Doctor Who - Primeira Temporada (2025)

3 Episódio 1 - A Noite das Mil Faces ( Parte 3 de 5)



A floresta parecia mais densa enquanto a Doutora e Nayeli desciam a trilha sinuosa. O entardecer, antes apenas uma promessa no céu, agora tingia tudo com tons rubros e violetas, como se a própria terra sangrasse sob o peso dos acontecimentos.


O silêncio das árvores era quebrado apenas pelo som apressado de seus passos e pela respiração ofegante de Nayeli, que segurava firme a tocha improvisada.


— Você viu de perto... aquilo... era mesmo Kíyáani? — a voz dele quebrou o silêncio, rouca, carregada de incerteza.


A Doutora parou por um segundo, como se a pergunta a atingisse num lugar que ela preferia evitar.


— Não — respondeu, respirando fundo. — Aquilo era uma cópia. Um molde. Como um eco de carne... distorcido. Um reflexo do que ele foi, mas... vazio por dentro.


Enquanto falava, limpava as mãos na calça, ainda sujas de terra e fuligem. O cheiro metálico da caverna já começava a se anunciar antes mesmo de chegarem à entrada.


— Se quisermos entender como impedir... vamos precisar conhecer tudo o que vocês sabem sobre os Skinwalkers — ela virou-se para encará-lo com firmeza. — Tudo. Cada detalhe. Inclusive... os que vocês têm medo de contar.


Nayeli hesitou, os olhos baixos. O peso da responsabilidade parecia grande demais para alguém da idade dela. Mas então, com um suspiro resignado, assentiu.


— Tem passagens nessa caverna... os antigos diziam que era lá que os Yee Naaldlooshii faziam seus rituais — a voz saiu quase num sussurro, como se tivesse medo que as próprias palavras despertassem algo. — Ninguém vai lá desde que minha avó era criança. Mas... eu posso te levar.


A Doutora sorriu, o olhar agora mais firme, um brilho determinado surgindo em seus olhos.


— Perfeito. Antes que o entardecer vire noite.


Sem mais palavras, as duas desapareceram entre os arbustos.


O caminho era estreito, ladeado por formações rochosas que pareciam dentes quebrados cravados no solo. A luz da tocha tremia nas mãos de Nayeli, refletindo nas paredes e projetando sombras que pareciam se mover por conta própria.


No meio do caminho, a Doutora notou que Nayeli andava cada vez mais calada, o olhar perdido entre as pedras.


— Sabe... você não precisava ter vindo — disse, ajustando a alça da bolsa onde carregava o scanner improvisado.


— Eu sei... — ela respondeu, desviando o olhar. — Mas... alguém tem que ajudar.


A Doutora parou por um instante, analisando a garota.


— E por que você?


— Sempre fui aquela que pergunta demais. Que escuta histórias velhas e acha que tem alguma verdade nelas. — respondeu Nayeli, sem hesitar. — Vai ver sirva de algo.


A Doutora sorriu de leve e Nayeli respirou fundo, apertando a tocha com mais força.


— Eu acredito que vai sim— respondeu a Doutora, recomeçando a andar. — E é exatamente por isso que estou deixando você vir.


A partir dali, seguiram lado a lado. O silêncio entre elas já não era mais de medo... mas de entendimento.


Ao chegarem à entrada da caverna, Nayeli parou abruptamente. Diante delas, um buraco negro na rocha, com paredes internas cobertas por inscrições antigas. Pinturas desgastadas pelo tempo, mas que ainda mantinham figuras reconhecíveis: formas humanas com olhos exagerados, bocas abertas em gritos... e outras... com a pele sendo arrancada ou trocada.


A Doutora passou os dedos pelas figuras, sentindo a textura áspera da pedra.


— Bom... isso é... reconfortante — murmurou com ironia.


Nayeli se manteve alguns passos atrás, visivelmente desconfortável.


— É aqui onde diziam que... eles... trocavam de pele. Onde faziam os rituais para invocar os espíritos dos animais. Mas os antigos também diziam que... às vezes... algo respondia de volta.


A Doutora ligou o scanner. Uma onda de estática explodiu no visor. O aparelho apitou descontroladamente até explodir em sua mão.


— Nossa! Claro... ruído dimensional, distorção de frequência... como se tivesse um campo de sobreposição por aqui. Quase como um... véu fino entre camadas de realidade.


Ela respirou fundo.


— Bom, se há respostas... talvez seja aqui dentro que eu as encontre.


