Dois Mundos
1 Capítulo 1
Atrasado, sempre atrasado. Christopher corria pelas escadarias do metrô de São Paulo, ofegante e desarrumado. Dessa vez meu chefe me mata! As pessoas caminhavam despreocupadas, sem muita pressa pelos estreitos corredores subterrâneos que subiam e davam acesso aos portões de saída. Porque todo mundo está sempre devagar!?
Christopher não era acostumado a ter raiva, era um bom rapaz. Cresceu em uma casa com fraca união familiar. Seus pais brigavam demais, quando tinha 12 anos, veio o divórcio e ele passou a viver com a mãe. O pai visitava-o constantemente, mas claro, não era a mesma coisa. Como forma de descanso mental, Christopher se enfiava em seus livros. Pegara o gosto pela leitura com a mãe, que era professora, e com seus livros abertos, ele se escondia em seu mundo de fantasia. Adorava uma trilogia que era baseada em um mundo medieval com seres lendários e batalhas épicas. “O Pacto de Ementhária”, uma trilogia que contava a história de três reinos ameaçados por Melfrath, o Dragão Dourado e as dificuldades de criar uma aliança entre elfos, homens e anões, entre outras raças, para formar um exército forte o suficiente e banir a ameaça do continente.
E era nessa fantasia que Christopher encontrava a sua paz. Seus problemas sumiam, e toda a vida cinza de um mundo que muito cobrava e pouco ofertava, simplesmente desaparecia. Ele leu incontáveis vezes cada um dos três volumes, dormiu na porta da livraria quando houve o lançamento do último. Riu com eles, chorou com eles. Sentiu raiva, coragem e amor. Afundou-se em sofrimento e violência, bem como se embriagou em honrarias e virtudes. Eram seus livros, sua imaginação, seu mundo.
Mas agora não havia tempo para imaginação, acabara de arrumar um novo emprego já que fora demitido do último por ser desastrado demais, péssimo defeito para alguém formado em gastronomia aos 23 anos, e não podia chegar atrasado logo na segunda semana. Mas também não podia culpar as pessoas que andavam devagar ao redor, afinal era uma calma tarde de sábado. Então, como um cão fugindo desesperado da padaria com um suculento pedaço de frango na boca, Christopher corria entre a multidão para sair da estação. Ao ver a luz do sol e sentir o calor daquele agradável sábado de verão, olhou para o relógio e se sentiu com esperanças, ainda tinha dez minutos e na velocidade em que corria, podia chegar ao trabalho em apenas sete.
Ao virar a esquina, inclinado pela velocidade em que estava, percebeu um homem cego caminhar com dificuldade pela calçada danificada, apenas com o auxílio de uma bengala de metal. Seu pensamento voou ao seu universo de fantasia, para o livro O Pacto de Ementhária, e se lembrou de Sir Darius Vengabor, um cavaleiro da raça dos homens que mantém a honra e o juramento acima da própria vida, Capitão da Guarda Elite, corporação que conta com os melhores cavaleiros do reino de Dragohyn para defender o Trono de Ouro que, na ausência do Legítimo Rei, ficou guardado pela Ordem da Regência.
Christopher se lembrava de Sir Darius toda vez que fazia um bem para a sociedade, desde um papel que jogava no lixo por consciência contra a poluição até a paciência de ouvir as histórias da vida de um senhor de idade, no banco de um ônibus público. Sir Darius vivia pelo reino e quando Christopher pensava nele, vivia pela sociedade.
O cego estava quase tropeçando em uma elevação de cimento quando Christopher o pegou pelo braço.
— Obrigado meu filho! – disse o cego, aliviado pela chegada de uma alma bondosa que vinha em seu auxílio.
— Acredito que o senhor precisa de uma ajuda para passar por aqui, eu mesmo quase caio às vezes, me pergunto como consegue passar por essa situação, sendo privado de sua visão?
— Ah, a vida sempre nos tira algo que nunca pensaremos em perder, para nos mostrar algo que nunca pensamos em valorizar. Minha visão se foi aos quinze anos e desde então meu tato e senso de espaço são meus guias fiéis. – afirmou o homem cego, sorrindo, enquanto se apoiava no ombro de Christopher. – Espero não estar te atrapalhando meu amigo, nessa cidade todo mundo está sempre com pressa. Só preciso atravessar a rua, vou até a loja de ternos do outro lado.
