Dolce & Desastre

15 Dolce & Intervalo


Acabei por ficar mais tempo no apartamento de Adisson do que o previsto. Um escorria para dentro do outro com uma naturalidade suspeita. Segunda virava quinta. Quinta virava “daqui a pouco”. E, quando dei por mim, já não estava na casa da Adison. Morava lá.

Não houve decisão mútua ou uma conversa adulta com termos como “temporário” ou “até eu me organizar”. Simplesmente aconteceu. Fiquei. Dormi mais uma noite. Depois outra. Depois os dias começaram a comportar-se como semanas, e ninguém achou estranho o suficiente para interromper.

As únicas vezes em que voltei ao meu antigo apartamento foram acompanhadas da Tracy. Não por medo, mas por logística. Allan nunca estava lá. Mas o apartamento, esse, estava a mudar.

Primeiro reparei nos armários. Depois na cor da parede do corredor. Um tom mais claro, diferente do que escolhemos. A disposição dos móveis também não era exatamente a mesma: o sofá ligeiramente deslocado, a mesa sem o tapete que eu tinha escolhido, tudo parecia diferente sempre que acabava por ir buscar algo que me esquecera.Tracy contou-me, com a delicadeza prática que lhe é própria, que Allan andava a mudar coisas. Sabia que não vinha de um lugar de raiva, mas sobrevivência.

“É mais fácil esquecer quando o espaço deixa de te reconhecer”, disse ela.

Não discordei.

Morar com a Adison era… peculiar.

O apartamento dela funcionava num sistema próprio, quase militar, mas sem a parte chata da autoridade. Cada coisa tinha um lugar, excepto quando ela decidia que não tinha. Havia regras implícitas que eu só fui aprendendo com o tempo. Como não mexer na prateleira de produtos de skincare, não comentar o volume da música antes das nove ou então, não fazer perguntas enquanto ela estava a passar rímel.

Em troca, havia café sempre feito.

Silêncios confortáveis.

E uma convivência estranhamente honesta.

Naquela manhã de sábado, eu estava encostado ao balcão da cozinha, ainda meio sonolento, enquanto ela circulava pelo espaço com uma caneca na mão e um ar concentrado demais para alguém que tinha acabado de acordar.

— Tu sabes que estás oficialmente aqui há mais tempo do que qualquer pessoa com quem eu já morei, certo? — disse ela, sem me olhar.

— Isso é um elogio ou uma ameaça? – questionei quando ela me entregou uma chávena de café quente.

— Ainda estou a decidir.

Sorri. Peguei numa maçã que não era minha, mas que, aparentemente, agora era.

— Se quiseres, posso começar a pagar renda.

Ela parou. Virou-se devagar.

— Não. — Fez uma careta, negando com a cabeça — Isso soa caro.

Encostou-se ao balcão à minha frente, observando-me como quem avalia um objeto que não comprou, mas decidiu manter.

— Dormiste melhor hoje.

— Dormi menos — corrigi. — Mas acordei menos cansado.

Ela assentiu, como se aquilo confirmasse uma tese antiga.

— Faz sentido. Pelo menos o sofá é confortável, até eu trocaria contigo.

Fiquei em silêncio por um segundo, sentindo a verdade daquilo. Custava admitir, mas o sofá da Adison era excelente. Na primeira semana que me mudei, ela resolveu colocá-lo no escritório e era lá que eu arrumava toda a minha roupa, em algumas gavetas que ela havia libertado.

— E tu? — perguntei. — Não te incomoda teres o teu espaço dividido?

Ela pensou por um bocadinho demasiado longo, mas também demasiado honesto.

— Incomoda. — Depois deu de ombros. — Mas não o suficiente para te mandar embora.

— Que generosa.

— Eu sei. Sou um anjo doméstico.

Voltámos ao silêncio. Não um silêncio tenso, um desses que existe só para preencher o espaço entre duas pessoas que não precisam de o ocupar com urgência.

Do lado de fora, a cidade começava o sábado com pressa. Dentro, o tempo parecia menos interessado em correr. E, pela primeira vez em semanas, isso não me pareceu perigoso. Adison foi a primeira a quebrar o silêncio. Não de forma abrupta, foi quase como se tivesse decidido que aquele intervalo já tinha durado o suficiente. Estava encostada à bancada da cozinha, a caneca ainda quente entre as mãos, o vapor a subir devagar enquanto ela observava absolutamente nada em específico.