Sem esperar, deu os primeiros passos galeria de rocha adentro. Nayeli hesitou, mas logo a seguiu.


O ar era pesado. Cheiro de terra úmida, de musgo... e de algo mais. Algo metálico. Como sangue antigo.


As paredes ficavam mais estreitas conforme avançavam, obrigando-as a andar lado a lado. Pequenos estalidos podiam ser ouvidos à distância, como se pedras estivessem se movendo sozinhas.


De repente... um sussurro.


— Volte... volte...


Nayeli congelou no lugar.


— Você ouviu isso?


A Doutora parou, olhando ao redor.


— Ouvi... e não foi alucinação auditiva. Não com esses níveis de ressonância.


Mais alguns passos, e então... um salão natural se abriu diante delas. Um espaço amplo, com estalactites como presas apontando para baixo e marcas de mãos humanas nas paredes, como se várias pessoas, ao longo dos séculos, tivessem tentado deixar ali seu último aviso.


No centro... uma fogueira apagada.


Mas... as cinzas ainda estavam mornas.


A Doutora se ajoelhou, passando os dedos pelas brasas.


— Alguém esteve aqui. Recentemente.


Nayeli se aproximou, apontando para uma marca no chão: pegadas... descalças... mas com proporções anormais. Como se os pés fossem humanos... mas alongados. Deformados.


— Não estamos sozinhas aqui.


Antes que pudessem reagir, o som de uma pedra sendo derrubada ecoou por trás de uma das passagens laterais.


A Doutora ergueu a tocha das mãos de Nayeli, avançando para olhar... mas o corredor adiante estava vazio.


De repente... uma nova voz soou... desta vez atrás delas.


— Doutora...


Ela virou-se num sobressalto.


A voz... era dela mesma.


A mesma entonação. O mesmo timbre. Como se alguém... ou algo... tivesse escutado cada palavra dita nos últimos dias... e agora estivesse reproduzindo.


Nayeli arregalou os olhos.


— Mas... foi você que falou isso, não foi?


— Não... — disse a Doutora, o rosto agora mais sério do que nunca. — Definitivamente não fui eu.


Do fundo da caverna, novas vozes começaram a surgir... vozes da aldeia... vozes das vítimas... todas misturadas... sobrepostas... um coro distorcido...


— Doutora... venha... junte-se a nós...


Ela respirou fundo, o olhar agora duro, resoluto.


— Ok... chega de sustos — disse, erguendo a tocha. — Que meleca...


Nayeli assentiu com um nervoso aceno de cabeça.


E juntas, mergulharam ainda mais fundo na fonte da voz... que parecia se fechar ao redor delas, as paredes pulsando com uma vibração quase imperceptível, como se a própria rocha respirasse. Nayeli andava cada vez mais perto da Doutora, a tocha tremendo em sua mão.


Os ecos das vozes ainda pairavam no ar, cada vez mais próximos... mas ainda presentes o suficiente para arrepiar a pele.


De repente, um novo som cortou o silêncio: passos... pesados... arrastados... vindos de um túnel lateral à frente.


A Doutora parou, ergueu a mão para Nayeli recuar um passo e estreitou os olhos.


— Seja lá o que for... está perto.


Elas avançaram devagar, a luz da tocha oscilando contra as paredes cobertas de marcas antigas. Então, finalmente... o corredor se abriu para um salão mais amplo.


Ali... à frente... parado entre as sombras... o ser que os nativos chamavam de "aquele que anda sobre as peles".


Mas dessa vez... não tinha mais o rosto da vítima anterior.


Tinha o rosto da própria Doutora.


Os cabelos, o olhar penetrante... até mesmo o jeito como mantinha a cabeça levemente inclinada para o lado... uma cópia quase perfeita. A única diferença... era o sorriso. Largo demais. Estranho demais. Quase... predatório.


Nayeli deu um passo para trás, sufocando um grito.


— Doutora... isso... isso não é possível...


A Doutora, por um instante, congelou. O choque da própria imagem distorcida ali à sua frente era real... visceral.


— Ah... então é isso… eu sou assim? Nossa, tá... foco!— murmurou, respirando fundo. — Você não copia só aparência física... você lê... interpreta... torce o que vê.


O Skinwalker deu um passo à frente. E então... falou, copiando a voz da Doutora. Perfeita. Idêntica.


— Sempre tão curiosa... sempre tão pronta para resolver os problemas de todo mundo... mas olhe para você agora... perdida... com medo... com sangue de inocentes nas mãos...


