Dois Lados
26 Capítulo 25
O resto do dia foi um borrão. Não me lembro de quase nada, apenas de Josh e Walt terem levado o corpo de Kate. Eles disseram que pela manhã faríamos um funeral digno. Bem, se tratando de Kate, não sei o que seria digno. Talvez uma salva de tiros, líderes de torcida, e um caixão cor de rosa. Mas, isso nunca poderia acontecer.
Emma se esforçou e conjurou um jantar que mais parecia um café da manhã. Mas não importava, porque eu não comi.
Josh tentou me convencer de que eu precisava, mas depois de tudo o que eu menos preciso é comer. Preciso parar, pensar no que devo fazer. Emma está tentando achar a Cidade Subterrânea, mas não podemos ir a Igreja agora. Eles não sabem de tudo ainda, preciso conta-los, mas não sei como. Gostaria de deixar esse momento de tensão passar, principalmente dentro de mim, mas não temos tempo.
Fui para o quarto pra tentar pensar melhor, e me lembrei do papel velho que Mary havia me entregado mais cedo. Então o abri.
Ele era um mapa, mas não um mapa trabalhoso, era algo como linhas. Umas mais finas e outras mais grossas. Eram como ruas estreitas e outras avenidas. Em algumas ruas haviam curvas que levavam ao que parecia uma sala. E assim seguia até o outro lado do papel.
Já era madrugada, então sai pra tomar um ar quando me deparei com Josh sentado na frente da cabana, em uma pilha de madeira.
– Eu... preciso falar com você. – sentei ao lado dele.
– Sim, claro. – ele deixou a garrafa de bebida do lado e se virou para mim.
– Não temos passado nenhum tempo juntos desde que saímos de Garwood e agora tudo isso que está acontecendo, está me deixando tão confusa. – eu segurei sua mão. – Sinto muito.
– Vic, não se preocupe. Sei o que você está passando, sua mãe e isso tudo de você ser uma descendente e tudo mais. Não precisa pensar nisso. Você é mais forte que isso. Eu te conheço, você vai passar por tudo numa boa. Além do mais, — ele segurou pôs sua outra mão sobre a minha. – eu estou aqui por você. Todos estamos. Para te apoiar em tudo. – ele sorriu.
– Obrigada. – eu sorri de volta. – Mas... mesmo com vocês aqui, eu me sinto tão... vulnerável.
– Não, não. – ele olhou para mim com um ar compreensivo. – Eu prometo te proteger. Sei que... bem, não é muita coisa em comparação àqueles feiticeiros super poderosos e à Emma que entende de tudo... Mas, eu vou te proteger. Nem que eu tenha que morrer para isso.
– Nem fale uma coisa dessas! – dei um tapa de leve em seu braço. – Não suporto mais nem ouvir falar nisso, quanto mais... te perder. – eu levantei a cabeça. – Não prometa que vai me proteger, prometa que nunca irá morrer.
– Mas eu não posso controlar isso...
– Prometa, Josh. – ele riu. – Josh! – disse tentando soar mais rígida.
– Eu prometo! – ele continuava rindo, então acabei rindo também.
Ele colocou suas mãos em meu rosto de encostou a sua testa na minha.
– Prometa também. – ele sorriu.
– Eu prometo. – e então eu o beijei.
Sim, aquela foi a melhor coisa e o melhor momento que eu havia passado em todos esses dias. Não queria que nada daquilo tivesse que acabar. Mas, eu tinha que contar o que me perturbava.
– Josh... – me afastei um pouco dele. – Aquilo que eu te disse... que eu queria falar.
– Sim, eu pensei que fosse isso...
– Não. Na verdade, não só isso. – eu respirei fundo e comecei a contar o que Mary tinha me dito anteriormente.
– Então, ela disse que temos que sair daqui? Tipo... hoje? E temos que parar os sacrifícios antes de achar os feiticeiros? – ele perguntou.
– Sim. E ela me deu isto aqui. – tirei o mapa do bolso e o mostrei.
– Espera aí. Lembra que Emma disse que só aqueles feiticeiros tinham te encontrado? – eu assenti. – Então... Existem outros por aí, não é?
– Sim...
– E se no caminho eles te acharem? Digo, não temos certeza de nada, se eles te encontrarem, eles não vão acreditar em nós quando dissermos que a família de Emma levou a Pedra com eles. E... vão te matar!
– Tem razão... – eu parei por uns minutos.
– Temos que falar com Emma. – ele se levantou.
– Não! Hm... Quer dizer, não é certo falarmos isso logo, não acha? Kate acabou de... morrer e... – isso doía mais do que tudo. Ter que mencionar a morte da minha melhor amiga sem ter pelo menos um tempo para processar tudo.
– Vic. – Josh segurou meus braços. – Escute. Eu sei que você ainda está muito perturbada com a morte de Kate. Então, vá dormir, descanse. Todos precisamos de um tempo quando alguém próximo morre, eu sei como é, e você também. Mas, eu e Emma nem éramos tão próximos dela. Mesmo que tenha doído, tenho certeza que você e Walt sentiram mais a morte dela. – ele beijou minha testa. – Vá descansar, fique com ele. Vocês precisam de um tempo. Eu me viro com Emma, ok?
