Dois Mundos

10 10-Mundo mortal, estamos de volta.


Quíron havia inventado uma história que os filhos de Hipnos haviam jogado uma maldição muito forte no acampamento durante a batalha, só que a maldição foi tão forte, que os romanos foram dormir em outro lugar. Eu sei, difícil de acreditar, mas era melhor do que revelar nossa identidade.

Depois de uma semana de acontecimentos normais, os filhos de Hefesto desmontaram as torres.

Treinamos muito, sempre esperando um ataque, mas nada aconteceu. Meus sonhos estavam tão ridiculamente chatos como antes. E eu não tinha ideia do que os romanos estavam pensando.

Tive muito tempo livre com meus amigos e agora eu conhecia todo mundo do acampamento. Pedro e eu estávamos bem, quero dizer, entre amigos e namorados, por enquanto ainda erámos ‘ficantes’, mas agora eu o conhecia bem mais, eu sabia toda a sua história agora.

O coitado quase tinha afogado a mãe, e por isso não poderia mais morar com ela. Depois de uma briga feia no Nomo paulista, ele foi transferido para a Casa do Brooklin onde morava agora com seu irmão, o menininho que eu havia visto na fonte, brincando com água.

Duas vezes por semana, nós, os magos, tínhamos permissão para ir ao Brooklin. Eu não havia escolhido ainda qual caminho seguir.

Em uma manhã, duas semanas depois o ataque romano, eu estava no Brooklin, treinando com Sadie. Ela era um excelente maga, e me ensinava muitas coisas. Mas ela também era uma pessoa muito legal.

Os magos do Brooklin tinham a faixa etária dos campistas, entre 12 e 17 anos, mas isso não incomodava.

-Ainda está difícil de combinar tudo isso. –eu reclamei durante uma aula sobre os deuses, que Carter estava dando.

-Daqui a pouco você se acostuma. –disse Pedro para mim.

-É que nada faz sentido. –eu disse.

-Isso é normal. Eu também fiquei com dor de cabeça quando comecei aqui e no acampamento. –disse ele.

Eu assenti tentando prestar a atenção na aula.

Como descrever a Casa do Brooklin novamente? Vejamos, é uma mansão enorme, de cinco andares, onde os três primeiros são abertos para o salão central.

No segundo andar, uma quadra de basquete ocupava quase todo o espaço, só que ao invés de ter tabelas normais, as cestas eram estatuas de Rá, o deus sol, com o disco solar.

No terceiro andar, ficavam os quartos, eu acho que deveriam ter uns 20 magos morando ali. Eu já conhecia todos. Félix era o garoto de 11 anos que conjurava pinguins e gelo com facilidade. Julian era um grandalhão que segui o caminho de Hórus (Hórus era bem popular por ali), Zia era a namorada de Carter, ela seguia o caminho de Rá e era uma elementalista do fogo muito experiente. Zia me lembrava Rafaela, elas eram bem parecidas fisicamente. Walt era o namorado de Sadie, um cara grande, moreno e que era o hospedeiro de Anúbis, o deus dos funerais. Imaginei que ele e Roxie teriam uma grande afinidade. Como eu estava enganada.

Durante um treinamento de combate contra alguns shabtis, Roxie invocou alguns esqueletos para lutar por ela. Walt não ficou muito feliz com isso, já que ela teria que usar as habilidades mágicas, então fez os esqueletos virarem pó.

Os dois começaram a discutir ali, um defendendo os gregos, outro os egípcios, claro que não iria dar certo.

A espada de Roxie não atingiu Walt por centímetros, ele lançou um hieróglifo que a fez ser lançada para a parede. Enquanto isso, os outros alunos assistiam de camarote a briga. Eu, Pedro, Douglas, Andrés e Rafaela. Carter tentava separar eles mas Roxie se transformava em fantasma e desaparecia.

Até que eu tive que interferir e acalmar ela.

Eu já havia aprendido varias coisas, já tinha meu cajado e minha varinha, agora eu me especializava em feitiços de cura, mas com certeza, eu não queria ser uma curadora, eu achava muito legal ser maga de combate.

