Dois Lados
40 Capítulo 39
P.O.V – Charlotte
Emma estava caída no chão quando voltei a olhar. Ela estava quase desmaiada. Suas forças haviam se esvaído.
– Emma!
– Eu estou bem. – falou ela tossindo.
– Phillip... – falei.
– Ele se foi. – falou ela sentando e olhando para o nada. Paramos em silencio. – Como está a Victoria?
– Estou bem. – disse ela vindo de onde estávamos. – E você?
– Não sei. Não importa – respondeu Emma. – Precisamos enfaixar seu ombro. Eu... – ela tentou conjurar algumas coisas, mas estava fraca demais.
– Emma, não precisa, eu estou bem. Charlie estancou o sangramento com o casaco dela. Eu estou bem, não se preocupe. – disse Vic com calma.
Todas estávamos tristes por causa de Phillip. Mesmo tendo passado pouco tempo com ele, ele nos ajudou e foi importante na busca pelo namorado de Vic.
– Vamos indo. Temos que achar Josh. – falou Emma tentando se levantar e eu a ajudei.
– Esperem. – falou Vic. – Olhem isto. – ela se abaixou e pegou alguma coisa que estava no chão. Um papel.
– O que é isso? – perguntei.
– Yerik, Misha e Luka. O que? – ela leu. Victoria virou o papel e nos mostrou. Era um rascunho de um mapa feito a mão.
– Um mapa? – perguntou Emma pegando o papel. – Metamorfos. Rússia. Matar. – ela leu as palavras que constavam à cima do mapa. – Metamorfos. Existem mais metamorfos por aí. É melhor tomarmos cuidado.
– O que mostra esse mapa? – perguntei.
– Provavelmente é onde esses caras devem estar. – respondeu Victoria.
– Kendrick os queria mortos. – falou Emma pensativa. – O porquê, não sei. Mas é melhor irmos, podemos achar outra coisa. – ela decidiu e guardou o papel no bolso.
Andamos por pouco tempo, quando achamos algumas coisas que fez Victoria parar.
– Josh... Ai meu Deus! – falou ela desesperada. – É aqui.
Avistei um muro de pedras novas com uma pequena fenda do lado esquerdo. Ao lado algumas outras pedras empilhadas e um casaco jogado em cima delas. Ensanguentado.
– Ele estava aqui! – gritou ela. – Onde ele está? Será que alguém o sequestrou? – ela começou a chorar e a entrar em desespero.
– Vic, calma. Ele pode ter achado uma saída, não necessariamente ele foi levado. Calma. – falei tentando acalmá-la.
– Não, olha isso. – ela segurou a jaqueta dolorosamente. – Ele foi atacado... ou morto! Você não entende, Charlotte! Eu o amo mais que tudo! Eu não posso perdê-lo mais uma vez. – falou ela enxugando as lágrimas.
– Charlotte tem razão. – falou Emma mais de trás olhando para cima. – Ele pode ter achado uma saída.
Acompanhamos o olhar dela e vimos um buraco no teto. Era comprido, como se estivéssemos no fundo de um poço. Haviam algumas pedras nas paredes do poço, que provavelmente ele usou para subir.
P.O.V – Victoria
Minha tristeza tornou-se surpresa e então, em uma pontada de esperança. Ele podia estar vivo. Ele pode ter fugido.
– Vamos. – respirei fundo e toquei as pedras acima de mim.
Eu não sabia como ia escalar aquilo. Meu braço ainda doía muito, o sangue ainda escorria, era bem menos, mas ainda sim, era uma ferida aberta.
Comecei a escalar na frente. A cada movimento eu sentia uma corrente quente correr pelo meu braço, a dor me fazia arrepiar, mas tinha que ser forte. Por ele.
Emma vinha atrás de mim. Ela estava um pouco melhor, mas ainda escalava com dificuldade. Atrás dela, Charlotte tentava a ajudar.
Quando finalmente cheguei em cima, vi que era um lugar bonito. Colinas repletas de grama um pouco secas, as árvores do outono deixavam cair suas folhas pontudas e alaranjadas, a maioria delas tinha galhos secos, mas ainda sim, eram bonitas.
