Notas iniciais
Boa leitura! ^^

Cebola já não tinha certeza de mais nada. Parecia que a pista inteira girava, as luzes azuladas piscando, tornando todas as pessoas ao redor um bando de rostos e corpos sem feições exatas.

Ele não sabia o que o fizera surtar daquela maneira. Quando vira Mônica com aquele garoto, doeu muito mais do que todas as vezes que assistira ela e Do Contra juntos. Doera muito mais porque aquela cena parecia esfregar na cara dele que ela estava superando todos aqueles anos de relacionamento vai e vem, deixando para trás qualquer realidade onde eles pudessem ser um casal.

Era mesquinho pensar assim, mas ele sempre encarara o relacionamento dela como algo passageiro, que logo iria acabar. Lá se foram dois anos pensando que a qualquer momento eles iriam terminar e ela voltaria a estar com ele.

Então eles terminaram.

E mesmo assim seu conto de fadas não voltara a ser real. Ela tinha outra vida agora.

O garoto sacudiu a cabeça, tentando voltar um pouco a si. Estava triste, mas continuava dançando com garotas desconhecidas, se deixando levar pelas batidas eletrônicas da música, se arrastando descontroladamente pela pista. Não sabia quantas bebidas tinha ingerido desde que Denise lhe dera a primeira. Talvez fossem duas, três ou até mais. Só sabia que, apesar de acabado por dentro, por fora se sentia como um Deus.

Sentiu um puxão em sua camisa, dando de cara com uma garota que lhe sorria sugestivamente. Provavelmente estava dançando com ela há algum tempo, mas não prestara muita atenção. Quando se deu conta, estavam aos beijos no meio da pista, exatamente como Mônica e aquele loiro fizeram. A menina o arrastou até a saída dos fundos, levando-o para um canto escuro na parte de trás da boate.

Ela se encostou na parede, trazendo-o para si, os beijos ficando mais ousados e profundos, as mãos dela escorregando pelas costas dele, que desceu a boca para o pescoço dela. Ainda o som abafado da música lá de dentro, junto com os gemidos roucos daquela moça que ele nem sabia o nome e um zumbido irritante no ouvido. Ela era bonita, pelo que ele conseguia ver. Longos cabelos castanhos, olhos verdes, lábios vermelhos. Era um milagre que estivesse dando bola pra ele. Mas mesmo com tudo isso, Cebola não conseguia se concentrar. Tinha consciência dela abrindo os botões de sua camisa, descendo a gola da própria blusa, o beijando, dizendo coisas. Porém, ao mesmo tempo sua mente estava em mil lugares, o sentimento de coração partido o invadindo outra vez.

Ele se distanciou alguns centímetros, jogando a cabeça para trás para respirar melhor. A garota o encarou com um ponto de interrogação no olhar, fazendo-o se sentir muito errado. Todo mundo sabia que ele não era nenhum puritano. Tinha sua cota de paixonites, dava em cima de outras garotas, se metia em vários rolos, mas por baixo disso tudo era um romântico e queria que Mônica fosse sua primeira em todas as coisas.

— Eu tenho que ir. – murmurou, um pouco contrariado, antes de sair em disparada para dentro da casa noturna.

Passou a mão pelos próprios cabelos, fechando apressadamente os botões da blusa enquanto andava apressadamente até o bar, esbarrando em algumas pessoas no caminho. Estava cansado daqueles pensamentos tomando conta de si, o impedindo de fazer o que queria. Naquele momento, decidiu que beberia até que eles estivessem afogados e esquecidos em algum canto de sua cabeça.

— Qual era o nome dele mesmo? – perguntou Denise, se aproximando do espelho do banheiro para ajeitar seu batom.

— Thiago. – Mônica respondeu, mordendo o lábio inferior.

— E aí, o que você achou? – continuou Magali, visivelmente contente.

— Ele... Uau! – ela riu, as bochechas assumindo um tom avermelhado – Que pegada!

— Quem te viu quem te vê, hein Mô? – Cascuda deu uma risadinha. – Vão se ver de novo?

— Eu acho que não... – a baixinha deu de ombros, fingindo ajeitar o cabelo para não ter que olhar para as amigas.