Rafaela fazia coisas incríveis com o cajado. Ela invocava raios e tempestades, fazendo os shabtis virarem barro. Ela seguiria Ísis, a deusa da magia, isso seria legal de presenciar. Uma filha de Zeus, com poderes muito fortes, seguindo a deusa da magia Ísis. Ela seria muito forte mesmo.

Andrés por natureza seguiria Tot, deus da sabedoria. Nenhuma surpresa, o cara era um chato, mas se encontrou quando foi apresentado para Cleo, a bibliotecária, eles estudariam muito juntos.

Douglas seguiria Rá, por ser controlador do fogo, ele se dava muito bem com Zia, sua mentora.

Eu por outro lado, estava em sérios problemas. Não sabia o que fazer. Não queria seguir Hórus nem Ísis, Rá seria interessante, mas não fazia meu estilo. Eu adorava água, mas descobri que o deus crocodilo Sobek não era muito legal. Então eu treinava um pouco em cada área. Em alguma eu me sairia melhor.

O tempo passou, e num piscar de olhos, eu só tinha mais uma semana de férias. Ou seja, meu verão estava acabando. As aulas deles ali no hemisfério norte já haviam começado, portanto o acampamento estava quase vazio.

Quando chegou a hora de partirmos (dois dias antes das aulas retornarem), eu já havia me despedido de quase todo mundo no acampamento e no Brooklin. Pedro ficaria ali, portanto não nos veríamos durante o ano.

Antes de irmos para o Brooklin, onde pegaríamos um portal para São Paulo e de lá, um avião para Porto Alegre, fui me despedir de meus poucos irmãos que ainda estavam no acampamento. A maioria morava em Nova York.

Depois do verão quase inteiro, treinando para combate, eu, Douglas, Andrés e Rafaela tínhamos mudado. Eu não era mais uma sedentária, tinha emagrecido muito. Douglas estava mais forte, não parecia um garotinho, agora estava mais alto e mais ‘encorpado’, Andrés com certeza emagreceu. E Rafaela, a mudança mais radical de todas. Ela não era mais a ‘rafinha’, a guria cresceu, agora estava quase na minha altura, ela aprendeu a lutar corpo-a-corpo e a empunhar uma espada (na verdade, eu também aprendi), mas ela estava mais forte.

Andrew, Dylan e Carol eram os únicos filhos de Apolo que continuavam no acampamento durante o ano. Supostamente porque não tinham lugar para ficar ou porque atraiam muitos monstros.

Dei um abraço rápido em cada um e disse que voltaria, mas quando eu estava saindo, percebi que Rafaela não estava comigo, ela se demorará mais no chalé de Apolo. Ela havia se apegado de mais aos meus irmãos.

Eu já estava voltando para chama-la quando parei ao ver: Andrew e Rafaela estavam namorando. Eu não tinha percebido ainda, mas estava claro. Eles estavam sempre juntos, ela sempre mandava olhares discretos para nossa mesa, e eu nunca percebi porque nunca levei essa ideia em consideração.

-A gente se fala. Vou ver se visito vocês lá, esse ano. –disse ele soltando-a de seus braços.

-Vou ficar esperando. E se você arrumar outra pessoa por ai... –um raio caiu do lado de fora do chalé. –você já sabe. –completou ela sorrindo.

-Eu sei. Pode ficar tranquila. Vou me comportar. Boa viagem. –ele disse mandando um beijo.

E nós saímos do chalé.

-Porque você não me contou que vocês estavam juntos? –eu perguntei incrédula.

-Eu pensei que você já soubesse. –respondeu ela com surpresa.

-Claro. Agora minhas amigas vão virar minhas cunhadas. Você e Roxie estão namorando com filhos de Apolo, quem mais falta?! –fiz uma pergunta retórica.

-Agora nós não podemos? E você? Que tem o grande filho de Poseidon ao seu alcance, mas fica ai, se fazendo de salame. –ela disse rindo.

Era verdade que eu e Pedro continuávamos amigos, mas eu não tinha coragem de passar essa barreira. Durante o verão, nós conversamos muito a respeito disso, e eu queria ultrapassar esse limite, mas eu tinha medo.

