O quarto estava em modo “antes do evento”. Luz de espelho demasiado honesta, vapor antigo ainda preso nas bordas do vidro, roupa espalhada como se a mala tivesse explodido com dignidade. A cidade lá fora começava a acender-se, e cá dentro tudo era pressa com cheiro a perfume.

A Adisson estava sentada na beira da cama, perna cruzada, a escovar o cabelo com um foco agressivo, como se cada puxão fosse um comentário sobre a semana. O vestido dela, caríssimo, pendia do armário como um animal em repouso. Versace. Vermelho, leve, um Iris Serban perfeito. Ela olhava para aquilo com um prazer que não tentava esconder.

Eu estava em frente ao espelho, camisa vestida, a segurar na gravata preta como se aquilo fosse o único objeto capaz de me manter dentro do papel certo. O meu fato preto estava pendurado na porta do armário.

A Adisson reparou e fez uma careta tão expressiva que eu quase ouvi antes de ela falar.

— Não.

Eu olhei pelo espelho.

— O quê?

Ela apontou com a escova para o fato.

— Isso — Ela gesticulou para mim — Não.

— É um jantar, eu vou de fato.

A Adisson soltou um riso curto, ofendido.

— Adrian, eu sei que é um jantar. Eu não estou a pedir-te para ires nu. Estou a pedir-te para não ires com a tua personalidade em modo luto.

Eu prendi a gravata ao colarinho e tentei manter a voz neutra.

— Isto não é luto. – resmunguei — É clássico.

A Adisson levantou-se, descalça, e veio até mim. Ficou atrás do meu ombro, olhos no meu reflexo, a avaliar como se eu fosse um look que lhe caiu na timeline sem consentimento.

— Clássico é uma palavra bonita para “não me olhem”.

Eu puxei o nó da gravata com cuidado.

— Eu não estou a tentar que me olhem.

— Exacto, esse é o problema.

Ela fez uma pausa curta, como se estivesse a decidir se valia a pena ser paciente.

— Diz-me que tens mais alguma coisa além de fatos pretos.

Eu nem precisei de pensar. Era verdade, só que não era a verdade que ela queria.

— Tenho azul escuro.

A Adisson fechou os olhos um segundo, como se estivesse a fazer uma oração.

— Um azul escuro. – os olhos agora enchiam-se de um desprezo subtil — Uau. Revolucionário.

Eu virei-me ligeiramente para ela, ofendido.

— É um jantar da Fendi. Eu não vou fazer cosplay de pavão.

— Ninguém te pediu para ires de pavão. — Ela inclinou a cabeça, sorriso fino, perigoso. — Pedi-te apenas sinais mínimos de vida.

Eu voltei ao espelho e recomecei a ajustar o punho da camisa como se o gesto me desse autoridade.

— Vou assim.

A Adisson ficou muito quieta, e esse silêncio nela era sempre mau sinal. Depois caminhou para a mala com um propósito calmo e irritante, como quem decide resolver um problema sem pedir licença.

— Onde está o tal azul escuro?

Eu abri a boca para dizer que não valia a pena, mas ela já estava a ajoelhar junto à mala, a puxar roupa para fora com uma eficiência agressiva.

Camisas brancas. Gravatas pretas. Um cinto. Outro cinto. Meias. A Adisson levantava cada peça como se fosse evidência num julgamento.

— Isto é um museu de escolhas seguras. — Ela atirou uma gravata para cima da cama e olhou para mim por cima do ombro. — Tu tens medo de cor?

— Eu tenho medo de manchetes.

— Hoje a manchete não vai ser a tua cor. — Ela voltou a enfiar a mão na mala. — Vai ser a tua cara se alguém te encurralar com a história da Valentina. E para isso um fato preto não te protege.

A frase acertou. Eu fiquei imóvel, a olhar para o meu reflexo com mais atenção do que queria.

A Adisson puxou mais um bloco de roupa, encontrou o saco de roupa dobrado no fundo da mala e fez um som de vitória.

— Ah.

Eu franzi a testa.

— O que é?

Ela levantou o saco como se fosse um troféu. Era daqueles sacos finos de tecido, fechados, que eu tinha enfiado ali porque “dá jeito”, sem pensar muito.

A Adisson abriu o fecho com aquele cuidado exagerado de quem sabe que vai ganhar.

E o padrão apareceu primeiro. Monograma repetido, tom sobre tom. Um brilho discreto no tecido. Estrutura impecável. Um blazer Gucci jacquard, beije com aquele ar de peça que custa mais do que devia ser moralmente aceitável. Só de olhar eu senti o peso de presença que aquilo trazia.

A Adisson ficou com o blazer na mão e virou-se para mim com um sorriso tão grande que eu tive vontade de o arrancar da cara dela.

— Estás a brincar comigo.

Eu soltei um suspiro.

— Não. Isso é meu.

— Então tu tens isto e ias à Fendi com um fato preto?

— Não gosto. — Eu disse isso rápido, como se fosse defesa. — Não gosto desse padrão. É… demasiado.

A Adisson aproximou-se com o blazer e encostou-o ao meu peito como se estivesse a medir.

— Demasiado para ti ou demasiado para as pessoas olharem?

Eu apertei a mandíbula.

— Para mim.

Ela levantou uma sobrancelha, claramente a não comprar.

— Adrian, isto é perfeito.

— Não é perfeito. – pontuei — É chamativo.

— É perfeito. — Ela corrigiu, com um sorriso lento.

Eu peguei no blazer, só para o tirar das mãos dela. O tecido era pesado e bom, o tipo de peça que assenta como se fosse feito para isso. Eu odiei que isso me agradasse num nível técnico.

— Eu sinto-me ridículo com isto.

A Adisson fez um som curto, impaciente, e voltou ao espelho para ver o vestido dela, como se precisasse de se acalmar com beleza antes de me aturar.

— Não. Ridículo vais sentir-te amanhã quando vires fotos tuas no jantar e perceberes que parecias o segurança da tua própria vida.

Eu olhei para ela.

— Isso foi ofensivo.

Ela sorriu, satisfeita por me ter atingido.

— Foi útil.

Eu voltei ao espelho, blazer na mão, e vi o meu próprio cansaço nas pálpebras. Vi a semana toda na minha postura, naquela tentativa constante de passar despercebido.

A Adisson apareceu ao meu lado no reflexo, agora a pôr um brinco, o olhar brilhante, feliz com o vestido e com a possibilidade de me arrastar para fora do meu hábito.

— E antes que digas “não”, — ela acrescentou, encaixando o brinco com um clique leve — lembra-te de uma coisa. Hoje a Valentina vai estar lá a ser Valentina. O Leslie vai estar a tentar ser inteiro. E tu vais estar a tentar não ser assunto.

Ela apontou para o blazer na minha mão.

— Isto não te faz assunto. Isto dá-te presença suficiente para tu não precisares de te esconder.

Eu engoli em seco.

— E se eu não quiser presença?

A Adisson virou-se de frente para mim com aquela expressão rara, séria.

— Então não devias estar nesta indústria.

A frase ficou no ar com um peso simples.

Eu olhei para o blazer outra vez.

— Continua a não ser o meu favorito.

A Adisson deu-me um sorriso de vitória.

