Dois Verões

2 Pés na areia


Notas iniciais
Nessa história os personagens tem entre 17 e 18 anos (a mesma idade que tinham no começo da história da edição 79 - Sombras do Futuro) A música citada nesse capítulo é essa aqui: https://www.youtube.com/watch?v=SBs_pd1QQu8

Denise acordou no meio da madrugada com uma mão puxando seu pé. Diante daquela escuridão toda, fez a primeira coisa que conseguiu pensar. Ouviram um som oco, um grito grave e um barulho que parecia alguém caindo no chão. As outras garotas acordaram com a movimentação e o cômodo explodiu em outros gritos e falatórios, até que alguma alma inteligente finalmente ligou a luz.

— Ela jogou um livro na minha cabeça! – gritou Cascão, colocando a mão sobre o galo que se formara em sua testa.

— Você puxou o meu pé! – a ruiva se defendeu, encolhendo-se na cama.

— Eu achei que era o pé da Cascuda!

— Ei, se fosse eu podia? – o garoto abriu um sorrisinho amarelo diante da resposta de sua namorada.

— O que vocês estão fazendo aqui, afinal? – perguntou Magali, finalmente se dando conta dos outros garotos que estavam de pé perto da porta.

— Er... Ahn... A Gente... Ouviu um barulho e decidiu, sabe, er.... Vir aqui ver! – balbuciou Cebola, tentando ao máximo não derrapar nos erres. Não que tenha adiantado alguma coisa, já que acabou gaguejando e se embolando todo com a frase.

— O único barulho que ouvimos aqui foi por culpa do seu amiguinho! – reclamou Mônica, aborrecida – E pode ir passando a minha agenda! – estendeu a mão, fazendo sua melhor cara desafiadora.

— Na verdade a gente queria ver vocês de camisolinha. – disse Do Contra, como se não fosse nada demais, fazendo todos os jovens no recinto dispararem olhares assassinos para ele.

— Isso, entrega a gente! – protestou Cebola.

— Vejam pelo lado bom... – começou Xaveco, tentando remediar. – Agora todo mundo tá acordado!

— E o que tem de bom nisso? – Denise fez uma careta, aborrecida por estar perdendo precioso tempo de sono.

— Vamos fazer uma fogueira na praia e dançar pelados à luz da lua. – brincou, como se estivesse dando a melhor ideia do mundo.

— Pior que essa ideia é boa. – murmurou Mônica – Tirando a parte de dançarmos pelados.

— Mas essa foi a melhor parte! – Denise riu, brincalhona. – Podem ir vazando, queridinhos! Vão lá acender a tal fogueira, já que a culpa dessa treta toda é de vocês. – ordenou, fazendo sinais com as mãos para que eles saíssem logo.

Enquanto as garotas tiraram um tempinho para dar um jeito nos cabelos e escovar os dentes, os garotos seguiram para a praia, alguns resmungando, outros animados com a ideia.

Xaveco precisou da ajuda dos amigos para trazer algumas lenhas do fundo da casa para a praia, mas não demorou nada para acender o fogo, já que tinha bastante prática nisso. Em questão de poucos minutos o grupo todo já estava em volta da fogueira, conversando e fazendo piadas.

Ele sorriu, sentando-se no chão e deixando seus pés afundarem na areia, enquanto apreciava aquela paz que só a praia lhe dava e assistia os amigos se divertindo. Cebola afinava seu violão a alguns metros de distância, pedindo sugestões de músicas para os amigos. Escolheu uma canção que tinha um ritmo de rap acústico suave, cantando animadamente enquanto Cascão fazia o beat-box. Cascuda e Denise deram gritinhos animados, logo se juntando ao coro de vozes.

A melodia romântica criou um clima entre os jovens. Do Contra distribuía olhares apaixonados para Mônica, que se levantara para dançar e cantar junto com as amigas, fingindo não dar atenção aos dois garotos que obviamente ainda habitavam seu coração.

O loiro decidiu ignorar o drama que acontecia entre os amigos e deixou seu olhar se perder nas figuras femininas. Especialmente na ruiva que sorria animada, parecendo bem alheia à atenção que recebia. Aquela garota fora a primeira que o fizera sentir borboletas no estômago, talvez antes mesmo dele saber o que isso significava. É claro que com o tempo e as confusões sentimentais em que foram se metendo ao longo da adolescência, o sentimento nunca se tornara nada a mais e já tinha até sido esquecido, mas voltara com força total quando ele ficara sabendo sobre o romance que eles tinham naquela realidade paralela maluca.

Ele poderia passar horas descrevendo cada coisinha que gostava nela. Os cabelos ruivos, que agora estavam presos em duas Maria-Chiquinhas desengonçadas e meio soltas, os olhos castanho-esverdeados, as curvas do corpo e até o jeito atrevido e fofoqueiro que muita gente detestava. Tudo aquilo, até as coisas ruins, eram parte dela e ele com certeza gostava dela inteira.