A viagem até o Brooklin foi tranquila, tinha muita neve na estrada e poucos carros. Nosso carro era dirigido por Argos, Roxie ia no banco da frente, Douglas, Rafaela e eu estávamos no banco de trás. Não conversamos muito durante a viagem.

Douglas estava estranho, ele sentia falta de sua namorada Caroline (finalmente depois de semanas trovando a menina, ele tomou coragem e pediu-a em namoro, quase soltei fogos de artifícios).

Quando chegamos na mansão, os magos já nos esperavam, Pedro estava ali, junto de Carter e Sadie (eu havia aprendido a gostar dela). Eles nos levaram até o terraço, onde o portal de areia se abriu.

-Júlia esta esperando por vocês em São Paulo. –disse Carter.

-Voltem quando puderem. Foi bem interessante ter vocês aqui durante esse tempo. –disse Sadie me dando um abraço.

-Com certeza eu vou voltar. –respondi.

Pedro puxou meu braço.

-Sentirei sua falta por enquanto, mas você terá uma grande surpresa durante esse ano. –ele disse beijando-me.

Eles me esperavam para passar o portal. Douglas me chamou e eu já estava indo quando me virei e disse:

-Também sentirei sua falta, namorado. –e pulei dentro do portal de areia rodopiante.

Consegui ver a cara de Pedro antes disso, ele parecia meio surpreso mas feliz com o que eu disse, mas eu simplesmente queria aquilo.

Caímos no terraço do mesmo prédio de antes. Minha mãe estava esperando por nós, junto com outros magos.

-Já estava ficando preocupada. Vocês não chegavam nunca. –disse ela nos abraçando.

Eu olhei para a rua lá em baixo e lembrei-me da primeira vez que estive ali. Nós quase fomos destruídos por lestrigões, mas a rua continuava movimentada.

Eu não queria voltar para o colégio. Queria continuar em férias, principalmente porque essas férias foram muito boas.

Nós fomos até o aeroporto, e era incrível como o dia passava rápido. Já era de tarde. Nos despedimos dos magos paulistas. Roxie pegaria um voou para o Rio.

-Venha nos visitar em Porto Alegre. –eu disse dando um abraço nela.

-Vou ver. Cuidem-se. –respondeu ela seguindo para o portão de embarque.

-Você também. Se cuida, baixinha. –disse pra ela.

Essa história de baixinha surgiu logo após de chegarmos ao acampamento. Quando ela tentou me socar na cara, mas sua falta de altura não permitiu isso. Então desde já, comecei a chama-la de baixinha, apenas um apelido carinhoso.

Nós vimos o avião decolar, ainda tínhamos algum tempo antes do nosso voou.

Quando chegou na hora do nosso embarque, não pude deixar de ficar triste. No ultimo ano, eu tinha viajado para Londres, ali mesmo, naquele aeroporto, eu sentia muita saudade das minhas amigas, as gurias do Paraná, e estar ali, embarcando em um avião de novo, só aumentava a saudade.

Eu sentei-me na janela, com Rafaela ao meu lado e Douglas na ponta, minha mãe estava do outro lado do corredor. Escorei-me na janela e vi a cidade passando lá em baixo. Logo já atravessávamos o litoral de Santos e seguíamos sobre o mar. Quase duas horas depois, Porto Alegre surgiu abaixo de nós. Era a minha cidade, eu estava voltando para casa.

Depois de pegar as bagagens, nós pegamos um táxi. A mãe de Rafaela já estava esperando por ela ali, então a despedida foi rápida, já que nos veríamos de novo em pouco tempo.

Após alguns minutos, chegamos à porta de casa. Um pequeno condomínio na zona sul da cidade. Nenhum dos seis vizinhos estavam ali, o que foi melhor, já que eu não saberia explicar como foram as férias.

Nada havia mudado na minha casa. Subi as escadas correndo e encontrei meu quarto do jeito que havia deixado antes de ir para a praia. Nossa, parecia que foi a tanto tempo. O pôster do Green Day que ficava pendurada à cima da minha cama, estava descolado. Tirando isso, o quarto estava igual.

