Notas iniciais
A história acabou. E ninguém comentou #chorandolitros. Enfim, dane-se, um dia alguém vai ler isso.

Eu olhei no meu relógio. Quatro horas e meia da manhã. Eu os seguiria para saber onde eles se escondiam. Ainda bem que eu era bom nisso. Bom mesmo. Eles mal me notaram. E eu ainda pude ouvir a conversa deles. A Arlequina parecia mesmo apaixonada pelo mauricinho do Ragazzo. Que chatice ouvir os papos românticos dos dois, isso chegava a me dar um enjoo terrível. Eu odiei ouvir aquilo!

Chegando ao esconderijo deles, eu percebi que não era nada mais do que um simples barracão numa praia deserta. Realmente algo muito simplório. Nada de muito escalafobético. Eu aposto que havia ratos lá, pois o fedor era de matar! Poxa, o Ragazzo parecia tão arrumadinho e pomposo, então eu esperava um lugar mais... Digamos... Bonito!

Mas enfim, eu não era um design de interiores pra ficar analisando o lar alheio. Eu estava lá mesmo era pra trazer a Harleen de volta e dar um jeito naquele Ragazzo idiota. Eu, assim, sorri calmamente e disse:

_Ok, Ragazzo, está na hora de por um sorriso na sua cara!

Eu, então, entrei de um jeito bem discreto no barracão e... Lá estavam a Arlequina e o Ragazzo debaixo de lençóis, enquanto se beijavam bastante. Ok, eu acho que vim em hora errada, mas o show tem que continuar, portanto improvisei o meu roteiro com um alívio cômico:

_Eu sinto muito em interromper a troca de saliva, mas está na hora de pôr as cartas na mesa. E você, Arlequina, sabe que eu sou bom nisso!

_Ah, dá um tempo! – disse o Ragazzo furioso – Nós estamos nus! Deixa a gente se trocar, pelo menos?

Eu teria ficado vermelho se o meu rosto não fosse tão esbranquiçado. A minha vontade era de dar o fora, mas eu não podia, de forma alguma, demonstrar todo e qualquer tipo de fraqueza. O treco era pra valer, então nada de recuar. O destino da Arlequina estava comigo!

_Troquem-se logo – resmunguei – Sejam breves!

_Só um minuto! – disseram eles, enquanto entravam num cômodo. Após um tempinho, já estavam de volta, com as suas costumeiras roupas: A roupa de palhacinha da Arlequina e a roupa de Surfista Prateado (ok, a piada foi forçada) do Ragazzo.

_Muito bem, Ragazzo! – falei, em voz alta, quase gritando – O que você fez com a Arlequina pra ela não querer te largar mais?

_Oh, estamos nervosos, você não acha? – murmurou o Ragazzo – Você está querendo dizer... O que eu tenho que você não tem? Bom, digamos que, ao contrário de você, eu saiba como tratar alguém tão especial quanto a Arlequina... Enfim, eu a trato com amor, dou aquilo que ela quer, faço tudo o que você nunca fez por ela, correto?

_Eu discordo! Você não ama a Arlequina de verdade! Você só a usa para dar cobertura nos seus planos malignos quando a necessidade surge! Assim que ela não lhe servir mais, você a jogará fora!

_E não foi exatamente isso o que você fez com ela? Usou-a enquanto necessitava e depois passou a desprezá-la?

Eu abaixei a cabeça naquele momento. Ele estava certo.

_Sim, eu fui um tolo mesmo. Desculpa Arlequina.

_Tudo bem, Coringa – disse o Ragazzo, com desprezo – Você não precisa se desculpar. Você acertou na mosca! Eu realmente só estou usando a Arlequina enquanto ela me for útil. Eu usei a hipnose com ela. Os olhos dela não ficaram esbranquiçados porque eu coloquei lentes de contato azuis nela depois de hipnotizá-la. Você sabe como é que é... Ela fica mais bonita de olhos azuis. E por que eu peguei justo a Arlequina para me ajudar? Ah, ela sabe usar armas, não tem escrúpulos e é bem legal ter uma parceira criminosa com essas curvas maravilhosas... Ah, uma estrada fatal! Mas o maior motivo pra eu ter seduzido a Arlequina foi o fato de que o mundo sabe que ela é caidinha por você. E atingindo-a, eu também atinjo você! Brilhante, você não acha, meu rapaz?

