Doeu...
1 Olá, amor...
Olá, amor...
Você ainda pensa em mim, do jeito com que eu penso em você?
Porque se você quer saber, eu não tiro você da cabeça nem por um segundo sequer.
Escute só, amor, acho que você começou a me enlouquecer, porque tudo consegue me lembrar você. E eu me sinto uma estúpida por chorar feito uma criança machucada toda vez que isso acontece.
Algumas pessoas me disseram que o que você fez comigo foi para me deixar forte.
Sinto muito lhe decepcionar, mas nessa missão, você fracassou. Eu não estou mais forte, não estou mais vivida e não estou mais experiente. Eu estou quebrada. Eu estou magoada, amor. Você conseguiu me deixar com o coração dilacerado, machucado e com uma ferida horrivelmente exposta.
Dói em mim saber que você agora, talvez nesse exato momento, está iludindo outra garota com seu sorriso cafajeste e seu olhar sexy. Será que você também diz pra ela que o sorriso dela é estonteante e que seu olhar é hipnotizante?
Dói assim como doeu quando você partiu. Ah, amor, nada consegue apagar aquilo de mim! Foi como mil facas me cortando em pedaços. Você não tinha o direito de ter feito aquilo. Você não deu satisfações para a sua garota apaixonada. Eu não sei você, mas um bilhete escrito “Nossa brincadeira acabou. Espero que você tenha gostado, porque realmente, doçura, acabou”, não é uma explicação.
Doeu tanto quando eu vi que o guarda roupa se encontrava sem suas roupas... Amor, eu me deitei em nossa cama, ainda com aquele uniforme com cheiro de gordura velha de onde trabalho, tentando assimilar tudo.
Doeu quando deu oito da manhã e eu ainda esperava por você, mesmo minha mente gritando que você tinha ido embora... Amor, e eu só percebi que era verdade quando eu te liguei desesperada... E seu número tinha sido desativado.
E novamente, doeu. Como você pôde? Amor, eu nunca chorei tanto em minha vida. Sabe como foi ruim chegar em casa, doida para lhe abraçar, para nós bebermos até cairmos, ter uma ótima noite com você... E perceber que o que as pessoas diziam era verdade?
Quer dizer então que aquelas nossas tatuagens, feitas juntas, com nossos nomes em um simples coração, era parte do seu jogo? Quer dizer então, que quando você as beijou, era parte do seu jogo? Por favor, me diga que todas aquelas vezes que eu te peguei olhando para mim e sorrindo bobo, não era parte do seu jogo!
Amor, eu larguei minha faculdade para ter uma vida com você. Amor, eu briguei feio com meus pais por causa de você. Amor... Eu fugi de casa por causa de você. Amor, eu trabalhava naquela lanchonete asquerosa, usando aquelas sandálias que todos os dias me davam horríveis bolhas nos pés, colocando no corpo que lhe pertencia, aquele uniforme com o terrível cheiro daquele lugar... Por você!
Sabe amor, doeu quando eu não fui trabalhar aquele dia, porque eu não me sentia bem. Você tinha realmente ido e deixou para trás aquela garota que estava se sentindo um lixo por sua culpa, mas que se você aparecesse hoje, ela transaria com você novamente porque não tinha deixado de te amar.
Uma semana. Duas. Três... Dois meses...
Doeu quando a velha gorda me demitiu daquela porcaria, porque eu já tinha aprontado várias. Eu faltei muitas vezes no serviço. Eu, toda noite roubava um maço de cigarros. Eu trabalhava bêbada. Eu chorava atoa. Eu gritava com os clientes.
Amor, você tinha destruído minha vida.
Doeu quando meus amigos foram no meu apartamento e tiveram que tampar os narizes. De acordo com eles, o cheiro de cigarro era insuportável. Amor, eles disseram que você era um cretino e que eu devia seguir em frente. Doeu quando eu perdi a cabeça e os mandei para o inferno.
Viu o que você fez, amor? Mesmo depois de tudo, eu ainda te amava.
Eu falei que eles não deviam se meter, que você ainda voltaria para mim e ao mesmo tempo em que eu gritava isso, eu percebia que quem eu realmente queria garantir que você voltaria... Era eu mesma.
Doeu quando eu percebi que havia emagrecido muito. Mesmo meus amigos todos os dias colocando sacolas com comida na porta do apartamento, eu comia uma ou duas coisas... Por semana.
Senti meu coração pesar uma tonelada quando eu lembrei que esses amigos eram os mesmos que eu havia brigado quando eles não te aceitaram como único amor da droga da minha vida.
Sim. Aquela que você ferrou.
Amor sabe a nossa música? Sim, aquela da melodia triste, mas que você me fez acreditar que ela na verdade era romântica. Eu a escutei na rádio, durante a noite de natal.
Doeu quando eu abracei forte meu travesseiro, chorando, agarrada às lembranças cicatrizadas em minha vida. Foi estúpido da minha parte colocá-la no último volume e me isolar? Sim. Mas amor, até de pensar em você é algo estúpido.
