Dois Verões
18 Apenas sete dias
Notas iniciais
Cascão passou a toalha pelos cabelos, subitamente se sentindo nervoso. Passara quase uma hora enrolando no banho (o que definitivamente não era costume dele) enquanto calculava mentalmente o que devia dizer.
Sabia que terminar com Cascuda era a coisa certa a se fazer. Não estava mais sendo honesto há tempos e sabia que ela merecia coisa melhor. Merecia alguém que estivesse no relacionamento por inteiro, como ela sempre esteve. Mas era tão difícil... Mesmo que seus sentimentos não fossem mais os mesmos, ela ainda era a garota que ele amara por tantos anos, que aturara todas as suas manias chatas, as mancadas, os atrasos e as desculpas esfarrapadas.
Ás vezes ele se perguntava se ela também tinha dúvidas sobre o namoro. Mas por outro lado, era fácil apenas continuar ali. Era familiar. Já conheciam as famílias um do outro, todos os gostos e desgostos. Os primos dela meio que já o consideravam um membro honorário e algumas vezes ele até ouvira sua mãe e a dela comentando sobre como eles eram feitos um para o outro e teriam um lindo futuro juntos.
O garoto se olhou no espelho, antes de pendurar a toalha no gancho da porta e se enfiar numa camiseta qualquer. Tinha que fazer isso agora, ou perderia a coragem.
A encontrou sentada no sofá, o pé enfaixado apoiado sobre um par de almofadas, lendo um romance que ele não conseguira identificar. Não conseguiu evitar encará-la por um tempo. Ela tinha a pele macia, lindos olhos cor de mel e os cabelos cacheados estavam um pouco mais compridos do que de costume. Conseguia sentir dali o perfume de baunilha que ela usava há alguns anos e que ele já conhecia de cor.
— Cas... – ela começou, franzindo a testa e dando um susto no garoto, que foi pego desprevenido. – A gente precisa conversar. – suspirou pesadamente.
— É... – ele respondeu, encarando o chão. – O seu pé melhorou? – perguntou. Ela deu de ombros, não se importando muito com a dor.
Ele se aproximou e sentou ao lado dela, circulando o tornozelo dela com a mão, sem nem saber porque o fazia. Ela se retraiu, como quem rejeita aquele toque e ele soltou automaticamente, envergonhado.
— Desculpa... – ele mordeu o lábio inferior nervosamente.
— Tudo bem! – ela rebateu automaticamente, sem graça por ter reagido daquela maneira. – Eu que... Esquece, tá tudo bem.
Por alguns minutos, eles apenas se olharam nos olhos, um abismo de coisas não ditas surgindo entre os dois.
Ela gostava muito daquele garoto. Nem se lembrava mais quando se conheceram, mas não parecia haver uma vida antes dele. Gostava tanto que até seu apelido fazia par com o dele. Se lembrava de quando eram pequenos e de como pareciam complementares, duas crianças bagunceiras se aventurando pelo bairro do Limoeiro, que naquela época parecia ser o mundo todo.
Ao crescerem, suas diferenças aumentaram também. Mas continuaram como peças de um quebra-cabeças, as qualidades de um compensando os defeitos do outro. Quando foi que isso mudou? Ela não sabia dizer. Mas de repente as brigas começaram, ele ficou cada vez mais distante e ela foi se tornando cada vez mais frustrada por ser só a Cascuda, nunca a Gabriela.
As inseguranças surgiram, os ciúmes e o medo de que ele se apaixonasse por outra pessoa sempre presentes. De fato, ele se apaixonou. Ela o conhecia como a palma da própria mão e a cada dia notava a maneira com que os olhos dele brilhavam por outra garota do jeito que costumavam brilhar só por ela. O que ele dissera naquela outra noite foi só uma confirmação, um balde de água gelada em cima das esperanças que ela tinha de que aquilo era só uma paranoia sem sentido.