— Por que não? – Magali franziu a testa, preocupada.

— Porque eu meio que... Dei o telefone errado. – deu de ombros casualmente. As outras três gritaram um “Mentira!” animadíssimo e começaram a rir – Ah gente, o que foi? Ter que lidar com o Cê e o DC já é demais pra um verão só... – fez bico. – Além disso ele volta pro Rio logo depois do ano novo, então pra que continuar, né?

— Amiga, você passou de rainha dos relacionamentos longos e enrolados para solteira convicta em uma noite só, to orgulhosa! – disse Denise, batendo palmas.

— Eu sei, eu sei. – respondeu, um pouco sem graça. – Me esperem aí que eu tenho um probleminha pra resolver. – apontou a cabine, antes de deixar a bolsa com Cascuda.

Quando ela sumiu para dentro do sanitário, o trio trocou olhares desconfiados. Nenhuma delas disse uma palavra, mas estava claro que todas estavam se perguntando se deviam contar sobre Cebola. Não havia nada sério acontecendo até o momento. Da última vez que o viram, poucos minutos antes, ele estava bem “alegrinho”, mas ainda consciente de suas ações. Elas esperavam que ele fosse continuar assim.

— Ah monas, ele já tá muito grandinho pra ficar precisando de babá. – por fim, a ruiva girou os olhos exageradamente, encerrando a discussão silenciosa. Segundos depois a baixinha saiu da cabine, lavou as mãos rapidamente e as três voltaram para a festa.

Enquanto as meninas foram para a outra mesa que o grupo arranjara, ela decidiu pegar um coquetel. Desviou da pista de dança, pegando o caminho mais longo, porém menos cheio. No meio de sua rota avistou um casal de amigos se beijando de maneira nada casta, com direito a apertões, chupões e gestos que não eram do costume deles (pelo menos não na frente dos outros). Riu sozinha, imaginando que no outro dia eles estariam envergonhadíssimos por esta situação.

— Hey! – chamou ao ver Xaveco apoiado no bar parecendo decidir o que ia pedir. – Eu acabei de ver a Marina e o Franja se pegando loucamente ali no canto ou tô alucinando?

— Só se for uma alucinação coletiva. – ele respondeu, franzindo as sobrancelhas.

— Oi, baby! Eu quero o mesmo daquele moço ali. – ela sorriu para o barman, apontando um garoto que recebera um drink com guarda-chuva. – O que mais eu perdi enquanto estava atualizando os babados?

— Ali, ó. – meneou com a cabeça na direção de Cebola, que estava do outro lado do balcão, com os cabelos bagunçados e a roupa meio fora do lugar. – O que você deu pra ele? – o loiro arqueou as sobrancelhas, curioso.

— Um shot de tequila. Mas teve um truque.

— Truque?

— É. – riu – Então, a gente fica sóbrio e cuida dos bêbados, ou aproveita o bonde e fica louco também?

— Fica doido também, sem dúvida. – respondeu de pronto, olhando o amigo cambalear de volta para a festa, sem nem notar a presença deles. – Quero ver esse truque aí.

Ela girou os olhos e sorriu antes de pedir ao barman que adicionasse um shot de tequila ao pedido.

— Senta aí nesse banco, bebe isso de uma vez e fecha o olho. – a ruiva ordenou, assim que os drinks chegaram. Ele obedeceu, subindo no banco e tomando a tequila rapidamente, o álcool rasgando sua garganta e fazendo uma onda de calor lhe percorrer. Poucos segundos depois de ter fechado os olhos, sentiu as mãos dela segurando os lados de sua cabeça, sacudindo bem rápido, como se ele estivesse num terremoto interno. Quando abriu os olhos e ficou de pé, o ambiente todo rodou e ele cambaleou pro lado.

— Puta merda! – gritou, o efeito da bebida batendo como se fosse um tiro. – Onde você aprendeu isso?

— Esse é o único segredo que eu vou guardar pra sempre. – deu de ombros, casualmente tomando sua bebida.

— Eu quero outro! – o loiro riu, subitamente mais alegre.

— Vai com calma, querido. – respondeu, largando o copo vazio sobre a mesa. – Você ainda tem a noite inteira. – e piscou, antes de arrastá-lo para a aglomeração de pessoas que se espalhava pelo salão.

