Dois Verões
11 Eu viajo em você
Notas iniciais
— Você realmente gosta de caçar confusão, né? – Xaveco sorriu marotamente, enquanto iluminava o armário com a lanterna do celular para que a garota pegasse os copos.
— Eu? Claro que não. – deu de ombros – Só não gosto de tédio.
— Vou fingir que acredito. – riu.
Quando voltaram à sala todos já estavam sentados no chão em uma roda. Um pouco de tensão era notável entre os jovens, mas pareciam dispostos a participar do jogo. Xaveco colocou a garrafa de tequila (que nem havia sido aberta no churrasco) no chão e se sentou em seu lugar, sendo seguido pela amiga.
— Começamos com as verdades tensas ou com as verdades leves? – perguntou Mônica, rindo animadamente.
— Eu começo! – sugeriu Nimbus. – Eu nunca fiquei com nenhuma pessoa dessa roda. – por um breve segundo todos se entreolharam. No final apenas Magali não levantou o copo.
— Boa! Assim todo mundo já começa ficando bêbado. – Cascão riu. – Eu nunca fiquei com uma pessoa da nossa turma que não esteja nessa roda. – Nimbus fez cara feia, mas encheu seu copo com vodka e bebeu em seguida. Magali, Denise e Do contra o seguiram. – Ei careca, pode ir enchendo o caneco!
— Por que? A Penha não é da nossa turma! – Cebola protestou, aborrecido.
— Eu não tava falando da Penha... – o outro rebateu, abrindo um sorriso sugestivo. O amigo corou, notando que todas as atenções agora estavam em si e tomou sua dose, bastante constrangido. Mônica não conseguiu evitar se perguntar quem era a tal garota, por mais que tivesse tentado. Mas não tinha o direito de cobrar nada dele, já que ela mesma passara dois anos em um relacionamento.
— Eu nunca matei aula do Licurgo. – Cascuda tentou dizer alguma coisa mais leve, para quebrar o climão que estava se formando. Do Contra, Cascão, Nimbus, Denise e Marina beberam uma dose.
— O que foi? – perguntou a morena, ao ver que todos a olharam com uma expressão chocada. – Eu tive uma inspiração repentina e tive que terminar o desenho logo. – deu de ombros.
— Vou fingir que acredito que você matava aula pra desenhar, viu lindinha? – Denise riu baixinho, dando uma piscadela para a amiga que corou levemente.
— Ok, ok. Minha vez! – Cebola deu um sorriso malicioso. – Eu nunca tive vontade de ficar com nenhuma pessoa dessa roda que eu nunca tenha beijado. – houve um instante de surpresa geral quando a única pessoa na roda a não beber foi Cascuda. Todos se entreolharam, alguns rindo, outros parecendo muito sem graça.
— Pode isso de falar uma coisa que você já fez e beber também? – Marina arqueou as sobrancelhas, mais para desviar o assunto do que pela própria pergunta. Ela e o namorado estavam tranquilos, pois já tinham conversado sobre todos os rolos que passaram em suas vidas antes do namoro, mas Maria Cascuda pareceu bastante magoada com aquela verdade.
— Aparentemente agora pode. – respondeu Denise, dando uma risadinha. – Hm... Eu nunca bebi até dar PT. – Cebola a olhou de cara feia antes de beber, já Xaveco e Bia riram e brindaram um com o outro, indicando que haviam feito isso juntos.
— Eu nunca peguei o Xaveco. – continuou Franja, com uma expressão muito séria. Todos o olharam com expressões confusas, mas no instante em que Bia e uma Denise muito envergonhada tomaram suas doses os outros entenderam o que ele queria saber. – Isso explica muita coisa.
— Será que dá pra continuar o jogo ou tá difícil? – o loiro perguntou, aborrecido.
— Na real, eu cansei disso. – a ruiva murmurou, aproveitando a deixa. Já havia bebido demais e do jeito que as coisas iam, uma hora alguém ia acabar fazendo-a falar algo que se arrependeria depois. – To vazando. – completou, levantando-se em seguida. Se desequilibrou um pouco por causa do álcool, mas se apoiou no ombro de Cebola e conseguiu continuar de pé.
Quando ela saiu, usando a luz do celular para se guiar até o quarto, os outros na sala se entreolharam por alguns instantes. Pouco depois Maria Cascuda a seguiu, visivelmente magoada. Cascão ficou encarando o espaço onde ela estava, mas logo decidiu ir atrás para tentar se resolver.