— Óptimo. Perfeito. Assim ainda és tu, só que melhor.

Ela aproximou-se e, sem pedir, começou a arrumar-me o colarinho. Depois puxou-me a gravata um milímetro para o sítio exacto. A seguir, pegou no perfume e borrifou duas vezes no ar, atravessando a nuvem como se estivesse a vestir cheiro.

— Agora veste isso e não discutas. Eu quero entrar naquela sala como a Julia Roberts.

Eu respirei fundo, rendido, e enfiei um braço no blazer. O tecido caiu sobre o ombro com uma facilidade insultuosa. Eu olhei para o espelho e, mesmo a contragosto, vi a diferença.

A Adisson viu também. E o sorriso dela abrandou, satisfeito e quase carinhoso.

— Pronto. Aí está. Agora pareces alguém que vai a um jantar da Fendi por opção, não por obrigação.

Eu revirar os olhos já não teve a mesma força.

— Tu estás demasiado feliz com isto.

— Estou. — Ela respondeu sem vergonha nenhuma. — E ainda nem saímos do quarto.

Eu ajustei o blazer uma última vez, como se fosse a minha forma de admitir sem admitir.

— Vamos.

A Adisson pegou na mala, deu um último olhar ao Versace no espelho, feliz como há muito eu não a via, e abriu a porta com a energia de quem finalmente tinha uma noite para brilhar.

Eu segui-a pelo corredor, já a sentir o jantar da Fendi a aproximar-se como uma sala onde tudo podia virar conversa, tudo podia virar arma, e onde eu, infelizmente, não ia poder ficar invisível.

O elevador abriu para o lobby e a noite entrou-nos pelos olhos antes de nos entrar no corpo. A Adisson saiu primeiro, o Versace a acompanhar-lhe o passo como se a roupa tivesse sido treinada para ela. Eu fui logo atrás, ainda a sentir o peso do blazer nos ombros e a irritação de ele me assentar bem.

O Leslie já estava perto da entrada, encostado ao que parecia ser o único sítio onde a luz o favorecia sem ele pedir. Fato escuro, corte perfeito, gravata discreta mas com intenção. Estava mais calmo do que de manhã e, por isso mesmo, mais perigoso. A simpatia elegante dele vinha com sarcasmo caricato, mas hoje havia qualquer coisa quase divertido ali, como se ele estivesse a escolher ser leve por disciplina.

Ele levantou os olhos e o sorriso apareceu, pequeno, impecável, com a pontinha de farpa que me dizia “eu vi tudo, mas não vou fazer drama”.

— Olhem para vocês — disse ele, e a voz veio lisa, quase calorosa — afinal sabem sair de um elevador sem parecerem um comunicado de crise.

A Adisson rodou um bocadinho o corpo, só o suficiente para o tecido mexer, e fez a cara dela de “sim, eu sei”.

— Eu sei. Ele é que está a tentar não chorar por dentro.

O Leslie olhou para ela com uma aprovação rápida, do tipo que não se oferece muitas vezes.

— Versace está a fazer um trabalho excelente contigo — disse ele, e depois inclinou a cabeça, como se acrescentasse uma nota profissional — e tu estás a pagar-lhe o favor.

A Adisson levou a mão ao peito, teatral, mas os olhos dela brilharam.

— Finalmente alguém com gosto.

O Leslie virou-se para mim, e o olhar demorou o tempo certo no blazer, como se estivesse a ler a escolha antes de comentar a pessoa.

— E tu… — disse ele, deixando a pausa viver só para eu sentir o julgamento — conseguiste não vir vestido para desaparecer.

Eu fiz um gesto vago com a mão, como se aquilo não tivesse custado nada.

— Não fui eu.

A Adisson riu baixinho ao meu lado.

— Fui eu.

O Leslie deixou o canto da boca subir, divertido, e voltou ao modo briefing sem perder o charme.

— Está tudo alinhado — disse ele, a arrumar o tablet contra o peito como se fosse extensão do braço — carro em cinco minutos. Chegamos primeiro ao cocktail, fazemos o percurso certo, e depois sentamos.

A Adisson inclinou-se um nada na direcção dele.

— “Fazemos o percurso certo” significa o quê, exactamente?

O Leslie piscou devagar, como quem tem paciência para a pergunta e prazer em responder.

— Significa que a Valentina entra, escolhe o eixo e prende a sala sem levantar a voz — disse ele, e a frase veio quase bonita de tão prática — e significa que nós não atrapalhamos.

Eu aproximei-me meio passo, já a sentir o peso do rumor no estômago.

— Diz-me como é que isto funciona para ela — pedi, e a minha voz saiu mais baixa do que queria — o que é que ela vai fazer lá dentro?

O Leslie olhou-me como se eu tivesse feito a pergunta certa no momento certo. A expressão dele ficou um pouco mais leve, como se falar de estrutura fosse sempre um alívio.

— Ela vai fazer três coisas — disse ele, e levantou um dedo, só um, para marcar ritmo — primeiro, ela vai ser vista ao lado da pessoa certa. Depois, vai controlar o tipo de conversa que a sala acha que é aceitável. E, por fim, vai sair de cada conversa antes de alguém pensar que tem direito a mais.

A Adisson encostou-se a uma coluna, a observar como se estivesse numa aula de sobrevivência social.

— Isto soa exactamente como ela.

— Porque é — respondeu o Leslie, e o sorriso dele ficou mais fino, mais cúmplice — e hoje ela vai fazer isso com mais precisão ainda.

Eu senti a frase prender-me e o Leslie percebeu. Ele percebe sempre. A forma como o olhar dele pousou em mim foi rápida, quase gentil.

— Sobre ontem — disse ele, baixando ligeiramente a voz, mais por estilo do que por segredo — hoje vai haver gente a tentar trazer o assunto para cima da mesa como quem fala do tempo.

A Adisson endireitou-se logo.

— E nós?

O Leslie olhou para ela com aquele ar simpático que já vinha afiado.

— Tu sorris — disse ele, como se fosse óbvio — tu dás uma frase bonita sobre trabalho e moda e mudas a conversa para outro lado.

Depois voltou-se para mim, e o tom mudou só um milímetro, o suficiente para ficar sério sem ficar pesado.

— E tu não repetes perguntas — disse ele, e a frase veio limpa, sem espaço para negociação — não reformulas, não justificas, não explicas. Se alguém vier com veneno educado, tu fechas a porta sem bater.

Eu assenti, porque aquilo eu sabia fazer. O problema era o que eu sentia quando fechava.

A Adisson fez um gesto com a mão, como quem aponta para o ambiente todo.

— E o jantar em si? O que é que é isto, além de um desfile de egos com pratos?

O Leslie soltou um som que parecia riso e suspiro ao mesmo tempo.

— É um jantar de marca — disse ele, e a forma como disse “marca” tinha peso — no Moebius. Luz baixa, gente perto, conversas a cruzarem-se. Primeiro há cocktail, que é onde todos tentam pescar. Depois sentamos, que é onde todos tentam influenciar.

A Adisson fez uma careta mínima.

— Odeio a palavra influenciar quando não é sobre redes.

— Também eu — disse o Leslie, simpático, como se estivesse a concordar com um amigo, e depois deu o golpe — mas hoje é a versão analógica.

