Dodecaedro - Versão ShinoKiba
2 e o Alpha atende
Notas iniciais
Medida. Grandeza. Proporção.
Obstáculo. Barreira.
tempo...
A vista da janela era agradável. Nunca teria apreciado assim antes. Mas antes não havia Dodecaedro.
Shino expeliu ar pelo nariz com um chiado. Gesto meramente ilustrativo. Não precisava respirar, oxigênio em seus pulmões não fazia a menor diferença. Conquanto certos gestos de contrariedade precisavam de tais alegorias apreendidas dos humanos.
Os pensamentos distraídos foram cortados graças ao movimento lento e preguiçoso sobre a cama.
Estava em um dos melhores quartos da mansão. Senão o melhor. Não apenas a vista era agradável, mas proporcionava um cômodo arejado e bem iluminado. A cama era modelo antigo, de um tempo em que os móveis humanos eram construídos para durar muito, muito tempo se fossem bem cuidados. A peça de madeira maciça, ostentava quatro pilares estilo dossel e seda. Muita seda confeccionada ali em sua propriedade.
Os olhos por trás das lentes escuras fixaram-se no garoto deitado em meio ao tecido macio, quase desaparecido entre tanta brandura. Ouviu um suspiro que pareceu satisfeito e contrariado ao mesmo tempo. Interessante.
Enviou uma ordem mental para os servos, para que trouxessem o desjejum o quanto antes.
Seu... hóspede despertava, relutante naquela luta inconsciente entre o acordar e o aconchego caloroso do colchão. Algo que durou breves segundos, pois o Ômega logo abriu os olhos.
Shino sentiu traços de surpresa tomarem o ambiente. E então tensão, a medida em que o garoto sentava-se na cama, observando ao redor até que as íris de formato incomum se detivessem na figura parada ao lado da grande janela cujos vidros estavam fechados. O rosto empalideceu, as mãos crisparam-se segurando firme no lençol de seda. A postura era clássica: ele estava pronto para lutar ou fugir. Ou ao menos tentar. O que Shino notou refletido no olhar assustado evidenciou a triste realidade: tão jovem e tão experiente em avaliar quando frente a frente com o perigo, com um pretenso inimigo. Quantas dificuldades aquele Ômega enfrentou para chegar a esse ponto? O vampiro imaginava a resposta...
— Bom dia — Shino soou divertido.
O Ômega não se comprometeu. Shino podia ouvir o coração disparado batendo forte contra o peito, o cheiro do medo que se espalhou e lhe trouxe contrariedade. Preferia muito mais o aroma de morangos.
— Qual o seu... — Shino começou a questão, apenas para ser interrompido.
— Onde estão os filhotes? — a pergunta veio agressiva, uma técnica desesperada para mascarar o medo.
Shino quase rosnou. Quase. Uma reação pouco civilizada, ligada direto à face animalesca de seu legado demoníaco. O tom de voz daquele Ômega... passado o choque da descoberta, era tão peculiar. O atingiu no amago, provocou a parte Alpha inerente a todo vampiro puro-sangue. Trouxe a tona algo que jamais sentiu antes, em sua existência milenar, ancestral.
Algo mundano, profano, lascivo.
— Estão bem — o vampiro respondeu sobrepujando a sensação de embotamento que dominou seu raciocínio. Era, dentre seus irmãos, o mais controlado e cordato de todos. Não era um Ômega cheirando a leite que mudaria sua postura. Nem mesmo o reconhecendo como Dodecaedro — Devo reconhecer sua coragem em invadir meus domínios. O que esperava encontrar aqui?
O Ômega não respondeu.
Por alguns segundos ficaram se encarando, em um silêncio carregado. Havia receio minando em ondas e desconfiança. Mas o momento de tensão foi quebrado por batidas na porta. Shino deu permissão através do elo mental que mantinha com seus servos e um rapaz entrou no quarto empurrando uma espécie de carrinho de refeições sobre quatro rodas, feito todo em madeira. O levou até a beira da cama dossel e saiu tão silencioso quanto chegou.
Aburame Shino divertiu-se ao ver o Ômega arregalar os olhos surpreso, admirando a refeição que havia no carrinho: grandes bifes ao ponto, de carne tenra e macia, mingau de arroz e pão recém assado. Foi perceptível o movimento da garganta do garoto quando ele engoliu saliva, instigado pelo cheiro apetitoso.