— Já que estamos de folga — disse, pousando a caneca na pia com cuidado excessivo — podíamos fazer algo perigosamente relaxante.

O som da cerâmica contra a superfície marcou o início da ideia. Levantei os olhos do telemóvel, ainda meio desligado do mundo, e encostei-me melhor à cadeira.

— Tipo?

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como quem mede a ousadia da proposta antes de verbalizá-la.

— Não pensar em nada importante por pelo menos uma hora.

Considerei a proposta com seriedade real. Não foi ironia. Houve um segundo inteiro em que pesei mentalmente os prós e contras de não ser produtivo, não resolver nada, não antecipar nada que Valentina fosse pedir no início da semana.

— Radical — respondi, por fim. — O que tens em mente?

Adison apontou com o queixo para a janela, um gesto preguiçoso e quase automático.

— Abriu uma cafetaria nova na rua de baixo. — Fez uma pausa breve, o canto da boca a subir de leve. — Ainda não fui, o que por si só já é suspeito.

— Então é claramente uma missão.

— Exacto. — Ela endireitou-se um pouco. — E exige roupa decente.

Fomos cada um para o seu quarto, ou no meu caso o seu escritório, A arrumação ainda era um conceito em construção, mas já tinha três gavetas, quatro prateleira e um espaço definido no armário ,o que, na lógica da Adison, significava residência oficial, ainda que ninguém tivesse assinado nada.

Troquei-me sem pensar muito, quase por hábito. O corpo parecia saber o que escolher antes de mim. Calças de corte simples, camisa clara, um casaco leve que não chamava atenção, mas também não passava despercebido. Não houve indecisão, nem troca de roupa de última hora. Tudo ficara pronto em poucos minutos decisivos.

Quando voltei à sala, Adison já me esperava encostada à porta. Os óculos de sol estavam pousados no topo da cabeça, o cabelo preso de um jeito calculado. Ela cruzou os braços e olhou-me de cima a baixo. Uma vez. Depois outra.

— Huh. – as suas sobrancelhas se uniram como se tivesse acordado de uma realidade paralela.

— O quê?

Ela manteve o olhar em mim por mais um segundo antes de responder.

— Nada — disse, mas o canto da boca denunciava satisfação. — Só estou a reparar que finalmente aprendeste a vestir-te.

Arqueei uma sobrancelha, meio defensivo, meio divertido. — Sempre me vesti bem.

— Adrian — interrompeu, com aquele tom que já vinha treinado — tu costumavas vestir-te corretamente. – a sua voz deu ênfase na ultima palavra — Não é a mesma coisa.

Olhei para mim mesmo, desta vez com atenção verdadeira. A roupa assentava sem esforço, como se tivesse sido pensada para aquele corpo específico. Nada gritava atenção, mas tudo parecia intencional. O cabelo estava penteado de um jeito simples, limpo, aquela estética discreta que eu aprendera ter nome, old money, que Leslie havia falado, com meio sorriso crítico. Até a pele parecia diferente. Mais cuidada. Em algum ponto das últimas semanas, sem fazer disso um ritual dramático, eu tinha começado a investir em skincare. E pelos vistos, funcionava.

— Quando é que isso aconteceu? — perguntei, mais para mim do que para ela.

Adison abriu a porta, já a meio caminho da rua.

— Quando paraste de tentar parecer alguma coisa — respondeu, sem olhar para trás. — E começaste só a… estar.

Saímos.

O dia estava generoso. Céu limpo, luz suave, aquele tipo de sol que não exige pressa nem proteção excessiva. A rua estava viva, mas sem barulho demais. Pessoas com sacos de compras, cães a puxar donos distraídos, mesas já ocupadas apesar da hora. Tudo parecia acontecer no ritmo certo, o típico estilo novayorquino.