Era noite, as estrelas me lembraram da noite que Josh me levara à Welcome Party, quando éramos felizes e não sabíamos. A lembrança me deu uma pontada de dor no coração. Precisava vê-lo de novo, abraçá-lo, beijá-lo.
– Estamos... Do outro lado da Cidade. – falou Emma ofegante, com uma cara perplexa.
– O que? – perguntei.
– Lá, — ela apontou para a esquerda. – no final daquela colina, foi onde achamos o espelho por onde passamos, ali por entre aquelas árvores densas. – a imagem daquelas árvores gigantes era incrível de longe. Elas eram tão altas e majestosas. Era como se houvesse uma floresta inteira ali por trás. E não um mero corredor de árvores.
– Uau. – falou Charlie.
– E atrás das árvores, onde não podemos ver, é a Cidade, onde estávamos. – observou Emma. – eu avistei essas colinas quando entrei no descampado para procurar vocês. Imaginei que esse fosse o caminho, mas Phillip me avisara que não era possível chegar até aqui.
– Mas, chegamos. – conclui. – E agora, vamos procurar Josh.
– Vamos descansar. – falou Emma, lançando um de seus olhares rígidos para mim.
– Emma, você está louca? Chegamos até aqui. Vamos achá-lo. Quanto mais demorarmos, mais longe ele pode ficar e mais demoraremos pra encontrar Walt e Michael. – retruquei.
– Você está machucada, eu estou esgotada e Charlotte nunca aprendeu a lutar com essas armas recentes, quem iria defender a gente se fossemos atacadas? – indagou ela.
– Tanto faz. – falei.
Nos abrigamos embaixo de uma árvore perto dali. Pegamos algumas poucas coisas que pegamos com Phillip e dormimos.
Eu estava em casa. Minha casa. Garwood. Quanto tempo.
Era noite. Apenas a luz da cozinha estava acesa, como sempre. Fui até lá e abri a geladeira.
Sussurros. Novamente.
Eu estava sonhando novamente com aquilo. Dessa vez não achava que era Alice sussurrando nos meus ouvidos. Era Mary.
Não fui para o corredor, como antes, não queria cair novamente em uma poça de sangue. Saí de casa, mesmo vestida com um pijama.
Do lado de fora, Mary estava sentada no banquinho velho. Como da ultima vez.
– Mary? – falei. – Mary, eu preciso falar com você. – sussurrei chegando mais perto.
E então, ela se virou pra mim e seu rosto estava totalmente deformado, sua imagem estava sendo destruída, mais terrivelmente que da outra vez. Sua pele derretia, seu olho esquerdo parecia estar caindo, seus dentes se esfarelavam quando ela tentava abrir a boca. E então ela se foi.
Respirei fundo e continuei.
Fui para o quintal atrás da casa de Josh. Aquela tinha sido a noite em que eu havia conhecido ele, na primeira vez que eu havia visto Mary.
A casa estava apagada, exceto pela luz do deck que estava acesa. Alguém se balançava no banquinho. Era Josh.
Ele estava vestido de preto, o capuz cobria seu rosto, mas eu conseguia ver seu sorriso. Era maligno e doentio. Não podia ser ele.
Saí dali o mais rápido que pude. Percebi que todas as casas estavam apagadas e a manhã já surgia.
Ao passar pela frente da casa de Walt, avistei Tammy, a mãe dele e de Mary. A única que parecia normal ali. Ela estava na cozinha, parecia estar apressada. Uma mochila preta estava no balcão e ela procurava algo dentro dela freneticamente.
Ela pegou o celular desesperada, discou um número e pôs no ouvido.
Não pude escutar o que ela falava, mas ela gesticulava muito.
Voltei para casa devagar. O Sol já estava no seu ponto máximo da manhã. O tempo estava passando muito rápido.
Uma carta aguardava na boca do correio. Eu a peguei. Era o mesmo envelope azul claro do dia em que Mary morreu.
