Dois Verões
9 Contrariando todas as expectativas
Notas iniciais
— Ei Dê, acorda! – uma voz feminina chamou, fazendo-a acordar de repente. Magali, já vestida com um vestido rosa rodado, a olhava com uma expressão animada. – Você precisa ir comprar as coisas para o churrasco! – continuou.
— Ah não... Depois eu vou. – resmungou, puxando o lençol para cobrir a cabeça.
— Nada disso, você vai agora! – gritou uma outra voz, que ela logo reconheceu como Mônica pelo tom irritado. Segundos depois o lençol que a cobria foi puxado de seus braços e ela avistou a amiga a encarando aborrecida. – Daqui a pouco o pessoal chega!
— Por que vocês não vão? – Denise murmurou, emburrada. As duas se entreolharam, como quem procura uma desculpa.
— Porque você que sabe organizar festas! – rebateu Magali – Além do mais a Marina pediu ajuda com a decoração. – inventou.
A ruiva girou os olhos, mas desistiu de argumentar e se levantou. Sabia que elas só a deixariam em paz quando ela fosse, então era melhor evitar o estresse. Pegou uma muda de roupas na mala e seguiu para o banheiro a fim de tomar uma chuveirada para acordar. Depois de fazer sua higiene pessoal vestiu um shortinho jeans e uma blusa vermelha que deixava a barriga à mostra e seguiu para a entrada da casa, ainda se espreguiçando.
O primeiro dia do novo ano começou agitado. O grupo chegou em casa por volta das cinco da manhã e todos logo se apressaram para ir dormir, já que tinham marcado um churrasco para o fim da tarde. Depois dos brindes de ano novo, a festa ficara ainda mais animada. O primo de Carmem desistira de flertar com Denise (já que ela de repente ficara de péssimo humor) e investira todos os seus esforços em Magali, que não ficara muito interessada. Ainda assim, Marina, Cascuda e Luísa decidiram que era uma boa ideia juntar os dois e propuseram esse churrasco no dia seguinte.
Denise se debruçou no cercado da varanda, deixando seus olhos se perderem no mar. Ainda se sentia bastante confusa, mas se mantinha firme no plano de se manter o mais longe de Xaveco possível. De início ela torcera o nariz para a ideia das garotas, porém depois decidira que era uma boa. Assim todos ficariam distraídos o dia inteiro, ela veria pessoas diferentes e quem sabe pararia de pensar em tantas bobagens. Sorriu, subitamente mais disposta a ir até a cidade.
— Então, o que é pra com... – começou ao ouvir passos atrás de si, mas se interrompeu a ver de quem eram. – Xaveco?
— É, né. Você não achou que ia a pé, achou? – foi Mônica que respondeu, aparecendo logo atrás do loiro. – Bom, espero que vocês consigam se virar, porque a gente aqui tem muita coisa para fazer. – completou, antes de dar de ombros e entregar uma lista de compras para o garoto.
— Ah. – a outra murmurou, sem saber como reagir. Sabia que se insistisse para ficar, todos perceberiam que havia algo de errado e isso ela não poderia aceitar. – Ok.
O loiro não disse nada, só seguiu até o carro de Franja e deu a partida. Mas mesmo sem uma única palavra, dava para notar que ele também estava tão tenso quanto ela com a situação.
O silêncio já estava começando a irritá-la, então ligou o rádio numa estação qualquer que tocava um programa de músicas pop. Se limitou a cantarolar baixo as canções que conhecia enquanto encarava a janela. De vez em quando arriscava um olhar para o loiro, que nunca desviava os olhos da estrada, como se ela nem estivesse ali.
Aquele comportamento estranho dele estava deixando-a muito confusa e enraivecida. Desde que eram bem pequenos todo mundo sabia da queda que ele tinha por ela. Então por que estava tratando-a desse jeito agora? Será que o beijo que deram fora suficiente para que ele desencantasse desse jeito?
Tudo isso a fazia se sentir como uma grande idiota. Nunca havia gostado de ninguém antes. Tivera várias paixonites, mas nunca levara nenhuma delas a sério. Até o Xaveco do futuro aparecer. Ele a tirara do chão, a fizera descobrir sentimentos que ela nem sabia que existiam. Mas aí ele fora embora atrás de sua própria Denise e ela ficara para trás, com a certeza de que nunca mais o veria novamente. Realmente não o viu.