A cafetaria ficava mesmo na esquina. Fachada discreta, madeira clara e algumas plantas nas janelas. Cheirava a café bom ainda antes de entrarmos, aquele aroma que promete conforto antes mesmo do primeiro gole. Sentámo-nos numa mesa exterior, o tipo de lugar que pede conversa banal e observação silenciosa em partes iguais. O som da rua misturava-se com passos baixos, chávenas a pousar, e algumas conversas que não soavam altas demais.

Adison tirou os óculos de sol e pousou-os na mesa, como quem encerra oficialmente o exterior.

— Vês? — disse. — Isso é o que acontece quando o mundo não está a exigir nada de ti.

Observei a rua, o movimento, o café a chegar. O empregado pousou a chávena à minha frente, o calor a subir imediatamente pelas mãos.

— É estranho — admiti. — Mas não é desconfortável.

Ela sorriu, uma pequena vitória discreta.

— Aproveita. — Pegou na chávena. — Momentos assim não costumam avisar quando vão acabar.

Bebi o café devagar, sentindo o calor espalhar-se com calma, sem pressa de chegar a lado nenhum. Adison mexia o café com a colher, o movimento circular repetido, quase meditativo. Não havia açúcar na sua chávena, já que não era apoiante de café doce. Ela parecia confortável naquele intervalo silencioso, observando a rua com um interesse vago, como quem está presente sem estar à espera de nada. Foi ela quem quebrou o intervalo confortável.

— Então. — disse, ainda a mexer o café num tom neutro quase distraído. — E o Mathew?

A pergunta não veio carregada. Não tinha curiosidade excessiva nem cautela exagerada. Foi quase casual, como quem pergunta pelo tempo ou por uma série que ficou em pausa. Ainda assim, senti algo ajustar-se dentro de mim antes mesmo de responder, um pequeno deslocamento interno, discreto mas… real.

— Depois daquela noite… — comecei escolhendo o ritmo, como quem mede o peso das palavras antes de as largar — nenhum de nós falou mais.

Ela ergueu os olhos por cima da chávena, avaliando a resposta.

— Nenhuma mensagem?

— Nada. — Dei de ombros, um gesto honesto, sem dramatização. — No início estranhei. Achei que ele fosse aparecer, mandar qualquer coisa… uma desculpa, uma piada fora de lugar. Mas não… nada aconteceu.

Enquanto falava, deixei o olhar escapar para a rua à nossa frente. Um casal discutia em voz baixa junto à esquina, gestos contidos, tensão mal disfarçada. Uma mulher ajustava o cachecol enquanto falava ao telefone, completamente alheia a nós, ao café, à conversa que se desenrolava ali.

— E isso foi estranho por uns dias — continuei. — Depois deixou de ser.

Adison inclinou-se ligeiramente na cadeira, apoiando o antebraço na mesa, aproximando-se o suficiente para mostrar atenção sem invadir.

— Deixou de ser estranho ou deixou de incomodar?

A pergunta ficou suspensa entre nós. Pensei antes de responder, observando o reflexo do sol na superfície do café.

— Um pouco dos dois. — Dei um leve encolher de ombros — Acho que, no fundo, foi um alívio. Eu precisava de silêncio. De não ter de explicar nada a ninguém. Nem a ele… nem a mim.

Ela assentiu devagar, como se aquilo se encaixasse numa lógica própria, uma lógica que não precisava de ser verbalizada.

— Faz sentido. — disse simplesmente.

Depois, quase no mesmo fôlego, voltou a vestir o sarcasmo que nunca a abandonava por completo. O canto da boca curvou-se num meio sorriso.

— Ainda assim, se eu tivesse um homem bonito e charmoso como o Mathew Blake a orbitar a minha vida, já teria investido.

Soltei uma risada curta, involuntária, mais alívio do que humor.

— Sabia que tu ias dizer isso.

— Estou a ser honesta. — respondeu, dando um gole no café. — Alto, bem vestido, inteligente, aquele ar de quem sabe exatamente o efeito que causa mas finge que não.

Baixou ligeiramente a chávena e olhou-me por cima dela, avaliativa.

— Um desperdício estético.

— Não é uma questão de estética — respondi, mais rápido do que planeava, sentindo a necessidade de corrigir o enquadramento. — É… timing.

Ela fez uma careta imediata, sem disfarçar.

— Timing é a desculpa preferida das pessoas sensíveis.