Eu mexi no punho da camisa, ajustando o relógio sem necessidade. Era só uma forma de manter as mãos ocupadas.

— E tu? — perguntei, sem pensar muito, porque o olhar dele estava mais leve e eu não queria perder a oportunidade — estás melhor?

O Leslie piscou uma vez, devagar, e a simpatia dele apareceu com a camada de sarcasmo por cima, como sempre.

— Estou óptimo — disse ele, e o sorriso ficou quase bonito — estou num estado avançado de “não tenho tempo para me desfazer hoje”.

A Adisson soltou um riso baixo, mais carinhoso do que gozo.

— Isso é a tua forma de dizer que dormiste doze minutos.

— Eu não confirmo nem nego — respondeu o Leslie, com dignidade — mas agradeço a preocupação. É comovente e profundamente inconveniente.

Eu senti um milímetro de alívio, não por estar tudo bem, mas por ele estar ali a ser ele. Eu precisava disso.

O Leslie olhou para o relógio e voltou a endireitar o tablet como se estivesse a endireitar a noite.

— Última nota — disse ele, e o tom ficou leve, quase brincalhão, só para a frase entrar sem parecer ameaça — ninguém faz cara.

A Adisson ergueu a sobrancelha.

— Cara de quê?

O Leslie olhou para mim um segundo a mais do que para ela.

— De surpresa, de culpa, de romance, de “isto é pessoal” — disse ele, enumerando com uma paciência falsa — se o Mathew aparecer, vocês continuam a ser profissionais com pulsação.

A Adisson sorriu como quem acabou de ganhar.

— Ele vai aparecer.

O Leslie fingiu que suspirava.

— Eu disse “se” — respondeu, educado demais — tu disseste “vai”. Vamos todos fingir que somos civilizados e aceitar a possibilidade.

Ele deu um passo para a porta, já no modo impecável.

— Carro em dois minutos — disse ele, e o sorriso voltou a ser aquele sorriso que organiza o caos — vamos fazer isto bem. A Valentina vai querer uma sala a obedecer, e eu não tenho energia para ensinar adultos a comportarem-se duas vezes na mesma semana.

A Adisson aproximou-se de mim e murmurou, só para eu ouvir, com aquele veneno doce que é carinho.

— Ele está mais divertido. Isso significa que está perigosíssimo.

Eu não respondi. Só alinhei o corpo com o deles, porque a noite já estava a começar e eu sabia exactamente o que nos ia pedir.

A porta giratória deixou entrar uma rajada de ar frio e, com ela, a sensação de que o lobby tinha mudado de eixo.

Valentina entrou como se não tivesse pressa e, mesmo assim, como se toda a gente à volta tivesse de se ajustar ao ritmo dela. O vestido era verde escuro, quase bosque, tecido pesado a cair como decisão. A luz do lobby apanhava o tom em camadas, ora profundo, ora quase negro. Por cima, um casaco de pelo claro repousava-lhe nos ombros, pousado, não vestido, como se fosse apenas um detalhe que ela tolera para não sentir frio.

Ela não procurou aprovação. Olhou como quem confirma inventário.

O Leslie endireitou-se um milímetro antes de ela chegar, reflexo de quem sabe exactamente o que está a entrar na sala. A Adisson ficou mais quieta, e eu senti o meu corpo imitá-la.

Valentina parou a uma distância exacta de nós, nem íntima, nem distante. O olhar passou primeiro pelo Leslie, depois por mim, depois pela Adisson. Sem pressa, sem urgência, com aquela precisão que torna cada segundo uma avaliação inteira.

— Boa noite — disse ela, e a voz veio lisa, sem calor, mas não agressiva. Era só dela.

O Leslie respondeu com a simpatia elegante de sempre, bem colocada, como se fosse uma arma limpa.

— Boa noite, Valentina. Carro em dois minutos.

Valentina assentiu com um gesto mínimo. Depois deixou o olhar pousar na Adisson, e o silêncio que veio a seguir foi um segundo de medição.

— Versace — disse ela, como quem lê uma legenda sem precisar de confirmação.

A Adisson endireitou o queixo, sorriso controlado, e respondeu sem a pressa de quem quer agradar.

— Sim.

Valentina inclinou a cabeça um milímetro. Quase elogio.

— Está… adequado.

O olhar deslizou então para mim. Reparei que ela leu o blazer antes de me ler a cara. Claro que leu. O padrão, o corte, a intenção. Depois subiu para os meus olhos, como se quisesse ver se eu ainda estava a tentar desaparecer.

— Gucci — disse ela, e a palavra soou neutra, mas não foi. Foi um registo.

— Sim.

Valentina manteve o olhar por meio segundo a mais, e depois deixou cair uma instrução como se fosse comentário casual.

— Melhor do que preto. – os seus olhos correram o meu paletó — Use-o como estrutura, não como anúncio.

Assenti, automático.

— Sim.

Ela virou-se ligeiramente para o lobby, e durante dois segundos pareceu que estava apenas a observar pessoas a entrar e a sair. Mas era outra coisa. Era leitura de sala.

Uma mulher passou com um vestido prateado curto e um casaco pequeno nos ombros, sorriso grande demais para ser espontâneo. Valentina seguiu-a com os olhos como se seguisse um anúncio a passar num ecrã.

— Isso é um pedido de fotografia — disse ela, baixa, quase para si, mas alto o suficiente para nós ouvirmos. O canto da boca mexeu-se um milímetro. — E vai conseguir.

O Leslie fez um som breve que podia ser concordância ou ironia.

Valentina olhou para um homem com smoking branco, demasiado perfeito, demasiado polido.

— Aquilo é um erro caro — comentou, e havia uma diversão leve na palavra “erro”. — Smoking branco é sempre um compromisso com vinho tinto e tragédia.

A Adisson engoliu um riso. Eu senti-o mais do que vi. A Valentina não lhe deu espaço, nem com olhar.

Ela voltou para nós como quem fecha o scan e abre o briefing. A postura dela não mudou. Só a intenção da voz.

— Antes de entrarmos no carro, eu vou dizer-vos isto uma vez — disse ela, e o tom ficou mais frio, mais limpo, como se a frase fosse um contrato. — O jantar da Fendi não é um jantar.

O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi atenção.

O Leslie inclinou-se um milímetro, como se estivesse a receber instruções de palco. A Adisson endireitou-se. Eu senti o estômago apertar num reflexo que já conhecia.

Valentina continuou sem pressa, porque ela sabe que, quando fala baixo, toda a gente aproxima.

— É trabalho com luz bonita — disse ela, e a frase caiu simples, sem flor. — É um espaço onde as pessoas vêm confirmar hierarquias e tentar mover peças. Algumas vão fingir que vieram por gosto. A maioria veio por acesso.

Ela olhou para mim quando disse “acesso”, como se quisesse que eu guardasse a palavra.

— E a Fendi quer o quê? — perguntou Adisson, num tom respeitoso, mas não submisso.

Valentina deslocou o olhar para ela, e eu reparei que respondeu por escolha, não por obrigação.

— A Fendi quer controlo da narrativa — disse, como se fosse o óbvio. — Quer fotografia certa, conversa certa, e quer que a noite pareça espontânea enquanto é desenhada ao milímetro.