O garoto corou ao vê-la lhe lançando um meio sorriso e se apressou para olhar em outra direção qualquer. Aqueles eram sentimentos que já tinham sido presos há um bom tempo numa gaveta que ele não queria revisitar. Já ficara bem claro que ela não sentia nada por ele. Na outra vida, e talvez até mesmo nessa, ela se apaixonara por um Xaveco que ele nunca chegaria a ser, e era só isso.

Cascão esticou as pernas, apoiando os pés na cerca da varanda. Haviam apagado a fogueira há pouco menos de duas horas. Depois daquele tempo todo cantando, dançando e fazendo algazarra, todo mundo caíra na cama, exausto. Menos ele.

Rolara de um lado pro outro no colchão por um bom tempo, até desistir e ir para a varanda matar tempo sentado em uma das cadeiras de balanço. Aquela primeira música que cantaram na fogueira ainda martelava em sua cabeça, o deixando bastante inquieto. Naquele momento, enquanto rolavam os versos românticos, ele se sentiu como se tivesse levado um belo soco na cara. Por mais que tentasse, não conseguia desviar a atenção da amiga comilona, mesmo que sua namorada estivesse bem ao lado dela.

Não era de hoje que aqueles sentimentos o atormentavam. Na maior parte do tempo conseguia fingir que eles não existiam, mas às vezes ele se sentia um grande idiota por não terminar com Cascuda mesmo estando apaixonado por uma de suas melhores amigas. Ele não queria magoá-la. Amara sua namorada por muito tempo, mas de repente o sentimento foi mudando até se tornar uma mera amizade.

Por outro lado, não queria arriscar sua amizade de tantos anos com Magali e achava meio impossível qualquer coisa acontecer entre eles. Ela não namorava mais desde o começo do ano, quando ela e Quim tiveram um término amigável e ele se mudou para o Rio de Janeiro para estudar gastronomia. Ainda assim, o sujinho sabia que aquela garota era areia demais para o caminhãozinho dele. Ela era estudiosa, inteligente, com certeza iria para uma boa faculdade e teria um futuro brilhante. Mas e ele? O que tinha a oferecer para o mundo? Era só um Zé Ruela que passava raspando em todas as séries.

— Cas! – ela chamou, acordando-o dos pensamentos. Cascão piscou algumas vezes. Será que pensara tanto nela que acabara tendo um daqueles sonhos malucos e hiper-reais?

— Magá? – murmurou, um pouco perdido – Não sabia que você tava acordada.

— Não consegui dormir e decidi vir aqui assistir o sol nascendo. – respondeu, sentando-se na cadeira ao lado dele. – Esse lugar tem uma vista sem igual.

— É... Até eu que não gosto de mar achei bem maneiro. – comentou, fazendo-a sorrir.

Aquele lugar era realmente inacreditável. O grupo tinha passado bastante tempo debatendo acerca do destino da viagem, mas no final se decidiram por aquela praia porque apesar de a casa de Xaveco ser menor que a de Marina, aquela região era bem mais deserta e tinha as melhores festas.

Ele seguiu o olhar dela até as ondas suaves que batiam nas pedras. O céu estava com um tom meio arroxeado, sinalizando que logo o sol apareceria. Fazia muito calor, mas ao mesmo tempo batia uma brisa fresca, que tornava o ambiente mais agradável.

— Eu acho que essa viagem vai ser memorável. – ela sorriu animada.

— Magá, você acha que a gente vai continuar se encontrando ano que vem? Sabe, a turma? – o garoto perguntou, desviando o olhar.

— Eu não sei Cas... – suspirou pesadamente – Espero que sim. Não sei o que seria da minha vida sem vocês! – ela pontuou a frase com uma risada baixa, que fez um sorriso também se abrir no rosto dele. Por mais que soubesse que ela falava de todos os amigos, fingiu por um segundo que era sobre ele.

— Besteira! Daqui a pouco você vai arrumar uns amigos na faculdade com vidas muito mais interessantes...

— Onde que eu vou achar pessoas com vidas mais emocionantes que as nossas, Cascão? – riu baixinho – Só no ensino médio já teve viagem no tempo, vilões, estrelas pop, mais vilões e isso sem contar os trabalhos do professor Licurgo! – listou, enumerando todos os itens com os dedos.

— Ok, dessa vez você venceu. – começou, por impulso estendendo a mão para que ela segurasse. – Me promete que você vai manter contato

— Prometo. – entrelaçou os dedos nos do amigo e sorriu. Ela estava tão linda com aquela expressão despreocupada e o pijama de gatinhos. Tão bonita quando a luz amarelada do sol que acabara de surgir no horizonte. Naquele momento ele não quis fingir que não sentia nada por ela, só quis gravar aqueles segundos em sua retina, o mais detalhadamente possível.

Se tudo desse errado, pelo menos ele sempre teria aquele momento para sempre.

Notas finais
Mais um capítulo! Bom, espero que vocês gostem tanto de ler quanto eu gostei de escrever. Sintam-se livres para deixar comentários, críticas,dúvidas, etc. Beijos, Mia ♥