Doctor Who - Primeira Temporada (2025)
12 Episódio 3 - Ecos no Gelo (Parte 2 de 4)
A paisagem congelada se estendia em todas as direções, branca e sem fim, quebrada apenas por formações de gelo que se erguiam como ossos de uma criatura enterrada. Os passos de Abby e da Doutora afundavam na neve compacta enquanto avançavam rumo ao ponto onde o sinal de socorro pulsava — um aglomerado metálico parcialmente soterrado, semi-engolido por camadas de gelo acumuladas ao longo dos anos.
A Estação de Pesquisa Orizon-6.
Era uma estrutura cilíndrica e achatada, com antenas quebradas que apontavam em ângulos erráticos para o céu desfigurado. Partes do revestimento externo estavam corroídas pelo tempo e pelas rajadas de microgelo que cortavam a superfície do planeta como lâminas.
A Doutora parou diante da escotilha de entrada principal, observando os painéis laterais danificados.
— Parece que alguém tentou manter essa coisa selada... e falhou.
Abby se aproximou, e foi então que ela viu. O vermelho, escuro e coagulado, nas bordas internas da porta. Espesso. Manchado. Escorrido.
Sangue.
Muito sangue.
Ela recuou um passo, o estômago revirando.
— Que por… — começou, levando a mão à boca.
— Vocês dizem palavrões toda hora assim hoje em dia? — retrucou a Doutora, arqueando uma sobrancelha, distraída enquanto examinava os sensores de acesso.
Abby ainda encarava a escotilha aberta, o sangue congelado formando espirais tortas ao longo do chão metálico.
— Isso é sangue — disse ela, baixo. — Alguém... tentou sair? Ou entrar?
A Doutora fez um som breve com a boca, como quem pondera.
— Talvez os dois. — Ela se abaixou, examinando a superfície manchada. — E julgar pela direção dos respingos... alguém foi arrastado para dentro. Não para fora.
— Ótimo — disse Abby, cruzando os braços, tentando se aquecer contra um frio que agora vinha mais de dentro do que de fora. — Planeta congelado, estação abandonada e sangue na porta. Tudo grita “entrem e morram”, basicamente.
A Doutora se levantou, puxando de dentro do casaco um pequeno bastão de luz que ela acendeu com um clique. A lâmina azulada projetou sombras densas pelas paredes.
— Se alguém ainda estiver vivo aqui dentro, podemos fazer a diferença. Se não estiver... talvez ainda possamos impedir que algo pior aconteça.
— Você fala isso como se fosse comum.
— Porque, infelizmente, é.
O interior da estação era escuro, iluminado apenas pela lanterna da Doutora e pelas luzes de emergência vermelhas que pulsavam em intervalos espaçados. O ar era denso, parado, com um leve cheiro metálico e algo mais... ácido. Como ozônio queimado.
— Sistemas de suporte de vida estão em baixa — informou a Doutora, consultando o soníco. — Mas ainda funcionais. A pressão interna estável. Provavelmente ninguém abriu as portas... recentemente.
— E aquele sangue? — sussurrou Abby, andando com passos contidos atrás da Doutora.
— Bem... alguém teve um dia muito ruim.
As paredes da estação rangiam com o vento do lado de fora. Era como se toda a estrutura respirasse, exalando ecos de uma tragédia recente.
Abby passou os olhos por painéis rachados, estofados arrancados, instrumentos de laboratório espalhados e uma cadeira virada de cabeça para baixo com marcas de arrasto no chão.
— Doutora... isso aqui tá parecendo uma cena de crime congelada no tempo.
A Doutora se ajoelhou perto de uma das paredes, onde sensores estavam enegrecidos e parcialmente derretidos.
— Ou algo forçou uma brecha no tempo e no espaço.
Ela se levantou de novo e encarou um longo corredor à frente. A luz oscilante expunha manchas no chão que levavam mais fundo, cada vez mais densas, cada vez mais escuras.
