Doces Palavras
10 Capítulo 10 ஃ "Um casal desses, bicho"
Notas iniciais
Capítulo 10 — Um casal desses, bicho
Anthony podia jurar que os olhos de Yuri soltavam faíscas naquele momento. O momento logo após a sentença da diretora e de todo aquele mau humor já tão conhecido pelos alunos mais audaciosos.
Suas orelhas estavam mais vermelhas e quentes que a cor dos cabelos e das sardas que decoravam boa parte do rosto. Estava pensando. E pensava tanto que logo sairia fumaça das orelhas.
— 'Tá olhando o quê? — Resolveu perguntar. Qual é? Estavam ajudando na biblioteca. Havia uma pilha de livros empoeirados que deviam etiquetar e separar por temas. Uma parte bem chata, mas leve do castigo.
O pior era chegar em casa depois do horário das aulas, algo que o complicaria quando o pai soubesse os motivos. Droga! Tudo por culpa do estúpido que o tirava do sério. Aquele soco devia tê-lo derrubado e não o professor.
— 'Tô olhando essa sua cara de bunda. — Yuri retrucou. Estava folheando um livro qualquer em vez de cumprir com a tarefa imposta pela superiora. — E a culpa dessa merda toda é sua. — Deixou claro quando ele abriu a boca para soltar alguma ofensa. — Mas, eu não sou um filho da puta igual a você. — Suspirou. — Foi um bom soco.
O cenho do ruivo se franziu com aquela frase, mas ele logo estreitou os olhos verdes e voltou ao que fazia. Alguém tinha que terminar aquela bagunça toda.
— Teria amassado essa sua cara feia. — E acabado com aquele ar de rebelde dos anos 60 que ele insistia em manter.
Yuri jogou um livro com um nome bem sugestivo na pilha sobre a mesa. O olhar de Anthony recaiu sobre o volume específico e a ira retornou. Aquele idiota!
— Você deve ser um perito no assunto. — Desdenhou, estalando a língua em implicância. — O rei. O bonzão. O único.
— Quem 'tá pensando besteira é você. — Yuri arqueou uma das sobrancelhas em um ar claro de inocência. O que passava bem longe da realidade. — Mas e aí? Quais são os seus Outros Jeitos de Usar a Boca?
— Mandar você à merda, por exemplo, é um jeito útil. — A fala veio junto ao olhar que deixava claro o quanto o achava um idiota. — Mas ao que parece, você anda bem interessado nessas coisas.
— Principalmente em não usar a boca pra ser um babaca. — Os olhos azuis-acinzentados voltaram a como estavam antes. Estava perdendo tempo ali em vez de sair com a galera ou simplesmente passar a tarde dormindo. Seu humor não estava dos melhores.
— Cala a boca e usa as mãos pra etiquetar essas porcarias. — O ruivo demandou ao enrugar novamente o cenho. Ele podia até assustar os desavisados, mas não o colega de classe. — Me olhando desse jeito parece um viadinho.
E lá vinha aquele papo de novo.
— Você é bem incomodado com a orientação sexual dos outros, né? — Yuri fez a retórica ao se erguer da cadeira onde passou a maior parte daquele castigo. Queria fumar, mas a intrometida da diretora havia confiscado seus cigarros.
— Ah… Claro! — Tony bateu as costas da mão na testa, fazendo uma expressão dramática com o gesto. — Esqueci que o seu irmão é desse time. Foi mal.
A provocação era um convite óbvio para uma briga. Yuri não costumava recusar convites tão importantes quanto aquele, mas o ser humano a frente era tão dispensável que resolveu tocar o foda-se sem maiores problemas. Provocação era exatamente o que funcionava com o Cooper.
— Eu já saquei qual é a sua. — Comentou como se tivesse feito a descoberta do século. Talvez fosse, mas era mesmo só para provocar e ver até onde ele aguentava ir.
— 'Tá falando do quê? — Era óbvio que ele estava inventando alguma coisa, mas não podia negar que queria saber o que era.
