolveu se entregar de primeira?
Ele segurou os seus dois pulsos.
– Ei! Para com isso! – sussurrou, e olhou para os dois lados. – Escuta. Sim, eu sabia que viria. Eu mandei a minha possível localização para a sua agência porque sabia que eles iam mandar você. Eu sabia que você estaria ali naquele exato momento, saindo daquele avião. Olaf me contou.
– Olaf?!
– Deixa eu falar! – ele disse, entredentes. Novamente, baixou o tom de voz. – Não vá tendo preconceitos com ele. Tem um motivo para tudo isso, eu não vou simplesmente me entregar. Escuta. Promete que vai esperar eu te falar? Depois você decide se vai me matar ou não.
Elsa mordeu o lábio inferior. Ele talvez estivesse tentando manipula-la. Talvez não. Ela não tinha como saber. Mas ele parecia estar se entregando completamente, estava indefeso. Talvez realmente fosse algo sério. Ela assentiu em concordância, e fechou a porta.
– O problema se chama Breu. Ele é vampiro, como eu. Mas é bem mais poderoso. Tem uma fixação de que seu objetivo de vida é destruir os inferiores.
– Tipo o Hitler.
– Tipo o Hitler. – ele concordou. – Acredita que existe uma linhagem de vampiros – a sua – superior aos outros seres vivos do mundo, e que só ela deve...
– Prevalecer. Já ouvi esse discursinho antes. – Elsa interrompeu. – E aí você diz que precisa da minha ajuda para detê-lo, que só eu posso ajudar você e a sua turma, certo?
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Eu já assisti TV, Frost. E não vou cair nesse discurso idiota de...
– Venha ver você mesma – ele interrompeu, secamente. Pisou no acelerador, os olhos fixos na rua à sua frente. Virou em uma ruela suspeita e estacionou, pulando para fora do veículo. Elsa o seguiu com certa hesitação. Ele caminhou sem olhar para ela e abriu a tampa de um pequeno depósito de lixo. Seu conteúdo? Um corpo. Um cadáver. Os olhos petrificados, fixos no além. A mão havia sido marcada com um beta minúsculo. β. Elsa se afastou, assustada. Algo na expressão mórbida e doentia do cadáver era horrível. Frost fechou o depósito.
– Essa é só uma de muitas vítimas. Logo serão todos, Elsa. Incluindo a sua irmã e o seu noivo. Incluindo você. – ele disse, seriamente. – Agora você decide. Vai me matar ou não?
Elsa esforçou-se por continuar consciente. Seus olhos encontraram os escuros de Jack e ela captou um fio de esperança ali. Fechou os olhos e respirou fundo. Então os abriu.
– Eu vou te ajudar.
– O quê?
– Eu não vou te matar. Vou te ajudar a deter Breu. – ela desviou o olhar.
– Está falando sério?
– Estou. – ela suspirou. – Nem eu acredito, mas estou.
Ele sorriu.
– Nesse caso... Oi. Quanto tempo.
Ela ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.
– Oi.
Ele coçou a cabeça.
– O pessoal... Eles não sabem que eu te conheço. Então vamos fingir que acabamos de nos conhecer. Sem ressentimentos.
– Pessoal?
– Sim. O pessoal. Não nos conhecemos, feito?
Ela suspirou e esticou os dedos. Assentiu.
– Feito. Olá. Eu sou Elsa.
– Eu sou Jack. – ele sorriu. – Vem, Elsa. Vou te apresentar ao pessoal.
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