Adiantaria eu me ajoelhar em seus pés e pedir pra você voltar? Amor, a coisa toda está se tornando insuportável.
E do jeito que eu te amo te aceitaria agora.
Doeu quando eu percebi que eu estava trancada em casa já tinha um ano.
E me destruiu quando minha mãe apareceu no lixo que se encontrava meu apartamento.
Sim, amor. Minha mãe. Aquela que eu xinguei e a ofendi por te amar tanto. Ela me destruiu quando chorou ao ver meu estado. Mas apesar do meu cheiro, do meu estado e da minha teimosia, ela me abraçou e disse que tinha chegado para me salvar do buraco negro onde você tinha me jogado.
Ela disse que me amava.
Doeu quando eu a olhei desconfiada quando ela disse isso. Pois é. Você diversas vezes jurava que me amava. Mas você partiu.
Sabia que eu tive que voltar a morar com ela e meu pai?
E sabia que doeu insuportavelmente quando eu reencontrei meu pai e ele, pela primeira vez, chorou na minha frente.
Naquele dia, eu tomei um banho como eu não tomava em tempos. Foi estranho me olhar no espelho e me ver de cabelos limpos outra vez. Amor, eu também estava muito, mas muito magra.
Doeu quando eu percebi que minha mãe não mexera no meu antigo quarto, porque ela sabia que você um dia me deixaria, e eu voltaria para ela.
E não, eu não supus isso. Eu a escutei falar com meu pai e meus amigos.
Naquela noite, nossa música tocou na rádio de novo. No começo dela, eu prometi para mim mesma que não iria chorar. Eu agarrei firme meu travesseiro, mordi forte a minha língua e fechei os olhos com força. Mas mesmo assim, eu a escutei.
E eu chorei como uma criança novamente.
Eu nunca me odiei tanto. Eu tentava te esquecer, amor. Eu tentava não chorar quando eu se lembrasse de você.
Mas porra nenhuma funcionava!
Naquela mesma semana, minha mãe marcou minha visita em um psicólogo.
Ele me disse tudo o que todos diziam. Eu sabia que a vida seguia. Eu também sabia que você não merecia eu chorar por você. Eu já sabia também, que eu deveria te esquecer. Que você tinha ficado para trás.
Mas amor, eu não estava pronta para seguir em frente. Amor, eu ainda choro quando escuto seu nome.
E eu sei que isso é ruim. Me dói saber disso. Mas eu simplesmente não consigo! É como pedir para um bebê parar de chorar. É como pedir para um rato parar de roubar comida. É como pedir para que eu jogue fora tudo o que vivemos juntos.
E então... Doeu quando eu fiquei sabendo que estava em depressão profunda...
Depois de várias consultas, conselhos e olhares, eu percebi o quão bonito era meu psicólogo.
Sabia que depois de um mês de consultas normais, eu e ele começamos a transar em seu consultório? Eu não ligava para sua esposa ou seus três filhos. Eu não ligava que isso era errado. Eu não ligava para a secretária dele, que talvez pudesse escutar meus gemidos.
Eu só queria esquecer você.
Mas de nada funcionou, porque você me fez viciar em você e nessa droga de sentimento e sensação que é estar com você!
Que droga! Você era o que eu sempre quis! Você me alegrava! Você me fazia se sentir a pessoa mais feliz desse mundo! E do nada, você me abandona, me fazendo se sentir a pior de toda a humanidade!
Porra, amor! Como você conseguiu me fazer te amar tanto assim?
Só me diga uma coisa: Você em algum momento... Me amou?
Depois de um tempo, eu parei de visitá-lo. Não adiantava nada.
Não sei se você se lembra, mas em um dia, minha mãe e meu pai precisaram viajar. Eles me deixaram em casa sozinha. “Alguns dias não vão ser ruins para a nova garota.”
E foi aí que a coisa desandou.
Doeu quando alguém tocou o interfone e eu, ao abrir a porta, não pude fechá-la quando eu vi você outra vez.
Mas essa dor só chegou depois da noite perfeita em que tivemos no quarto dos meus pais. Ela só chegou quando eu acordei outro dia de manhã... E você tinha deixado um bilhete, com aquela pitada de sarcasmo e ironia.
"Minha nova garota não é tão boa de cama quanto você. Mas nos outros quesitos, doçura, ela sempre foi melhor"
Doeu quando eu berrei ao sentir aquilo outra vez.
Eu não suportava sentir aquilo novamente.
Sei que talvez você nunca vá ler essa carta. Sei que todos falarão que fui imprudente ao fazer isso. Sei também que alguns rirão e falarão: Eu sabia que ela não aguentaria.
Mas quer saber? Eu não estou ligando.
Pode até parecer estúpido, mas eu não vejo mais sentido em ser consumida por uma dor tão grande.
Não faz sentido eu viver uma vida onde só de respirar eu vou me lembrar de você e me sentir uma garota completamente derrotada.
E essa minha escolha de usar um colar de corda para acabar com tudo, é só minha.
Toda minha.
E para sempre minha.
Eu te amo, amor. Amo até demais.
Assinado: Doçura
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