— Ou das cansadas.

O comentário ficou suspenso entre nós por um segundo inteiro. Não houve necessidade de justificá-lo. O silêncio que se seguiu não foi constrangedor mas sim, reconhecedor por si só.

— Acho que não estou pronto — acrescentei, agora mais baixo, sentindo o peso real da frase. — Nem para ele, nem para o que quer que aquilo pudesse ser. Ainda estou a tentar perceber quem eu sou sem o Allan… antes de decidir quem eu posso ser com outra pessoa.

Adison pousou a chávena na mesa com cuidado, como se aquele gesto encerrasse oficialmente o momento de ironia.

— Isso é surpreendentemente adulto da tua parte.

— Não te acostumes.

Ela sorriu, satisfeita, como se tivesse confirmado uma suspeita antiga.

— Ainda assim — disse — gosto do facto de o Mathew ter percebido quando recuar.

— Também eu. — Respirei fundo, sentindo o ar entrar com mais facilidade. — Tornou tudo menos confuso.

O vento mexeu ligeiramente as folhas das plantas à nossa volta. O sol batia de um jeito confortável, sem exigir sombra nem ajuste. A rua continuava o seu movimento normal, indiferente às pequenas revelações que aconteciam ali.

— Sabes o que isso diz sobre ti, não é? — perguntou ela, apoiando o queixo na mão, o olhar fixo em mim agora.

— Que eu estou emocionalmente indisponível?

— Que estás a aprender a não preencher vazios à pressa.

Olhei para ela, surpreso, como se não estivesse à espera daquela leitura tão direta.

— Isso soou quase… carinhoso.

— Não digas a ninguém. — respondeu de imediato. — Tenho uma reputação a manter.

Sorri, sentindo algo soltar-se no peito.

Ficámos ali mais um tempo, bebendo o café devagar, deixando a manhã acontecer sem pressa, sem agenda, sem necessidade de conclusão.

E, mesmo com Mathew em silêncio, mesmo com o futuro ainda difuso, percebi que aquele espaço, entre o que foi e o que ainda não era, já não me parecia um erro.

Era apenas um intervalo.

Já de noite, a decisão foi quase preguiçosa demais para ser chamada de plano. Não houve negociação nem debate interno. Foi mais um acordo tácito entre dois funcionários cansados que, pela primeira vez em dias, não precisavam de render, resolver ou sustentar nada. A luz da sala estava baixa, quente, vinda apenas de um candeeiro encostado à parede. Eu ainda estava largado no sofá, a percorrer distraidamente o telemóvel, quando ouvi passos arrastados no corredor.

Adison apareceu já de pijama, cabelo preso num coque alto, uma garrafa de vinho equilibrada numa mão e duas taças penduradas nos dedos da outra, como se tivesse ensaiado aquele percurso.

— Hoje eu quero zero drama emocional— anunciou. — Só álcool moderado e ficção.

Ergui o olhar, avaliando a proposta com seriedade.

— Finalmente um conceito com o qual concordo.

Ela pousou a garrafa na mesa de centro com um cuidado quase cerimonial, colocou as taças ao lado e abriu uma gaveta que parecia conter exclusivamente produtos de autocuidado, máscaras, cremes, frascos com promessas vagas e letras microscópicas.

Pegou em duas máscaras de colagénio e atirou-me uma sem aviso.

— Coloca. — Houve uma pausa curta, avaliando a minha expressão. — Não faças essa cara, faz bem à pele e à alma.

Segurei a máscara entre os dedos, examinando-a como se estivesse à procura de uma cláusula escondida.

— A alma não tem poros.

— A tua tem — respondeu, já a esticar a máscara no rosto, com a naturalidade de quem repetia aquele ritual há anos.

Sentámo-nos no sofá, cada um a lutar com a própria máscara, aquele momento pouco digno em que ninguém fica elegante, independentemente do quão bem vestido tenha estado durante o dia. Houve um silêncio breve, cúmplice, enquanto acertávamos tudo no lugar. Quando finalmente conseguimos, Adison pegou no comando, cruzou as pernas e recostou-se, satisfeita.

— Sex and the City. — Olhou para mim. — Porque mulheres a fazer más escolhas em Nova Iorque é sempre terapêutico.