Nesses dois anos, por conta de acontecimentos tão diferentes daquela realidade paralela, ela assistira o loiro se tornando uma pessoa oposta ao outro Xaveco que ela conhecera. Hoje ele tinha os mesmos dezoito anos daquele futuro. E também o mesmo jeito gentil, o mesmo humor bobo e o mesmo sorriso de tirar o fôlego. Porém, de uma maneira que ela não sabia explicar, haviam tantas coisas nele que eram diferentes... Contrariando todas as expectativas, ela começava a se ver mais apaixonada por essa versão dele do que pela outra.
A garota acordou do devaneio ao notar que o carro já estava parado. Ele a encarava com uma expressão questionadora, mas ela apenas desceu do veículo e seguiu para o supermercado sem nem olhar se ele estava vindo atrás.
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Xaveco estava tentando com todas as forças continuar sendo frio com ela, mas tinha que admitir que não era fácil. Depois de tanto tempo em que praticamente não se falavam, aquela noite do luau mudara tudo. Parecia que eram velhos amigos novamente, rindo, cantando, se divertindo como nunca antes. Com isso tudo ele achou que fosse tê-la novamente em sua vida, mesmo que fosse apenas como amiga. Teria sido suficiente, se não fosse aquele beijo que despertara os sentimentos que ele já havia enterrado há algum tempo.
A maneira com que ela o tratara no outro dia fora como um soco no estômago. Pelo visto ela não mudara nada e continuava encarando as emoções alheias como brincadeira.
— Terminou? – ela perguntou assim que acabaram de colocar as compras no porta-malas. Desde que saíram de casa, ela se armara com uma expressão emburrada e mal trocara cinco palavras com ele.
— Uhum. – respondeu, se esforçando para parecer tão aborrecido quanto ela. A assistiu abrir a porta do carro e se sentar no banco do passageiro ainda sustentando o olhar desdenhoso.
— Qual o teu problema, hein? – ele perguntou, assim que se acomodou em seu lugar. Estava cansado daqueles olhares e de fingir que não se importava.
— O meu problema? – devolveu, em tom de descrença.
— Fala sério, Denise. Eu não sou burro! – continuou – Eu sei que de uns tempos pra cá você decidiu que me odeia, mas eu só to tentando tornar essa viagem pelo menos suportável!
— Ah é? Pois não parece! – ela gritou, subitamente perdendo a calma. – Sabe do que mais? Você devia ter chamado aquela sua amiguinha pra te ajudar! – alfinetou, virando-se para abrir a porta do carro e sair.
— Ei, espera aí! – ele respondeu, num reflexo muito rápido segurando o pulso dela para que permanecesse ali. O movimento brusco o fez se aproximar mais do que o necessário, os rostos dos dois ficando a poucos centímetros de distância. – O quê? A Bia? Eu não... Para com isso, Denise! – se interrompeu, como se não soubesse o que dizer.
O aperto dele foi ficando mais frouxo, mas mesmo assim o garoto não se afastou. Naqueles instantes, ela se sentiu mais vulnerável do que nunca. Ele continuou a olhando nos olhos, mas ela não conseguiu sustentar o olhar e encarou o próprio colo, envergonhada por ter explodido daquela maneira.
— Foi você que disse que nunca aconteceu nada entre a gente. – ouvir aquela frase fora como levar um balde de água fria. A ruiva levou os olhos para junto dos dele outra vez e ao invés de encontrar o olhar atencioso de sempre, viu apenas mágoa.
Nesse momento Denise entendeu tudo. Ela nunca tinha o visto tratar alguém com tanta indiferença, mas agora ao descobrir suas razões, ela compreendeu exatamente o porquê. Era estranho como estavam tão perto e ao mesmo tempo tão distantes. Ela quis tanto achar as palavras certas e consertar tudo... Quis abraçá-lo e dizer que aquelas coisas que dissera eram bobagem, que estava disposta a ficar com ele aqui e agora, para sempre... Mas mais uma vez lhe faltou coragem.
Quando ele se afastou e voltou a dirigir ainda mais sério do que antes, ela soube que cometera um erro que seria quase impossível de consertar.
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