— Peço desculpas pela simplicidade do café da manhã. Há muito tempo não recebo um hóspede em minha casa — Shino virou-se de vez, de modo a encarar o ainda desconhecido. Não disse nenhuma mentira. Precisou mobilizar seus servos para conseguir comida, a carne foi o mais fácil, já que tinha animais na propriedade. Mas o pão e o arroz... — Sou Aburame Shino, senhor desse território. Como você se chama?
Era mera questão de formalidade. As crianças já tinham lhe dito o nome do Ômega.
— Kiba. Meu nome é Kiba — apresentou-se sem fazer o menor gesto no sentido de comer. O cheiro agradável era quase doloroso. Estava diante de comida quente, fresca. Limpa. Comida de verdade, não restos, nem um paliativo para enganar a fome. Mas ainda assim, não conseguiu se mover — Os filhotes...?
Sua prioridade era saber da segurança de seus pequeninos.
Shino estreitou os olhos por trás dos óculos escuros. Conjurou uma tênue amostra das trevas, que se espalharam pelo ambiente e mudaram a densidade do ar.
— Coma — ordenou usando um de seus poderes. Fascinação, feitiço Lasombra inescapável para qualquer pessoa. E que não teve efeito algum em Kiba, que meneou a cabeça recusando a oferta.
Dodecaedro.
Shino suspirou de leve. Sabia desde o começo. Pouquíssimos poderes surtiam efeito em um Dodecaedro. Mas não custava tentar, não é?
— Você... hum... você não me matou. Por enquanto sou grato por isso. E não matou os filhotes... eu... caralho. Não esperava isso, sabe? Acabar conversando com o mestre. Você é o mestre daqui mesmo? Claro que é... posso meio que sentir isso. É fodido de esquisito e... hum... — o que ele podia fazer?! Como se comportar na frente de uma criatura que podia matá-lo como se fosse mais frágil que uma formiga? As crianças estavam bem de acordo com o pretenso monstro. Mas eram reféns ali, não? Qual a intenção de um ser tão antigo, cujas lendas davam ênfase ao poder dantesco, em matê-los vivos? E colocá-lo em um quarto tão... agradável? E a comida? Kiba era pura confusão e incapaz de disfarçar.
Shino perdeu-se nas reações adversas. Onde estava o pânico? Imaginou que sua presença causaria muito mais medo do que aquela espécie de embolia conformada. E a resposta à sua dúvida veio em seguida, quando Kiba acertou um soquinho na mão espalmada, causando um suave som estalado. O rosto iluminou-se e ele sorriu.
— Entendi! Isso é um pesadelo! Claro!
Shino ergueu as sobrancelhas, surpreso com a dedução inesperada.
— Não, não é um sonho.
O garoto fez um gesto descontraído, como se não fosse grande coisa.
— Eu... hum... morri na caverna? Isso é uma espécie de... algo após a morte? Eu viajei com um grupo de shifters que acreditava em Danação e recompensa eterna. Sempre achei besteira, mas... aqui é a clareira no fim do caminho?
— Não. Eu não matei você na caverna. Nem os filhotes — Shino garantiu com um quê de diversão na voz.
O Ômega o mirou. Na face, uma expressão insondável, apesar de aquele cheiro de medo e auto-defesa voltar a se propagar pelo comodo, camuflado em um tentador cheiro de morango. Novamente atingindo Shino com lascívia nunca sentida antes.
— Porra, cara! O que é isso? — a questão veio num tom agudo que revelou um pouco do pânico.
— Vou explicar tudo. Apenas se alimente.
— Os três... — Kiba voltou a insistir no que mais lhe preocupava.
— Estão bem. Eu nunca machucaria preciosas moedas de troca — disse algo que arrepiou seu visitante não convidado.
Kiba mexeu-se inquieto na cama.
— Troca? — repetiu baixinho. Não devia ter esperado nada diferente. O mundo era assim, não? Arriscou tudo naquela invasão e pagaria o preço por isso. A prioridade era garantir a segurança dos pequeninos.
— Sim, primeiro quero que se alimente. Depois o levarei até os filhotes.
Assistiu o garoto hesitar por meio segundo antes de pegar um dos pães e levá-lo aos lábios mordendo um naco considerável da massa assada. Não foi um gesto natural de quem deseja saciar a fome. Não houve prazer nas mordidas vorazes. Aburame Shino percebeu que era apenas obediência à sua ordem. Não porque Kiba estivesse sob efeito de algum poder, era apenas vontade de reencontrar o pequeno Pack.