Joguei a mala em cima da cômoda e joguei-me na cama. ‘Depois eu arrumo’, pensei.

Agora já estava escurecendo, e eu estava com fome. Desfiz a mala, tirei tudo de dentro, guardei as roupas limpas, as sujas joguei na escada, coloquei o notebook na bancada, pus o celular para carregar. Arrumei quase todo quarto para falar a verdade.

Meu quarto era pequeno, e bem na frente da escada. Na frente da porta, tinha uma bancada comprida, onde eu colocava minhas coisas. Sob o vidro que ficava em cima, eu havia colocado as fotos mais legais que eu tinha com meus amigos.

Eu vi de relance uma foto minha em Paris com a Carol, a Ana e a Sabrina. Olhar aquilo me deu saudade de novo. Essas eram as gurias do Paraná. Outra foto, eu estava na frente do espelho com Rafaela e Juliana, nós havíamos tirado aquela foto durante a oitava ou a sétima série. Em outra, eu, Douglas e Bruna estávamos no jogo do Grêmio. Mas tinham muitas fotos.

Na frente da bancada, minha cama ficava em baixo da janela, que proporcionava uma vista nada agradável do terreno ao lado, que era ocupado por uma dedetizadora. Meu roupeiro ficava na parede oposta, ao lado da porta.

Quando terminei de arrumar tudo, puxei a mochila de um canto. Não era a mochila mais bonita do mundo. Uma mochila preta, com o logo da empresa que minha mãe trabalhava. Apesar disso, ela era confortável e tinha muitos bolsos.

Coloquei meus cadernos ali. Eu já havia comprado todo o material do ano escolar. Coloquei as apostilas do primeiro ano e o estojo. Joguei, literalmente, a mochila em um canto, depois arrumei o uniforme do Colégio Adventista de Porto Alegre, que ficava perto da minha casa. O uniforme do ensino médio, com certeza era melhor do que o do fundamental. A calça era azul-marinho e a camiseta era branca, com o logo da escola do lado esquerdo. Coloquei o uniforme sobre a bancada.

Mas faltava um item. Puxei o arco do pescoço (eu havia prendido uma corrente de prata nele, assim ficava mais fácil de puxa-lo e ele ficaria mais perto e seguro) e coloquei na parede, no tamanho natural dele. Não estava combinando muito. Retirei e devolvi-o ao meu pescoço. Meu arco se adaptava ao local onde era colocado. Quando estava preso no meu pescoço, em forma de colar, parecia apenas um pingente, do tamanho de um palito de dentes.

-Lú. Desça, vamos jantar. –gritou minha mãe lá do andar de baixo.

-Já vou indo. –eu disse guardando o arco por debaixo da camiseta.

Antes de descer a escada, passei os olhos pelo quarto de Douglas, que ficava ao lado oposto do meu. Ele tinha subido e largado as coisas em cima da cama. O cajado estava jogado em cima da bancada.

Depois do jantar, simplesmente não aguentei. Estava exausta. Arrumei-me e fui dormir.

Nessa noite, não tive sonhos.

O primeiro dia de aula foi turbulento. O colégio era a mesma coisa. Quatro turmas de primeiro ano, eu continuava na minha antiga turma, que não mudará muita coisa, apenas tinha alguns alunos novos.

As aulas eram chatas, os professores em sua maioria, eram legais. Durante o primeiro bimestre, nós estudamos história antiga, então era de se esperar que eu tenha gabaritado as provas de história. Depois de um curso intensivo de mitologia grega e egípcia durante o verão, se eu não tivesse ido bem, teria grandes problemas.

Mas não era só isso, eu era tida como uma das mais inteligentes da turma, o que eu acho um exagero. Minhas notas em física e química compravam que eu não era muito inteligente. Apesar de ser descendente de Atena.

O tempo foi passando. Depois de um ou dois meses, já havia me acostumado com a vida de mortal. Douglas e Rafaela eram meus colegas, então nós conversávamos muito durante a aula, sobre o acampamento, o Brooklin, tudo.