_E por que tanto interesse em mim, Ragazzo? Alguma espécie de amor platônico? – falei cínico.

_De forma alguma – disse ele, arrogante como sempre – Eu não sou gay e mesmo se fosse, passaria longe de um palhaço idiota como você. Acontece que eu sou novo na cidade e estava louco para dominar tudo isso aqui. Porém, eu vi que a concorrência era grande. E você era conhecido como o vilão mais odiado de toda a cidade. Eu, bom... Eu fiquei com muita inveja, portanto livrando-me de você, o caminho estaria livre para que eu me tornasse o maior vilão de toda a Gotham City! É claro que eu estava fazendo muito sucesso, inclusive estava na primeira página do jornal, mas eu não queria ser um grande vilão. Eu queria ser “O” vilão.

_Claro, porque livrar-se de mim é muito mais fácil do que tentar me superar, correto?

_Cala a boca! – disse ele, muito nervoso.

_Ok, mas elucide-me, por favor, onde a Arlequina entra nessa história toda, meu doce rapaz?

_Ora essa – disse ele, todo orgulhoso do seu plano – Ela é uma peça chave do meu plano! Para chegar perto de você, eu a usei. Eu a seduzi e a usei sim para me dar cobertura enquanto eu cometia os meus crimes. Mas o buraco era muito mais embaixo. O meu objetivo principal com ela era conquistá-la para que ela me dissesse o seu maior ponto fraco! E, como ela estava com raiva de você, a minha hipnose funcionou ainda melhor do que eu esperava. Eu agora sei muito bem qual é o seu maior ponto fraco!

Eu, tentando desviar o assunto, comentei com a Arlequina:

_Veja só, Harleen! Ele estava te usando o tempo todo! E você ainda quer continuar com esse canalha por perto? Vamos embora!

O Ragazzo liberou lentamente uma risada sádica e cruel que aos poucos se transformou numa gargalhada de vilão megalomaníaco numa metamorfose simplesmente impressionante. Ele então me disse:

_A hipnose faz com que ela me veja como um deus. Ela está cega e surda para qualquer outra pessoa. Eu sou a única pessoa que ela escuta. E você, Coringa, é a pessoa que ela mais odeia, certo, minha Harleen?

_Certo! – disse ela, parecendo feliz em estar sendo enganada.

_Então, vamos direto ao ponto, Coringa, não tente mudar os rumos da conversa – disse o Ragazzo, friamente, com um olhar sério e (Argh) violeta – Você sabe muito bem qual é o seu ponto fraco: A sua loucura!

_Sim, eu sei muito bem disso... – falei, desviando o olhar.

_E eu sei exatamente como te levar à loucura!

_Como? – perguntei incrédulo – A Arlequina te contou?

_Não houve necessidade. Dá pra ver nos seus olhos o que te levaria a mais plena de todas as loucuras existentes...

_O quê? – gritei, num medo já quase pânico.

_Perder a sua palhacinha sexy... Para todo o sempre!

_Mas eu nem ligo para a Arlequina! – falei, ríspido.

_Isso é o que você diz... – disse ele lentamente, como se as suas palavras fossem uma espécie de tortura – Entretanto não é isso o que você sente, meu caro!

_E o que você vai fazer com ela? – falei, tentando não parecer preocupado com o que ele seria capaz de fazer.

_Nada, eu só vou te dar uma escolha. Uma escolha, meu belo palhaço. Uma escolha em que você sairá perdendo, não importando a opção que você escolher. O negócio é você decidir o que é “menos pior”: Perder a Arlequina... Ou a própria vida!

_O que você está insinuando?

O Ragazzo, assim, pegou uma faca que estava em cima de uma pequena cômoda. A faca era tão grande que tinha o dobro de qualquer uma das minhas. E olha que eu tinha muitas facas!

Ele prensou levemente a faca contra o pescoço da Arlequina. Ela gemia de dor. Eu tentei parecer inexpressivo, mas não conseguia. Eu estava muito nervoso. Muito mesmo. Eu sabia que não gostava da Arlequina. Mas, então... Porque eu estava tão preocupado com ela assim? Ah, danem-se estes questionamentos estúpidos. Eu tinha que agir rápido. Eu, então, gritei numa voz sufocada pelo medo de perdê-la:

_Pare de torturar a Arlequina, Ragazzo! É a mim que você quer!