Ela passou o olhar pelo lobby outra vez, só um instante, e eu senti a sala inteira como um tabuleiro.

— E eu quero o quê? — continuou Valentina, voltando para nós com calma. — Eu quero que a Velvet seja vista no lugar certo. Quero que as pessoas me associem ao trabalho, não ao ruído.

A palavra “ruído” caiu ali como um peso invisível. Ela não precisava de dizer rumores. Nós sabíamos.

Valentina inclinou-se um milímetro na direcção do Leslie. A voz dela baixou só um grau, mas ficou mais dura.

— Leslie, hoje você filtra. Sem pena e sem hesitação. Se alguém tenta trazer o tema para cima da mesa, você tira-me de lá antes de eu ter de ser desagradável em público.

O Leslie assentiu com um gesto pequeno, elegante, como se aquilo fosse apenas rotina, mesmo sabendo que não era.

— Sim.

Ela virou-se para a Adisson.

— Você — disse, e o tom dela foi quase neutro, quase gentil, mas com lâmina por baixo — vai sorrir para toda a gente e falar de roupa. Se alguém lhe der “preocupação” em tom de fofoca, você responde com profissionalismo e muda o assunto. Não alimente perguntas embrulhadas em simpatia.

A Adisson assentiu uma vez, sem piadas. A felicidade do Versace não lhe tirava a competência.

— Sim.

Valentina olhou para mim por último. E eu soube, pelo modo como ela fixou os olhos, que ali não era só instrução. Era teste. Ela queria ver se eu ia tremer, se eu ia querer ser herói, se eu ia improvisar com moralidade.

— Adrian — disse ela, e o meu nome na boca dela soou a linha a ser desenhada. — Hoje você não abre portas.

Endireitei os ombros, sem pensar.

— Não.

Valentina não assentiu logo. Segurou o meu olhar o tempo suficiente para eu sentir o peso do que ela estava a pedir.

— Isto não é uma noite para conversas bonitas — disse ela, baixa, muito clara. — É uma noite para disciplina.

Fez uma pausa curta e deixou cair a frase como uma sentença elegante.

— O rumor vai tentar sentar-se à nossa mesa. Não deixem.

A Adisson respirou fundo uma vez. O Leslie piscou devagar. Eu senti a minha garganta apertar, e mantive a cara neutra por teimosia.

Valentina ajustou o casaco de pelo no ombro com um gesto lento, como se estivesse a pôr o mundo no lugar. Depois deu meio passo, já em movimento.

— Vamos.

E naquele “vamos” não havia convite. Havia ordem. Havia ritmo. Havia a noite inteira a ser puxada para a frente.

O motorista abriu a porta do carro lá fora, e o lobby voltou a parecer normal assim que ela saiu, como se a presença dela fosse um interruptor.

Eu segui atrás, com a sensação de que o jantar da Fendi tinha acabado de ser definido com duas frases.

Não é um jantar.

É trabalho com luz bonita.

O carro cheirava a couro e a silêncio educado, aquele silêncio que existe quando toda a gente sabe que a noite vai ser um teste e finge que não.

A Adisson sentou-se com cuidado, como se o vestido fosse uma coisa viva. O Versace acompanhava-lhe o movimento sem ranger, sem protestar, só a cair no sítio certo. Ela ajeitou a alça com a ponta dos dedos e sorriu para o seu reflexo no vidro escuro, um sorriso que não era para ninguém. Era para ela, finalmente.

Lá à frente, o Leslie estava impecável demais para um homem que tinha dormido pouco. O colarinho perfeito, a gravata escolhida com a maldade discreta de quem sabe que vai ser visto por gente que avalia tudo. Eu via a forma como ele mexia o polegar no telemóvel, rápida e contida, e como depois guardava o aparelho como se não quisesse que ninguém visse a preocupação.

Eu ajusteI o blazer no ombro e senti, outra vez, a irritação de ele assentar bem. Não era o meu estilo. Era presença. E hoje presença era uma coisa perigosa.

— Se tu voltares a puxar essa lapela como se ela te estivesse a morder — murmurou a Adisson, sem olhar directamente para mim — eu começo a cobrar consultoria.

A frase veio com humor, mas o tom dela era mais suave do que de costume. Eu percebi que era a forma dela de me manter aqui, dentro do carro, dentro do corpo, em vez de eu estar já no jantar a antecipar cenários.

O Leslie não se virou, mas a voz dele chegou pelo espaço como se estivesse sentada connosco.

— Guardem energia para o cocktail — disse ele, e o tom tinha aquela simpatia elegante que ele usa quando quer que obedeçam sem parecer ordem — aí é que as pessoas começam a falar “sem querer”.

O carro abrandou. A entrada era discreta de propósito. Sem letreiro a gritar. Sem tapete. Só seguranças com auriculares e listas na mão, e um fluxo de carros que chegavam no ritmo certo, como se o evento tivesse sido programado para não se notar.

Quando saí, o frio mordeu-me a pele num instante. A Adisson nem pareceu sentir. Inspirou fundo como se aquele ar fosse parte da cerimónia, e eu vi-lhe os ombros relaxarem um milímetro, feliz com o papel que ia desempenhar naquela sala.

Valentina já estava dois passos à frente. Verde escuro, casaco de pelo pousado nos ombros como uma coroa que ela tolera. Ela não esperou por ninguém. Avançou, e o mundo alinhou, como sempre.

Na porta, um segurança confirmou nomes sem sorrir. A mão do Leslie veio ao bolso interior do casaco com a naturalidade de quem já fez aquilo mil vezes. Mostrou credenciais, disse duas palavras ao ouvido do homem e entrou sem pedir licença. Quando ele olhou para nós, foi um olhar curto, preciso.

— Lembrem-se — disse, e a frase saiu baixa, mais para o nosso eixo do que para o ar — dentro, vocês não correm. Vocês escolhem.

O interior do Moebius recebeu-nos com luz baixa e som controlado. Um bar a brilhar ao fundo, metal e vidro, e uma música que não queria ser protagonista, só queria manter o ritmo do corpo. Cheirava a citrinos esmagados, a álcool caro, a perfume, e a tecido quente de gente que já estava ali há tempo suficiente para se sentir dona do espaço.

Havia uma zona óbvia onde as pessoas se colocavam para serem vistas, mas tudo fingia que era espontâneo. Os sorrisos vinham na medida certa. Os cumprimentos duravam exactamente o suficiente para dar fotografia mental, depois acabavam. Ninguém segurava ninguém por demasiado tempo. Era uma coreografia inteira de “não tenho pressa” montada em cima de pressa.

Valentina parou meio segundo dentro da porta. Não foi hesitação. Foi instalação. O olhar dela passou pelo bar, pelas mesas, pelos rostos, e eu senti a sala inteira ficar um grau mais consciente do próprio corpo.

Ela escolheu o primeiro ponto como se escolhesse uma peça num tabuleiro.

Giulia Riva, comunicação da casa, sorriso impecável, postura de quem representa a marca como se representasse uma religião. Valentina aproximou-se com exactidão. Estendeu a mão num gesto limpo, sem calor, mas com poder suficiente para parecer honra.

— Boa noite, Giulia — disse ela, e a voz vinha lisa, sem esforço — parabéns.

