Dois Verões
16 Sem rumo
Notas iniciais
Mônica desceu do kamikaze um pouco tonta, mas animada. Quando ia naquele tipo de parque não costumava se aventurar nesses brinquedos mais malucos, mas daquela vez arriscou. A noite até agora estava maravilhosa. Tinha conseguido fazer Magali se animar um pouco, comera algodão doce e fizera questão de se divertir o máximo possível.
Se apoiou no ombro da pessoa mais próxima para não perder o equilíbrio, só então notando que era Cebola. Ele estava com uma cara aborrecida, olhando para o chão insistentemente e murmurando alguns xingamentos entredentes. Apenas Marina e Franja haviam ido com eles, mas os dois estavam distraídos demais um com o outro para repararem na situação do amigo.
— O que foi? – ela perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Minhas moedas caíram do bolso quando eu tava no brinquedo! – respondeu, fazendo um bico engraçado.
— Mentira! – ela comentou, soltando uma gargalhada involuntária.
— Não tem graça! – ele protestou, com a mesma cara aborrecida que fazia sempre que riam dele.
— Você só diz isso porque não tá vendo sua cara de bobo procurando um monte de moedas no chão! – continuou rindo até vê-lo abrir um sorrisinho sem graça – Era muito dinheiro?
— Uns dez reais. – deu de ombros – Agora só fiquei com dois!
— Você tava com dez reais de moedas? – perguntou, descrente.
— Ah... – ele coçou atrás do pescoço, subitamente sem graça. – Eu fui gastando todas as minhas notas e aí no fim foi só o que sobrou. – deu de ombros. – Dá um desconto, não tá vendo que eu to sofrendo? – completou com um tom dramático na voz.
— Grande sofrimento... – Mônica ironizou, abrindo um meio sorriso. – Eu to com fome, Cê... – ela arqueou as sobrancelhas, pensativa. O garoto não respondeu de imediato, atordoado pela maneira com que ela o chamara. Aquele apelido se tornara comum entre seus amigos há anos, mas ela deixara de usá-lo depois de todas as brigas que tiveram nos últimos tempos. Ouvi-la o tratando daquela maneira carinhosa o afetara mais do que ele gostaria de admitir.
— Eu também, mas preciso achar meu dinheiro pra poder pagar... – respondeu, quando ela já estava olhando-o desconfiada.
— Duvido muito que você vá achar dez reais de moeda no meio desse mato. – girou os olhos – Vamos, ou vai dizer que não quer que eu pague? – completou, mandona, colocando as duas mãos na cintura.
— Ah... – murmurou, olhando para o chão mais uma vez em busca de seu dinheiro. Porém no instante seguinte seu estômago fez um barulho irritante que o fez constrangidamente admitir a derrota.
Depois de poucos minutos de debate para decidir o que iriam comer, eles rumaram até uma barraca que vendia pastéis. Sentaram-se numa das mesas de plástico, conversando sobre coisas sem importância, como a praia, as férias e a formatura. De onde estava Mônica conseguiu ver Magali rindo junto com Bia e os garotos e relaxou um pouco, sabendo que a amiga estava bem. Pediram dois pastéis de pizza, embora não tivessem combinado e comeram calados, só com as músicas que a dupla tocava no centro da praça preenchendo o silêncio. Mas de repente Mônica reparou que o garoto tentava disfarçar o riso e fez cara feia, constrangida.
— O que? – perguntou, arqueando as sobrancelhas. Ele sacudiu a cabeça, como quem diz que não é nada, mas ela insistiu. – Fala!
— Você ainda não aprendeu a comer, hein? – continuou rindo, mesmo vendo a expressão dela se tornar emburrada. Ela era muito desajeitada e acabava sempre se sujando, por mais cuidado que tomasse. – Pera aí que eu limpo. – esticou a mão para tirar um pouco de molho de tomate que ficara perto do nariz dela. Sem pensar muito ele deixou o polegar escorregar pela pele macia da garota, descendo até seus lábios entreabertos. Ele pode sentir a respiração dela acelerando e o clima ficando mais intenso, por mais que o toque não tivesse durado mais que um segundo.
Puxou a mão para si imediatamente se perguntando se havia passado dos limites, seu sorriso sumindo do rosto num passe de mágica. Ela encarou um ponto qualquer na mesa, obviamente sem graça, as bochechas corando violentamente.
— Desculpa. – ele murmurou, envergonhado.
— Tudo bem. – ela deu de ombros, fingindo não se importar.
Terminaram a refeição muito quietos, evitando olhar um para o outro a qualquer custo. Mônica ficara embaraçada, porém notara que ele ficara tão encabulado por ter feito aquilo, que achou melhor nem dizer nada.