— Dessa sua implicância toda. — E não era recente. Desde os tempos mais remotos que o Ferrugem Man o irritava e parecia buscar por sua atenção. Que carência! — Não sou eu que 'tô falando. É todo mundo.
— Todo mundo? — Anthony parou com o que fazia para encarar o colega cretino. Que merda era aquela agora? — Fala logo, porra!
Ui, ele era todo nervosinho. Yuri contornou a mesa de madeira e alcançou o ruivo. Era poucos centímetros mais alto que ele, mas eles não faziam diferença. Não era por sua altura que conseguia tirá-lo do sério, era bem por outra coisa.
— Você gosta de mim.
A frase mais descabida de todas as frases descabidas acabava de se apresentar para ele. Era tão ridícula, que ele quis rir, mas ocupou-se em rolar os olhos e torcer os lábios para a ideia mais estúpida de todas. Claro, o sol girava em torno do umbigo daquele idiota.
— Ah, cara. Fala sério. — Resmungou em resposta, mesmo achando que aquilo sequer merecesse uma resposta. — 'Tá me confundindo com aquela japa ou o quê?
— São estudos baseados no seu comportamento. — Yuri cruzou os braços. Sim, podia ser bem filho da puta quando se empenhava um pouquinho. E estava muito disposto naquela tarde infeliz.
— E desde quando você estuda? — O sarcasmo deu vida a pergunta. Aquela peste não conseguiria provocá-lo com aquele papinho sem pé nem cabeça. — Acho que 'tá reparando demais, isso sim.
E Yuri estava, porque no primeiro deslize, ele estaria lá para apontar o dedo e gritar: Eu sabia! Não que fosse ter orgulho de atrair a atenção de alguém de índole babaca como a do Cooper, mas isso só provaria seu ponto quando aquilo enfim se confirmasse. Era como uma pesquisa de campo. E ele era um aluno muito empenhado.
— E voltamos ao início onde você é um viadinho. — Suspirou como se o assunto já estivesse saturado. — Deve pegar mulher só pra disfarçar.
— Queria que eu pegasse você? — Os dedos foram irritantes para os cabelos vermelhos e rebeldes, mas receberam um tapa antes de concluírem a ação.
— Para de ser viado, caralho! — Anthony se afastou. Agora estava muito disposto a socar novamente aquela cara. Tentar. — Mas o que esperar do irmão de uma bichinha...
Talvez não esperasse ser pego pela gola da jaqueta e jogado contra uma das estantes cheias de livros. As costas bateram com força contra a estrutura que só não caiu por estar encostada à parede.
— Os estudos, no caso, se baseiam em muitas coisas, mas principalmente nessa tua implicância com os gays. — Yuri nem mesmo fez esforço para manter o ruivo entre seu corpo e a estante. Quem sabe não enfiasse um ou dois livros naquela cabeça de fogo para... Ou quem sabe não usasse alguma daquelas enciclopédias, a mais grossa de todas, para bater naquela cabeça até arrancar aquele preconceito todo? Parecia uma ideia bem tentadora. — Confessa logo que é do lado colorido da força e—
— E o quê? — Tony o desafiou com o olhar estreito. Que medo ele tinha... — 'Tá se achando muito pra acreditar na ideia estúpida de eu gostar de você. — Mas o cenho se franziu quando um sorriso apareceu nos lábios do idiota. Lá vinha mais merda.
— Eu não ia comentar sobre essa parte, mas já que você faz questão... — Foi sem arrependimentos que presenciou o rosto do ruivo se colorir de vermelho por uma possível raiva ou mesmo vergonha. Ora, ora.
Mas quem estava provocando, também podia se sentir estranho em relação a certos detalhes. Tony estava vermelho e ligeiramente sem graça, mas Yuri não ficou diferente quando os olhos acompanharam o entreabrir de lábios e a língua que os umedeceu. Claramente queria socar aquela boca, é, era isso.
— Quanta tensão, meninos.