_Hum, você é um bom menino... Muito bem, mas não serei eu que darei um fim em você... Eu que não vou sujar as minhas mãos com um tipo como você... Já que você gosta tanto assim da Arlequina a ponto de morrer por ela, eu decidi que você morrerá pelas mãos dela! Veja só, meu Coringa... Morrer pelas mãos da mulher amada... Que lindo e romântico!

_Eu não a amo – falei, friamente.

_Ora essa, mas que estranho... – murmurou ele — Quando nós damos a vida por uma pessoa... Geralmente fazemos isso porque a amamos, você não concorda com isso, cara? Mas, enfim... Chega de falação... Arlequina, aqui está a minha faca – disse ele, entregando o seu enorme facão a ela – Você já sabe o que fazer!

Ela assentiu com a cabeça e foi na minha direção. Eu já estava tremendo. Muito provavelmente ela não teria a mínima piedade de mim.

_Harleen, não... – Essa era a única coisa que eu conseguia dizer.

Ela se aproximava bem devagar. Não que ela estivesse hesitando em me matar. Ela só queria que tudo fosse o mais lento possível. Uma morte terrível e torturante desde o início. Desde o início.

Quando ela estava a apenas cinco centímetros de mim, podia sentir a sua respiração. Ela me apontou a faca com um sorriso bem sádico. A tortura, então, começou. Ela deslizou a faca pelos meus lábios, fazendo-os sangrar. Eu sentia o sabor do meu próprio sangue. Ela prosseguiu, passando a lâmina afiada pelo meu pescoço e depois pelos meus braços:

_Harleen, para... Isso está... Isso está doendo...

Ela apenas sorriu e disse:

_Essa é a intenção...

E o Ragazzo só ria. Eu podia simplesmente tomar a faca da mão dela, mas estava com medo de machucá-la. Eu estava de mãos atadas.

Porém, eu tinha que tomar uma atitude, eu não queria morrer. Eu, então, segurei o braço dela. Ela pareceu ter ficado furiosa com o que eu fiz, porque me jogou no chão com uma força voraz e caiu sobre mim, ainda com a faca na mão. Ela estava com muita raiva.

_É melhor você facilitar as coisas, pudim, se não quiser sofrer ainda mais – disse, enquanto tirava o meu terno, para depois passar a faca pelo meu abdômen também. Ela sabia realmente como torturar alguém.

_Bravo, bravo! – gritava o Ragazzo – Isso só fica cada vez melhor!

A sua boca estava bem próxima da minha. Talvez se eu a beijasse, ela pudesse se esquecer dessa ideia maluca de me matar. Não que eu quisesse realmente beijá-la. Aquilo era uma questão de vida ou morte. A faca dela já havia deixado marcas por toda a área acima da minha cintura. Eu já não estava aguentando mais aquela tortura. Eu tinha que fazer.

Eu, assim, a agarrei e olhei bem no fundo dos olhos dela. Ela não reagiu. A partir daí as coisas simplesmente aconteceram. Eu apertei a minha boca contra a dela, num beijo alucinado que beirava a violência. Ela largou a faca e se entregou completamente a mim. Eu podia ouvir o Ragazzo gritando insatisfeito enquanto eu acariciava todo o corpo dela. Sim, eu era meio safado, mas fazer o quê? Aquilo estava bom demais. Eu só não sei bem por que motivo o Ragazzo estava bravo: Pelo seu plano ter ido para o beleléu ou pelo fato de que eu estava beijando a “namoradinha” dele. Talvez pelos dois motivos. Que delícia, ao mesmo tempo em que salvava a minha pele, o beijo me trazia sensações que eu nunca havia experimentado antes. Que coisa mais versátil, não?

Quando as nossas bocas se afastaram, percebi que ela tinha voltado ao normal, pois não queria mais me matar (ainda bem). As nossas respirações estavam ofegantes. Tudo parecia estar maravilhoso, mas o problema ainda não tinha acabado. No momento em que me dei conta, o Ragazzo já vinha em nossa direção, com outra faca também enorme (de onde ele tirava tanta faca, hein?). Porém, eu também tinha um ás na manga: Peguei a faca da Arlequina que estava bem ao meu lado. A Harleen e eu nos levantamos rapidamente. Cada segundo era precioso. A batalha ainda não tinha acabado. Muito pelo contrário, começaria agora!