Tudo estava confuso. Queria sair dali. Queria acordar. Mas, entrei em casa, onde encontrei minha mãe fazendo o café da manhã e Alice sentada na cadeira agarrada com sua ovelhinha.
– Filha, sente-se, seu pai já está descendo. – falou minha mãe. Quando ela falou aquilo, meu corpo estremeceu. Meu pai?
Sim, era ele.
Eu o vi descer as escadas. Ele estava vestido com uma camisa social azul escura com as mangas dobradas para cima, o cabelo escuro estava bem penteado e seu sorriso se abriu ao me ver.
Eu não pude acreditar no que estava vendo. Meus olhos se encheram de lágrimas. Meu pai estava ali bem diante de mim.
Eu corri para abraçá-lo, e ele me recebeu carinhosamente no final da escada de braços abertos.
– Pai... Você está aqui, eu... – tentei falar, mas as palavras estavam presas em minha garganta.
– É, eu estou. – ele riu. – O que você estava fazendo lá fora de pijama?
– O que? Hum, é... Eu estava... Não importa. – sorri e o abracei mais forte e demoradamente ainda.
– Tudo bem, sei que você não me vê há algumas horas, porque a gente estava dormindo, mas não é pra tanto, não é? – ele riu. – Vamos tomar café, não pode se atrasar para a nova escola!
– Nova escola?
– Sim, a Garwood High School. – falou ele beijando a cabeça de Alice e sentando na cadeira à frente a da minha mãe.
– Claro. – sussurrei.
Tudo estava muito estranho. Meu pai estava aqui em Garwood. Mas nos mudamos quando ele morreu. Era como se tudo isso fosse há um ano atrás, mas como se ele nunca tivesse morrido.
Sentei-me e peguei um prato com waffle. Comi tudo e aproveitei o momento com meu pai novamente. Eu sabia que não era real, mas era como se fosse. Ele estava ali, ele me abraçou, eu o senti de novo, o conforto de seus braços.
– Bom, vamos meninas, trocar de roupa, porque quem vai levar vocês pra escola é o papai! – falou mamãe.
Nos trocamos, e descemos rapidamente. Eu estava tão feliz. Por mais que tudo fosse estranho, não contestei, apenas aproveitei mais tempo com meu pai. O tempo que não pude ter.
Papai passou o caminho inteiro dando recomendações sobre a escola, e sobre como deveríamos nos comportar e eu apenas sorria ao ouvir a voz dele.
– Chegamos, Vic, sua parada é aqui. – ele parou o carro ao lado da calçada principal e virou-se para mim. – Lembre-se de tudo o que eu disse, certo?
– Certo, papai. – sorri.
– Muito bem, agora vá, divirta-se! – ele me deu um beijo na cabeça.
Eu não queria ir pra escola, queria ficar com meu pai, queria ouvir mais recomendações, queria passar o dia passeando de carro com ele. Mas, eu tinha que ir.
Desci do carro e acenei para ele e Alice que estava pronta para ir pra escola dela.
Ao me virar vi a escola, a velha Garwood High School. Não tinha boas lembranças desde a última vez em que estive lá. Lembrei de Kate. Ela ainda estava viva. Tinha que estar. Meu pai estava, ela também iria estar.
Corri para dentro da escola. Nenhuma mudança, como sempre. Mas, as pessoas mudaram. Seus rostos não eram os mesmos. Mas não liguei, tudo estava estranho de qualquer forma.
O autofalante chiou e uma voz anunciou: “Queridos alunos, bem vindos a mais um ano na escola Garwood High School, estamos muito felizes em revê-los! Por favor, dirijam-se ao ginásio”.
Dei uma última olhada no corredor para ver se encontrava alguém conhecido, mas nada.
Entrei no ginásio. Não era o ginásio. Ou era?
Era um salão com decoração antiga, bancos de madeira estavam espalhados no lugar da arquibancada. A cerâmica do chão era bem polida, formava um mosaico gigante, não pude ver o que era, pois as pessoas ainda não haviam se acomodado.
