Dois Palhaços E Muita Confusão
1 Who Owns My Heart
Notas iniciais
Bom, lá estava eu no meu esconderijo, de boa na lagoa, suave na nave, tranquilo como um esquilo... Enfim, eu odeio todas essas gírias de adolescente e eu nem sei mesmo onde eu as aprendi, mas voltando ao assunto: Eu já estava cansado de sempre falhar nos meus planos malignos contra o (Argh) Batman, então resolvi parar de fazer “uns” planos e começar a fazer “O” plano. Aquele que derrotaria o rato voador de um vez!
Mas... Para me distrair tinha que aparecer... (e quem mais seria?) a chata da Arlequina! Ela sempre me enche quando não é pra encher e vem tentar me seduzir com o seu discurso barato. Tudo bem, ela é bonitinha, mas eu estou cheio dela! Eu quero mesmo é derrotar o Batman e ela acha que eu tenho que ter tempo para paparicá-la... Boboca! Eu nem queria ouvir o que ela tinha a dizer, mas de qualquer forma ela iria abrir aquela bocarra pra falar asneira mesmo, então permiti que ela falasse:
_Oi, meu pudinzinho lindo da mamãe! – pudinzinho; vê se isso é jeito de chamar um homem? – Você não acha que já está na hora de esquecer esses planos bobos e aproveitar um pouquinho a sua Harleen?
_Quem é essa tal de Harleen? – perguntei incrédulo.
_Como assim, meu pudim? – ela parecia triste – EU sou a Harleen!
Ah sim, ELA era a Harleen! Às vezes eu me esquecia de que o nome dela de verdade era Harleen. Eu só a chamava de Arlequina. O que foi? Eu não tenho culpa se o apelido combina mais do que o nome, ora essa!
_Tudo bem, o seu nome é Harleen, e daí? – falei, resmungando.
_E daí que nós... Nós podíamos sair um pouco, sabe? Dar uma volta por aí, matar uns transeuntes... Como a gente costuma fazer...
_Acontece que agora eu não quero matar um transeunte qualquer, Arlequina... Eu quero algo muito melhor! Eu quero matar o...
_O Batman... – completou, com um olhar de decepção – É isso o que você sempre fala toda hora, o dia todo. Só essa semana você já disse mais de vinte vezes que queria matar o Batman, sabia? Deixa dessa obsessão, homem! Você preocupado com o Batman com tanta coisa boa pra fazer por aí!
_Tipo o quê?
_Tipo, ficar comigo, me dá um beijinho, meu pudinzinho de coco...
Ela tentou uma aproximação, mas eu lhe empurrei bem a tempo, fazendo com que ela se chocasse numa cômoda de mogno que estava logo atrás dela. Ela caiu feio e torceu o pé. Ela chorava de dor. E eu tenho que admitir, achei aquilo muito engraçado. Eu não aguentei e desabei a rir. A dor no pé passou após alguns minutos, quando o seu choro de dor deu lugar a uma raiva que eu nunca havia visto antes naquele par tão inocente de olhos azuis:
_Sabe... Eu estou meio cansada do jeito com o qual você vem me tratando – disse ela, desiludida – Eu pareço um lixo pra você, certo?
_Bom... Na verdade sim... – Droga, eu não consegui mentir! A minha porcaria de sadismo falou mais alto no momento.
_Ótimo, pois o seu “lixo” acabou de cair, pelo menos tenha um pouco de dignidade e ajude-o a se levantar!
_Nem pensar! Ver-te assim é uma diversão que eu não tenho há muito tempo!
_Pois eu vou embora daqui, então! – disse ela, chorosa, enquanto engatinhava em direção à porta, já que não conseguia se levantar – E não pense, de forma alguma, pudim, que isso ficará assim! Não pense!
A minha expressão estava calma, como se nada daquilo tivesse acontecido. Os meus batimentos cardíacos estavam em ritmo normal. Nenhuma lágrima de dó ousava escorrer pelos meus olhos. Ok, a Arlequina, portanto, não me causou nada. Eu não senti nada. Simples assim. Até porque essa pirraça dela só dura uma semana no máximo. Basta que eu estale os dedos que ela virá correndo assim como um cachorrinho para os braços do seu dono. Basta esperar... Esperar...
Raios! Quantos dias eu esperei, afinal? Já faz duas semanas e nada da danada voltar. Eu já liguei pra ela duas vezes, mas ela não atendeu. Será que o negócio agora é pra valer? Ah, dane-se, ela que não pense que eu vou implorar para que ela volte. Na verdade, as coisas estão bem mais sossegadas por aqui sem ela por perto... O único problema é que era ela que separava e lavava as minhas roupas... E agora que a danada não está mais aqui eu tenho que fazer tudo isso sozinho! Nossa, eu nem encontro mais as minhas cuecas, mas, afinal, quem precisa de cuecas, certo?
