Dois Grandes

2 Os anjos e as meninas


Notas iniciais
Dia 3 - Every Breath You Take – The Police Link da música -> https://www.youtube.com/results?search_query=every+breath+you+take

“Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you”

Every Breath You Take – The Police

Nos último capítulo:

Em um quarto escuro e reconfortante, uma pequena menina dormia com a cabeça em um travesseiro e abraçada a outro. Passou a mão pelo rosto e sorriu ao lembrar-se que dia era aquele. O tão esperado dia. O dia em que reveria sua irmã depois de seis meses.

***

Depois de dez minutos lutando para não dormir novamente e imaginando coisas sobre o dia e a irmã, pegou-se pensando também na mãe que iria rever. Uma lágrima escorreu por seu rosto, seguida por outra e mais outra. Há quatro anos os pais se separaram e ela fora privada da convivência integral com a irmã dois anos depois do ocorrido.

***

–Quem será que acordou?

–Pai, não precisa trazer a Dona Coruja pra me acordar, eu já sou grande! Fiz 12 anos mês passado, lembra?

–Iiii, acho que seu pai não lembra, Rai. Ele precisa tomar mais água! – Disse o pai com a voz alterada, ainda imitando a coruja esticada à sua frente. – A menina riu e o pai entrou no quarto com a pelúcia na mão. A menina pulou na cama de novo.

–Olha, filha, ta tocando Cazuza!

(Coruja) -Acho que já demoraram demais! O dia já nasceu feliz e nenhum dos dois precisa dormir pra que continue assim, unhum.

***

À noite, dois homens estavam lado a lado, em pé no terraço de uma casa vizinha. De lá podiam ver as comemorações, as pessoas conversando, dando risada e esperando a ceia de ano novo.

–Talvez seja hoje, Ciro.

–Eu sei, Alexandre. Não precisa me lembrar.

–Hey, mana, preciso te perguntar uma coisa. – Declarou Clara quando estavam sozinhas na varanda.

–Pode perguntar.

–Hum... Eu queria saber... Como o papai ta?

–Eu sei, mas... A mamãe também ta sorrindo, mas ultimamente ela está muito triste. Ela chora de noite, eu ouço.

Raíssa ficou surpresa com a revelação. Sua mãe chorava de noite igual a ela. Será que ela pensa que eu prefiro o papai assim como eu penso que ela prefere a Clara? Ou será alguma outra coisa?

***

–Olha, Clara! Uma estrela cadente. Vamos fazer nossos pedidos. Eles vão se realizar!

As duas deram as mãos, fecharam os olhos e fizeram seus pedidos. O desejo de ambas, o mais profundo, era que voltassem a ter a companhia uma da outra. Que fossem mais próximas dali em diante.

Os dois anjos ainda as observavam.

–Elas viram o cometa, Ciro. Você sabe o que significa, não?

–Eu sei. Fim do trato.

Mal sabiam as meninas, mas elas eram as únicas que tinham visto aquela estrela cadente em específico.

***

Após pedir à longínqua estrela cadente aquilo que seus corações mais desejavam, as meninas felicitaram-se em observar os maravilhosos fogos de artifício que preenchiam o céu estrelado. Observavam-os da varanda do quarto de Raíssa, apoiadas na grade. O sobrado ficava em uma área costeira do litoral nordestino brasileiro, sobre rochas as quais eram atingidas diretamente pelo mar. Acima, o céu e os fogos. Abaixo, o mar revolto chocando-se com as pedras. Aproveitaram uma a presença da outra em um silêncio acolhedor. Depois que as luzes no céu se extinguiram e não se podia mais ouvir garrafas de espumantes sendo abertas, Clara suspirou profundamente.

–Tudo bem, Clara?

–Ainda preocupada com a mamãe.

–Deixa isso de lado um pouco, mana. A gente da um jeito.