Eu tinha aulas de inglês toda semana, e fazia tênis também. Não podia parar de me exercitar. Tive muitas provas e trabalhos, mas nada que eu não tirasse de letra.

Mas um fato que abalou as estruturas do Maat, aconteceu apenas no segundo bimestre. Quando durante a aula de matemática, no primeiro de período de segunda-feira, entrou a coordenadora da escola.

-Por favor, alunos. Prestem a atenção aqui. –disse a Kátia, uma mulher baixinha e gordinha, que usava óculos e um cabelo preto liso, que combinava com o terno.

A turma parou de conversar e olhou para ela.

-Quero que vocês recebam o novo aluno com muito carinho. –ela disse. Até ai, tudo bem, não tinha problema. –Ele não está muito acostumado com o sistema de ensino do Brasil. Ele cresceu nos estados unidos. –ela continuou, e eu comecei a ficar curiosa. –Quero que vocês o tratem com respeito. Pode entrar querido. –ela disse fazendo um sinal para a porta.

Quando o garoto entrou pela porta, meu coração teve um ataque. Ele era lindo, seu cabelo era louro e despenteado, seus olhos azuis da cor do mar. Ele era forte, a camiseta do colégio ficava muito bem nele e com certeza era o garoto mais bonito por ali. Até meus colegas ficaram um pouco de queixo caído. Ele usava a mochila em um ombro só e um boné verde, que foi arrancado pelo professor.

Ele entrou analisando todos da sala, e seu olhar parou em mim, que estava no canto da sala. Sentada entre Douglas e meu amigo André.

Pedro abriu aquele sorriso maroto que eu adorava, foi sacudido pelo professor, que era meio maluco, e acenou com a cabeça para Douglas. Esqueci como se falava ou respirava.

Kátia deixou a sala. Nosso professor empurrou Pedro para uma cadeira bem na frente. Ele estava cercado pelas gurias da turma. Mas ele não prestava muita atenção nelas.

-Você vem de onde? –perguntou Karen. Uma menina que parecia uma porca cor de rosa quando ria.

-Eu nasci em São Paulo, mas logo me mudei para Nova York. Negócios de família. –ele respondeu educadamente, mas eu sabia a realidade. Ele foi forçado pela mãe.

-Você tem quantos anos? –perguntou Fabiane. Uma menina que tinha cabelos longos e castanhos, e uma voz meio chata.

-Acabei de fazer quinze. –respondeu ele. Ele tentava não prestar a atenção nelas, que cada vez, ficavam mais estavam dando em cima dele.

-Seja bem vindo à turma 111. –eu disse chegando perto dele.

Ele me olhou nos olhos e pude ver que ele estava se segurando para não me beijar ali, no meio da aula.

-Obrigado. –ele respondeu apertando minha mão. Seus olhos brilhavam.

Quando voltei ao meu lugar, minhas pernas tremiam, meu coração estava acelerado.

-Lú, é melhor você se acalmar, porque você está começando a brilhar. –Douglas me falou discretamente.

Eu olhei para minhas mãos e vi que ele estava certo. Mas logo consegui me acalmar e tudo voltou ao normal.

Nosso segundo período era história. Sentei-me ao fundo, Douglas sentou-se na minha frente, deixando espaço para Pedro, que logo se acomodou longe das ‘cocotas’ (minhas colegas) e Rafaela se sentou na frente dele.

A professora Carmem, era uma mulher de meia-idade, baixinha que usava óculos e parecia um robô, apesar disso, eu a achava muito legal, já que ela me dava aulas desde a quinta série.

-Eu estava com muita saudade de você. –Pedro me disse durante um longo abraço no recreio.

-Eu sei, eu também estava. –eu não conseguia parar de sorrir.

Nós nos beijamos no meio do recreio. Isso não era permitido ali no colégio, então os monitores logo nos lançaram olhares bravos.

-O que você está fazendo aqui? –perguntei enquanto nos sentávamos sob o sol na área descoberta.

-Eu não podia deixa-la sozinha tanto tempo. Mas eu queria ter chegado antes. –disse ele.