— O que quer que tenha acontecido... ainda não terminou.
— Ótimo. Absolutamente ótimo. Por que não vamos direto para onde está o sangue, não é? — disse Abby, sarcasmo quase sufocado pelo medo.
A Doutora apenas respondeu com um sorriso que misturava coragem e inquietude.
— Eu tenho um palpite — disse ela, começando a andar em direção ao fundo do corredor.
— Por favor, que não seja "lobos do espaço" de novo.
— Não. Isso é mais... antigo. Mais silencioso. — Ela parou, escutando. — Você ouve isso?
Abby ficou imóvel. Por um instante, o som do vento cessou. E então, como se o próprio planeta estivesse sussurrando, algo veio através do metal: uma voz.
Fraca.
Distorcida.
Um sussurro rasgado.
"Ainda... aqui..."
Abby empalideceu.
— Aquilo foi...
— Um sobrevivente. Ou uma gravação automatizada. Ou — a Doutora olhou para o teto como se conversasse com ele — a própria estação ficando criativa com as alucinações auditivas.
— Vamos fingir que é só uma gravação.
— Excelente estratégia mental. Continue assim.
Elas seguiram adiante.
O corredor parecia se esticar à medida que avançavam. As luzes de emergência, piscando em tons carmesim, jogavam sombras pulsantes nas paredes curvas da estação. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelos próprios passos, e pelos estalos sutis do metal se contraindo sob o frio extremo.
— Essa luz vermelha... — sussurrou Abby, a voz baixa como se temesse ser ouvida. — Parece que estamos dentro de um pulmão mecânico.
— Toda estação viva respira de algum modo — murmurou a Doutora, passando o sônico por uma grade de ventilação entupida de cristais de gelo. — A maioria morre com silêncio. Essa aqui... parece que ainda está tentando dizer algo.
Viraram um corredor lateral, mais estreito, com as paredes cobertas de placas de dados e armários de emergência. A Doutora parou de repente. Abby esbarrou levemente nas costas dela.
— O quê? O que foi? — perguntou Abby, já com a mão perto do próprio peito, sentindo o coração acelerar.
A Doutora não respondeu imediatamente.
Estava olhando para algo no chão.
Algo imóvel.
— Ai, não — murmurou Abby.
O corpo estava encostado contra a parede da estação, meio sentado, como se tivesse escorregado até ali. Congelado. Os membros encolhidos, retraídos, as mãos crispadas e os dedos partidos pelo frio extremo. Os olhos arregalados — e ocos.
Pele rígida e esbranquiçada como papel. A boca congelada num grito mudo. E uma expressão que não se esquecia facilmente: puro pavor.
— Queimaduras de sucção nos pulsos — observou a Doutora, se ajoelhando cuidadosamente. — Drenagem interna... os vasos sanguíneos colapsaram. Ele foi drenado.
— Como assim drenado? — Abby recuou um passo. — Drenado de quê?
— De... tudo. Fluídos, sangue, calor. Como se algo o tivesse consumido de dentro para fora. Rápido demais para que conseguisse sequer reagir. — A Doutora passou o soníco ao redor do corpo. — E ainda assim... tentou fugir.
Abby apontou para o arranhado na parede ao lado do cadáver. Marcas de unha. Pequenas trilhas de sangue seco onde os dedos lutaram, talvez em vão, para se firmar.
— Ele tentou se arrastar para longe — sussurrou.
— Não para fugir — corrigiu a Doutora, os olhos escurecendo. — Para fechar a escotilha. — Ela apontou para a porta de segurança logo adiante. — Ele tentou selar o corredor. Mas seja lá o que era... já estava aqui dentro.
Abby engoliu em seco.
— Isso não foi um acidente de laboratório, né?
A Doutora ficou em silêncio por um momento.
— Não. Isso foi um ataque.
Levantou-se com seriedade, passando os olhos pelo corredor como se procurasse fantasmas.