— Especialmente quando não somos nós.

O episódio começou, a sala iluminada pela televisão, o som familiar das vozes a preencher o espaço como um ruído confortável. As cores refletiam-se nas paredes, nos móveis, nos nossos rostos imóveis por causa das máscaras. Adison abriu o vinho, o som seco da rolha a marcar oficialmente o início da noite. Serviu as taças sem medir demasiado, como quem conhece bem o conceito de “quantidade suficiente”, ainda que, vindo dela, saberia que não se ia sustentar.

Bebemos devagar, o líquido quente a contrastar com a máscara ainda fresca no rosto. O vinho relaxava o corpo sem o empurrar para lado nenhum, apenas soltando arestas.

A certa altura, quando a Carrie começou mais um monólogo existencial, desses que parecem sempre à beira de uma grande revelação que nunca chega, Adison soltou um suspiro exagerado.

Pegou no telemóvel, inclinou-se para a frente e tirou uma foto da tv. A imagem saiu ligeiramente torta, com reflexo, máscaras faciais visíveis, taças de vinho em primeiro plano.

Ela deu uma risada sozinha.

— O que foi? — perguntei, virando ligeiramente o rosto.

— O Leslie. — os seus dedos digitaram rápido. — Ele vai adorar saber que estou a ver isto sem ele.

— Crueldade gratuita.

— Curadoria social — corrigiu, enviando a foto. — É diferente.

O telemóvel vibrou quase de imediato, pousado ao lado dela no sofá.

— Ele respondeu? — perguntei.

Ela leu a mensagem, os olhos sorrindo antes da boca.

— “Traição imperdoável. Guardem-me um episódio.” — leu em voz alta. — O drama.

Sorri, afundando-me mais no sofá, sentindo o encosto ceder sob o peso do corpo. A máscara começava a secar no rosto, aquela sensação leve de repuxar que obriga a ficar quieto. O vinho aquecia por dentro, sem pressa. E o mundo, naquele momento, parecia temporariamente reduzido àquela sala, àquela série, àquela banalidade confortável que não exigia decisões nem explicações.

A máscara já começava a secar no rosto, aquela sensação ligeiramente incómoda que obriga a pessoa a ficar mais quieta do que gostaria, como se qualquer expressão mais exagerada fosse um pequeno risco estético. O episódio seguia na televisão, mas já ninguém estava a prestar atenção real. As vozes vinham e iam, mais pano de fundo do que foco, misturadas ao som ocasional da rua lá fora.

O vinho descansava nas taças, rubro e lento, já um pouco mais quente do que o ideal, como tudo que fica tempo demais exposto, não estragado, apenas mais honesto.

Adison puxou as pernas para cima do sofá e apoiou o queixo no joelho, a taça segura com cuidado entre os dedos, observando a tela com um olhar crítico demais para alguém que dizia não se envolver.

— Sabes o que isso me lembra? — perguntou, apontando vagamente para a TV com a base da taça. — Que Milão vai ser exatamente assim. Pessoas bonitas, escolhas duvidosas e decisões que parecem ótimas até dois dias depois.

Sorri, girando o vinho devagar, observando o líquido desenhar círculos preguiçosos no vidro.

— Pelo menos lá estaremos bem vestidos enquanto fazemos más escolhas.

Ela riu pelo nariz, aquele riso curto que nunca era completamente involuntário.

— Estou curiosa para te ver em Milão — acrescentou, depois de um gole pequeno. — Não o Adrian “primeiro dia de trabalho”, mas esse aqui.

— “Esse aqui”?

Ela virou-se lentamente para mim, avaliando sem pressa, como se estivesse a observar um vestido novo numa vitrine que ainda não tinha decidido se comprava.

— Mais calmo. Mais centrado. — Fez uma pausa breve. — Menos a pedir permissão para existir.

A observação caiu com mais peso do que eu esperava. Encostei a cabeça no encosto do sofá, sentindo a máscara repuxar um pouco mais à medida que secava.

— Ainda estou a aprender isso — admiti. — Às vezes parece que estou só a improvisar melhor.

— Improvisar é uma arte — respondeu ela. — Leslie que o diga.