Não havia quadra, nem cesta de basquete, nem vestiário, ou nada do que parecesse ser o ginásio da escola. Junto às paredes, haviam colunas sofisticadas e bem trabalhadas, janelas grandes e majestosas enfeitavam a parede de trás dos bancos, fazendo o salão se iluminar.
– O que é isso? – sussurrei.
– O ginásio, tolinha. – ouvi uma voz atrás de mim. Eu já havia escutado, mas não lembrava de onde. Virei para ver o rosto. Rosalind. A garota que quase me “matou” em um dos sonhos que tive. A garota que sonhei uma outra vez, junto com... Stephen, o garoto com quem Mary me visitava de vez em quando.
– Rosalind? – perguntei.
– Como você sabe meu nome? Nos conhecemos? – perguntou ela calmamente. Nem parecia a garota revoltada que havia conhecido.
Rosalind se vestia exatamente como no sonho com Stephen. Vestido bege longo e armado como no século XIX, cabelos bem penteados e arrumados, quase completamente solto, exceto pela parte da frente que estava presa para trás com uma fivela brilhante.
– Olá? – ela passou a mão na frente dos meus olhos.
– Uh, não... Digo, eu vi alguém falar com você ali na frente e... Deve ter sido isso. – sorri pálida.
– Ah, provavelmente você deve ter escutado Stephen. – ela deu uma risadinha envergonhada. – Ele é lindo, não é? – disse ela sentando-se no banco.
– Stephen... – murmurei para mim mesma. – Sim, sim, lindo. – sorri.
– Sente-se aqui. – falou ela apontando para o lugar ao lado dela. – O espetáculo vai começar. – ela suspirou olhando para frente. – Como se sente sendo a moça principal deste espetáculo? A homenageada! – ela gargalhou me cutucando com o cotovelo.
– O que?! – perguntei. – Do que está falando?
– Com licença, é agora, devo ir, minha querida! Até depois! – ela riu. Levantou-se rapidamente e correu pelo salão até encontrar-se com um grupo de pessoas.
Estava tudo muito confuso, queria entender o que estava acontecendo. Mais um sonho sem sentido. Queria voltar e ficar com meu pai novamente.
Algumas pessoas se vestiam como Rosalind, outras se vestiam como eu. Por fim, todos estavam acomodados nos bancos.
O grupo que Rosalind encontrara, se espalhou pelo salão formando uma linha.
Eram eles.
Kate, Stephen, Mary e Rosalind.
Depois, eles fizeram um círculo maior, ao redor do mosaico do chão.
A Z.
Era o que tinha no chão. Eles se juntaram novamente, e se voltaram para mim. Agora há poucos metros de onde eu estava. Estavam se aproximando. Meu pai entrou pela porta do salão e se juntou a eles.
– Papai? O que é isso? – perguntei assustada.
Agora todos ali olhavam para mim e sorriam.
– Mary! Kate! Papai! O que é isso?! Parem! – gritei desesperada.
Levantei e corri para a porta, mas estava trancada. Eles se aproximavam. E então Josh saiu de um dos bancos no final do salão. Ele parecia o único são, dali.
– Josh! – gritei.
Ele estava assustado também, perplexo com tudo aquilo.
– Vic! – ele correu em direção a mim e me abraçou.
Eu senti seu corpo quente contra o meu.
– Senti tanta saudade, Josh, onde você estava? – perguntei chorando.
– Eu estava aqui... Mas, não é o que você está pensando. Você precisa confiar em mim. Precisamos sair daqui rápido! – falou ele.
As pessoas dos bancos se levantavam e se juntavam ao grupo, indo devagar ao meu encontro.
– Antes de tudo, — falou ele. – eu te amo. – e me beijou intensamente.
– Eu também te amo, Josh... Mas o que é isso tudo? – perguntei.
– Você confia em mim? – perguntou ele.
– Claro! – respondi.
– Então vamos! – gritou ele.
Josh segurou minha mão e subiu nos bancos indo em direção as janelas, mas meus pés não saíam do lugar.
– Vic! Vic! Victoria, vamos! – gritava ele. – Victoria!
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