Doctor Who - Primeira Temporada (2025)
14 Episódio 3 - Ecos no Gelo (Parte 4 de 4)
O interior da TARDIS ainda estava em silêncio.
Os tremores haviam cessado. O perigo, deixado para trás no colapso de Glacius VII, parecia agora tão distante quanto uma lembrança enterrada no tempo.
Mas ninguém falava.
Rho permaneceu imóvel junto à porta, observando o lugar onde sua casa, sua estação, seu mundo, havia desaparecido.
Ele levou um longo momento antes de se virar. Envolveu a esposa num abraço apertado e puxou Luma para junto dos dois.
Olhou para a Doutora, sua voz baixa, cansada, mas carregada de algo novo. Algo que parecia esperança e medo ao mesmo tempo.
— Para onde vamos agora?
A Doutora ficou um instante em silêncio. Seus olhos se encontraram com os de Abby, e havia ali algo silencioso sendo compartilhado: uma promessa cumprida, outra começando.
Ela não respondeu.
Em vez disso, caminhou até o console, posicionou as mãos com delicadeza sobre os controles e sussurrou algo para a nave, como quem conversa com uma velha amiga. Uma alavanca foi puxada, uma engrenagem girou.
E o som surgiu.
Aquele som.
A música do impossível.
O vworp da TARDIS ecoou, suave, pela cabine.
O rotor girou, a luz oscilou — e a TARDIS se desmaterializou no vazio estelar, cruzando espaço e tempo com uma elegância quase melancólica.
Do lado de fora, o universo se dobrava.
E, quando o ruído cessou... estavam em outro lugar.
Com um último suspiro de energia, a TARDIS pousou suavemente sobre um campo de grama alta e dourada, ondulante ao vento.
A Doutora abriu as portas.
E o mundo lá fora parecia saído de um sonho.
Um céu de dois sóis — um âmbar, outro turquesa.
Montanhas cobertas de florestas cristalinas.
Animais de longas asas cortando o ar como pincéis vivos sobre uma tela sem fim.
Cidades ao longe, brilhando como espelhos, perfeitamente integradas à natureza.
Água corrente em rios limpos.
Crianças — rindo.
Um mundo vivo.
Pacífico.
E pronto para receber.
Rho caminhou até a porta com a esposa e a filha. Ele estendeu a mão. Sentiu o calor do sol.
Luma sorriu pela primeira vez em dias.
A Doutora observava em silêncio.
— Bem-vindos a Nova Elira — disse ela, finalmente. — O planeta mais gentil que conheço. Aceita refugiados, cuida deles, dá espaço para recomeçar.
— Por que ninguém ataca aqui? — perguntou Kellen, desconfiada.
A Doutora sorriu, de lado.
— Porque quem tenta atacar... acaba mudando de ideia.
Ela bateu com leveza no painel da TARDIS. A nave parecia ronronar em resposta.
— Essa é uma segunda chance — continuou. — Não vai apagar o que perderam. Mas talvez ajude a construir algo que valha a pena lembrar.
Abby se aproximou da porta, respirando fundo o ar daquele mundo.
— Isso aqui parece impossível.
— É. — disse a Doutora. — Mas é real. Porque alguém escolheu construir, não conquistar. E porque às vezes... o universo ainda é capaz de gentilezas.
O céu de Nova Elira era uma tapeçaria viva de cores em movimento — dourado e azul se encontrando nas nuvens esculpidas por ventos quentes. A relva alta se curvava ao toque dos passos de Rho, Kellen e a pequena Luma, que caminhavam lado a lado em direção à cidadela brilhante ao longe.
Pararam por um instante à beira de uma encosta suave, e se viraram uma última vez.
— Obrigado por tudo. — disse Kellen, a voz firme, mas emocionada. — Por não desistirem de nós.
— Nem por um segundo. — respondeu a Doutora com um sorriso orgulhoso, o casaco batendo ao vento.
Luma acenou com a mão pequena.
Abby devolveu o gesto com um aceno animado.
A família então seguiu seu caminho, atravessando a relva dourada. Não havia pressa, nem medo — apenas passos novos em terra nova. A Doutora os observou até que desaparecessem na paisagem, com aquele olhar que só alguém com milênios nas costas carrega. Um olhar de orgulho silencioso.
(...)
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De volta à TARDIS, a atmosfera era mais leve — como se a nave respirasse com alívio.
Abby, agora de volta às suas roupas normais — jeans surrados, uma camiseta de estampa indefinida e cabelo ainda bagunçado pelo caos anterior — caminhou até o console com passos tranquilos. Na mão, um copo de café recém-preparado, com vapor ainda subindo.
Colocou-o suavemente ao lado da Doutora, que estava inclinada sobre os controles, fazendo pequenos ajustes com a precisão de uma artista.
— Trouxe isso pra você. E antes que pergunte: sim, com açúcar. Não sei por que, mas sinto que você toma com açúcar.
A Doutora olhou de soslaio, aceitando o copo com um aceno discreto.
— Acertou.
Abby se apoiou na beirada do console, olhando as engrenagens girarem, a luz pulsante do rotor lançando reflexos nas paredes de coral.
— Posso te perguntar uma coisa?
