Dois Lados
6 Capítulo 5
A campainha tocou e eu fui abrir a porta.
- Hey! – disse Kate tentando animar um pouco. Depois daquele dia, o clima tinha ficado tenso.
- Oi! Entra. O que tem nessa caixa? – ela a colocou na mesa.
- Ah, é. A mãe do Walt voltou. Ontem. Não sei o que aconteceu, mas, ela já encomendou as flores à minha mãe, para o funeral.
- Já? Mas, ela nem veio aqui, nem nada. – eu peguei uma maçã e sentei na cadeira junto com Kate.
- É... Bem, ela pediu pra eu dobrar esses convites, e disse pra eu te pedir ajuda... – ela não parecia muito feliz com isso, mas abriu a caixa e tirou um monte de convites que tinham acabado de sair da gráfica.
- Kate. Está tudo bem? – eu peguei na mão dela.
- Não... Não está! Quer saber? Não gosto dessa ideia de que, a filha da Srta. Anderson acabou de morrer tragicamente, e ela já encomenda tudo para o funeral, e ela foi a minha casa na cara-de-pau, sem ao menos estar com cara de triste. E também, não gosto disso de “convites”, é tipo: “eu te convido para chorar pela minha filha, e para sofrer neste momento de luto”.
- Pensei que você gostasse de organizar festas... – eu tentei animá-la.
- É! Festas! Não funerais! – ela começou a dobrar o primeiro convite.
- Ah! A propósito, eu gostaria de levar algumas orquídeas. Ela gostava. Eu posso te dar o dinheiro agora e depois eu pego, ok?
- Certo.
Eu fui até a cozinha e abri o armário acima da pia onde minha mãe guardava o dinheiro da casa no típico pote de biscoito. E o abri e não tinha nada ali. Minha mãe sempre deixava algum dinheiro naquele pote! Nunca, nunca, minha mãe havia tirado o dinheiro todo dali!
- Uh... Quer saber? Deixa pra lá! Eu... te dou depois o dinheiro! – eu sorri para ela. Mas, não gostava do que tinha visto.
Eu estava lendo um livro no meu quarto, quando escutei um barulho vindo da sala de estar. Me levantei e fui até lá.
- Mãe! Está tudo bem? – minha mãe havia derrubado a bolsa e uns papéis que tinha trazido, e estava apoiada na poltrona com a mão na barriga. Eu a segurei e a ajudei a sentar.
- Sim... – ela ofegava – estou bem. Não foi nada. – ela me observou por alguns segundos como se quisesse dizer algo, mas apenas apanhou a bolsa e foi até a cozinha.
- Mãe... Tem alguma coisa que quer me dizer? – ela olhou para mim, mas ainda fingia que procurava alguma coisa na bolsa. E então, ela fez sinal para que eu sentasse no sofá, e ela me acompanhou.
- Querida... – ela respirou fundo, e quando estava pronta para continuar, a campainha tocou. – Vou atender! – falou meio chorosa.
- Tammy... – ela não pôde falar, a Srta. Anderson foi logo a abraçando. – Eu sinto muito.
Não me lembro de Kate ter falado que ela estava chorando...
- Jane... – Tammy enxugou as lágrimas, e continuou – provavelmente a Kate, já deve ter falado sobre o funeral com a Victoria, mas... Eu só vim aqui para conversar com você. – ela falava lentamente. Não parecia mesmo, a mulher que Kate descreveu. Mas, o choro e o sofrimento da Srta. Anderson com certeza, não pareciam verdadeiros.
Minha mãe a levou para o quarto, e depois voltou para pegar um copo de água para Tammy.
- Falo com você depois, não se preocupe. – disse minha mãe voltando ao quarto.
- Victoria! – era aquela voz novamente. Fingi que não escutei, e fui para o quarto pegar meu casaco, tinha pensado em ir à casa do Walt para ver como ele estava.
Calcei minhas velhas botas pretas e peguei meu casaco de couro e meu cachecol, e abri a porta.
No jardim da frente da minha casa, costumava ter um banquinho velho de madeira, que nunca estava ocupado. Mas, hoje era uma exceção.
Uma garota de vestido branco que ia até os joelhos, que tinha uns trapos bege, nas pontas, meio desleixados, mas que davam charme àquele vestido melancólico. Um cabelo loiro claro, ondulado e brilhoso, que sob a luz da lua pareciam brancos.
- Olá? – perguntei. A garota então se virou. Era ela... Mary Anderson.
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