Eu dei um salto e caí em cima do Ragazzo, tentando atingi-lo com a minha faca. Ele, porém, com a sua faca, atingiu de raspão as minhas costas nuas. Eu gemi de dor, mesmo que aquilo não tivesse sido em cheio. Ele, então, virou-se por cima de mim e, apontando a faca na direção do meu coração, disse assustadoramente:

_Agora você está perdido, meu Coringa! Mais um pouco e você estará morto!

Eu já estava rezando para a minha morte não ser muito dolorosa, quando ouvi um disparo. O Ragazzo caiu duro no chão, com o rosto desfigurado e sangrando muito: Uma bala certeira na cabeça!

_Mas quem...

_Fui eu, pudinzinho! – disse a Harleen – Eu sabia onde o Ragazzo escondia o revólver calibre 38 preferido dele. Então... Literalmente foi tiro e queda! Você achou mesmo que eu ia te assistir morrer, assim, sem fazer nada? Eu não! Agora vem cá, meu lindinho!

Eu, então, me aproximei dela e lhe agradeci, beijando-lhe o rosto.

_Agora vamos fugir! – falei – Se a polícia aparecer por aqui, nós estaremos ferrados! O que você acha de voltarmos para o nosso esconderijo?

_Uma ótima ideia, pudim! – disse ela, com aquele sorriso todo inocente do qual eu já sentia tanta falta...

Nós, então, saímos daquele lugar horrível e voltamos para o nosso belo lugarzinho com cheiro de sândalo (só que não). Quando nós chegamos lá, ela me disse:

_Tem algo incomodando os meus olhos!

_O Ragazzo te colocou umas lentes de contato... Deixa que eu tire pra você, Arlequina...

Dito e feito. Ela agradeceu e, ao ver os meus ferimentos, disse:

_Nossa, eu fiz o maior estrago em você!

_Você se lembra do que fez comigo? Mas como? Pelo o que eu sei as mulheres não se lembram do que fizeram ou disseram enquanto estavam hipnotizadas pelo Ragazzo!

_Bom, eu acho que o seu beijo zoou com toda a magia dele, inclusive com a parte do esquecimento. Você estragou tudo para ele. E, felizmente, consertou tudo para mim! Mas e aí... Você acha que esses seus ferimentos vão sarar?

_Claro que sim! Eu vou sobreviver... Mas eu tenho que admitir... Você quase acabou comigo! Sim, você é uma mulher fatal!

Nós rimos bastante da minha piadinha infame, porém algo me preocupava. Ela, por ter dado cobertura ao Ragazzo, estaria sendo procurada pela polícia.

_E se a polícia te pegar? – perguntei a ela.

_Dane-se, eu dou um jeito de me safar. Eu sempre dou um jeito! Aliás, a vida na cadeia não é tão ruim assim. A comida de lá é bem melhor do que a que você faz – disse ela, fazendo uma careta engraçada – Mas diz aí... E aquele beijo que você me deu? Você fez aquilo só pra se safar da morte, ou... Ou você realmente... Bom...

Eu estava um pouco envergonhado. Eu tinha beijado a Arlequina só para dar uma rasteira na morte sim, mas... Eu... Eu adorei beijá-la...

_Pense o que você quiser, Arlequina... – falei.

_Ok, pudim! Então... Eu posso pensar que você me beijou por que... Por que você me ama maravilhosamente?

_Claro que sim, Harleen... – disse, num sorriso quase imperceptível.

_Se isso não for muito incômodo... Eu quero um bis, seu Coringa...

_Aquele bombom?

_Não, seu tonto! – disse ela, em tom de brincadeira – Querer um bis é querer um replay, querer de novo... E eu quero um bis daquele beijo...

_Você... Você quer? – falei, meio assustado.

_Sim, só mais uma vez, por favor... Você beija bem demais!

_Tudo bem, Arlequina, tudo bem... Mas só mais uma vez.

Ela apenas sorriu e se aproximou de mim, aos pulos. Eu, então, beijei-a profundamente. Algo perfeito... Quase... Quase um sonho...

E eu simplesmente sentia que não queria acordar mais...

Eu não queria mesmo...

THE FIM (porque The End é muito cafona).

Notas finais
Sim, a história acabou rapidex! Eu disse que a história seria uma short-fic. Enfim, eu espero que quem tenha lido tenha gostado. Alguém leu, certo?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!