— Cascuda, eu...
— Você pode me chamar pelo meu nome? – ela interrompeu, visivelmente lutando contra as lágrimas que queriam cair. – Cas... Eu sei o que você quer dizer.
— Me desculpa... Eu só... – começou outra vez – Eu queria ser um namorado melhor pra você, mas... – parou, tentando achar as palavras. Nada do que pensara em dizer parecia suficiente agora – Me desculpa.
— Eu também errei, não errei? – ela continuou, com a voz embargada e trêmula. – Eu queria ter sido suficiente. – completou, finalmente cedendo ao choro.
— Você não fez nada de errado. – ele respondeu – Eu sou um idiota. Não mereço uma mina incrível como você...
Gabriela não o olhou de volta nos olhos. Tentava controlar o choro, mas não conseguia. Mesmo que já soubesse de antemão que a qualquer momento o namoro deles teria fim, nada a preparara para a coisa real. Era estranho demais pensar em continuar naquela casa, com os amigos, fingindo que nada acontecera. Ela nem ao menos sabia se eles continuariam querendo tê-la no grupo se ela não fosse mais a namorada de Cássio.
— Então... É isso? – ele murmurou, sem saber como agir. Para ele também era uma sensação esquisita. Ela era seu porto seguro há muitos anos, a única coisa que ele tinha certeza que continuaria constante em sua vida mesmo se todo mundo partisse. Ainda assim, o que sentia por ela hoje não chegava nem perto dos sentimentos que começara a alimentar por sua melhor amiga.
— E-eu p-reciso ficar s-só... – ela gaguejou, numa tentativa falha de manter a voz firme. Ele não a impediu quando ela levantou, mesmo mancando, e seguiu vagarosamente até o quarto.
Era isso. Tudo havia acabado.
Por que ele não se sentia o alívio que imaginou que encontraria?
—
—
Xaveco
Senti o celular vibrar no meu bolso pela primeira vez em muitas horas. Supreendentemente, depois que mandei mensagem para o Cebola avisando que não voltaria com eles, ninguém me procurou. Eles devem ter adivinhado que alguma coisa aconteceu, ou sei lá. Não vou nem fingir que não fiquei feliz com isso, já que eu queria mesmo ficar sozinho.
Ok, eu queria de verdade que apenas uma pessoa me procurasse, mas sabia que não iria acontecer.
O identificador de chamadas mostrava o nome de Bia, junto com uma foto muito feia que eu tirei dela dormindo no chão da casa de um amigo nosso daquela ez que a gente ficou bêbado junto. Atendi só porque já estava cansado de ficar ali no meio da praia pensando na vida e não chegando à conclusão nenhuma.
— Onde você tá?— ela disse, sem nem me dar tempo de falar um alô.
— Na merda. – respondi, num tom de voz completamente sério, fazendo-a rir.
— Desculpa! Eu não devia rir, mas foi engraçado... – continuou, tentando normalizar a voz. Eu ri um pouquinho junto, porque era minha intenção fazer graça da minha situação. – Deixa eu ver se adivinho... Denise?
— Uau, você acertou em cheio. Já pode ser detetive. – ironizei, girando os olhos exageradamente, embora ela não pudesse ver.
— Quer que eu vá aí ficar na merda com você?
— Vai deixar o Nimbus sozinho? – sorri marotamente. Eu quase podia vê-la fazendo a mesma cara feia que sempre fazia quando eu zoava os romances de verão dela.
— O Nimbus só vai acordar lá pra umas duas da tarde.— ela riu.
— Vocês estão em casa?
— Não. A gente encontrou o Sérgio lá no parque. Estamos na casa dele.— deu uma pausa – Á propósito, a Ju ficou muito chateada porque não pode tirar uma casquinha de você.— riu. O Sérgio era primo da Ju, nosso amigo desde muito antes de ela decidir andar com a gente também. A casa da família deles era a maior e as nossas farras sempre acabavam lá.