Giulia sorriu como se tivesse sido validada por uma entidade superior.

— Valentina, é um prazer enorme. Obrigada por estar aqui.

Valentina inclinou ligeiramente a cabeça e ficou no ângulo certo. A distância entre as duas parecia calculada para fotografia antes de haver câmara. O casaco de pelo deslizou um milímetro no ombro e ela ajustou-o com calma, como quem ajusta uma frase.

— Não se esqueça — murmurou ela, ainda a sorrir, e a frase vinha com doçura perigosa — hoje a noite tem de parecer fácil.

Giulia riu, um riso que tentou parecer leve. Valentina deixou o riso existir e já estava a deslocar-se para o segundo ponto, sem ficar tempo suficiente para alguém achar que podia prender-lhe o braço.

O Leslie surgiu ao lado dela com a naturalidade de quem pertence àquele eixo, a simpatia elegante dele a fazer de ponte.

— Boa noite — disse ele a alguém, e aquele sorriso vinha com sarcasmo bem educado — vamos fingir que isto é apenas um jantar.

A Adisson, meio passo atrás de mim, inclinou-se ligeiramente como se fosse só para ver melhor a sala, mas eu senti o comentário a chegar-me ao ouvido.

— Ela já tomou a sala — murmurou, com um brilho contente nos olhos — ela nem precisou de levantar a voz.

Eu não respondi. O meu corpo estava atento demais aos detalhes. Quem olhava, quem não olhava, quem esperava uma brecha para se aproximar com “preocupação”.

Valentina voltou para nós por um instante, só para alinhar o tom, como quem ajusta um relógio.

— Isto é trabalho — disse ela, e a frase caiu simples, sem dramatismo, porque não precisava — vocês não vêm aqui para ser agradáveis. Vocês vêm aqui para ser úteis.

Ela olhou para a Adisson, avaliou o vestido outra vez com um micro gesto de aprovação, e deixou cair uma regra como se fosse etiqueta.

— Sorria para todos. – murmurou-lhe — Não dê nada a ninguém.

A Adisson assentiu com uma serenidade que nela era quase ofensiva, e eu vi a forma como ela endireitou os ombros para caber no papel.

Valentina olhou para mim, e o olhar ficou em mim um segundo a mais.

— E você — disse ela, sem levantar o tom — fecha portas antes de as pessoas acharem que são janelas.

Assenti, sentindo o maxilar apertar, mas mantive a cara limpa.

O cocktail começou a mexer-se à nossa volta como uma maré. Empregados a passar com tabuleiros, copos a aparecerem na mão de quem queria parecer ocupado, pequenas conversas a nascerem e a morrerem em vinte segundos. Eu aceitei uma água por instinto. Precisava de manter a cabeça fria.

Um comentário venenoso chegou perto demais.

Uma mulher, sorriso de pena ensaiado, aproximou-se do eixo como quem não quer incomodar.

— Que horror o que estão a dizer…

O Leslie entrou no espaço dela com a suavidade de quem oferece ajuda e, ao mesmo tempo, fecha a porta.

— Boa noite — disse ele, e o sorriso dele foi impecável — estamos a celebrar a colecção. Se quiser falar de trabalho, eu apresento-a com todo o gosto.

Ela piscou, recalculou, e recuou com uma frase vaga. Leslie deixou-a ir sem esmagar. Foi isso que o tornou ainda mais eficaz.

A Adisson olhou para ele de lado, quase com carinho.

— Ele está mesmo bom hoje — murmurou.

Eu reparei que o Leslie estava mais leve, sim, mas também mais afiado. Aquela leveza era disciplina. Era alguém a escolher não cair.

E então eu senti a sala mudar de novo, mas desta vez não foi pela Valentina.

Foi por mim.

Não houve anúncio, nem ruído grande. Foi só o meu corpo a reconhecer antes de eu ver. Quando levantei os olhos, Mathew estava do outro lado do bar, a entrar como se já tivesse estado ali antes.

Fato verde escuro. Postura calma. Um olhar atento que parecia sempre ligeiramente divertido, como se ele soubesse coisas que eu ainda estava a tentar negar. Ele não veio directo. Parou, cumprimentou alguém com um sorriso educado, inclinou-se o suficiente para parecer social, e só depois levantou os olhos para mim.

O olhar dele prendeu-se no meu como uma mão que não precisa de toque. Eu senti o calor subir-me ao rosto e odiei a traição do meu corpo.

Mathew não sorriu grande. Foi pior. Um sorriso pequeno, íntimo, como se aquilo fosse só nosso. Levantou o copo um milímetro, um gesto mínimo, quase imperceptível para qualquer pessoa normal.

Eu fiquei quieto demais.

A Adisson viu logo. Não precisou de seguir o meu olhar com pressa. Ela sabe.

— Não faças cara — murmurou, a boca mal a mexer, o tom feliz e venenoso — por favor, não me faças passar vergonha.

Eu respirei fundo, lento, como se isso pudesse arrumar a expressão.

O Leslie apareceu ao nosso lado como uma sombra bem vestida, a voz baixa, a atenção no relógio e nos corpos.

— Mesa em cinco minutos — disse ele, e o tom tinha aquele humor elegante que disfarça a ordem — guardem a vossa poesia para depois do prato principal.

Valentina regressou no momento exacto, como se tivesse cronómetro dentro do peito. O casaco de pelo continuava nos ombros, o verde escuro continuava a mandar na luz.

— Vamos sentar — disse ela, e a frase não pediu confirmação. Executou-se.

O caminho até à mesa foi um corredor de olhares. Eu senti gente a tentar agarrar a Valentina com “só uma palavra”, e vi o Leslie a bloquear com sorrisos que pareciam gentis e eram muros. A Adisson andava ao meu lado com aquela postura dela de quem está a brilhar e, ainda assim, a trabalhar.

As mesas estavam alinhadas com velas baixas e place cards como pequenos decretos. Talheres demasiado perfeitos, copos demasiado transparentes, e um silêncio de expectativa a crescer por baixo da música.

Eu procurei o meu nome por instinto e encontrei-o rápido. Sentei-me sem pressa, como se eu fosse alguém que não tem coração.

E foi aí que vi o cartão do outro lado, dois lugares à frente.

“Mathew Blake”.

O ar saiu-me dos pulmões um milímetro mais devagar.

A Adisson viu ao mesmo tempo. A felicidade dela foi tão imediata que eu quase a senti como toque no ombro. Ela aproximou-se do meu ouvido sem mexer muito o corpo.

— Milão não te dá paz — murmurou, com um sorriso que eu ouvi mais do que vi — Milão dá-te enredo.

Eu mantive a cara neutra porque tinha de manter. Mas por dentro eu estava a contar batimentos como quem conta minutos.

A Valentina sentou-se com a calma de quem decide a sala. O Leslie ocupou o lugar dele com a elegância de quem já está a segurar a noite. A Adisson ajeitou o vestido com um gesto mínimo, feliz e afiada.

E eu fiquei ali, a olhar para o nome do Mathew num cartão branco, com a certeza irritante de que aquela noite não ia ser só trabalho com luz bonita.

Ia ser trabalho com armadilha e eu já estava sentado dentro dela.