A Doutora cerrou os punhos, lutando para manter a mente clara.


— Essa tática de manipulação psicológica é velha, sabia? Muitos já tentaram. Cybermen, Daleks, até um ou dois pesadelos de Gallifrey. Sabe o que todos eles tinham em comum? Falharam.


O Skinwalker apenas inclinou a cabeça para o outro lado, como um animal estudando a presa.


— Eu não sou eles... Sou um sobrevivente. — sibilou.


— Não. Você é um parasita.


Sem aviso, o ser avançou. O movimento era antinatural: os braços se alongando além do limite humano, os ossos estalando sob a pele enquanto as articulações se deformavam para alcançar as duas.


A Doutora puxou Nayeli pelo braço, desviando por pouco de um golpe que esmagou uma das rochas ao lado delas.


Correndo por uma trilha estreita que ladeava o salão, tentavam ganhar distância, mas a criatura vinha logo atrás, suas garras raspando nas paredes de pedra, criando faíscas.


Em meio à corrida, a Doutora arriscou um olhar para trás e gritou:


— Nayeli! A saída! Tem uma fenda na lateral! Agora!


As duas se jogaram para dentro de uma abertura estreita, mal cabendo lado a lado. A criatura tentou alcançá-las, mas ficou presa por um instante, urrando de frustração.


Dentro do novo corredor, respirando com dificuldade, Nayeli encostou-se na parede.


— Ela... ela tem seu rosto... a sua voz... ela sabe quem você é!


A Doutora apoiou as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.


— É exatamente por isso que não podemos hesitar. Ela não só nos vê... ela nos entende. Está me estudando. O que significa... — ela ergueu os olhos, com um sorriso cansado mas determinado. — Que agora também é minha vez de estudá-la.


— Enquanto ela me persegue... Eu tento escanear com a chave de fenda. E dessa vez... vamos descobrir de onde exatamente essa... coisa... está vindo.


Nayeli olhou para ela com um misto de medo e admiração.


— E se ela nos alcançar antes disso? Ou se a chave falhar de novo?


A Doutora respirou fundo, limpando o suor da testa.


— Então... improviso. Sou boa nisso. Pronto?


— Pronto


E com isso, as duas retornaram aos túneis escuros... A escuridão da caverna parecia engolir tudo. Cada passo que davam era acompanhado de estalos longínquos, como se as próprias paredes sussurrassem em línguas antigas e esquecidas.


Nayeli caminhava poucos passos atrás da Doutora, segurando firme a tocha enquanto lutava para controlar a respiração. Seus olhos varriam as sombras com desconfiança, como se a qualquer segundo algo pudesse emergir da pedra.


— Eu não gosto disso... — sussurrou o jovem, quase para si mesma.


A Doutora parou, girando a cabeça apenas o suficiente para que Nayeli a ouvisse.


— Nem eu... — disse, a voz baixa, mas carregada de foco. — Mas vamos continuar. Só mais alguns metros.


A passagem se estreitou, obrigando-as a andar quase de lado, ombro a ombro. Nayeli tropeçou numa pedra solta, e a Doutora esticou o braço para segurá-la antes que caísse.


— Ei... devagar. Estou com você.


— Eu sei... — Nayeli respondeu, os olhos brilhando mais de medo do que de confiança.


De repente... um ruído. Como o som de unhas arranhando pedra. Logo à frente.


A Doutora parou em seco, erguendo a mão em sinal de silêncio. Nayeli congelou.


Mais um som... dessa vez... um rosnado baixo.


Então... de dentro das sombras... algo se moveu.


— Nayeli... para trás... agora! — a Doutora empurrou a garota instintivamente, colocando-se entre ela e o vulto que surgia.


O Skinwalker emergiu com um movimento grotesco. Sua forma parecia em constante mutação: por um instante, o rosto era o de Kíyáani... depois, o de um lobo... e então, num instante mais horrível ainda... o da própria Doutora.


— Não... — a Doutora sussurrou para si mesma, sentindo um arrepio percorrer a espinha. — Isso não...


Antes que pudesse terminar, a criatura avançou.


A Doutora reagiu rápido, puxando Nayeli para o chão no último segundo, fazendo ambas rolarem para o lado enquanto um dos braços da criatura — agora alongado, com dedos finos como lâminas — acertava a parede atrás delas, arrancando pedaços de rocha.


— Corre! Agora! — gritou a Doutora, empurrando Nayeli na direção de uma trilha lateral.