A Doutora assentiu, sem desviar o olhar do café.
— Lá no hangar... quando você disse que era a última... quer dizer, não tem mais ninguém mesmo?
Silêncio.
O som da TARDIS preenchia o espaço com seu sussurro vivo.
— Porque o Mestre ainda existe, né? — continuou Abby, com cuidado. — Ele é do seu povo. Então... você não está tão sozinha assim, certo?
A Doutora respirou fundo.
Ergueu o olhar.
— O Mestre... existe, sim. Mas dizer que ele é como eu seria o mesmo que dizer que um incêndio é só outra forma de calor.
Abby arqueou uma sobrancelha, tentando esconder o quanto aquela resposta a entristecia.
— Então... ele não conta?
A Doutora deu um gole no café.
— Ele conta como uma lembrança do que eu perdi. Como uma cicatriz fala de uma ferida que nunca curou direito.
Ela se virou, enfim, encostando-se no console com os braços cruzados, olhando para Abby.
— O que sobrou de Gallifrey está espalhado em cacos pela eternidade. Alguns fragmentos, fantasmas, versões distorcidas... mas meu lar? Aquele de verdade? Está morto. E os que restaram... bem, poucos ainda olham para as estrelas com o mesmo amor.
Abby ficou em silêncio por um instante.
Depois sussurrou:
— Então você carrega tudo isso... sozinha?
A Doutora sorriu com ternura.
— Nem sempre. — disse, baixinho. — Tem gente que entra na TARDIS, rouba um pouco desse peso. Gente com coragem, coração, e um gosto questionável pra café.
Abby riu, engolindo a emoção.
— Ei! Esse café é ótimo, você que se acostumou mal com os do século 79.
— Justo. — A Doutora deu um gole mais longo. — É aceitável.
O rotor da TARDIS girou, emitindo um ruído mais alegre, como se risse com elas.
— Então... pra onde agora? — perguntou Abby, com os olhos brilhando. — Um planeta-carnaval? Um buraco de minhoca medieval? Uma ópera flutuante de baleias cantoras?
A Doutora se virou para o painel, digitando coordenadas que nem ela mesma compreendia completamente até o último segundo.
— Surpresa. Mas te dou uma dica.
Ela puxou a alavanca central.
— Vai ser histórico.
Abby sorriu largo.
— Isso não é nem mais surpresa.
O console da TARDIS vibrava com uma energia quase entusiasmada, como se a nave também sentisse o fim de um ciclo. As luzes pulsavam em tons suaves, dourados e azuis, refletindo nas paredes curvas com vida própria. O rotor central girava devagar, como um coração se preparando para correr novamente.
Abby circulava pelo console, ainda se acostumando com os detalhes, os símbolos alienígenas e os sons vivos. Cada botão parecia ter uma história. E cada história, um segredo.
A Doutora observava tudo com um meio-sorriso, o café agora terminado.
— Pronta pra partir, então? — perguntou ela, andando em direção à alavanca temporal.
— Como se eu fosse dizer não. — respondeu Abby, os olhos brilhando.
A Doutora parou. Estendeu a mão para a alavanca... e então recuou.
— Você quer fazer as honras?
Abby arregalou os olhos.
— Sério?
— Sério. Você enfrentou um planeta morrendo, uma gosma viva com trauma existencial, criaturas deformadas e quase foi ejetada no vácuo... — ela inclinou a cabeça. — Além disso, salvou vidas! Diria que merece apertar um botão.
— É uma alavanca.
— Alavanca dramática.
Abby riu, nervosa, mas empolgada. Deu a volta, posicionou as mãos sobre a peça metálica envolta em vidro âmbar.
— Alguma instrução?
— Puxe com intenção. — disse a Doutora, caminhando ao redor com as mãos nos bolsos. — E... tente não nos jogar na Guerra do Tempo. De novo.
— De novo?! — disse Abby, puxando de uma vez.
CLANG!
O som da TARDIS mudou no mesmo instante. Um rugido grave percorreu o chão. O rotor acelerou, luzes estouraram em espirais pelo teto, e o ar vibrou com partículas de energia temporal.
Lá fora, as portas ainda fechadas tremiam, e então — num giro vertiginoso — a TARDIS adentrou o Vórtice.
O tempo se dobrava em voltas coloridas. Padrões espirais de eras e possibilidades rodavam ao redor da cabine. O azul infinito do vórtice era cortado por raios dourados, fragmentos de realidades passadas e futuras piscando como memórias vivas.
Abby se agarrou ao console, rindo como quem surfa no meio de uma tempestade de possibilidades.
— Isso é... insano!
A Doutora riu, agora relaxada, observando os painéis reagirem como uma sinfonia viva.
— Isso é o tempo livre, Abby! Uma dança sem coreografia!
Elas riam, a TARDIS rugindo, a luz os envolvendo. E no centro de tudo, duas figuras: uma Senhora do Tempo de olhos cansados e ainda esperançosos, e uma garota da T
erra, com coragem no coração e café nas veias, puxando alavancas como se pudesse mudar o mundo — porque, naquele instante, podia mesmo.
O tempo as envolveu.
E o universo, mais uma vez, segurou a respiração.
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