O cocktail estava a ganhar corpo. O bar já não era só cenário e sim, um território claro de guerra. As pessoas começavam a falar com mais confiança, como se o primeiro copo lhes tivesse dado autorização para existir. O ar cheirava a citrinos esmagados e a perfume caro, e eu sentia a música no peito mais do que nos ouvidos, um ritmo baixo que ajudava a disfarçar as pausas.

Valentina estava no seu elemento e, quando um rapaz alto, moreno e bem vestido se aproximou, ela não endureceu. Pelo contrário. A expressão dela suavizou o suficiente para virar charme, aquele charme educado e afiado que ela reserva para quem, de facto, merece conversa.

Ele parou a uma distância exacta, copo na mão, sorriso fácil, mas com respeito real. Ele não vinha “aparecer”, vinha cumprimentar alguém que conhece o jogo tão bem como ele.

— Valentina — disse ele, e o tom veio caloroso sem ser íntimo demais, como se a noite lhes pertencesse a ambos por direito.

Valentina levantou o olhar devagar, e o sorriso dela apareceu inteiro o suficiente para ser visto por quem estava perto. Não era o sorriso mínimo de protocolo. Era um sorriso que dizia “sim, eu sei quem és e sei o valor que tens aqui”.

— Antoine. — A forma como ela disse o nome dele foi quase um elogio. — Está impecável.

Ele riu baixo, aceitando o cumprimento como quem está habituado a ser visto e ainda assim gosta quando vem daquela boca.

— Estou a tentar acompanhar a sala. — A cabeça dele inclinou-se um milímetro na direcção dela. — Mas a sala perdeu.

Valentina deixou um segundo de silêncio viver, só para a frase aterrar. Depois respondeu com a mesma elegância, sem ceder ao teatro.

— A sala não compete comigo. Ajusta-se.

Antoine sorriu, rendido, como se aquilo fosse exactamente o tipo de frase que ele colecciona sem admitir.

Eles ficaram ali a conversar mais tempo do que uma conversa “de cocktail”. Não era pressa, era familiaridade. Ele perguntou-lhe do desfile, ela comentou o corte de um look com uma precisão desconfortável, ele respondeu com uma observação sobre como a casa queria ser lida este ano. A conversa tinha aquele ritmo de gente que já se cruzou demasiado em salas parecidas para precisar de fingir entusiasmo.

A Adisson estava meio passo atrás de mim, a ouvir com atenção, e eu sentia a satisfação dela por ver Valentina a ser educada com alguém que merecia. Aquela versão da Valentina era rara: não era simpatia, era respeito.

- Antoine Morell – ela sussurrou. – Modelo espanhol que virou celebridade após estourar em 2018.

Antoine levou o copo à boca, bebeu um gole pequeno, e deixou o olhar deslizar para o lado como quem repara no resto do quadro.

Foi aí que ele nos viu.

Ou melhor, ele viu a Adisson primeiro e a sua expressão mudou num instante, reconhecendo um look bem montado. Depois os olhos dele vieram para mim… e ficaram tempo demais.

Eu senti o impacto no estômago antes de o processar. Não foi susto. Foi aquele micro aquecimento irritante de ser observado com intenção. Mantive a cara limpa, mas a nuca denunciou-me. Eu respirei mais curto por um segundo.

Antoine voltou a olhar para Valentina, mas a curiosidade já tinha entrado na conversa.

— A propósito… — disse ele, e a voz ficou com um brilho divertido — a tua equipa parece diferente.

Ele disse “diferente” como quem diz “mais interessante”. O olhar dele passou outra vez por nós, com a desculpa perfeita de ser só análise.

Valentina seguiu-lhe o olhar com calma e, ao contrário do que muita gente faria, não fechou o gesto. Abriu-o. Porque Antoine merecia. E porque ela sabia usar apresentações como ferramenta.

— Mudou — confirmou Valentina, sem pressa, como se a palavra não fosse defesa, fosse escolha. — E ainda bem.

Antoine sorriu.

— Eu reparei. — Fez uma pausa curta, e os olhos dele voltaram a mim, demorados, como se estivesse a ler a minha cara e o meu casaco ao mesmo tempo. — Quem são?

Valentina virou-se ligeiramente, o suficiente para nos puxar para o eixo sem nos empurrar para palco. A mão dela fez um gesto pequeno, quase elegante, como se estivesse a apresentar peças numa vitrine.

— Antoine, esta é a Adisson Valentis. — disse ela, e o tom foi educado, exacto. — E este é o Adrian Kane.

A Adisson avançou um meio passo, sorriso profissional a surgir com naturalidade, e estendeu a mão. Antoine aceitou, cordial, um segundo de charme, depois largou. A seguir veio a minha mão, e eu senti a diferença imediatamente: o aperto dele ficou um pouco mais firme, um pouco mais longo, como se ele quisesse testar se eu ia recuar.

Eu não recuei. Também não avancei. Mantive o sorriso no ponto certo e deixei a mão sair da dele com calma, como se eu fosse imune, mesmo não sendo.

Antoine inclinou a cabeça na minha direcção, os olhos a brilharem com interesse óbvio, e voltou à Valentina como se a pergunta seguinte fosse casual. Não era.

— O Adrian está contigo há muito tempo?

Eu senti a Adisson segurar um sorriso. Ela adora quando alguém tenta medir poder e acha que está a ser subtil.

Valentina não olhou para mim para pedir permissão. Respondeu como directora executiva, com aquela frieza elegante que transforma qualquer coisa num facto.

— Nem por isso.

A frase caiu simples. E, mesmo assim, eu senti-a como um holofote.

Antoine ergueu ligeiramente as sobrancelhas, impressionado, e eu vi o olhar dele voltar a mim como se eu tivesse acabado de ganhar valor no mercado.

— Então ele deve ser eficiente — disse Antoine, e o sorriso dele foi de pura aprovação. — Já que te vejo sempre com ele na semana da moda.

O comentário era elogio, mas também era uma pergunta disfarçada. Como é que alguém “novo” já estava naquele lugar?

Valentina sorriu. Um sorriso pequeno, perigoso. O tipo de sorriso que ela usa quando alguém acertou… mas ainda assim precisa de aprender a não fazer perguntas demais.

— Eu não mantenho pessoas ao meu lado por hábito — disse ela, e a voz ficou macia o suficiente para não soar cruel. Só soou verdade. — Mantenho por utilidade.

A palavra “utilidade” não foi insulto. Estava mais para um critério absoluto do seu dicionário. Antoine riu, baixo, como se estivesse a apreciar a honestidade dela como aprecia vinho requintado.

— Claro. — A voz dele abrandou. — E ele passou no teste.

Valentina inclinou a cabeça, aceitando a leitura.

— Passou a tempo. — Ela deixou a pausa existir, só o suficiente para Antoine sentir o peso do “a tempo”. — O resto é consistência.

Eu senti o olhar dele voltar a mim, outra vez tempo demais, como se a palavra “consistência” tivesse sido uma espécie de convite para ele me estudar.

A Adisson inclinou-se para mim com um sorriso que eu vi pelo canto do olho, e a frase veio baixa, só para mim, enquanto ela fingia ajeitar o pulso do relógio.