Ficámos alguns segundos em silêncio. Na televisão, uma discussão começava, carregada de dramatização excessiva. Aqui, o ambiente era outro. Mais contido. Mais honesto. O vinho ajudava a soltar, mas não a escapar.

Foi aí que a pergunta me escapou antes que eu pudesse repensá-la.

— Posso perguntar-te uma coisa?

Adison não olhou para mim de imediato. Levou a taça à boca, bebeu devagar, como quem compra tempo com elegância.

— Vais perguntar de qualquer jeito— disse. — Mas força.

Respirei fundo. Não por nervosismo, mas porque sabia que estava a atravessar uma linha confortável.

— Porque tu não namoras?

Ela piscou devagar. Depois soltou uma risada curta, surpresa.

— Uau. — Virou-se finalmente. — Isso foi direto.

— Desculpa — acrescentei. — Ignora se—

— Não. — Interrompeu. — Está tudo bem.

Ela apoiou o cotovelo no braço do sofá, a taça agora pousada na mesa, o rosto meio virado para a televisão, meio para mim. Pensou antes de falar, o que, nela, não era tão comum.

— Eu namoro — começou. — Só não fico.

— Porquê?

Ela inclinou a cabeça, como se estivesse a testar a resposta antes de a oferecer em voz alta.

— Porque chega sempre um momento em que esperam que eu me torne uma versão mais fácil de mim mesma— Fez um gesto vago com a mão. — Mais disponível. Mais previsível. Mais… constante.

— Isso soa cansativo.

— É. — confirmou. — E eu já sou uma pessoa cansada por natureza.

Sorri, mas não disse nada. Limitei-me a ouvir, deixando que o vinho aquecesse um pouco mais o peito do que a cabeça.

— Não é medo de compromisso — acrescentou, como se lesse o meu pensamento. — É cansaço de expectativas que nunca foram negociadas. As pessoas dizem que querem alguém “independente” … até perceberem que independente não gira em torno delas.

Olhei para o teto, deixando aquilo assentar, como o fundo de uma taça esquecida.

— Então preferes estar sozinha?

Ela encolheu os ombros.

— Prefiro ser eu mesma.

A frase ficou ali, simples, sem pedir aplauso ou interpretação.

Na televisão, Carrie falava de amor como se fosse um problema matemático mal resolvido. Adison revirou os olhos.

— Ela fala demais.

— E ainda assim escreve livros sobre isso.

— Prova de que confusão bem articulada vende.

Ri baixo. Depois, sem planear apenas pensei alto:

— Acho que passei muito tempo a tentar ser o mesmo Adrian para toda a gente. — Pausei. — Para o Allan, para os amigos, para o trabalho. Como se mudar fosse mau.

Ela virou-se para mim outra vez.

— E agora?

— Agora estou cansado disso — respondi. — E estranhamente em paz com o facto de ainda não saber quem vem depois.

Adison assentiu, satisfeita, pegando novamente na taça.

— Isso é crescimento — decretou. — Chato, lento, e ninguém aplaude. Mas é.

Voltámos a atenção para a televisão, já sem grande interesse no episódio. Uma hora depois, o vinho já tinha deixado de ser apenas um acompanhamento e passado a ocupar espaço no corpo, aquela presença morna que não embriaga de imediato, mas afrouxa os contornos das coisas. A sala estava iluminada só o suficiente para não parecer noite fechada, a televisão ligada mais por hábito do que por interesse real.

— Isso é completamente irrealista — disse de repente, apontando para a tela. — ninguém tem esse guarda-roupa e esse nível de autossabotagem ao mesmo tempo. escolhe um.

— Discordo — respondi. — Moda e más decisões sempre andaram juntas.

Ela riu, aquele riso curto que saía mais pelo nariz do que pela boca, e tomou mais um gole.

— Sabe o que é perigoso? — perguntou, sem me olhar.

— Além de ti e vinho?

— Momentos tranquilos demais. — inclinou a cabeça para trás, apoiando-a no sofá. — dão a ilusão de que está tudo resolvido.

Olhei para o teto por um instante.

— Não sinto que esteja resolvido — disse. — só… menos barulhento.