— Eita povo complicado – Magali girou os olhos, antes de abrir um sorriso e se deitar no chão, no mesmo lugar onde estava. Havia bebido apenas duas doses e se sentia leve, solta e feliz por não ter nada a esconder.
— Pelo menos uma vez na vida eu não faço parte da treta do momento. – Cebola comentou, com uma cara de preocupado. Mônica olhou pra ele e sorriu, compartilhando do sentimento.
— Mas vocês são chatos, hein? – reclamou Xaveco, com a expressão mais fechada que conseguiu fazer.
— Pode ir se acostumando. Depois que a galera aprende a se meter na sua vida, nunca mais tem volta. – Do Contra comentou, risonho. Por um segundo tanto Mônica como Cebola olharam para ele e então, pelo que devia ser a primeira vez em muito tempo, os três riram juntos.
— Já que esse jogo virou uma sessão pra discutir a vida amorosa do Xaveco eu também to indo. – Nimbus deu risada e saiu, logo sendo seguido pelo loiro.
— Quando foi esse rolo de vocês dois mesmo? – Marina virou-se diretamente para Bia, sem se preocupar em disfarçar a curiosidade agora que o amigo não estava mais ali.
— Nosso primeiro beijo. Eu gostava de um carinha aí da praia e não tinha coragem de ir falar com ele sendo bv. Foi péssimo. A gente não sabia beijar! – riu – E depois teve uma outra vez no verão passado. A gente bebeu demais, se beijou e depois deu PT e descobriu que era tipo beijar um irmão. – deu de ombros.
— Tu conseguiu pegar o carinha da praia pelo menos? – perguntou Cebola.
— Nada. Não tive nem coragem de falar com ele. – deu risada, lembrando-se dessa história.
—
—
Mais uma vez Cascão se pegou encarando a escuridão noturna da sala. Sempre tivera um sono saudável e pesado, mas de uns tempos pra cá estava tendo dificuldades sérias para dormir. E por mais que tentasse fingir que não entendia a razão, sabia que ela tinha nome, endereço e estava bem ali no quarto ao lado.
Estava num dilema. Gabriela, ou melhor, Maria Cascuda, era tão perfeita para ele que desde a infância lhe deram aquele apelido. Os dois haviam vivido muitos momentos juntos, muitas coisas que ele nunca esqueceria. O primeiro passeio de mãos dadas, o frio na barriga quando foram ao cinema sozinhos pela primeira vez, o primeiro beijo, a primeira vez... Todas as primeiras vezes na verdade. Ela era uma garota carinhosa, que se preocupava com ele e fazia de tudo para fazê-lo ficar bem e feliz.
Magali, por outro lado, era sua melhor amiga. Encantadora, o sonho de consumo de vários rapazes do bairro. A melhor conselheira que ele já conhecera. Alguém que o ouvia e compreendia até mesmo quando sua namorada não o fazia. Quando olhava pra ela, via poesias que não existiam em mais ninguém, junto com aquele sorriso de tirar o fôlego. Não sabia dizer exatamente quando seu amor por ela passara de fraterno para aquele outro tipo indescritível e avassalador.
Sabia que não podia ter as duas. Sabia que estava namorando sua namorada desse jeito. Sabia que, mesmo se Magali nunca quisesse nada com ele, precisava deixar Gabriela livre para seguir em frente.
E naquela noite, com as doses que ingerira no jogo pesando no estômago, ele quis tanto resolver aquilo tudo... O álcool lhe tirou a sanidade e o fez acreditar que poderia viver um verão de sonho com sua melhor amiga, transformá-la em sua mulher. Piscou os olhos castanhos algumas vezes, tentando se concentrar em outras coisas.
Mas era ela, só ela, que lhe vinha à mente. Toda sorrisos. Toda bela. Toda ela.
Como se fosse um sonho, ouviu a voz dela vinda do corredor. Uma risada baixa, um barulho de tropeção e passos. Ele se levantou, enquanto a ouvia seguir até a cozinha, parou na porta e esperou. Não conseguia ver nada no breu, mas sentiu o perfume inconfundível. Quando ela se aproximou, segurou seu pulso e com uma coragem que nunca teria quando são, despejou as verdades que já vinha guardando dentro de si há algum tempo.
— Magali... – começou – Eu penso em você o tempo todo. Eu sei que não devo, que não posso, mas eu penso. Eu viajo em você, Magali... No teu jeito, em tudo o que você faz. – disparou. – Eu te amo. E não é como amigo.
Os segundos de silêncio que se seguiram pareceram durar uma vida inteira. Ela soltou o braço do aperto dele e correu, sem dizer nada, num susto.
E ele ficou lá, sem saber o que fazer.
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