— Sem problemas, eu não estava com pressa. – Mas ele estava. Sabia que perderia seus preciosos minutos para ajudar aquele cego.
Ao atravessar o homem cego em segurança e se despedir dele, Christopher olhou seu relógio, perdera o tempo que tinha para chegar ao trabalho e estava realmente atrasado. Saiu correndo pela calçada desviando das pessoas no caminho. Chegou ao restaurante onde trabalhava com onze minutos de atraso, os faróis para pedestres não o ajudaram muito.
— Outra vez atrasado, Christopher! – surpreendeu-o seu superior. Carlos era o chefe geral da cozinha de um dos mais renomados restaurantes da cidade, e foi ele que ao ver o rapaz do interior todo sem jeito, ofereceu um emprego de ajudante. Era uma ótima oferta, os formandos em gastronomia quase não têm boas chances na maior cidade do país, ainda mais em um restaurante tão famoso, Christopher sabia disso. – Não tem nem um mês que trabalha conosco e você simplesmente não se esforça para cumprir seu horário!
— Senhor, eu saí de casa a tempo, mas tive imprevistos no caminho. Tinha um homem cego, e...
— Imprevistos são rotina em uma cidade tumultuada como essa. Você tem que se acostumar com isso. Olha para você, Christopher. – Carlos era um homem sério, alto e gordo. Com um olhar severo e sem um fio de barba no rosto. – Olhe suas vestes amassadas, seu cabelo desarrumado, seu rosto cansado e sem vida. Você é um rapaz inteligente e criativo, devo admitir, mas é desastrado. Tire o fim de semana de folga, passe suas camisas e melhore essa aparência. Na situação em que se encontra, é capaz de atear fogo na minha cozinha. Esteja aqui no horário, segunda-feira, ou terei que demiti-lo.
Christopher não teve tempo e nem coragem para continuar a conversa, o Chef Carlos virou as costas e fechou a porta da sala administrativa. Não era uma boa hora para conversar com os outros colegas de trabalho, era melhor sair de cabeça baixa, andar na rua, devagar como as outras pessoas, seguir o conselho de Carlos e voltar para casa.
O apartamento em que morava com a namorada não era longe do restaurante. Três estações de metrô e alguns minutos caminhando, e ainda assim conseguia se atrasar. Christopher cresceu em uma pequena cidade do interior, mas aos dezesseis anos decidiu morar com a tia avó na grande metrópole de São Paulo, para terminar os estudos secundários e ingressar na universidade para fazer o que tanto sonhara, gastronomia. Passou os dois anos finais antes de completar a maioridade, apenas estudando, mas quando completou dezoito anos decidiu que era hora de buscar seu próprio caminho. Achou um pequeno apartamento no centro e saiu da casa de sua tia apenas com um colchão, algumas roupas, sua tv e principalmente seus livros. Conseguiu um emprego em um restaurante japonês próximo de casa, preparando temakis, sushis, sashimis e outras especialidades que o senhor Nakiro Tayamaha lhe ensinara. Aos vinte anos, era extremamente habilidoso com facas e cortes, o que lhe ajudou muito a ganhar pontos extras com as aulas práticas. Nas horas vagas, em sua pequena cozinha no apartamento, fazia diversos experimentos culinários. Aplicava temperos exóticos em carnes bovinas, testava a resistência do arroz ao fogo alto e baixo, para descobrir uma forma mais eficaz de achar o ponto certo. Rodeava um frango assado ao azeite e manteiga com frutas silvestres para testar novas combinações e para não fugir da rotina, trabalhava com peixes para manter a precisão com as facas. Um dia de semana qualquer, Christopher estava trabalhando no restaurante, quando atentou-se a uma garota que entrou descontraída, com um livro debaixo do braço e fones de ouvido. Era uma garota de estatura baixa, magra e com curvas singelas, usava uma camiseta preta, de alguma banda de rock que Christopher não soube identificar, calça jeans simples e um par de tênis surrado nos pés. Era uma garota comum, mas com profundos olhos azuis e algumas sardas por cima do nariz. Não era o tipo de garota que o atraía, mas viu-se abrindo um enorme sorriso quando ela encostou-se no balcão:
— Por favor, eu quero um combo simples com refrigerante. – A garota disse a Nakiro, correndo os olhos levemente até ele. – Está corrido no trabalho e não tenho muito tempo para comer.