As duas correram, Nayeli ainda com a tocha na mão, tremendo, mas obedecendo. A Doutora vinha logo atrás, lançando olhares rápidos por cima do ombro.


O Skinwalker os seguia, se arrastando pelas paredes e pelo teto como um animal fora de si. Sua velocidade era antinatural. Um instante, estava a metros de distância. No outro, já quase os alcançava.


Chegando a uma bifurcação, Nayeli hesitou.


— Por onde?!


— Direita! Esquerda! Sei lá!— gritou a Doutora, puxando-a sem dar tempo para dúvidas.


O túnel da direita era mais estreito, e isso jogava a favor delas: a criatura parecia ter dificuldade para se mover com o corpo distorcido entre as paredes apertadas.


Mas não por muito tempo.


De repente, a tocha de Nayeli apagou-se com uma rajada de ar frio vindo de dentro da pedra.


As duas ficaram no escuro.


— Fica comigo! — A Doutora agarrou a mão de Nayeli, puxando-a pela escuridão. Sentia o coração martelando no peito, o som da própria respiração ofegante misturado ao eco dos passos atrás delas.


A cada curva, a Doutora tentava lembrar o mapa mental que criara do lugar em poucos minutos. Calculando saídas. Buscando uma vantagem.


Um novo golpe. Um estalo alto. O teto de pedras desmoronou parcialmente atrás delas, bloqueando parte do caminho.


Nayeli tropeçou e caiu de joelhos.


— Não consigo... — murmurou, tremendo.


A Doutora se ajoelhou ao lado dela num segundo.


— Consegue sim. Olha pra mim. Agora! — Sua voz era firme, um comando carregado de urgência. — Respira. Isso. Isso. Eu sei que tá com medo. Eu também tô. Mas agora... a gente só precisa dar mais alguns passos. Depois a gente grita, chora... o que quiser. Mas agora... a gente corre.


Nayeli assentiu com a cabeça, os olhos arregalados e úmidos.


A Doutora ajudou-a a levantar, abraçando-a por um segundo, como um escudo humano, antes de fazê-la correr outra vez.


Atrás delas, a criatura urrava. Mas o som... parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo agora. Como se a caverna inteira vibrasse com aquele grito.


Finalmente... um lampejo de esperança.


A Doutora viu uma abertura lateral, larga o bastante para elas passarem de lado.


— Por ali!


As duas se enfiaram pela fenda estreita, os ombros raspando nas paredes. Nayeli chorava em silêncio, respirando em soluços curtos.


Ao passar, a Doutora puxou a jovem com força, até caírem de joelhos do outro lado. A criatura tentou segui-las... mas a abertura era estreita demais. A Doutora viu o rosto distorcido empurrando-se contra as pedras, os olhos dela mesma encarando-as com ódio selvagem.


— Vamos... vamos... — sussurrou a Doutora, puxando Nayeli para levantar novamente.


Mais à frente, o túnel começava a abrir para uma nova galeria. A Doutora tirou do bolso o que restava da sua chave de fenda e começou a mexer rapidamente nos fios expostos.


— O que você tá fazendo? — perguntou Nayeli, ofegante.


— Improvisando... como sempre.


Com um último ajuste, a Doutora girou um pequeno botão.


Um pulso agudo de energia se espalhou pelas paredes da caverna. Por um instante, o Skinwalker recuou, como se a frequência tivesse o atingido de alguma forma.


— Isso nos comprou uns minutos... talvez menos — disse a Doutora, guardando o dispositivo improvisado.


Nayeli a olhou, ainda trêmula.


— Isso vai parar aquela coisa?


A Doutora respirou fundo.


— Não. Mas vai deixar ela bem irritada.


Segurou firme a mão de Nayeli, apertando com força.


— Agora... seguimos em frente. E não sai da minha vista


(...)


A galeria à frente era mais ampla, mas ainda assim claustrofóbica. O teto era baixo em alguns pontos, obrigando as duas a caminhar agachadas. Estalactites pingavam gotas geladas que caíam com um som ritmado, como uma contagem regressiva. O ar parecia mais denso ali dentro... carregado de eletricidade estática. Cada fio de cabelo de Nayeli e da Doutora começava a se arrepiar.


A Doutora mantinha o scanner improvisado em uma mão e segurava firme o braço de Nayeli com a outra, como se a conexão física entre as duas fosse a última âncora contra o pânico.