— Ele morreu tentando impedir que algo escapasse.
Abby se aproximou, ainda cautelosa.
— Você acha que isso ainda tá aqui?
A Doutora virou lentamente o rosto para ela.
— Eu não sei. Mas se estiver, estamos andando direto para o colo dele.
Abby olhou de volta para o corpo, agora coberto por uma fina camada de gelo novo, quase como se o planeta estivesse tentando apagar seus últimos traços. A respiração de Abby saia em nuvens curtas e ansiosas.
— Ele parecia... tão humano.
— Porque era — disse a Doutora. — E isso, Abby, é o que torna tudo mais assustador.
Ela virou-se, seguindo pelo corredor com mais cautela.
Abby ficou ali por um segundo a mais, o olhar preso na face congelada do morto, antes de correr para alcançar a Doutora.
Do outro lado da estação, o sussurro voltou, baixo, longínquo, ecoando através da tubulação.
"Ainda... aqui..."
E, por um instante, Abby sentiu que algo as observava.
As duas seguiam pelo corredor estreito, os ecos metálicos dos passos amortecidos pelo silêncio opressor da estação. Abby ainda olhava por cima do ombro, como se o corpo congelado pudesse levantar a qualquer momento. A Doutora caminhava à frente, o soníco vibrando em sua mão, rastreando sinais de vida ou... qualquer coisa parecida com vida.
Foi então que Abby, ainda com a voz presa no choque, perguntou:
— Doutora... por que havia humanos aqui? Em Glacius VII?
A Doutora não parou de andar, mas sua voz veio grave, pensativa.
— Depois que a Terra entrou em colapso na Terceira Era Nuclear, a humanidade se viu forçada a abandonar o lar. O céu envenenado, oceanos fervendo, cidades em chamas radioativas... Era o fim. E como sempre fazem, eles olharam para cima.
Abby acompanhava em silêncio.
— Naves-colônia foram lançadas em todas as direções. Séculos vagando, procurando mundos habitáveis, ou pelo menos mundos que pudessem ser moldados. Alguns chegaram a jardins. Outros, a desertos. Alguns... — ela olhou para a neve azulada que cobria as janelas — acabaram aqui.
— Mas por que ficar na beirada de um buraco negro? — Abby franziu o cenho, os olhos voltados para a janela onde o céu parecia uma pintura quebrada, uma fenda aberta na realidade.
A Doutora parou. Virou-se devagar.
— Pense, Abby — disse, com um olhar intenso. — Quem faria um ataque em um lugar onde pode ser engolido a qualquer momento?
Abby abriu a boca, surpresa.
— Ninguém... — murmurou.
— Exatamente. Um planeta congelado, instável, sob constante risco gravitacional? É o esconderijo perfeito para cientistas, refugiados, colônias vulneráveis. — A Doutora olhou em volta, o tom se tornando mais sombrio. — Ou pelo menos era. Até alguém ou algo descobrir esse segredo.
Abby se encostou na parede, digerindo a ideia.
— Então essas pessoas... estavam fugindo da guerra. Do colapso. E encontraram isso.
A Doutora assentiu.
— Um mundo onde o tempo se dobra ao redor de um abismo sem fundo. Onde as estrelas morrem em silêncio. Mas para quem não tem para onde ir... até mesmo o fim do universo pode parecer um recomeço.
Um chiado baixo ecoou nos alto-falantes rachados no teto. A Doutora olhou para cima, o soníco já em ação. Abby ficou tensa.
— Isso foi um sistema ativando? — perguntou.
— Ou algo tentando se comunicar — disse a Doutora. — Talvez... a estação esteja acordando.
— E se não for a estação?
A Doutora ficou em silêncio por um segundo. Depois sorriu.
— Então, Abby... teremos que ser educadas e ver quem está batendo à porta.