— Claro, senhorita! Chris, por favor, prepare uma bela refeição para a moça. – disse Nakiro, se aproximando de Christopher, enquanto ele pegava uma gorda peça de salmão. – Pelo jeito que ela olhou para você e pela bela peça de peixe que escolheu, acredito que eu nem precisava pedir um bom trabalho. – Sorrindo para o rapaz, o velho mestre japonês virou as costas e caminhou em direção à porta que levava ao estoque.
— Você tem muito controle com a faca na mão. – Christopher levantou a cabeça e percebeu que a garota estava admirando seu trabalho. O restaurante estava vazio, era um dia chuvoso e a garota era a única cliente naquele momento.
— Bom, não é tão difícil como a maioria das pessoas pensam, basta manter o punho firme e acreditar no seu golpe.
— Essa frase é de Sir Baron Crossway! – disse a garota sorrindo e erguendo o livro que trouxera debaixo do braço.
— Você também gosta do Pacto de Ementhária? É meu livro favorito! – respondeu Christopher, quase deixando a faca escapar de suas mãos.
— Bom, vejo no seu crachá que seu nome é Christopher, um belo nome. Prazer, meu nome é Beatriz!
Ele se lembrava daquele dia como se fosse ontem. Seis meses depois, Beatriz se mudou para o seu apartamento. Quase dois anos depois, as coisas já não eram tão animadas. A paciência dela com o cheiro dos temperos já não era mais a mesma, já não experimentava mais os pratos que ele preparava e só os ratos sabem onde o livro dela foi parar. Mas ele ainda a achava linda, ainda sentia paixão, ainda acordava cedo para fazer o café da manhã do jeito que ela gostava, antes dela sair de manhã para as aulas de teatro. Beatriz não trabalhava mais, vivia de uma pensão que recebia de seu falecido pai que era militar e isso lhe rendia tempo para fazer o que quisesse, então resolveu cursar teatro e sempre recebia o apoio do namorado. Na verdade recebia o apoio dele em tudo que fazia.
Saindo da estação de metrô, próximo a sua casa, Christopher foi caminhando lentamente até em casa. Gostava de colocar os fones de ouvido, escolher alguma banda de rock com um tom medieval e se imaginar no mundo de Ementhária, onde se passava a história de seus livros.
A chave sempre enroscava no portão do prédio e isso rendia uma roupa bem molhada nos dias de chuva, dada à demora em abri-lo. Mas Christopher já havia pego o jeito, e conseguia girar a chave com certa facilidade. Passou pela caixa de correio para ver se tinha alguma correspondência e tinha, sempre tinha. Cobranças, ofertas de concessionárias de carros, panfletos de pizzarias, informativos de universidades, faturas de cartão de crédito e de vez em quando uma carta de sua mãe, mas desta vez não era o caso. Ele já estava cansado disso, das mesmas cartas, dos mesmos sons metropolitanos, do mesmo apartamento pequeno, da mesma vida que ele e milhões de pessoas levavam todos os dias. Percebeu que estava se afogando na rotina, mas não sabia como sair, como mudar as coisas. Queria algo novo, diferente, que mudasse sua vida. E assim subiu as escadas até o 2º andar, onde ficava seu apartamento. Talvez uma viagem à praia com a Bia melhore as coisas. Mas não ia melhorar, nem de longe. Christopher adoraria uma mudança em sua vida, mas não como as coisas aconteceram, pois ao abrir a porta de seu apartamento, flagrou Beatriz se entregando completamente a um colega das aulas de teatro. Seu nome era Heitor, um rapaz de estatura média, cabelos negros até os ombros e um corpo bem definido. As brancas e macias pernas de Beatriz envolviam o rapaz com todo o furor e vontade, mas quando olhou para o lado e viu que Christopher estava parado diante da porta com um semblante de alma vazia, jogou o rapaz para o outro lado do cômodo, sem se importar com as duas prateleiras cheias de fotos da família e do casal.
— Chris! Óh meu Deus! Eu...Heitor...nós estávamos...óh meu Deus!