— As leituras estão oscilando... — murmurou ela, franzindo o cenho enquanto observava os impulsos instáveis do aparelho. — O campo dimensional aqui... tá vibrando como se duas camadas de realidade estivessem... colidindo. Ou... tentando se fundir.


— O que isso significa? — Nayeli perguntou, ainda ofegante, mas um pouco mais controlada.


— Que essa coisa... não pertence totalmente a esse plano. Ela não é só física... é um tipo de ruptura... como se estivesse tentando existir entre dois mundos ao mesmo tempo.


Nayeli engoliu em seco.


— Como um espírito?


A Doutora hesitou antes de responder.


— Mais ou menos. Mas com... dentes. E garras. E, aparentemente... um senso de humor bem distorcido. Mas pra vocês, serviria.


Enquanto avançavam, a iluminação começou a mudar. Um brilho fraco e esverdeado emanava das paredes, vindo de líquenes fosforescentes que cobriam as rochas. Era uma luz doentia, mas suficiente para que pudessem guardar o que restava da tocha apagada.


— Não gosto desse lugar... — Nayeli murmurou, apertando o passo para ficar ao lado da Doutora. — Isso aqui... É loucura...


— Concordo plenamente. — A Doutora passou a mão pela parede, sentindo a vibração que parecia pulsar da própria rocha. — Mas, se é loucura ou não... vamos descobrir o porquê.


Chegaram a um ponto onde o túnel se alargava em um novo salão. Um espaço circular, com colunas naturais de pedra espalhadas por todo o ambiente. No centro... um círculo de símbolos entalhados no chão. Geometria irregular, linhas tortas... como se alguém os tivesse feito às pressas... ou em desespero.


Nayeli parou de súbito.


— Eu conheço isso... — sussurrou ela, a voz tremendo.


— O quê?


— Minha avó contava... sobre os lugares onde os antigos tentaram... prender os Yee Naaldlooshii. Faziam marcas... selos. Como armadilhas.


A Doutora se agachou ao lado das inscrições, analisando cada traço.


— Eles tentaram conter... mas falharam. — disse, passando os dedos pelas marcas corroídas pelo tempo.


Antes que Nayeli pudesse responder, uma rajada de vento percorreu a caverna. Forte o bastante para levantar poeira e derrubar pequenas pedras. O chão vibrou sob os pés delas.


E então... vozes.


Dezenas delas.


Todas misturadas... fragmentadas... algumas chorando... outras sussurrando... e uma, mais alta... mais próxima... a voz da Doutora... de novo.


— Nayeli... cuidado... — a Doutora disse, puxando a jovem de volta para junto de si no exato instante em que uma sombra atravessou o salão, movendo-se numa velocidade impossível.


O Skinwalker.


Agora... não mais com uma só forma.


Seu corpo oscilava entre figuras: o rosto de Nayeli, o da própria Doutora... depois o de um homem velho da aldeia... e de novo o de Kíyáani. Como se estivesse testando... provocando ou sobrecarrega após copiar a Doutora.


— Chega disso... — a Doutora sussurrou, ativando o cilindro com uma última carga de energia residual. Um campo de vibração se espalhou do chão, forçando a criatura a recuar alguns passos, gritando com todas as vozes ao mesmo tempo.


— Nayeli... ouve bem. Eu vou criar uma distração. Você vai correr pra aquele túnel ali, à esquerda. Tá vendo? — A Doutora apontou rapidamente para uma passagem lateral.


— Mas... e você?!


— Eu me viro. Só vai. Agora!


Nayeli hesitou por um segundo, os olhos arregalados de medo... mas então assentiu, disparando na direção indicada.


A Doutora girou o cilindro uma última vez e arremessou-o contra o chão bem no centro do círculo de selos. Uma explosão de luz e som preencheu o espaço, fazendo o Skinwalker urrar de dor, recuando mais uma vez.


Sem perder tempo, a Doutora correu atrás de Nayeli, ouvindo atrás de si o som das pedras desabando e as vozes do Skinwalker se tornando mais distantes... mas ainda presentes.


Ao alcançarem o novo túnel, a Doutora agarrou Nayeli pela mão e não parou até sentirem o ar começar a mudar... ficando menos denso... menos saturado... sinal de que estavam se afastando da zona mais instável.


Ambas caíram de joelhos quando finalmente encontraram um alargamento na caverna, onde a luz de uma fenda no teto deixava entrar um fraco brilho do entardecer do lado de fora.


Por um instante... silêncio.





