Doki Doki

2 Gênesis - Capítulo 1


Era Natal em Nemseiville...

Nevava como nunca nevara em muitas décadas, pétalas caiam de flores que descansavam em vasos sobre o parapeito de janelas, não simples janelas, mas aquelas que nunca poderiam ser fechadas, aquelas que estavam em casas desabitadas.

Naquela noite a cidade estava vazia, nem um suspiro poderia ser sentido naquelas ruas, nos becos, todos estavam em uma ceia natalina na prefeitura da cidade, competindo para saber que tinha o melhor carro, quem havia ganhado mais posses, quem não estava a beira de um assassinato.

Todos... Todos os cidadãos estavam naquele banquete, todos menos três pessoas:

Ding, homem de feição serena, baixo e magro, cabelos negros e olhos de um vermelho tão cruel que quem os olhasse diretamente desejariam nunca ter nascido; Dong, senhor de feições rígidas, altura mediana e um pouco acima do peso, em sua cabeça era notável a falta de cabelo, assim como as rugas acentuando-se sobre sua boca pálida em contraste com seus olhos que não poderiam mais ver a luz do dia, desde aquele lastimável acidente em que perdera a visão; e Yong, uma criança recém-nascida, um pequeno gênio que ao nascer já sabia falar cinco idiomas do qual ninguém poderia dizer quais eram, pois ninguém entedia o que falava, um rosto angelical com feições que poderiam mostrar que uma criança não poderia ser tão pura como aparentava ser.

Esses três não são simples humanos, cidadãos, pessoas, e sim cientistas que sempre se excluíam da \'Sociedade\', não pelos outros moradores de Nemseiville, ou do País de Seiláoquê, muito menos do Planeta Alguma coisa, mas por si mesmos por acharem-se superiores a reles plebe, assim designadas às pessoas com um Q.I abaixo de 170. Nessa noite, os três comemoram a noite de Natal de uma forma diferente...

_Não ponha isso ai — reclamava Ding para Yong — deixa que eu faço isso — revidava Dong para seu reflexo no espelho. Um gatinho entrava pela portinhola e ao olhar a bagunça que aquele laboratório estava deu três passos para trás esbarrando em um rato e ao perceber tal fato fez o que qualquer gato faria nesta situação: Correu para salvar sua pele de uma possível mordida e de doença que poderia ser transmitida, imagine só, dias internado em um hospital não é algo que um gato de rua gostaria de lembrar pelo resto da vida.

Após meses de trabalho, naquela noite fria estava para concretizar noites mal dormidas para três cientistas, a noite tão linda, o céu tão limpo e estrelado perderam espaço para nuvens escuras que tampavam as estrelas e a lua, flocos de neve que a tarde caíram e cobriram telhados de casas foram substituídos por grossos pingos d\'água, a chuva era evidente e com ela chegaram raios e trovões, típico de histórias de terror e quem disse que esta não é uma também?

O laboratório ficava em cima de um frigorífico, cientistas que pisavam em cima de \'cadáveres\' todos os dias e por serem tão egocêntricos brincavam de deus como tal a prova; o seu projeto estava praticamente concluído. Naquela sala escura brilhavam pequenas luzes verdes e iluminava uma face, um corpo mórbido de feições sem vida, Ding contemplava o corpo que desenvolvera, Dong estava excitado com o pensamento de como se comportaria sua invenção e Yong comia abacaxi com queijo prato, algo típico para estes profissionais.

Passando-se alguns minutos, olhar o modelo ideal a sua frente; recordando cada medula implantada e revisando cada circuito integrado implementado, já não havia mais nada a fazer e uma única pergunta martelava em suas cabeças: Como prosseguir. O Olhar triste e decepcionado de três pessoas naquele momento e a percepção de uma verdade da qual se esqueceram a tanto tempo, era apenas humanos. Um pensamento recorrente e não insano, ligando as luzes fluorescentes \'jogaram o pano\' dando-se por derrotados, o projeto de meses não havia movido um milímetro, já não havia nada mais a fazer naquela noite natalina. Será que eles foram assim tão maus durante o ano para que Papai Noel esquecesse presenteá-los com o sucesso, uma resposta era tudo o que mais necessitavam.

Arrumando-se para ir embora, um clarão atingiu a terra e um raio a mesa. Nesse momento tudo que pude ver eram três cientistas perplexos, um tanto quanto céticos e um corpo imóvel, olhando para aqueles três homens surpresos, um corpo imóvel, um corpo... Apenas um corpo que ganhou vida... Vida?

Continua...