— Ele está mesmo a comer-te com os olhos.

Eu não lhe dei a satisfação de reagir muito, só deixei a minha voz sair com o mínimo de irritação possível.

— É do casaco.

A Adisson fez um som pequeno, divertido, e eu senti o ombro dela mexer, quase riso.

Antoine, como se tivesse ouvido a energia, voltou a falar com Valentina, mas não tirou completamente os olhos de mim. Isso era o pior. Ele mantinha-me na margem do olhar como se fosse intencional.

— A tua revista está mais… afiada — disse ele, voltando ao tema com naturalidade, mas com uma curiosidade que era quase elogio. — Dá a sensação de que deixaste de pedir desculpa.

Valentina não se ofendeu. Ela sabia conversar com quem merecia. E Antoine merecia.

— Eu não peço desculpa por ter critério — respondeu, tranquila. — A moda muda e o mundo muda. A Velvet tem de acompanhar ou fica decorativa.

Antoine sorriu, satisfeito, e eu vi que ele gostava do modo como ela falava. Gostava porque ela não o tratava como celebridade. Tratava-o como parte do mesmo jogo.

— E tu? — perguntou ele, e agora sim olhou para mim de frente, como se fosse a minha vez de ser posto em prova. — Tu escreves ou organizas?

Eu senti o instinto de recuar. Depois lembrei-me de quem eu estava ali a representar. E de que a Valentina tinha acabado de me pôr naquele lugar.

Sorri no grau certo.

— Eu faço o que for preciso para a edição ficar limpa.

Antoine riu baixo, e o olhar dele amaciou com interesse.

— Resposta muito executiva para alguém com essa cara.

A Adisson quase engasgou com o champagne. Eu mantive a compostura por pura força de vontade. Valentina, ao meu lado, não permitiu que aquilo virasse flirt aberto, não por moral mas pela sua vontade de disciplina.

— Antoine — disse ela, e o tom foi educado, mas firme o suficiente para puxar o eixo de volta. — Ele está a trabalhar. Não o distraia antes do jantar começar.

Antoine levantou as mãos num gesto leve de rendição.

— Jamais. — O sorriso dele voltou-se para ela, cúmplice. — Eu respeito o trabalho… quando é bom.

Valentina aceitou a frase com uma inclinação mínima de cabeça, como se tivesse recebido exactamente o que queria ouvir e nada mais.

Antoine ficou mais um instante, conversando com ela sobre a noite, sobre convidados, sobre a sala, e eu tive de reconhecer que ela estava, de facto, a ser educada. Não sorria por obrigação. Sorria porque Antoine sabia estar ali sem tentar sujar as mãos.

Quando ele finalmente se afastou, foi com calma, sem pressa, como se soubesse que já tinha deixado a presença marcada.

A Adisson virou o rosto para mim, agora sem fingir.

— Nem por isso — repetiu ela, num sussurro venenoso, a gozar com a frase da Valentina. — Eu adoro. Ela acabou de te vender como novidade eficiente.

Eu inspirei devagar, a tentar não deixar a cara denunciar que eu tinha sentido tudo.

— Eu sou eficiente.

A Adisson sorriu.

— E estás com um casaco que está a fazer coisas a franceses.

Eu revirei os olhos, mas o meu corpo não estava tão indignado como a minha boca.

E, ao longe, eu senti um olhar que não era o do Antoine.

Mathew.

A aprovação ainda pairava no ar, pequena e rara, quando a sala se reorganizou outra vez em torno de outro nome, outra presença, outro eixo momentâneo.

Eu vi primeiro a reacção ao homem, não o homem em si. Dois olhares a seguirem-no. Uma editora a endireitar-se sem perceber que o fez. Um fotógrafo a baixar o copo e a mudar ligeiramente de posição, como se estivesse à espera de um ângulo melhor. O tipo de micro-movimento que denuncia alguém do meio, alguém que não precisa de ser celebrado porque já faz parte da arquitectura.

O Leslie viu-o no mesmo instante. Estava a meio de um gole de vinho quando abrandou o gesto, os olhos já a seguirem a aproximação por cima da borda do copo.

— Renzo Bellandi — murmurou ele, sem olhar para mim, a voz baixa o suficiente para se perder na música e ainda assim chegar-me inteira. O canto da boca mexeu-se num quase sorriso, como quem apresenta uma criatura rara. — Crítico. Curador. E um homem que fala de bainhas como se estivesse a discutir o fim do mundo.

A Adisson, ao meu lado, prendeu logo um sorriso.

— Ah. Um desses.

O Leslie baixou o copo e corrigiu com a simpatia caricato-elegante dele, como se a precisão lhe desse prazer.

— Não é um qualquer minha querida, ele é “o” – corrigiu ele ajustando oc óculos — . Se ele gosta de um ombro, esse ombro existe durante uma temporada. Se não gosta, vira um erro histórico.

Renzo aproximou-se sem pressa, e tudo nele parecia ter sido montado para parecer despretensioso. Fato azul-escuro quase preto, cachecol leve em cinzento, cabelo grisalho penteado para trás com um descuido estudado, e uma expressão de quem está sempre a meio de uma opinião e escolhe quando a termina.

Valentina viu-o chegar e, desta vez, o rosto dela abriu num tipo diferente de elegância. Não charme social. Respeito real. Pequeno, mas nítido.

— Renzo.

Ele inclinou-se ligeiramente, não muito, só o suficiente para marcar reconhecimento. Os olhos dele pousaram primeiro no vestido verde, depois subiram para o rosto dela, como se a leitura de uma coisa não pudesse ser separada da outra.

— Valentina — disse ele, e a voz tinha aquele timbre baixo de quem está habituado a ser ouvido sem precisar de volume. — Finalmente uma sala que te faz justiça.

Valentina deixou o elogio pousar um segundo e respondeu com a medida certa. O sorriso dela apareceu no grau exacto, sem se tornar íntimo.

— E, no entanto, continua a ser só uma sala.

Renzo sorriu, satisfeito, como se tivesse esperado precisamente esse nível de recusa à grandiloquência.

Ele ergueu ligeiramente o copo, mas não brindou. Usou-o só como extensão da mão enquanto falava, o gesto lento de quem pensa com os dedos.

— Tenho andado a ver tudo — disse ele, e o olhar afastou-se por um instante para a noite em redor, como se a semana da moda ainda estivesse a passar-lhe à frente em imagens. — Muito esforço. Muita teatralidade vazia. Mas houve coisas boas.

Valentina inclinou a cabeça, atenta. Não por submissão, mas porque ele era um dos poucos por quem ela se dispunha a escutar sem já ter a resposta pronta.

— Diga-me.

Renzo soltou um pequeno suspiro pelo nariz, mais perto de um riso do que de cansaço, e começou a enumerar sem parecer que enumerava. Havia prazer na forma como falava de roupa. Prazer e severidade.

— A Ferragamo teve disciplina — disse ele, o olhar a fixar um ponto qualquer no ar, como se visse de novo a passadeira. — Boa contenção. Boa matéria. Demasiado respeito por si própria em alguns momentos, mas isso é um pecado menor.

Valentina assentiu uma vez, apenas. O suficiente para mostrar que estava a acompanhar.