A escalada pela fenda estreita era difícil. As pedras eram lisas, cobertas por umidade, e a luz do entardecer parecia cada vez mais distante, como um último fio de esperança.



A Doutora subia na frente, testando cada apoio antes de indicar para Nayeli onde pisar. A jovem vinha logo atrás, os dedos escorregando, os braços já tremendo de exaustão.



— Estamos quase lá... — disse a Doutora, esticando a mão para puxá-la. — Só mais um esforço.



Nayeli tentou alcançar a mão estendida... mas antes que pudesse agarrá-la, um som cortante ecoou pela galeria abaixo.



Um estalo... como ossos quebrando.



E então... algo envolveu o tornozelo de Nayeli.



A jovem gritou, sendo puxada violentamente de volta para baixo.



— Não! — a Doutora berrou, sem hesitar, descendo dois metros de volta num salto desajeitado, deslizando pela pedra até alcançar Nayeli.



A garota se agarrava desesperadamente à parede, as unhas rasgando a pele dos dedos enquanto a força invisível a arrastava para dentro da escuridão.



Sem pensar, a Doutora cravou os braços ao redor da cintura de Nayeli, forçando com todas as suas forças para mantê-la ali.



— Não solta de mim! — Nayeli gritou, os olhos arregalados de pânico.



— Nem pensar! — a Doutora respondeu entre os dentes, sentindo os músculos do braço queimarem de esforço.



Por um segundo, parecia que ambas seriam engolidas pelas sombras... até que, num acesso de desespero, a Doutora puxou com toda a força do corpo, arrancando Nayeli do alcance da criatura.



As duas rolaram juntas por um trecho de pedra mais larga, se chocando contra a parede oposta da galeria. Nayeli soluçava, o rosto enterrado contra o ombro da Doutora.



A Doutora a segurou firme, olhando para a fenda abaixo.



De dentro da escuridão... o Skinwalker os observava.



Seus olhos... agora múltiplos... refletindo a pouca luz que entrava da abertura no teto.



Não tinha mais só o rosto da Doutora... ou o de Kíyáani... tinha uma colagem grotesca de feições humanas sobrepostas... como se estivesse absorvendo rostos... acumulando.



As vozes vieram de novo... agora em coro... Nayeli... a Doutora... as vozes da aldeia... todas misturadas... todas saindo daquela coisa.



— Sa... lva... me... — sibilou o Skinwalker, distorcendo o próprio eco.



A Doutora sentiu o estômago revirar.



— Não... chega disso. — sussurrou, com um ódio frio crescendo no peito.



Ela então puxou Nayeli pela mão.



— Vamos... sem olhar pra trás.



Subiram de novo. As mãos da Doutora estavam em carne viva, os dedos escorregando... mas ela não parou. Nayeli também, mesmo com as pernas tremendo, forçava cada movimento.



Quando finalmente atravessaram a saída estreita para o lado de fora, caíram sobre o solo de areia e pedra, ofegantes, tossindo, os olhos lacrimejando com a luz do entardecer.



Por um momento... só o som do vento.



Nayeli rolou de lado, os ombros ainda tremendo de medo, o rosto marcado por lágrimas e poeira.



A Doutora deitou de costas, o peito subindo e descendo com força. Ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos no céu alaranjado... depois fechou os olhos... respirou fundo... e sorriu, mesmo que cansada.



— Não acredito que você pulou atrás de mim... — Nayeli disse, com a voz embargada.



A Doutora virou o rosto para ela, abrindo um meio sorriso.



— Bem... eu sou assim. Não deixo ninguém pra trás.



Nayeli respirou fundo, tentando controlar o choro.



— Obrigada...



— Ainda não terminamos, Nayeli. — a Doutora disse, agora se levantando com dificuldade e estendendo a mão para ajudar a garota a se erguer. — Aquela coisa... ela está sobrecarregda, instável... mas também está ficando desesperada. E quando monstros ficam desesperados... eles ficam perigosos.



Nayeli segurou a mão dela com força, agora com uma expressão mais firme.



— Então vamos acabar com isso.



A Doutora sorriu, orgulhosa.



— Exatamente o que eu queria ouvir.



As duas olharam para a fenda da caverna... onde, por um breve instante... os olhos da criatura ainda cintilaram na sombra... antes de sumirem de vez.



As duas ficaram ali por alguns segundos, de pé, ainda ofegantes, com a poeira grudando na pele suada. O vento do entardecer começava a soprar mais frio, mas o que realmente gelava a espinha de ambas era o que tinham acabado de testemunhar.