Perfeito! Vamos construir a cena com a Abby questionando o absurdo da proximidade com o buraco negro — algo que parece impossível para ela — e a Doutora explicando com base em física realista, porém com aquele toque Doctor Who de mistério e maravilha. A fala final da Abby será o alívio cômico perfeito, trazendo humor e humanidade em meio ao horror.
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Doctor Who — Capítulo: “Ecos no Vórtice” (Continuação)
Elas seguiam por um corredor curvo, iluminado apenas pela lanterna da Doutora. O teto vibrava levemente, como se a própria estrutura estivesse tensa, pressionada por forças cósmicas invisíveis.
Abby olhou pela lateral, onde havia uma janela parcial coberta por cristais de gelo. Limpou parte do vidro com a manga grossa e olhou para fora.
Lá estava ele.
O buraco negro.
Dominava metade do céu como uma ferida aberta na realidade, sua auréola dourada e distorcida girando em silêncio, dobrando a luz das estrelas atrás dele, puxando tudo ao redor com sua gravidade insondável.
— Doutora... — Abby chamou, ainda encarando o monstro celestial. — Por que a gente ainda não foi engolida por aquilo?
A Doutora parou, olhou pela mesma janela e respirou fundo.
— Excelente pergunta.
Ela girou o soníco entre os dedos, como se estivesse organizando a resposta em sua mente.
— Esse buraco negro é um objeto de massa extrema, mas o planeta está numa órbita de estabilidade marginal. Significa que ele gira ao redor do buraco negro numa distância crítica. Se estivesse mais perto, cairia. Mais longe, perderia o calor gerado pela gravidade e congelaria de vez.
— Então... a gente está exatamente no lugar onde não se morre nem frito, nem despedaçado?
— Exatamente. Uma órbita de equilíbrio gravitacional, gerando calor suficiente através de flexões de maré no núcleo. É o tipo de lugar onde o tempo se dilata de maneira significativa. O que se passa aqui em uma hora... pode ser dias fora da órbita.
Abby piscou.
— Então... tipo... se eu tirar uma soneca aqui, vou perder o meu aniversário?
A Doutora sorriu.
— Se você tirar uma soneca aqui, você pode perder o século.
Abby processou em silêncio por um instante. Depois soltou:
— É igualzinho a Interestelar.
A Doutora bufou, divertida.
— Vocês jovens e seus filmes.
— Não é um filme velho?
— Relativamente. Mas ainda errado em algumas partes.
Abby estreitou os olhos.
— Você tá dizendo que aquele negócio das ondas e da nave quase virando panqueca não acontece?
— A parte da dilatação do tempo, sim. A parte das ondas, talvez. A parte da nave virando panqueca? Só se tiver péssima engenharia.
— Aí, tá vendo? Interestelar com orçamento e bom gosto.
A Doutora deu uma risada leve, mas logo olhou novamente para o horizonte escuro além da janela.
— O problema não é o buraco negro. É o que escolheu viver perto dele.
Abby engoliu em seco.
— E você acha que... isso que matou o cara lá atrás... veio do buraco negro?
— Não. — A Doutora virou-se, agora mais séria. — Mas acho que ele acordou alguma coisa. Algo antigo. E faminto.
O silêncio caiu de novo entre as duas, pesado como a
gravidade do próprio céu.
— Então — disse Abby, forçando um sorriso. — Seguir em frente?
— Sempre — respondeu a Doutora.
E assim continuaram, com o peso do tempo estendido atrás de si — e a escuridão absoluta, apenas a alguns passos de distância.
A porta da sala de arquivos abriu com um rangido pneumático cansado, revelando um compartimento retangular cercado por monitores apagados, projetores holográficos escurecidos e consoles cobertos por uma fina camada de poeira de gelo. O ar ali dentro era mais denso, parado — como se cada átomo carregasse a memória do que aconteceu ali.
— Aqui é o coração da estação — murmurou a Doutora, passando os dedos pelo painel de controle. — Se alguém deixou respostas... estão aqui.