Clara desviou seu olhar do horizonte para observar o semblante da irmã, que sorriu um sorriso sincero para confortá-la. Em resposta a irmã, fingiu um sorriso.

Após cearem, puderam então esquecer parte de seus problemas e aproveitar os jogos de tabuleiro e cartas que alguns convidados haviam trazido para tornar a festa mais divertida. Pelo resto da noite foram crianças sem preocupações sérias, como deveria ser para toda criança. Brincaram e brincaram e quando foram dormir ainda estavam elétricas. Raíssa colocou seu pijama rosa com corujas azuis bordadas – o mesmo que veio com a pelúcia de brinde — e Clara, seu pijama verde claro. Vestidas com seus pijamas de calor, cada uma foi para sua cama após o “boa noite” dos pais. E como era esperado, não dormiram. Riram e conversaram entre si até às 4 da manhã, em meio a risinhos e gargalhadas contidas.

Naquela noite sonharam, sonharam com seus anjos da guarda. Seus sonhos eram, na verdade, lembranças que foram trazidas à tona por seus anjos que zelavam por elas enquanto dormiam. Alexandre, o anjo negro e forte, aproximara-se da cama de Clara, que caíra no sono após soltar algumas lágrimas. Sua careca reluzia à luz lunar e seus olhos, verdes como esmeraldas, fitaram a menina atentamente. A calça negra, a camisa branca, a jaqueta jeans e o tênis escuro permaneciam. Não era tão vaidoso a ponto de ficar mudando suas vestes e sua aparência, ao contrário de Ciro. Ao chegar perto da menina, colocou suas grandes mãos sobre a cabeça dela, e dali uma luz negra, com tons de roxo e lilás, começou a brilhar. Sussurrou:

–Lembre-se de mim, menina.

E o sonho mudou. Em um momento estava enxugando as lágrimas de sua mãe. No outro, era um bebê de dois anos que engatinhava em direção ao nada, e apontava para o nada, rindo deliciosamente. Ninguém entendia para onde o bebê estava apontando, mas Clara via um homem negro que lhe fazia incontáveis e engraçadas caretas. Em um dos dias, à noite, Alexandre aproximou-se do berço de Clara. A menina o olhava com curiosidade, mas quando ele abriu suas asas ela assustou-se e começou a chorar. Eram asas negras como ébano, com plumagem delicada e macia. Levou uma asa perto dela e ela assustou-se mais. Até que ele começou a acariciar suas próprias plumas negras, o que fez com que a menina parasse um pouco o choro e esticasse as mãozinhas em busca daquela coisa grande, estranha e fascinante. Ao tocar e perceber o quão macio era e que fazia cócegas na mão, ela desatou a rir. Ele ria dela e ela ria mais. Deu alguns gritinhos de felicidade, e bocejou de sono. Então ela pegou parte da asa dele e puxou consigo, deitando por cima dela e fazendo-a de travesseiro.

–Clara, não. –Sussurrava. – Clarinha. Clarinha, não. – Não adiantou. Suspirou derrotado. – Ok, bebê. Boa noite.

Esperou que a garotinha dormisse para desaparecer do local. Fez com que ela sonhasse também com a última vez que se viram, quando ela tinha oito anos de idade. Em um dia qualquer, a família das meninas fora caminhar pela floresta e fazer uma trilha. Contudo, Clara perdeu-se dos pais e da irmã. O dia havia começado bem, todos estavam felizes pelo passeio. O pai resolveu imitar as famílias norte-americanas e fez panquecas e ovos mexidos para o café da manhã, sob severos protestos da esposa que o acusava de prejudicar a saúde das pequenas. No fim, depois de muito esforço, conseguiu fazer com que a mulher não ficasse brava, insistindo na ideia de que situações daquele tipo eram e continuariam sendo raras.