Nayeli abraçou os próprios ombros, tentando controlar o tremor das mãos.



— Doutora... o que foi aquilo? — a voz dela saiu baixa, quase um sussurro. — Por que... por que ele... pediu pra gente salvá-lo?



A Doutora continuava olhando para a fenda escura, os olhos semicerrados como se tentasse resolver um cálculo impossível só com a força da mente.



— Não era um pedido de socorro comum... — disse ela, finalmente. — Não com aquele... estado... — Ela passou a mão pela testa, limpando o suor. — Você viu... Nayeli... ele... ou aquilo... estava se despedaçando por dentro.



Nayeli assentiu, engolindo em seco.



— Tinha vários rostos... como se estivesse... se partindo... ou... brigando consigo mesmo.



— Exato... — a Doutora murmurou, começando a andar em círculos, claramente em modo de pensamento acelerado. — Várias vozes, vários rostos... mas o pedido... foi direto. Focado. Como se... como se uma parte daquilo ainda soubesse que o que está acontecendo é errado. Como se houvesse um fragmento... de alguém... preso ali.



Nayeli franziu o cenho.



— Tipo... como se tivesse alguém dentro dele... tentando escapar?



A Doutora parou abruptamente, virando-se para ela.



— Talvez... — os olhos dela brilharam com aquela mistura de medo e fascínio que só ela parecia conseguir sentir diante do perigo. — Ou talvez... o próprio Skinwalker esteja sendo consumido por algo maior. Algo que ele não consegue controlar, digamos que sou uma pessoa com varios rostos e ela sofreu, pois ela toma as memórias e bem, tenho bastante dos dois.



Ela respirou fundo.



— Nayeli... me diz uma coisa... — aproximou-se da jovem, abaixando o tom de voz. — Alguma vez... nas lendas da sua aldeia... alguém já contou uma história de um Skinwalker... que tenha sido caçado... ou punido... por algo maior? Um espírito... um predador... algo que até eles temem?



Nayeli hesitou, tentando puxar da memória.



— Tem uma... que minha avó contava quando eu era criança... — ela disse, olhando para o chão, a voz saindo trêmula. — Sobre um... "Vulto de Além da Pele"... algo que se alimenta... não só de carne, mas... de identidade... de memórias. Ela dizia que até os Yee Naaldlooshii fugiam disso... porque... quando ele te alcança... você esquece quem é... e vira só mais uma voz no meio da confusão.





A Doutora fechou os olhos por um instante, deixando a informação assentar.



— Isso faz sentido... — murmurou. — Isso explica o estado dele... explica as múltiplas vozes... e explica por que... mesmo sendo um Skinwalker... ele pediu ajuda. Mas não vimos mais nenhum, deve ser o último, está morrendo e com medo...



Ela então se virou, o olhar agora sério, determinado.



— Significa que o que estamos enfrentando... é pior do que só um Skinwalker. Muito pior.



Nayeli olhou para ela, assustada.



— E agora?



A Doutora respirou fundo, olhando para o céu, onde as primeiras estrelas já começavam a surgir.



— Agora... a gente volta para a aldeia. Eu preciso recalibrar meu scanner... e você... — ela sorriu de leve, colocando a mão no ombro do garoto. — Você vai me contar tudo que lembra dessa história. Cada detalhe. Porque se quisermos ter uma chance... vamos precisar conhecer esse inimigo melhor do que ele nos conhece.



Nayeli assentiu, limpando o rosto com a manga da blusa, tentando recuperar o controle.



— Tudo bem... mas... me promete uma coisa, Doutora.



— O quê?



— Se ele... se aquela coisa... pegar alguém de novo... a gente tenta... ajudar. Mesmo que seja ele.



A Doutora sorriu, dessa vez com uma tristeza contida no olhar.



— Prometo.





A trilha de volta parecia mais longa do que antes. Nayeli andava com passos rápidos, tentando acompanhar a Doutora, que, mesmo exausta, parecia movida por uma urgência invisível. A tocha já tinha sido apagada — agora, caminhavam sob a luz pálida da lua crescente.



Lá embaixo, a aldeia estava em movimento. Várias fogueiras acesas. Silhuetas de homens armados circulando. O som de discussões se espalhava pelo ar seco.



Quando atravessaram o limite da clareira, o primeiro a se colocar no caminho delas foi Tóbee, o chefe da guarda, com o semblante fechado como pedra.