— Porra, nem me lembra disso. – suspirei pesadamente. – Não acredito que tive uma chance com a Juliana e não fiz nada.
— Você é muito burro.— ela riu – Mas quem não é burro quando tá apaixonado, né?
— Eu meio que... Dei um fora nela ontem à noite. – confessou. – Na Denise.
— Quê? Mentira!— Bia deu um gritinho descrente – E aí?
— Não sei. Deixei ela lá. Saí correndo, vim pra a gruta e tô aqui até agora. – deu de ombros
— Uau. Não esperava por essa.— ela rebateu, obviamente surpresa. – O que você vai fazer agora?
— Fingir que nada aconteceu. – respondeu tristemente – Não sei onde eu tava com a cabeça quando achei que isso ia dar certo.
— Mas essa garota também, hein?— ela disse, parecendo aborrecida – Tá na cara que ela gosta de...
— Esquece isso, Bia. – interrompi, de repente não querendo mais falar sobre aquilo. – Já foi. Não tô nem aí. – continuei. Era mentira, claro. Eu sabia, ela sabia, qualquer pessoa que olhasse na minha cara sabia. – Escuta, eu preciso desligar. Quando tiver em casa eu te aviso.
— Ok. — murmurou.
— Vê se para de levar o Nimbus pro mau caminho. – completei. Ela riu baixinho antes de se despedir e desligar.
Passei a mão pelos meus próprios cabelos, pensando no tanto que eu devia estar parecendo um doido, sentado sozinho no meio de uma gruta na praia com aquela cara de sofrimento. Aquele era o meu lugar favorito na ilha, especialmente porque poucas pessoas o conheciam. De vez em quando eu pegava minha prancha passava horas surfando lá, embora fosse um pouco perigoso por causa das pedras. Mas bem, era isso que aumentava a adrenalina. Também era ótimo para pensar.
Por mais que estivesse ali desde muito antes do dia clarear, eu não tinha conseguido analisar nada direito. Só conseguia pensar em como ela era incrível e eu era um idiota.
Eu sei, foi burrice largar ela sozinha daquele jeito. Sempre achei que se ela me desse qualquer chance eu iria correndo e não pensaria duas vezes. Porém lá na hora, não consegui. Eu queria, eu quero, tanto aquela menina.
Eu quero de um jeito que não sei se ela também quer. Não só a gente sozinho fazendo as coisas sem pensar, mas junto no meio do dia, andando de mão dada na praia, fazendo essas coisas idiotas de casal. Posso até parecer um bunda-mole por estar querendo essas coisas, mas não abro mão.
Dizer que gosto dela é pouco demais. Eu amo a Denise. De verdade. Tanto que quase perdi a cabeça. O cheiro dela ainda tá grudado na minha camisa e eu acho que não vai sair da minha mente nunca mais.
Porém tô cansado de ser feito de trouxa. Cansado de ir atrás dela feito um cachorro e depois ter que fingir que nada aconteceu, já que ela não tem coragem de ser sempre daquele jeito que é quando tá sozinha comigo.
Encarei o mar batendo nas pedras, sentindo uma sensação estranha no estômago. Amanhã de manhã todo mundo voltaria pra casa e eu sabia que não a veria por um bom tempo. Mesmo com tudo o que aconteceu, eu tinha me acostumado a estar com ela tempo todo. Tanta coisa tinha acontecido nessa viagem, que parecia que ela tinha durado sete meses ao invés de apenas sete dias. Ia ser muito estranho retornar pro meu mundo normal e viver a minha vida de sempre sabendo que não ia mais vê-la de cara emburrada todo dia de manhã, ouvir a risada dela toda hora ou aguentar as picuinhas dela com a Bia.
Eu sabia que voltaríamos a não ter contato nenhum.
Ela tinha colocado a minha vida de cabeça pra baixo e eu não sei se ia aguentar voltar ao normal.
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