Eu assenti com a cabeça me sentindo um pouco tonta e entrei. Era estranho ver Josh me mandando ficar com Walt quando ele era a última pessoa com quem Josh queria que eu ficasse. Digo, ele sabe que Walt é apaixonado por mim.
Deitei de barriga para cima e fiquei observando o teto velho e mofado, até dormir.
Tinha esquecido completamente que eu sempre acabo voltando aos sonhos estranhos com Mary e aquele garoto. E, claro, tudo aconteceu novamente.
Eu estava em uma sala escura sem luz nenhuma, apenas uma leve penumbra que vinha de uma janela empoeirada, e iluminava um piano de cauda preto.
Andei até o piano, mas a cada passo que eu dava parecia mais distante. Então resolvi chamar quem sempre aparecia.
– Mary? – olhei para os lados, mas não via nada apenas uma escuridão sem fim. – Mary?
Fiquei com medo de andar mais e acabar batendo em algum móvel ou até mesmo caindo num buraco.
– Não, papai! – disse uma voz distante, mas eu não via ninguém. – Não posso fazer isto!
– Você precisa, meu filho! Não é uma escolha!
Então uma porta se abriu e um garoto, de uns 17 anos, passou pela porta. Apesar de ter entrado luz no local, nada ficava a vista, tudo continuava escuro. O garoto bateu a porta com força e se sentou a frente do piano.
Ele vestia uma camisa de botão branca de manga comprida, uma calça acinzentada, botas de cavalaria e um suspensório de couro marrom. Seus cabelos escuros eram bem penteados e sua pele pálida reluzia a pouca luz que entrava no local.
Ele começou a tocar piano. Era Amazing Grace. Meu pai costumava tocar para mim e para minha mãe quando eu era pequena.
Aquela música me trazia boas lembranças, mas ao mesmo tempo me deixava triste por lembrar que meu pai nunca mais tocaria aquela música, algo dentro de mim me fazia ficar ali, mas algo queria que eu fosse embora.
Eu comecei a chorar, mas tentava chorar baixo para o garoto não escutar. De repente estava ao lado do piano em pé, olhando para ele.
Sua expressão era de agonia, mas ao longo da música ele parecia se sentir mais calmo e sua expressão suavizava a cada nota.
Quando acabou ele se levantou e saiu pela porta.
De repente, eu estava na porta de um celeiro. Era de manhã, os campos ao redor do lugar eram verdes e quentes. E então o mesmo garoto entrou.
Era ele. O garoto com quem eu vinha sonhando há muito tempo. Ele parecia não me perceber ali, mesmo estando explicitamente na frente dele.
Ele andou até uma pequena porteira e a abriu tirando um lindo cavalo preto dali. Ele deu umas batidinhas em suas costas e montou. Quando alguém adentrou o local.
– Rosalind! – ele abriu um sorriso e desceu de seu cavalo.
Ela era assustadoramente bonita. Tinha cabelos castanhos e ondulados que iam até o final das costas, a parte da frente presa lindamente com uma presilha de flor branca. Vestia um vestido longo e armado bege e um espartilho enfeitado com rendas bem trabalhadas. No pescoço ela usava um colar prateado com um pingente azul, como uma águia. Foi aí que eu percebi que estava no século errado.
Rosalind abriu um sorriso e olhou o garoto, com seus olhos castanhos que brilhavam mais do que a manhã.
– Pensei que estivesse em Atlanta com seus pais. – ele a abraçou.
Ela o afastou e virou cuidadosamente para o cavalo. Ela tinha um jeito sedutor, até seu sorriso parecia manipular o garoto. Ele ficava quase boquiaberta ao olhar para ela.
– Eu voltei. – ela sorriu de leve. – Por você.
– Ah, por mim? E onde a senhorita pretende passar a estadia? – ele se curvou para beijar sua mão.
– Bem, meus pais deixaram eu ficar com a casa deles aqui. Disseram que sou uma moça crescida e posso morar sozinha. – ela alisou o cavalo suavemente. Até o cavalo parecia se render aos encantos da garota.
– Sempre admirei os conceitos de seus pais. Deixando uma moça tão jovem viver a vida sozinha? – ele se pôs ao lado dela.
Ela sorriu novamente e segurou o rosto dele.
– Você é tão fácil de ser enganado. – ela riu encantadoramente e pôs a mão na boca. – É claro que não estou sozinha, seu bobo. Meus pais vieram, mas resolveram passar na casa dos Harrison para uma visita. – ela o soltou. – Não lhe encontrei na casa... Então suspeitei que estivesse aqui.
– E que desculpa usou para vir até aqui me encontrar? – ele riu.
Rosalind o olhou misteriosamente e pôs o dedo na boca, como se dissesse “é segredo!”.
– Rosalind! Stephen! Seus pais estão lhe chamando! – gritou uma mulher, uma serva, da porta do celeiro.
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