— Até que enfim. — a voz dele saiu como um rosnado contido. — O prazo acabou há horas! Onde vocês estavam?



Antes que Nayeli pudesse dizer qualquer coisa, a Doutora avançou um passo.



— Em campo. Fazendo o trabalho que ninguém aqui parece ter coragem de fazer. — ela respondeu, num tom que soava mais impaciente do que ela gostaria.



Tóbee não recuou.



— E o que conseguiram? Porque enquanto vocês brincam de exploradoras, tem gente aqui querendo respostas. E querendo tomar decisões.



Atrás dele, um pequeno grupo de guerreiros da aldeia começava a se formar, muitos ainda armados com lanças, facas e o que tinham conseguido improvisar.



Nayeli respirou fundo, tentando controlar a ansiedade.



— Tóbee... nós encontramos o Skinwalker. Ele... ele estava mudando. Como se... estivesse sendo destruído por dentro.



O chefe da guarda arqueou uma sobrancelha, sem acreditar.



— Mudando? Destruído? — Ele riu, mas sem humor. — Mais uma história pra assustar criança?



A Doutora cruzou os braços.



— Isso é mais sério do que vocês imaginam. Há algo maior por trás disso. E se vocês saírem correndo pra caçar às cegas... vão acabar levando todos pra um massacre.



O olhar de Tóbee endureceu.



— Então o que sugere, forasteira? Que fiquemos de braços cruzados enquanto essa coisa nos caça, um por um?



Antes que a discussão escalasse, um grito atravessou a noite.



Todos congelaram.



Vinha do extremo norte da aldeia... perto do limite com as trilhas da montanha.



Em segundos, a aldeia inteira estava em movimento.



Tóbee puxou a faca da cintura, os outros guerreiros o seguindo.



A Doutora e Nayeli correram junto.



Ao chegarem, o que encontraram foi um jovem caído no chão, perto de uma cerca de madeira improvisada. Ele tremia, o olhar fixo em direção às árvores.



— O que aconteceu? — Nayeli se abaixou ao lado dele.



— Eu... eu vi... — o garoto balbuciava, apontando com a mão trêmula. — Ele estava ali... mas... estava... diferente...



A Doutora olhou na direção indicada.



E ali, entre as sombras das árvores... um vulto.



O Skinwalker.



Mas algo estava errado.



O corpo dele parecia... colapsado sobre si mesmo. As pernas falhavam a cada passo. Os braços tremiam como se os próprios ossos estivessem tentando se libertar da carne.



E o rosto... mudava a cada segundo.



Hora o rosto de Kíyáani... hora o da Doutora... hora de outros que ninguém ali reconhecia... rostos de mulheres, de velhos, até mesmo de animais... tudo sobreposto... como uma sequência infinita de máscaras sendo trocadas em agonia.



De repente... a criatura caiu de joelhos.



Uma série de estalos de ossos ecoou pela noite. O Skinwalker curvou-se para frente... vomitando uma substância escura no solo... como se fosse piche misturado com sangue.



E então... ergueu o rosto... com os olhos fundos, completamente negros... e a voz que saiu... veio rouca... quebrada... mas clara o suficiente para todos ouvirem.



— Por favor... me... ajudem... dor... bastante...



O silêncio que se seguiu foi absoluto.



Ninguém se mexeu.



Nem Tóbee... nem os guerreiros... nem Nayeli.



A Doutora apenas encarava... o coração acelerado... e a mente já disparando em mil teorias.



Por um instante... até o vento pareceu parar.



— Isso... — ela sussurrou para si mesma. — ...não faz sentido algum.



Antes que pudesse dar um passo à frente, o Skinwalker... ou o que restava dele... deu um último espasmo violento... e caiu, inerte, como se cada osso do corpo tivesse sido quebrado de uma só vez.



Atrás, Tóbee olhou para os outros homens e então para a Doutora.



— Agora chega. — Ele apontou para dois dos seus soldados. — Amarrem esse... isso... antes que resolva levantar de novo.



A Doutora ergueu a mão.



— Espera! Não toquem nele ainda! Eu preciso...



Mas os homens já avançavam.



A Doutora mordeu os lábios, frustrada... e ao olhar para Nayeli, viu a mesma mistura de medo e confusão estampada no rosto da garota.



— Isso só está ficando pior... — a Doutora murmurou... e já começou a pensar... em que mal, exatamente, elas tinham acabado de acordar naquela noite.