Logo após o desjejum, todos se arrumaram: passaram protetor solar, colocaram roupas de banho por baixo das roupas normais (pois uma das paradas seria um banho de cachoeira), bonés, mochilas e partiram para o passeio. Em um momento de distração dos pais enquanto o guia falava sobre a mata, Clara ficou curiosa sobre um roedor que vira por dentre as árvores. Movimentou-se delicadamente, para que o animal não saísse correndo. O que ela não sabia é que era observada por seu anjo guardião, que jamais havia saído do seu lado. E o coração dele apertava a cada passo que ela dava para longe da família. Ela caminhou até o ponto que percebeu que não saberia voltar. Desatou a chorar. Ela realmente havia ido muito longe, mas seu anjo sabia o caminho de volta. E ela poderia vê-lo.

Escondido na mata verdejante, Alexandre mudou sua aparência. Transformou-se em um lenhador, com a barba negra comprida, a camisa xadrez, calça jeans surrada, sapatos, suspensório e o familiar machado. Deveras não é o costume brasileiro ter um lenhador com essas características, mas a menina acreditaria melhor ao ver um homem igual via nos filmes americanos. Então ele aproximou-se dela:

–O que foi, garotinha? Por que está chorando? – Ela enxugou parte das lágrimas. Seu rosto estava vermelho.

–E... E... Eu me perdi...

–Se perdeu? – Ela acenou positivamente com a cabeça. – Bom... Então eu vou te ajudar a achar o caminho de volta. Vamos.

Quando ele começou a andar, reparou que ela ficara parada.

–Vamos. – Sorriu para ela com seus dentes extremamente brancos, mas ela deu um passo para trás.

–Papai falou para não confiar em estranhos.

–Eu sou estranho? – Ela assentiu novamente. Ele olhou as próprias vestes.

–São as minhas roupas?

–Também.

–E o que mais?

–Eu não te conheço.

–Hum... É mesmo. E agora? – Fez uma cara pensativa olhando de relance para a copa das árvores. Ao longe ouviram o piar de algum pássaro qualquer. – Já sei. – Ele aproximou-se de uma árvore que havia ao lado e sentou-se encostado nela. – Vem aqui e senta comigo. Vamos conversar. Assim você me conhece um pouco e eu deixo de ser um estranho. O que acha? – Ela o olhava com curiosidade.

–E você vai me conhecer também?

–Hum... Vou.

–Está bem.

Ao sentar-se, o homem se apresentou. Falou seu nome, a profissão e contou a ela que cuidava de uma menina desde que era bebê. Ela perguntou se a menina era filha dele, mas ele negou e disse a ela que era apenas uma pessoa preciosa para ele. Descreveu parte da personalidade dela e Clara achou que ela e a menina protegida de Alexandre se dariam bem. Por fim, resolveu revelar a ela que ele era um anjo. Ela não acreditara em princípio, mas ele levantou-se e abriu suas grandes asas negras. Ela teve medo e afastou-se dele, mas dobrou um ajoelhou perante ela:

–Ao seus serviços, madame. Seja minha protegida também.

Clara ainda estava com receio de se aproximar, afinal a imagem que ela tinha de anjos era completamente diferente. Eles eram sempre crianças como ela, tinham asas brancas, cabelos dourados e cacheados... E não poderia faltar os olhos azuis. Não sabia se fugia ou ficava. Nunca tinha visto um homem com asas negras. Ele movimentou a asa direita, aproximando-a dela. Ela a tocou, sentiu a textura e a maciez e, com isso, seu medo fora embora. Sentiu-se segura.

Depois disso, ele recolheu as asas e ela o acompanhou de volta para os pais, que já estavam extremamente preocupados. Quarenta minutos havia se passado após o sumiço da menina. Um pouco antes de voltar correndo para os braços da mãe, ele a segurou pelo braço e disse-lhe que a visitaria novamente, em seus sonhos, para leva-la para dar um passeio. Também comentou sobre algum favor que lhe pediria, mas isso logo fora esquecido pela menina. Ela correu para o colo da mãe, que se virou de costas para a direção de onde ela veio, fazendo com que ela visse Alexandre uma ultima vez, antes de ele desaparecer atrás de uma árvore.