Christopher já demonstrava no olhar que não havia mais amor. Nada que ela dissesse o faria mudar de ideia, nada o faria acreditar, nada tiraria as garras que envolveram seu coração naquele momento. Lembrou do primeiro beijo, de correr com Beatriz na chuva, andar de mãos dadas no parque, cozinhar para ela todos os dias. Lembrou-se dos juramentos de fidelidade que ele fez e nesse momento sua mente o travou, alertando-o de que os juramentos eram feitos apenas por ele, enquanto ela apenas respondia: Eu também.
Então tudo mudou. Sentiu seu sangue quente correndo nas veias, sua visão e audição ficaram mais aguçadas e ele sentiu o ar em seus pulmões, e naquele momento soube que estava vivo. Soube que sentia raiva.
— Imagino que estavam ensaiando alguma cena para algum espetáculo. Tróia, talvez? A última noite de romance de Heitor, antes que Aquiles o chamasse para um combate singular? – Christopher falava em um tom sarcástico com seus olhos castanho escuros brilhando intensamente em direção ao casal traidor. – Imagino pela sua cara de medo, Heitor, que você está concluindo que sou eu, seu Aquiles. Mas pode ficar sossegado, qualquer ato de violência da minha parte tiraria o prazer de repudiar a pobre e inocente Beatriz. – dizia ele sentindo algo que nunca experimentara antes. Uma mistura de medo, revolta e raiva, com poder, coragem e segurança.
— Você é seco Chris! Não me toca com paixão, vive enfurnado na cozinha e nos livros quando está em casa. – Beatriz tentava se defender em vão. – Não faz nada que eu peço, ou que eu gosto. Encontrei em Heitor o homem que você jamais foi na minha vida. – As lágrimas borravam a maquiagem dos olhos, tornando o choro escuro e cheio de ódio.
Beatriz pediu a Heitor que a ajudasse arrumando as malas, ela estava deixando o apartamento. Abriu o guarda-roupa e foi jogando suas coisas para que Heitor fosse guardando em duas grandes malas diferentes. Jogou no chão todas as fotos, quebrou todos os enfeites que Christopher havia comprado para presenteá-la e como um furacão, passou. Destruindo o que era realidade e levando consigo todos os sonhos.
Christopher ficou ali, parado, enquanto Beatriz usava a raiva como subterfúgio para escapar da vergonha que a traição lhe trouxera. Viu o guarda-roupa meio vazio, as fotos rasgadas, os enfeites destruídos e a porta batendo atrás de si. Ela se foi. Agora restava arrumar a bagunça e colocar a cabeça no lugar. Enquanto varria os pedaços de vidro e porcelana do chão, pensou em ligar para sua mãe e contar tudo, mas não era hora para isso. Estava um lindo dia e as pessoas estavam felizes na rua. O sol sempre trazia o bom humor e Christopher adorava dias assim, mas não esse sábado. Dessa vez estava sem ânimo, ficou sentado na beira da cama por horas, apenas ouvindo o barulho da cidade que continuava sua rotina sem se importar com aquela vida vazia em um apartamento no centro. O sol se foi e a noite quente trouxe certo incômodo, pois não era normal estar em casa em um sábado. Foi até a cozinha, abriu o armário e tirou uma garrafa de uísque do fundo, não tinha o hábito de beber, mas guardava para alguma ocasião especial, como essa. Tirou uma lasanha congelada do freezer e colocou por dez minutos no forno, até pensou em cozinhar algo, mas sua vontade naquela noite era mínima. Ficou sentando olhando para o copo, remoendo a cena da traição por longos minutos, até que sentiu o agradável cheiro de queijo e manjericão industrializados. Foi até o forno e tirou a lasanha fumegante com o auxílio de um pano, colocou na mesa e beliscou apenas as bordas, descobrindo que não tinha fome alguma. Apagou todas as luzes do apartamento, foi até o quarto acompanhado apenas da garrafa de uísque, ligou o som para ouvir algo enquanto bebia. Escolheu uma sequência de músicas de Elvis Presley e ficou refletindo sobre sua vida, sobre como queria sumir, sobre como seria melhor ter ficado preso em seu livro, ainda jovem demais para sofrer as desilusões do amor. A cada gole, uma lágrima descia, um pranto tímido e sincero. A doce voz de Elvis fez Christopher cair no sono, deixando a garrafa rolar vazia e cair no chão.
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