Dois Lados

21 Capítulo 20


Quis deixar Emma sozinha, para que pudesse se concentrar. Ela parecia nervosa.

Sentei-me no balcão e fiquei observando a floresta pela janela. Walt se sentou próximo à lareira olhando para as lenhas secas. E Josh, sentou-se onde costumávamos dormir, e encostou-se na parede.

Cada segundo que se passava, parecia uma eternidade. Eu olhava para o relógio o tempo todo.

- Pronto. – disse Emma surgindo do corredor escuro. Suas mãos ainda tremiam um pouco e seu cabelo estava desgrenhado. Seus olhos arregalados, me davam a impressão, de que tudo tinha dado errado. Então, me levantei.

Nós nos entre olhamos, e eu corri para o quarto.

- Kate! – eu a encontrei sentada na cama com a mão na testa, parecendo um pouco confusa.

- Estou com fome. – disse ela devagar.

Nós demos gargalhadas. Eu a abracei. E assim que os outros nos ouviram, correram para o quarto.

Emma parecia mais aliviada. Eu acho que ela não tinha certeza do resultado até ali. Mas, ainda bem, deu tudo certo.

- Bem, não é pra menos! Você ficou desacordada por uma semana! – disse Walt segurando Kate junto a ele.

Nunca tinha me sentido tão feliz, desde que sai de Garwood. Nunca havia rido tanto. Nunca havia me sentido tão feliz.

Eu tinha minha melhor amiga de volta.

Naquela noite, arranjamos muita comida. Muita mesmo. Não sei de onde Josh e Emma tiraram tantos pacotes de salgadinhos de queijo e doces de todo tipo. Mas, infelizmente não sobrou nada para a gente. Kate comeu tudo. Para quem sempre se preocupou com o corpo por ser a líder de torcida mais popular, aquilo foi uma bomba.

...

Acordamos mais cedo do que o comum naquele dia. Eram 6h da manhã. E eu me sentia bem. Afinal, não tivemos nenhum ataque desde Scott... Se é que aquilo pode ter sido considerado um ataque. Emma tinha razão. Esta cabana realmente é segura, mesmo sendo feita de madeira velha.

A manhã estava fria, mas o Sol incendiava o céu limpo. Nós resolvemos andar pela floresta. Emma no início, não concordou. Achou que deixar a cabana sozinha seria perigoso, algum viajante poderia vir, roubar nossas coisas e se abrigar na nossa cabana, ou se os feiticeiros chegassem, poderiam destruir nossos suprimentos. Mas depois, ela cedeu.

Pegamos algumas bebidas que Josh havia trazido – não sei como, pois ele não viera com nenhuma mochila.

Entramos na clareira e resolvemos nos sentar no chão e conversar. Kate não parava de sorrir nem de falar. Parecia uma criança que tinha entrado pela primeira vez em uma floresta, seus olhos brilhavam de alegria.

Depois de algum tempo, Walt disse:

- Eu quero andar. – ele se levantou com uma garrafa. – Alguém vem comigo?

- Hmm... Agora não. – eu disse com preguiça. Me segurei em Josh e nos jogamos na grama seca dando risadas.

- Mais alguém? – perguntou Walt, sem nem um pingo de ciúmes por eu ter feito aquilo com Josh.

- Eu vou. Me ajuda. – Emma estendeu a mão para que Walt a ajudasse a levantar e eles foram andando para o lado contrário à cabana.

- Ei, vocês dois! – disse Kate batendo no joelho de Josh. – Eu sou uma puritana! Não quero ver vocês dois se agarrando aí! – disse ela rindo.

- A gente não tá se agarrando! – eu sorri.

- Vamos andar também! – decidiu Kate se levantando. Ela pegou as nossas garrafas de bebida e passou por cima da gente.

Eu e Josh nos olhamos e a seguimos.

Então, ela parou. A caverna. Kate não parecia séria, sua expressão era a mesma.

- Uh... É melhor a gente dar a volta... – falei.

- Não! Vamos ver o que tem aqui! – Kate correu por uma trilha, que eu nunca tinha percebido que estava ali.

Nós a seguimos contra a nossa vontade.

- Kate... – tentei falar alguma coisa, mas o que eu via me deixava totalmente sem fala.

No fundo da caverna uma porta de pedra refletia o vermelho daquela luz que sempre ficava acesa. Nesta pedra, desenhos estranhos tinham sido cunhados ali. Algo como há dois mil anos atrás.

Kate parecendo enfeitiçada com aquilo, tocou a porta e ela se moveu. Uma poeira velha subiu embaçando a nossa vista e me deixando sufocada.

- Kate! – eu a puxei. A porta se movia com dificuldade. Era grossa e com uns dois metros e meio de altura.

E então, vimos o que estava lá. Dragmoon.

Dragmoon, era um lugar onde Anis e Zyah se escondiam, quando começaram a ser caçados por acusação de bruxaria. Este lugar era protegido com um dos feitiços mais fortes que eles lançaram. E aqui foi onde eles fizeram as duas maiores maldições. A minha. E a da Lua. Nunca entendi direito como funcionava, mas sabia que a cada 100 anos, os feiticeiros tinham que sacrificar um mortal, para o espírito de Anis e Zyah. Mas, eu nunca vi acontecer... Li isto no livro vermelho.

O local tinha um aspecto medieval, mesmo eu sabendo que era muito mais antigo. As coisas, não estavam empoeiradas, como a porta. Nem cheirava a mofo como eu acho que deveria.

Andamos pelo lugar e percebemos decorações de vários locais da Europa. Como uma coleção. A sala era grande e não me fazia sentir confortável. Eu me sentia vigiada, mesmo sabendo que não havia ninguém lá, além de mim, Kate e Josh.

- Vamos sair... – eu olhei para a parede do fundo da sala. – Meu Deus... – disse devagar.

Ali estava, bem na minha frente. A pedra com que eu poderia pegar meus poderes. Mas, porque Anis e Zyah teriam guardado em um lugar tão obvio e bem à vista?

Mas, tudo o que importava era que a pedra estava bem na minha frente. E se eu encontrasse a igreja, eu poderia salvar todos. Os espíritos, meus amigos e minha mãe.

Kate e Josh pararam e me perguntaram o que eu tinha visto, então contei tudo o que eu havia lido no livro, e eles concordaram em pegá-la e levá-la para a cabana. Emma com certeza saberia o que fazer.

- Ai! – gritei ao pegar a pedra. Ela era azul clara e tinha uma luz branca dento dela. Era linda. Mas, ela acabara de me dar um choque! – Josh, me dê seu casaco.

Eu enrolei o casaco nas mãos e peguei a pedra envolvendo-a para não deixá-la amostra.

- Vamos. – decidi. A sensação ruim que eu sentira antes estava piorando.

Neste momento uma luz vermelha começou a piscar em cima de nós. Era forte e brilhante, envolvia todo o teto daquele lugar. Era um alarme.

Então, vimos sombras ao nosso redor. Três figuras de casacos pretos que se escondiam nos corredores do lugar. Nós tentamos correr, mas eles eram mais rápidos e nos derrubaram no chão.