— Blhuc – ela meteu a língua de fora com uma expressão de nojo – Detesto sentimentalismo

Houve um silêncio confortável depois disso com o episódio terminando, o seguinte começando automaticamente com nenhum de nós se mexendo para mudar.

A máscara no meu rosto já começava a secar de vez. Senti a pele puxar quando pisquei mais forte.

— Tens de tirar isso antes de pareceres uma múmia — comentou ela, sem virar o rosto.

— Fala a pessoa que ainda tem glitter da semana passada na maçaneta da casa de banho

— Decoração, querido.

Dei um meio sorriso e estiquei o braço para alcançar a taça. O vinho estava morno agora, diferente, mais pesado. Bebi mesmo assim.

— É estranho — disse, quase sem pensar. — Como as coisas continuam mesmo quando achamos que tudo devia ter parado.

Adison virou o rosto devagar para mim.

— Bem-vindo à vida adulta — respondeu. — Ninguém pausa o mundo só porque o teu coração está em manutenção.

Assenti. Aquilo não soou cruel. Soou verdadeiro.

Houve outro intervalo. Ela levantou-se, cambaleando levemente, foi até à cozinha buscar água, voltou sem pressa, sentou-se agora no sofá ao meu lado, perto demais para ser coincidência, longe demais para ser invasão.

— Sabes o que eu acho? — disse, mexendo no próprio cabelo.

— Tenho medo, mas fala.

— Acho que estás naquele ponto chato em que já não cabes na versão antiga de ti… mas ainda não decidiste o que fazer com a nova.

Foi então que o telemóvel vibrou em cima da mesa de centro de um jeito quase educado, nada dramático, nada urgente demais, o que, de alguma forma, conseguiu ser pior. O som atravessou a sala como uma interrupção indevida, deslocada naquele clima suspenso que tínhamos construído sem combinar.

Abri os olhos devagar. Não peguei no telemóvel de imediato, fiquei apenas a olhar para ele como se pudesse adivinhar o remetente pela insistência silenciosa do ecrã apagado.

Adison foi a primeira a reagir.

— Hm. — inclinou o corpo para a frente. — Isso foi… específico demais para ser spam.

— Pode ser o banco — arrisquei, sem convicção.

— Às onze da noite? — ela arqueou uma sobrancelha. — Amor, se for o banco, é burla.

O telemóvel vibrou outra vez. Dessa vez não deu para fingir que não era comigo. Estiquei o braço, peguei no aparelho e desbloqueei.

Era o Mathew.

O nome dele no ecrã teve um efeito físico imediato, um ajuste interno silencioso, como se alguma coisa tivesse mudado de lugar sem pedir licença. Não era ansiedade. Não era euforia. Era atenção.

Adison inclinou-se ainda mais.

— E então?

— Mathew — respondi, simplesmente.

— Claro que é — disse, satisfeita, recostando-se no sofá. — Ninguém vibra assim por acaso.

Olhei para a mensagem antes de abrir, respirando fundo, como se isso pudesse preparar alguma coisa dentro de mim. Olhei para a mensagem antes de abrir, respirando fundo, como se isso pudesse preparar alguma coisa dentro de mim, porém Adison apenas agarrou o aparelho da minha mão.

— “Oi, Adrian. Sei que o silêncio às vezes é necessário, então prometo ser breve.”- ela leu – Que querido.

— Adison – resmunguei, mas ela ignorou continuando a sua leitura:

— “Só queria dizer que espero que tu estejas bem. Não estou a cobrar uma resposta, nem uma explicação.”

Adison fez um som baixo, entre aprovação e ironia.

— Adulto. Irritantemente adulto.

Continuo.

“Pensei em ti hoje. E achei melhor dizer isso do que fingir que não pensei.”

Fechou o telemóvel por um segundo, enquanto eu apoiava a cabeça no encosto do sofá, sentindo o peso exato daquela mensagem, não pesado demais, não leve demais. Estava apenas ponto.

— Ele escreve bem — comentou Adison. — Isso já é meio caminho

— Não ajuda — murmurei.

— Ajuda sim. Só não ajuda a fugir.. – o telemóvel tocou de novo na sua mão — Espera, ele mandou outra.