Ela tocou um botão circular no console central. As luzes tremeluziram, e então um bip eletrônico soou. As telas ganharam vida aos poucos — uma por uma — revelando fragmentos de gravações arquivadas.
Abby se aproximou lentamente, o capuz já pendendo para trás. A primeira imagem surgiu em azul-acinzentado.
> [ARQUIVO 429-B]
DATA: 312.03.88 | HORA: 16:02 HGT
CAM 3A – Laboratório Central
A gravação mostrou um homem de jaleco branco — jovem, com olheiras profundas e expressão de puro cansaço. Ele olhava diretamente para a câmera.
— "Se você está vendo isso... você chegou tarde demais." — disse ele, com a voz trêmula, mas clara. — "Nós abrimos. Pensamos que era gelo profundo. Mas... havia padrões."
Abby franziu o cenho.
— Padrões?
A imagem mudou para uma gravação de vídeo científica: um cilindro de gelo cortado com precisão. Dentro dele, estruturas negras, curvas, semelhantes a nervuras fossilizadas, se espalhavam em espiral. Quase orgânicas.
— "As leituras de temperatura começaram a subir sozinhas. E então o gelo... derreteu por dentro."
A gravação cortou abruptamente.
Nova imagem.
> [ARQUIVO 429-D]
DATA: 312.03.88 | HORA: 17:19 HGT
CAM 7B – Ala Médica
Alarme vermelho. O som distorcido de sirenes vibrava nos alto-falantes da sala. Médicos corriam. Uma mulher era trazida numa maca — o rosto dela estava coberto por uma máscara, e sua pele... havia se tornado transparente em pontos. As veias pulsavam como fios de luz. Ela gritava, mas não em palavras — em um padrão sonoro repetitivo.
— “É uma frequência. Um código…” — murmurou a Doutora.
O vídeo tremeu. Grãos. Estática.
De repente, o holograma mostrou uma gravação final.
> [ARQUIVO 429-F – Prioridade 1]
DATA: 312.03.88 | HORA: 19:02 HGT
CAM 1C – Sala de Controle
Três cientistas estavam trancados na cabine de comando. Luzes piscavam ao fundo, e a estrutura da estação parecia tremer. Um dos cientistas estava sangrando pelo nariz, olhos arregalados, a boca tremendo como se sussurrasse algo inaudível.
O outro, uma mulher de cabelos curtos e olhos úmidos, segurava um comunicador.
— "Se alguém ouvir... não tente salvar ninguém. Não... não matem a coisa. Ela aprende. Cada vez que interage... ela muda. Adapta. Reescreve. Ela nos entende agora."
Abby estava imóvel, pálida.
A tela tremulou.
Atrás da cientista, uma sombra surgiu. Lenta. Altíssima. Indefinida. Como um vulto feito de fumaça sólida, sem forma exata, oscilando como se o próprio espaço estivesse tentando escapar dela.
A cientista virou-se para trás.
Gritou.
A tela apagou.
Silêncio.
Nada além do leve ruído do sistema de projeção se desativando.
Abby respirou com dificuldade. Sua voz saiu baixa.
— Doutora... o que era aquilo?
A Doutora apertou os olhos, calculando, reflexiva.
— Algo que vive... ou se forma... em ambientes onde o tempo se estica. Onde a realidade é maleável. Talvez... um ser quântico. Um predador dimensional.
Ela virou-se para Abby com seriedade.
— Mas seja o que for... ele ainda está aqui. E tem mais um vídeo...
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O silêncio que seguiu o último arquivo era pesado como chumbo. Abby permanecia parada, os olhos vidrados na tela apagada. A Doutora, no entanto, não havia terminado.
Ela tocou outro comando no console. Um arquivo apareceu — trancado, criptografado em múltiplas camadas.
> [ARQUIVO 429-G – RESTRITO | Classificação: Protocolo Sombras]
CAM 9X – Laboratório de Contenção | Última gravação antes do colapso
— Esse... não foi feito para ser visto — murmurou a Doutora, os dedos pairando sobre os controles. — Mas se vamos entender com o que estamos lidando...