-Você tem noticias do Andrew? –perguntou Rafaela esperançosa.

-Não. Eu fui poucas vezes no acampamento depois que as aulas recomeçaram. Mas quando eu fui, ele ainda estava lá. –ele respondeu.

Douglas estava sentado no chão, na nossa frente, e não parava de mexer no celular.

-Você viu a Caroline? –perguntou meu primo.

-Ela mora na Casa do Brooklin, então sim, eu vi ela. Ela me disse para te entregar isso. –e ele puxou um cordão, um colar de prata com um pingente. O pingente era um caduceu e um martelo entrelaçados. Eu achei muito fofo da parte dela.

Douglas pegou o colar e examinou com cuidado. Depois colocou no pescoço. Ele parecia prestes a chorar.

Nós continuamos conversando durante todo o recreio. Pude sentir o olhar invejoso de quase todas as meninas do ensino médio. Como uma menina como eu, que tinha fama de bater em guris e jogava futebol, podia estar com um menino como aquele? Mas eu não me importava.

-Só uma pergunta. –eu falei enquanto subíamos.

-Pode perguntar. –ele disse.

-Onde e com quem você está morando?

-Você se lembra o que eu disse sobre o meu tio não é? –ele perguntou e eu assenti. –Pois é, ele tem um apartamento aqui, naquele condomínio novo que ficou pronto mês passado. Aquele que fica perto do shopping e não muito longe daqui.

Eu sabia que condomínio era, e com certeza, era muito legal.

-O filho mais velho do meu tio, veio estudar aqui, e eu vim junto. Sempre fui muito querido por ele, então ele paga tudo pra mim. –continuo ele.

Depois de algum tempo, umas três semanas talvez, as meninas continuavam dando em cima de Pedro, mas é óbvio que elas sabiam que ele era meu namorado, e agora, estava assumido isso.

As férias de inverno já estavam programadas, nós voltaríamos para a Casa do Brooklin para continuar o caminho dos deuses. E se sobrasse algum tempo, passaria alguns dias no acampamento.

Mas claro, quando estamos falando do meu lado semideusa, algo sempre dá errado.

No ultimo dia de aula, eu estava com Douglas, Pedro, Rafaela e Juliana na sala de química, convencendo a professora Sara em dar 2 décimos para Douglas, para meu primo não ficar com nota baixa naquele bimestre.

Era o quarto período, e eu fui até a janela. Não tinha mais ninguém na turma, só nós cinco tínhamos vindo aquele dia.

O céu estava encoberto por nuvens escuras, de tempestade. Do outro lado da rua, havia algumas casas, já que o colégio ficava no meio de um bairro residencial. As árvores balançavam fortemente. Algo estava errado. Os corredores estavam muito silenciosos, e eu tinha visto alguns alunos no colégio.

-Tudo bem? –Pedro me perguntou quando me viu perto da janela.

-Não sei. Você não está sentindo que algo está errado? –perguntei olhando para ele.

-Não acho que esteja. –ele me disse.

-Espero que você esteja certo. –comentei abraçando-o.

-Venha, vamos descer. –ele me disse.

Eu assenti e estava seguindo-o, mas deu uma olhada para lá em baixo de novo. E tenho certeza que vi um vulto entre as árvores. Uma forma pequena, encapuzada, com uma camiseta de caveira. Mas não tive muito tempo para pensar. Meus amigos já tinham saído da sala.

Quando chegamos ao pátio, todos os poucos alunos estavam dentro do ginásio, talvez porque o colégio estava distribuindo chocolate quente para aquela manhã de inverno, quando o frio atravessava nossos casacos, ou talvez porque ali estava ocorrendo um campeonato de futsal. Tanto faz, nós entramos ali e ficamos.

Depois de alguns minutos, uma explosão sacudiu o prédio. BUM. Tão alto que todos meus órgãos sacudiram.

-O que foi isso? –perguntou Juliana. Ela era a única mortal entre nós.

-Coisa boa não foi. –eu disse lançando um olhar para os outros. E eles entenderam. Nós tínhamos uma batalha. Algo realmente estava errado.