— A Prada foi mais inteligente do que emocional — continuou Renzo, e o tom dele subiu um nada, como quem concede mérito com parcimónia. — E isso hoje em dia quase me comove.

A Adisson prendeu um riso baixinho junto ao copo. Eu vi o ombro dela mexer.

Renzo prosseguiu, agora com uma ponta de malícia.

— E a Diesel… — ele fez uma pausa curta, medindo o efeito — a Diesel sabe exactamente como fabricar imagem. O problema é que às vezes se apaixona demasiado pela própria fotografia.

Eu senti o meu corpo reagir à frase porque ela acertava num sítio que eu próprio tinha pensado. Valentina também ouviu isso com interesse. Vi-lhe os olhos ficarem um pouco mais atentos.

— Mas? — perguntou ela, baixa, calma, como quem puxa o raciocínio sem demonstrar fome.

Renzo sorriu. O sorriso dele tinha o prazer de quem está a falar com alguém que merece subtileza.

— Mas houve construção boa. — O copo descreveu um pequeno círculo na mão dele. — Houve um entendimento real de peso e corpo, apesar do excesso de vontade em ser instante. E isso, hoje, já é muito.

Valentina deixou o silêncio existir o tempo suficiente para transformar a resposta seguinte em avaliação, não em reacção.

— Concordo com metade — disse ela, e a frase saiu lisa, sem agressividade, como se estivesse a oferecer uma dança e não um confronto. — E acho que foi justamente o excesso de vontade que matou o melhor look.

Renzo riu. Não alto. Um riso breve, satisfeito, de quem acabou de encontrar conversa.

— Qual?

Valentina moveu ligeiramente o pulso, o gesto mínimo de quem pode apontar sem apontar.

— O trench branco. Entrou tarde demais. Pediu ruptura quando a colecção já se tinha definido sem precisar dela.

Eu senti o pequeno choque delicioso de ouvir aquilo ali, dito com a mesma precisão com que ela o tinha dito mais cedo. A Adisson percebeu ao mesmo tempo e olhou para mim de lado, quase com cumplicidade, como se a memória daquele momento nos tivesse pertencido.

Renzo inclinou a cabeça, avaliando a frase. Os olhos dele afiaram-se um pouco.

— Sim — admitiu por fim, e a palavra saiu com o peso de concessão rara. — Tens razão. Parecia uma peça que queria ser conclusão e ficou como comentário.

O Leslie, ao meu lado, fez um som baixo, quase contente, como quem aprecia assistir a uma partida entre profissionais sem precisar de entrar.

Aproximou-se um milímetro na minha direcção e murmurou, sem desviar os olhos da conversa.

— Se ele concorda à primeira, é porque já pensava o mesmo e só queria ver se ela chegava lá.

— E ela chegou — murmurei de volta.

O Leslie bebeu mais um gole, satisfeito.

— Ela chega sempre.

Renzo estava agora totalmente instalado no diálogo, e a sala em redor parecia ter deixado de existir para ele e para Valentina. Não era flirt. Era uma forma mais perigosa de intimidade. A intimidade de duas pessoas que sabem falar da mesma matéria sem simplificá-la.

— E tu? — perguntou ele, o olhar a demorar-se no rosto dela, curioso de verdade. — O que viste de melhor esta semana, sem diplomacia.

Valentina não respondeu de imediato. Deixou a pergunta pousar, os dedos a descerem pela haste do copo com uma lentidão que parecia pensamento. Depois falou, e a voz saiu mais baixa, mais precisa ainda.

— Vi pessoas a tentar fabricar permanência numa indústria que vive de picos — disse ela, e cada palavra parecia escolhida com pinça. — Algumas conseguiram linguagem. A maioria conseguiu decoração.

Renzo sorriu de lado, os olhos quase a brilhar.

— É por isso que eu continuo a falar contigo.

Valentina recebeu a frase sem a amaciar demais.

— E eu continuo a ouvi-lo porque o senhor ainda sabe distinguir uma da outra.

A Adisson inclinou-se na minha direcção e quase encostou o braço ao meu, o perfume dela a cortar o cheiro dos citrinos por um instante.

— Isto é melhor do que metade dos painéis públicos — murmurou, sem tirar os olhos deles. — E com melhor roupa.

Eu quase sorri, mas o meu olhar estava preso naquela conversa, no ritmo dela, na forma como a Valentina mudava de textura quando tinha à frente alguém que realmente pensava.

Renzo desviou então o olhar, rápido, para o resto do nosso grupo. Não para nos trazer para dentro ainda, só para reconhecer o cenário.

— E a tua equipa? — perguntou ele, voltando a Valentina, mas deixando a palavra “equipa” passar por nós como uma luz breve. — Aguenta o teu ritmo ou estás a fazer caridade executiva esta estação?

O sorriso de Valentina foi mínimo e perigoso.

— Eu nunca faço caridade executiva.

O Leslie baixou o copo para esconder um sorriso maior do que devia. A Adisson teve de desviar o rosto para a lateral por um segundo, só para controlar o próprio.

Renzo aceitou a resposta como quem recebe uma verdade inevitável e deixou o tema morrer sem o explorar. Não por medo. Por disciplina. Havia gente que sabia onde parar.

Um empregado passou com um novo tabuleiro de taças e um prato de pequenas coisas bonitas demais para serem comida. A luz do bar bateu no vidro e projectou reflexos móveis no vestido da Valentina. Durante um instante, ela pareceu ainda mais intocável.

Renzo ergueu o copo num gesto pequeno.

— Faz-me um favor, então — disse ele, e a voz tinha agora um tom mais leve, mais próximo de despedida do que de provocação. — Não deixes a noite ganhar ao trabalho.

Valentina sustentou-lhe o olhar, calma.

— Isso depende de quem confundir os dois.

Renzo sorriu como quem aprecia ter sido devolvido ao lugar certo. Inclinou-se num aceno curto e começou a afastar-se com a mesma elegância com que tinha chegado.

O Leslie acompanhou-o com o olhar e só voltou a respirar fundo quando o homem já se tinha dissolvido no cocktail.

— Renzo Bellandi — disse ele, quase para o vinho, quase para nós, e o tom vinha com uma espécie de respeito cansado — o único homem nesta cidade capaz de transformar bainhas em filosofia e ainda assim ter razão.

A Adisson virou-se ligeiramente para mim, o sorriso a abrir-se agora sem culpa.

— E eu que pensava que o momento mais sexy da noite ia ser o francês.

Eu bebi um gole de água, mais para ocupar a boca do que por sede.

— Tu sexualizas demasiado o meio.

— Não — corrigiu ela, com doçura cruel — eu só sei reconhecer química quando vejo uma.

O Leslie soltou um pequeno riso pelo nariz, olhando para o copo como se ali estivesse a única sinceridade suportável da noite.

— Graças a Deus que nenhum de vocês escreve crítica de moda com esse vocabulário — murmurou ele, e a simpatia elegante voltou-lhe inteira à boca.

À frente de nós, Valentina já tinha voltado a mover-se, escolhendo o próximo ponto da sala como se o nome da noite ainda estivesse a ser escrito por ela. E eu percebi, outra vez, que ninguém ali estava só a beber.

Toda a gente estava a trabalhar.

Alguns com mais talento do que outros.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.