Ela apertou enter.
A imagem surgiu granulada, como se o próprio universo quisesse impedir que fosse revelada.
A câmera mostrava uma sala ampla, semicircular, com paredes cobertas de equipamento biomédico. Quatro pessoas estavam presentes — dois cientistas analisando um tanque de contenção no centro da sala, outro digitando furiosamente num terminal, e uma quarta figura mais afastada, tremendo, encostada contra a parede.
— "Níveis de pressão interna subindo!" — dizia uma das vozes, em pânico.
O tanque estava turvo. Dentro dele... algo se mexia.
Então veio o som.
Um estalido seco. Como gelo quebrando sob peso. O vidro do tanque fraturou num ponto. Depois outro.
— "Está vazando! Trava de segurança, agora!"
Muito tarde.
O vidro explodiu com um rugido abafado. E do tanque saiu uma gosma negra espessa — movendo-se como uma criatura viva, ondulando como se farejasse o medo na sala. A substância se espalhou rapidamente, ignorando gravidade, rastejando pelas paredes, pelo teto... em direção às pessoas.
— "NÃO! NÃO, NÃO, NÃO—"
O cientista mais próximo tentou correr. A gosma o alcançou em meio segundo, cobrindo sua perna, depois o tronco, escalando até o rosto como se tivesse fome.
Ele gritou.
Era um grito humano, dilacerante, a voz quebrando enquanto o corpo era erguido no ar por nada além da própria gosma que o engolia. Veias escuras surgiam em sua pele, como se algo estivesse drenando tudo dentro dele — sangue, calor, identidade.
Outro tentou ajudar — e foi puxado com violência para trás. A gosma parecia multiplicar-se, crescendo, dividindo-se, copiando os gritos que ouvia, como se estivesse aprendendo com o pânico.
As luzes piscaram violentamente. Um alarme começou a soar. A quarta figura — a mulher encostada na parede — começou a bater no botão de emergência.
— "Trancamento total! Trancamento—"
A gosma atingiu o console antes dela. Estourou uma fagulha.
A mulher gritou, mas o som sumiu em meio ao ruído crescente de vozes distorcidas.
O último frame mostrou todos os corpos no chão. Trêmulos. Drenados. Um deles ainda se mexia, vagamente, como se algo dentro dele ainda estivesse se adaptando ao novo hospedeiro.
A imagem congelou.
E então apagou.
FIM DO ARQUIVO
O som residual dos gritos continuava ecoando, como se as paredes da sala de arquivos também tivessem assistido aquilo — e lembrassem.
Abby recuou um passo, com a mão na boca.
— Elas... elas foram engolidas vivas.
— Pior. — A Doutora falava baixo. — Elas foram usadas.
— O que é essa coisa?
A Doutora parecia hesitar.
— Não sei. Mas está claro que ela não apenas mata. Ela aprende. Cada grito, cada resposta, cada tentativa de fuga... é absorvida.
— Como se estivesse testando a gente — disse Abby, mais para si mesma.
— Ou caçando. — A Doutora se afastou do console, os olhos escurecidos pela intensidade do que havia visto. — E agora que voltamos à estação... ela sabe que há mais para consumir.
Luzes de emergência voltaram a piscar no teto. Um alarme suave começou a tocar em algum lugar à distância.
"Quarentena ativada."
"Setores externos serão selados em 60 segundos."
A Doutora e Abby se entreolharam.
— Isso não é automático, é?
— Não — respondeu a Doutora, já correndo para a porta. — Alguém — ou algo — acabou de nos trancar com a coisa.
As luzes da sala de arquivos começaram a piscar em vermelho. O som do alarme de quarentena preenchia o ar com um tom agudo, cortante, que vibrava nas costelas.
“Quarentena ativa. Setores serão selados em 45 segundos.”