Do Contra passara a festa quase toda sentado na praia. Depois que Mônica fora dançar com Denise, ele resolveu sair para tomar um ar e acabara nem voltando. Não que alguém estivesse esperando por ele, já que era de conhecimento geral que detestava esse tipo de aglomeração. Passara várias horas lá, jogando no celular, olhando as ondas quebrarem e batendo papo com o cara que trabalhava num quiosque que ficara aberto até agora pouco.

Suspirou pesadamente, esticando as pernas na areia, sem se importar que suas calças e tênis fossem fica completamente sujos. Não queria voltar, mas parte dele tinha que admitir que estava curioso para saber o que estava acontecendo naquela festa. Era meio masoquista da parte dele, mas ficava se perguntando se Mônica tinha decidido finalmente ficar com Cebola, se ela estava divertindo, o que estava fazendo. Sabia que não tinha direito de cobrar nada dela, afinal fora ele mesmo que dera fim ao namoro dos dois.

— Oi. – ouviu a voz dela vindo de trás de si. Até acharia que era alguma miragem, mas ela tinha essa coisa de às vezes aparecer justo quando ele estava pensando nela. (Ou talvez o garoto apenas pensasse nela o tempo todo).

— Oi. – respondeu, olhando para trás. Ela estava de pé a poucos metros, segurando as sandálias altas nas mãos, com a maquiagem um pouco borrada e o cabelo desfeito.

— Sabia que ia te encontrar aqui. – continuou, sentando-se ao lado dele. A olhando agora, ela parecia diferente de antes. Um pouco mais séria,

Se fosse em outros tempos, ele provavelmente jogaria uma indireta nada discreta, ela ficaria vermelha, mas acharia graça. No começo era sempre assim. Depois havia a época em que ela morria de tédio com os programas malucos que ele considerava “de casal” e ele enrolava décadas para fazer as coisas normais que ela gostava. Todo mundo pensava que iam dar errado. Ás vezes ele mesmo pensava que só acreditara que dariam certo para ir contra as opiniões alheias.

Eles até deram certo por um tempo. Um bom tempo, na verdade.

Porém de repente vieram as incertezas e os medos. Ele queria ter sido mais seguro, queria ter confiado mais nela, queria não ter deixado o mesmo problema de sempre estragar tudo. No final ele fizera, como sempre, o que ninguém esperava e terminou tudo.

Ele se deixou olhar para ela por um momento, admirando seus olhos castanhos e o sorrisinho que ela abriu. Sentia tanta falta dela... Naquele segundo foi como se nada tivesse mudado entre eles e ainda fossem o mesmo casal de antigamente. Mônica abriu a boca para dizer algo, mas antes que qualquer palavra pudesse sair, foram interrompidos por um grito que vinha da entrada do luau.

— Alguém me ajuda aqui! – gritou Cascão, que carregava um Cebola semiconsciente, que se debatia exageradamente tentando se soltar.

O ex-casal se levantou, rapidamente correndo até os dois. O garoto bêbado conseguiu se soltar com um empurrão mais forte. A movimentação brusca o fez enjoar, então ele se apoiou nos próprios joelhos e vomitou, antes de perder o equilíbrio e desabar na calçada, rolando para o lado.

Os dois garotos o levantaram, fazendo-o apoiar os braços em seus ombros, enquanto Mônica foi para dentro chamar os outros para que fossem para casa.

Do Contra analisou a situação de seu rival, mas ao contrário do que esperava, sentiu apenas simpatia. Sabia exatamente o que ele devia estar sentindo, algumas vezes ele mesmo já estivera a ponto de perder o controle daquele jeito. Até hoje ainda achava que isso iria acontecer hora ou outra.

No final, aquele triângulo amoroso não terminara bem para nenhuma das três pontas.

Notas finais
Hello, it's me Fiz o Cebola sofrer horrores nesse capítulo, né? hahaha Prometo que ele vai ter momentos melhores no decorrer da história. Mais pra frente teremos outras informações sobre o término de Mônica e DC também! Espero que gostem do capítulo! ♥ Beijão Mia (e lembrem-se sempre: se beber não dirija!)