Bom, hoje eu li o jornal. Talvez tivesse alguma notícia sobre o Batman, ou sobre o tosco do Comissário Gordon. Porém, quando eu o abro, que surpresa! Quem está na primeira página, com o direito a uma imagem enorme e a um título com letras tão coloridas que quase me provocaram um ataque epiléptico? A Arlequina e... E... Mas quem é esse cara ao lado dela? Um cara de cabelos longos e prateados (ela realmente gostava de cabelos de cores bizarras), olhos violeta (violeta, essa é nova) e um corpo escultural que de certa forma me invejou (eu preciso malhar mais). Mas quem era aquele... Aquele... Aquelezinho? O título explicava:
“Onda de crimes na cidade: Arlequina e Ragazzo Raffaello”.
Rega... Riga... Ragazzo Raffaello? Mas que raio de nome é esse, afinal? Isso não é o nome de um bombom? Digo, eu acho que isso aí deve ser francês, italiano, belga, alemão, ah, a merda que seja!
Eu comecei a ler a matéria com a mesma avidez com a qual um cachorro esfomeado abocanha um pedaço de pernil. Foi aí que eu percebi:
EU ESTAVA COM CIÚMES!
Não, não, não! Não o tipo de ciúmes em que vocês estão pensando! Eu não estava com ciúmes da Arlequina, eu estava com ciúmes do fato de que ela estava mais famosa do que eu! Ela estava arrasando Gotham City em chamas, enquanto eu ficava aqui, no meu esconderijo, nem sabendo onde poderiam estar as minhas cuecas! Eu era um bandidinho fracassado e ela a deusa do crime! Não, isso não! Mas que humilhação, isso é inaceitável, eu tinha que dar um jeito de trazê-la de volta pra cá, senão...
EU PODERIA PERDÊ-LA!
Ok, eu não sei por que essa droga de pensamento invadiu a minha mente agora, contudo eu logo o abafei. Eu nem sei mesmo porque ele passou pela minha cabeça, afinal eu nem ligo pra Arlequina, ora essa! Acontece que ela está se tornando, ao lado do Ragazzo Raffaello, a protagonista do show de horrores que é Gotham City. E eu? Eu me tornei apenas um coadjuvante nessa história toda! Ah, isso eu não aceito de maneira alguma, nem pensar, nem pensar, nem pensar!
Quando eu terminei de ler a matéria, descobri quem era o tal Ragazzo Raffaello. Ele era um bandido de vestes tão prateadas quanto o seu cabelo. Prateadas mesmo. Aquelas vestes malditas estampadas no jornal quase ofuscavam os meus olhos de tão brilhantes que eram. Ele também usava uma enorme cartola que também era prateada. Ele era sorridente e seduzia as moças com facilidade, através de um amuleto que usava para hipnotizá-las. Após as moças caírem na conversa dele, Ragazzo roubava-lhes o dinheiro, as joias e tudo quanto é coisa. Mas quem ele era antes de se tornar aquele criminoso? O jornal dizia: Um simples mágico de palco infame. Como não conseguiu sucesso na sua profissão, resolveu se tornar um criminoso. Os boatos apontavam que ele tinha um caso com a Arlequina, que lhe dava cobertura sempre quando ele precisava.
Nossa, a Arlequina se sujeitava a isso? Afinal ele a namorava e ao mesmo tempo seduzia as outras moças para ter sucesso nos seus assaltos. Claro que as seduções não eram algo sério. Mas mesmo assim... Saber que a pessoa de quem você gosta está seduzindo outras é um tanto... Digamos... Desagradável! Será que ela está feliz assim? Possivelmente, afinal ela nem me ligou durante essas duas semanas... Sim, ela está... Feliz.
Trim... Trim... Trim... Trim...
Ahá! O meu telefone fixo estava tocando! Com certeza era a Arlequina! Tinha que ser a Arlequina...
O número no visor era o dela.
O dela.
Atende, homem!
Eu coloquei os meus dedos sobre o telefone. Desenganchei-o e levei-o ao ouvido. Eu tentei parecer convincente o bastante para que ela voltasse correndo para mim, pedindo mil e uma desculpas:
_Alô, minha linda – tentei não soar falso, mas a minha voz saía muito forçada – Você sentiu a minha falta, minha Harleen?
_Você... Você lembrou o meu nome dessa vez! – disse ela, toda carinhosa. Ótimo, eu teria a mais absoluta das certezas de que ela voltaria para mim naquele exato momento se o seu tom de voz não tivesse mudado drasticamente para algo mais frio e sarcástico – Então... Pudinzinho... Eu e o meu delicioso Ragazzo estamos nos esbaldando aqui do outro lado... E você sabe quem está na primeira página do jornal de Gotham City de hoje? Nós dois! Morra de inveja, seu palhaço fracassado!
Ela, assim, desligou o telefone na minha cara. Na minha cara. Ela desligou o telefone na minha cara! Como pode isso acontecer comigo? Ela nunca desligou o telefone na minha cara antes! O que está rolando, afinal? Quem era aquela nova Harleen que eu não conhecia, falando lá do outro lado da linha telefônica? Nem parecia... Nem parecia que era ela!
_Quem é você, Harleen? – perguntei-me, enquanto afundava o meu rosto esbranquiçado em minhas próprias mãos – Quem é você, quem é?
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