A Doutora correu até o terminal lateral e tentou desativar o lockdown com o soníco, mas o painel piscava com uma única mensagem em vermelho:
“Comando Central Remoto Ativo — Sob Proteção Nível Sigma.”
— Estamos sendo trancadas manualmente — disse ela, tensa. — E não é por nenhum humano.
Abby recuou alguns passos, ainda em choque pelas imagens do ataque. Ela olhou para o teto... e congelou.
— Doutora... — sussurrou.
A Doutora levantou os olhos.
Do sistema de ventilação, bem acima delas, uma gota escura caiu com um ploc pesado no chão.
Depois outra.
E mais uma.
Gotas negras, espessas, que não pareciam obedecer à gravidade comum — escorriam em linha reta, mas contorciam-se no ar como se decidissem o próprio caminho. Onde caíam, pequenas rachaduras se abriam no metal, como se corrompessem a matéria.
— Hora de correr! — gritou a Doutora, agarrando Abby pela mão.
As duas dispararam para o corredor.
O chão rangia sob seus pés. As luzes tremiam em estalos. O som da gosma atrás delas parecia um mix de líquido e carne arrastada — borbulhante, molhado, horrivelmente vivo.
“Setor 4 será selado em 30 segundos.”
— Rápido! Vire à esquerda! — gritou a Doutora.
O corredor se curvava em direção a uma ala de escape, onde antigas cápsulas de manutenção ainda estavam armazenadas. As paredes começavam a brilhar com uma umidade escura, como suor de uma criatura doente. A gosma se estendia por ductos, escorrendo como dedos finos entre rachaduras.
Passaram por uma curva estreita — e no momento em que a Doutora cruzou a porta de acesso seguinte, um alerta soou.
“SELAGEM IMINENTE. PORTA 72B — FECHAMENTO EM 3... 2...”
— ABBY, CORRE!
Abby esticou o braço, mas a escotilha desceu como uma guilhotina de metal entre as duas.
CLANG!
Ela bateu no metal, tropeçando para trás.
— NÃO! NÃO, NÃO, NÃO!
A Doutora do outro lado martelava o painel.
— Abby! Você me ouve?
— Sim! Tô aqui! — Abby encostou o rosto na divisória. — Você consegue abrir?!
— O sistema bloqueou acesso remoto. Alguém está controlando isso de fora da estação ou... — a Doutora olhou para o teto — de dentro do próprio código dela.
Abby tentou iluminar o corredor atrás de si.
— Tem goteiras aqui também! — gritou.
Do alto, uma gota negra caiu no chão. Ela se esticou, como um nervo. Depois outra. E mais outra. Cada uma começando a rastejar para frente, como se farejassem calor humano.
A Doutora pressionou o soníco com mais força.
— Abby, me escuta. Há uma escotilha de emergência à sua esquerda, com uma alavanca manual. Se você conseguir destravar o selo hidráulico, pode sair por ela. Corre!
— E você?!
— Eu te alcanço. Sempre alcanço.
Abby olhou uma última vez para o rosto da Doutora atrás do visor espesso da escotilha.
Depois virou-se e correu.
A gosma começou a descer pelas laterais do corredor, escorrendo pelas luzes, como veias negras pulsando.
A escotilha 72B ficou em silêncio.
Do outro lado, a Doutora recuou devagar.
O metal onde a gosma caía atrás dela... começava a derreter.
— Certo — sussurrou. — Agora você me escuta, coisa sem nome. Você quer caçar? Então vamos caçar...
A respiração de Abby era um trovão dentro do próprio peito. Corria por corredores estreitos, os pés derrapando no chão metálico umedecido pelas primeiras trilhas da gosma que se infiltrava. Cada vez que olhava para trás, via mais daquilo: sombras líquidas se contorcendo entre gretas, pingando das junções do teto como veneno vivo.
Virou à esquerda, depois à direita — o mapa que a Doutora descrevera mentalmente ecoava em sua cabeça, embaralhado pelo medo.