Naquela mesma noite em que Alexandre fazia Clara lembrar-se dele, Ciro fizera a mesma coisa com Raíssa. Ela, da mesma forma que a irmã, vira seu anjo pela primeira vez aos dois anos de idade. Naquela época, sua aparência era muito parecida com a de agora: cabelos medianos e negros, assim como seus olhos. Branco, o formato do rosto trazia traços fortes. A barba estava feita. Era mais baixo que Alexandre, e também mais esguio.

O caso ocorrera em um dos dias que Raíssa ficara sozinha em casa por cerca de 20 minutos. A mãe tivera que correr para ajudar um vizinho que se machucara e o pai estava viajando a trabalho. Ela saiu do cercadinho e engatinhou até a sala. A irmã estava dormindo no berço em seu quarto. Começou a mexer nos enfeites que ficavam por cima de uma peça de madeira baixa demais, jogou um dos objetos que se quebrou em muitos cacos de vidro. Quando ela ia encostar neles, Ciro apareceu e a levou novamente para o cercadinho.

–Você só apronta, menina.

Ela riu da cara dele e o moreno a distraiu até que sua mãe chegasse. Brincaram com os brinquedos, pelúcias, e a menina teve até direito às cócegas.

Em um outro momento, quando tinha oito anos, assim como a irmã, viu o anjo pela segunda vez. Contudo, por causa da irmã. Clara viu Alexandre novamente um pouco depois de ter se perdido, e perguntou-lhe se ele também era o anjo de Raíssa. Ele respondeu que não, mas que poderia chama-lo. Assim o fez, depois que Clara contou à Raíssa tudo o que passara e que ela poderia ver seu anjo também. Obviamente Raíssa desconfiou da irmã, até ver Alexandre e, com ele, Ciro. Eles disseram a elas que poderiam leva-las para voar, mas só depois que elas dormissem. Contaram histórias de deuses antigos. Clara pediu a história de Atena e, Raíssa, do deus nórdico, Odin.

Após falarem sobre um ou dois feitos de Atena, a deusa grega da sabedoria e da guerra, exímia estrategista, e de Odin, com suas valquírias ao seu dispor, que traziam almas de guerreiros mortos em batalha para a batalha de ragnarok, as meninas adormeceram.

Suas almas acordaram e foram puxadas de seus corpos pelos anjos. Seus corpos respiravam, mas suas consciências flutuavam. Os anjos abriram suas asas, Alexandre suas asas negras e Ciro suas asas brancas, e com elas saíram pela janela, segurando-as penduradas pelos braços. Moravam, na época, na cidade de São Paulo, e após voarem por dentre prédios e atravessarem paredes em manobras voadoras que as faziam balançar para um lado para o outro e gritar, elas também foram levadas para o litoral do Rio de Janeiro em dois minutos, tamanha era a velocidade que os anjos poderiam alcançar. Elas gargalhavam. Eles esticaram suas asas sob a lua cheia e inclinaram seus corpos, voando ao redor do Cristo Redentor, pousando em sua cabeça para descansar. Quando voltaram a voar, as meninas pediam:

–Mais rápido, mais rápido, tio Ciro!

–Pra cima, pra cima, tio Alê!

Pra direita, pra esquerda, rápido, de cabeça pra baixo, girando, caindo em queda livre ou voando o mais alto e tranquilamente possível, os anjos e as meninas divertiam-se observando a cidade, enquanto aproveitavam a liberdade que as asas dos anjos proporcionavam. Não importa o que aconteceria ou o que elas fizessem, eles sempre estariam observando-as, cuidando delas. Mesmo que, anos depois, elas se sentissem um pouco perdidas por não poder vê-los mais.

Notas finais
O que acharam? Por favor, comentem *.*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.