Dei por mim a esticar-me quase por reflexo. Alison deu um sorriso encarando-me provocativa enquanto ditava a mensagem. — “Se quiseres responder, eu vou gostar.

Se não quiseres, tudo bem também.”

O telemóvel ainda estava na mão quando Adison se mexeu de novo no sofá, inquieta, como se a mensagem tivesse criado uma eletricidade difícil de ignorar. Ela esticou o braço, pegou o próprio telefone e franziu o rosto, focada demais para alguém que já tinha bebido além do razoável.

— Não — eu disse de imediato — Nem penses.

— Calma — respondeu, já a desbloquear o ecrã. — Eu só vou… esclarecer o universo.

— Isso nunca acaba bem quando vem de ti.

Ela nem me olhou. Deslizou o dedo pela lista de contactos, confirmou alguma coisa com um aceno curto, como se estivesse a validar um plano que só existia na cabeça dela e por fim, carregou em ligar.

— Adison… — tentei outra vez.

— Shhh. — Levantou o indicador. — Agora é tarde para arrependimentos morais.

O toque soou alto demais na sala. Um. Dois. Atendeu.

— Mathew? Oi. — A voz dela saiu mais doce do que eu esperava, levemente arrastada, mas estranhamente segura. — Sou a Adison. Sim, a mesma. Não desligues, prometo não gritar! — ela virou-se para mim e sussurou — Desculpa, esqueci que o traumatizei há uns anos.

Caminhou pela sala enquanto falava, descalça, gesticulando com a mão livre.

— Eu sei da mensagem que lhe mandaste — Fez uma pausa, ouvindo. — Ótimo. Então estamos alinhados.

Passei a mão pelo rosto, sem saber se ria ou se pedia desculpa antecipadamente.

— Olha — continuou ela — eu só liguei porque, sinceramente, vocês os dois são péssimos em timing. E porque eu bebi vinho demais para fingir que não percebi isso.

Parou perto da janela, apoiando o quadril no parapeito.

— Ele está aqui — disse, apontando para mim, embora eu soubesse que ele não podia ver. — Quieto e pensativo. Com aquela cara de quem sente tudo… tu deves saber melhor que eu.

Fez uma pausa mais longa. Ouvi um murmúrio do outro lado, indistinto.

— Sim. — assentiu. — Não, não estou a empurrar nada. Só estou a confirmar que ninguém está a interpretar o silêncio como rejeição. Porque isso seria trágico. E desnecessário.

Olhou para mim de lado, avaliando a minha expressão.

— E outra coisa — acrescentou, com um meio sorriso torto. — Nós os dois concordamos numa coisa importante.

Fechei os olhos.

— Adison…

— Tu és um pão, Mathew. — Disse, convicta. — Um pão premium. Artesanal. Daqueles que as pessoas fingem que não querem, mas querem.

Do outro lado, ela ouviu uma risada. Isso só a incentivou.

— Sim, eu sei. — continuou. — Informação gratuita. Não me agradeças agora.

A voz dela baixou um pouco, ainda bêbada, mas mais sincera. Porém, ouviu algo do outro lado que a fez estranhar porém deu um sorriso.

— Sim, ele está...sim, ele vai. — Respirou fundo. — Ele vai no ritmo dele. Só… não desapareças. Isso é tudo.

Houve mais alguns segundos de silêncio. Ela escutou, assentiu outra vez, confirmou algo no próprio telefone com o polegar.

— Certo. — disse por fim. — Era isso. Boa noite.

Desligou.

Ficou a olhar para o ecrã por um instante, como se estivesse a conferir se não tinha esquecido nada, e só então se virou para mim.

— O que é que ele perguntou, Adison? — questionei, lembrando-me da sua resposta.

— Hm? Oh — ela sorriu, agarrando na taça como se aquela chamada não estivesse existido.

— Ele perguntou se tu vais a Milão.

Pisquei, apanhado de surpresa.

— E?

— E perguntou se tu estavas solteiro — ela apenas deu de ombros com um sorriso a dançar nos lábios ainda dentro do copo — Eu confirmei as duas coisas.

Sentei-me devagar, sentindo o peso leve daquela informação.

A televisão continuava ligada.

A sala estava a meia-luz.

E O vinho tinha acabado.