Se levantaram ainda meio sem saber o que fazer, andando sem rumo entre as barracas da feirinha. Cebola procurava de qualquer jeito uma desculpa para iniciar uma conversa despretensiosa e voltar ao clima de antes, mas não conseguia pensar em nada. Se fosse antigamente, ele não se preocuparia com o que acontecera e provavelmente tiraria proveito disso, mas dessa vez queria tanto fazer tudo certo, sem avança nenhum sinal ou fazer jogos sentimentais... Por que era tão difícil?
Subitamente ela parou de andar, olhando maravilhada uma barraca que vendia doces e balas de vários tipos. Ele também parou, confuso.
— Olha! São aqueles pirulitos que estouram na boca! – sorriu, apontando uma cestinha com vários pacotes coloridos. – Nossa, não vejo isso há anos! – continuou, já se apressando para comprar várias com a senhora que atendia. – Você lembra disso, né? – perguntou, lhe oferecendo um saquinho antes que ele tivesse tempo de pensar em recusar.
— Lembro. A gente comprava com aquele tio da banca de revista perto do campinho. – respondeu. Eles eram loucos por aquelas balas quando crianças, no entanto hoje em dia ele não se lembrava mais qual era a sensação.
Os dois riram alegremente ao abrir o pacote, voltando a andar pelo parque. Quando finalmente provaram o doce, foi como se fossem novamente crianças. O açúcar que rodeava o pirulito fazia pequenos estalos, provocando uma sensação gostosa de cócegas na boca.
— Isso é tão melhor do que eu me lembrava! – Cebola confessou, fazendo uma careta. Ela concordou, abrindo um sorriso alegre.
— Parece que tenho seis anos de novo. – Mônica também sorriu, segurando a mão dele enquanto caminhavam. Fizera aquilo por impulso, mas não se deu ao trabalho de soltar. Era tão bom estar ali junto com ele e ela só queria aproveitar o momento.
Circularam por alguns minutos de mãos dadas, toda hora se olhando e soltando risadas sem motivo aparente. Dentre todos os momentos bons que viveram nas férias, aquele fora o melhor de todos. Os problemas deixaram de existir e eles foram apenas bons amigos que sentiam saudades da companhia um do outro.
— Mô... – Cebola começou, olhando-a intensamente. Involuntariamente pararam de caminhar e ela o olhou com expectativa, curiosa para saber o que ele tinha de tão importante para dizer. – Reconhece essa música?
A menina arqueou as sobrancelhas, apurando os ouvidor para escutar o que a dupla tocava. Era uma moda sertaneja das antigas, que seus pais escutavam nos churrascos da família ou em viagens de carro. Ele riu baixinho, se aproximando mais e colocando a mão na cintura dela.
— Ah não! – ela protestou, arregalando os olhos. – Você não vai me fazer dançar isso na frente de todo mundo! – deu um soquinho fraco no peito dele, deixando claro que apesar da queixa, não estava realmente disposta a sair dali. – Tá de brincadeira com a minha cara!
— E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo, se não posso enganar meu coração?— cantarolou junto, fazendo-a se mexer no ritmo da música e rindo exageradamente enquanto cantava. Ela se permitiu ser abraçada e conduzida, rindo baixo e escondendo o rosto no ombro dele para disfarçar o rubor.
— Só você mesmo, Cê... – murmurou, ainda sorrindo.
— Chega de mentiras, de negar o meu desejo, eu te quero mais que tudo, eu preciso do seu beijo... Eu entrego a minha vida pra você fazer o que quiser de mim...— continuou, fazendo-a rodopiar. – Só quero ouvir você dizer que sim...— pontuou a frase com uma última risada marota.
Novamente o clima mudou, mas dessa vez continuaram sorrindo, aos poucos parando de dançar, por mais que a música continuasse rolando. Algumas pessoas em volta olhavam o jovem casal, que parecia completamente alheio a isso. Os olhos dela passeavam entre o vermelho da boca e o mel dos olhos dele. Era tão ridícula aquela cena, os dois dançando aquela canção brega no meio da praça, rindo e se divertindo um com o outro. Um momento bem menos impactante e planejado do que tantos outros que já viveram juntos e talvez por isso mesmo tão bom.
Jamais saberiam dizer quem iniciou aquele beijo. Se perderam nos lábios se tocando, se entreabrindo e nas línguas aprofundando aquele contato. Ela abraçou o pescoço do garoto e ele continuou a segurá-la pela cintura, levantando-a no ar até que seus pés não tocassem mais o chão.
Os toques eram familiares, mas a situação toda era diferente. Eram pessoas novas agora, dispostos a não complicar tanto as coisas dessa vez e a admitir os sentimentos que não conseguiam ignorar.
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