A escotilha.
Ali!
A alavanca vermelha brilhava como um farol. Ela saltou para ela, escorregando de joelhos até bater com o ombro no console hidráulico. Forçou a trava com as duas mãos — ela rangeu, teimosa, congelada.
— Vai... anda, sua desgraçada... VAI!
Com um grito, puxou de uma vez.
CLUNK!
A escotilha desceu com um baque seco, se abrindo lateralmente com vapor escapando por entre as frestas. Abby cambaleou para dentro, o corpo em alerta, o coração descompassado.
Luz suave. Ar estável. E — silêncio.
Era uma sala arredondada, compacta, com paredes reforçadas por camadas de blindagem e isolamento térmico. O chão era revestido de borracha, como um módulo de sobrevivência emergencial. E o mais importante — não havia dutos de ventilação.
Ela caiu de joelhos, arfando.
Depois ouviu o clique de uma arma sendo engatilhada.
— Fique onde está! — uma voz masculina gritou.
Abby levantou as mãos, ofegante.
— Eu não sou uma dessas coisas! Eu só... eu entrei correndo... por favor!
A arma tremia nas mãos de um homem encurvado, barba por fazer, olhos fundos. Ao lado dele, uma mulher jovem, de cabelos escuros e rosto pálido, protegia algo atrás das pernas.
Uma criança.
Abby congelou ao vê-la — não pela ameaça, mas pela surpresa. Uma garotinha de uns sete anos, escondida, os olhos arregalados como os de um animal em fuga.
A mulher pôs a mão no braço do homem.
— Olha pra ela... não é uma daquelas coisas. Ela tá ofegante. Humana.
O homem hesitou. Depois abaixou lentamente a arma improvisada — parecia ser um rifle de plasma incompleto.
Abby abaixou as mãos, engolindo em seco.
— Sou Abby. Tô com... com uma amiga. Ela tá do outro lado da escotilha. A gente viu o vídeo... as gravações. A coisa no tanque.
O homem se encostou na parede, visivelmente abalado.
— Então já sabe. — Ele suspirou. — Vocês duas são as primeiras pessoas vivas que vemos em três semanas.
A mulher se aproximou um pouco.
— Eu sou Kellen. Ele é Rho. Essa é Luma — disse, gesticulando com a cabeça para a garotinha que continuava em silêncio.
— Vocês estão aqui desde o colapso? — Abby perguntou, ainda com a voz baixa.
— Ficamos presos nesse módulo — explicou Rho. — Um sistema autônomo. Quando os protocolos ativaram o lockdown, essa sala selou automaticamente. Sem dutos, sem entradas. Só essa escotilha.
— E o resto da equipe?
Rho olhou para baixo.
— Drenados. Tomados. Alguns... desaparecidos.
A garotinha, Luma, sussurrou algo. A voz era pequena, quase inaudível.
— A gosma fala com eles.
Abby olhou para ela, assustada.
— O quê?
Kellen se ajoelhou ao lado da filha e a abraçou, tentando acalmá-la.
— Ela ouviu. Quando começou... a coisa falava. Copiava vozes. De dentro das paredes. Usava os gritos... os nomes... as lembranças.
Abby sentou-se lentamente, os olhos se enchendo de lágrimas que ela nem percebeu.
— A Doutora precisa saber disso... ela ainda tá lá fora.
Rho olhou para a escotilha, tenso.
— Se vocês chegaram aqui... ela pode ter sobrevivido. Mas a coisa também.
Kellen apertou a mão de Abby.
— E agora vocês duas são
o que resta.
Silêncio por um momento.
Até a garotinha, Luma, olhar para a porta com olhos muito abertos.
— Tá vindo de novo.
Um som abafado. Lá longe.
CLANG.
...CLANG.
...CLANG.
Passos.
Pesados.
Molhados.
Ou o som de algo... arrastando carne pelo chão.
A Doutora estava lá fora.
Ou algo estava usando os sons dela.
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