Suspirou.
— Pare, não precisa fazer isso.
Encontrar Dodecaedro nunca esteve nos planos. Assim como nunca foi de sua natureza ter facilidade de comunicação. Dentro de si nasceu um forte desejo de fazer tudo certo, de conquistar a confiança do Ômega que o destino lhe trouxe. Por isso arrumou o melhor quarto, trouxe a melhor comida ainda que arrumada as pressas.
Obviamente alguém vindo do mundo lá fora não podia aceitar aquelas oferendas sem desconfiar do gesto de boa vontade. E tal gesto vinha de um dos grandes mestres, cuja fama negativa ia aquém do continente em que viviam.
Via que o garoto estava assustado, preocupado. E sem saber como reagir. Assim como o próprio Shino. Quantos encontros como aquele aconteciam no mundo?
Alguns, a resposta flutuou na mente do vampiro. Sabia que seus irmãos no extremo oeste conseguiram encontrar alguns Dodecaedros no decorrer daqueles anos. Que senso de humor distorcido era aquele que a vida lhe dirigia? Tantos anos... tantos séculos passados... acreditou que não fazia parte de sua sina conhecer seu Dodecaedro.
Mas o tempo, como veio descobrir, não era simples medida de grandeza. Era o maior obstáculo que devia superar. Esperar até o dia certo, na época certa, carregando nos ombros horas o suficiente para ver toda uma raça ascender e decair. Trazendo experiências o bastante para mil vidas humanas.
Nenhuma delas o preparando para o que enfrentava, pois estar frente a frente com Dodecaedro era algo único. Inigualável. Pudera estar assim, tão perdido.
— Venha comigo. Vou levá-lo aos filhotes. Podemos conversar melhor depois — na verdade, teriam todo o tempo que restava ao mundo.
Kiba respirou fundo, aliviado. Afastou o lençol macio e pôs-se de pé sem dificuldades, não estava ferido como comprovou aturdido. Depois de um ataque da grandeza do que ocorreu na caverna era de se esperar ao menos um arranhão, não? E aquela roupa que o cobria? Trajes leves, do mesmo material das cobertas! Tão delicado e suave...
Não podia saber que era seda, material raríssimo nos dias atuais. Algo que existiu muito antes de o Grande Advento ocorrer e desapareceu da face da Terra exceto por raras exceções.
Aburame Shino tinha em seu território valiosas heranças de uma época perdida, quando a humanidade estava em seu ápice. Praticavam a sericultura, podendo tecer seda da melhor qualidade. O oviário de bom tamanho fornecia lã. Assim como outros animais fundamentais para a manutenção da vida.
Por que fez isso? Shino acreditou que ter algo para distrair a mente de seus serviçais era importante. Afinal de contas, nenhum deles necessitava de nada além de sua vitae para sobreviver. Agora não tinha mais tanta certeza disso.
Talvez intuísse que um dia encontraria Dodecaedro. E que ele precisaria de todas aquelas coisas.
— As histórias pintam você como um monstro, sabe? — a voz de Kiba clamou a atenção de Shino — Vim pra cá com o cu na mão, mas arrisquei. Talvez a gente ache um jeito de resolver isso, não? Eu sinto muito invadir seu território. Foi por desespero! Você parece razoável e...
— Não, eu não sou — Shino cortou a declaração desregrada, fazendo o Ômega paralisar-se no lugar — Mas acertou em um ponto. Vamos resolver isso, com certeza. Vocês invadiram minhas terras por vontade própria e aqui ficarão. Os termos para essa estadia serão negociados em breve, as crianças são o ponto que estão em jogo. Cabe a você tornar tudo agradável ou não.
Enquanto ia falando, o homem se aproximou de Kiba, que só pôde observá-lo em expectativa pontuada de tensão e receio. Parou a investida apenas ao invadir o espaço pessoal alheio, momento que escolheu para erguer a mão e tocar o rosto amorenado, deslizando-a de leve até que os dedos grandes o prendessem pela nuca. Os olhos fixos um no outro, sondando, espiando, buscando respostas de questões que ainda eram confusas, muitas sequer pronunciadas. Respostas que não dependiam somente de palavras, que se revolviam inquietas em algo além da consciência.
— Você é meu Dodecaedro. Seu castigo é ficar comigo pelo resto da eternidade.
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