A voz feminina invadiu a sala e fez com que Yuri se afastasse após uns momentos. Akane era como um anjo enviado dos céus para impedir que a biblioteca fosse destruída.
— Foi mal interromper vocês... — Ela sorria de um jeitinho inocente, mas era tão ou mais dissimulada que Yuri. — Interromper vocês nessa... Em toda essa demonstração de afeto. — Ou seria mesmo tensão?
— Chegou a maluca. — Tony empurrou o moreno pelos ombros ao passar por ele. Já tinha dado a porcaria do horário e ele já estava ferrado para além da conta com toda aquela demora. — E não esquece da merda do trabalho. — Pontuou antes de sair apressado como o diabo fugindo da cruz. Que cena estranha aquela. Não queria nem pensar naquela porcaria toda.
Mais essa ainda!
Yuri bufou com o estresse que a presença do outro causava e olhou para Akane. A japonesa de cabelos descoloridos parecia muito interessada em acusá-lo de qualquer coisa com aqueles olhos maquiados e puxados.
— Eu não disse nada! — Ela ergueu as mãos quando ele passou em direção a saída. — E tem uma coisa que eu quero te mostrar... — Antes ela que qualquer engraçadinho por aí.
Os olhos acinzentados ganharam a tela de seu celular quando aquela imagem se apresentou, tão inusitada quanto ele ir fazer um trabalho com o ruivo embuste.
— Só pode ser brincadeira...!
— Eu só queria ser o seu irmão uma hora dessas. — Akane suspirou, mas o olhar estreito de Yuri a fez sorrir. — Mas e aí? Qual é a da tensão com o Cooper?
Yuri não sabia se era pior fazer um trabalho com o Anthony ou ir para casa com a loira implicante.
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Os cabelos ainda úmidos receberam os dedos que deslizaram pelos fios ondulados de maneira a deixá-los mais volumosos quando secassem. Não que estivesse preocupado com o penteado. Dionísio só se preocupava com uma coisa no momento; Qual plano de fundo ficava melhor no notebook?
Era tão difícil de escolher. Nicolai estava um gato em todas elas e, que a família o perdoasse, mas deixaria o escritor estampar a tela. Dava até um ânimo para usar mais o computador e até dormir com ele ligado, enquanto Werner o encarava na foto escolhida.
O pensamento o fez sorrir, mas em seguida suspirar. Logo não teria mais a esperança de sair nas ruas da cidade e esbarrar com aquele monumento de homem como nos filmes clichês. Que triste era a vida, não é mesmo? Primeiro ela lhe prometia os céus e depois...
Rolou na cama e ficou de barriga para cima, encarando o teto. Eram suas reflexões pós-banho. O celular vibrou ao lado e ele buscou pelo aparelho de tela quebrada que ainda estava pagando. Não era dos melhores agora, mas ainda não podia comprar outro e evitava se frustrar a cada vez que tentava ler uma mensagem e se confundia todo. No momento, era Leonel o perturbando.
Ainda não havia se livrado da conversa sobre um certo número de um certo fotógrafo bonitão. Mas qualquer coisa, era só visualizar e não responder.
Tem uma foto épica rolando na internet.
Era o que a primeira mensagem dizia e trazia um emoji um tanto sugestivo ao fim. Aquele safado! Os olhos azuis logo correram para a outra mensagem com uma foto anexada.
...
Que coisa estranha. Por que Leonel mandaria uma imagem de um cara sentado no colo de outro cara e daquela maneira tão cômica? Vai ver o amigo estava bêbado em alguma balada e enviou uma mensagem errada. Deu pouca importância e jogou o celular de volta para o colchão.
Podia ler um pouco antes de dormir ou podia reler a dedicatória do melhor escritor do mundo e imaginar uma realidade onde o passeio que havia sugerido terminaria com uma declaração e muitos beijos.
Leonel o havia chamado de oferecido, mas ao menos aproveitaria um pouquinho mais ao lado do ídolo em um passeio muito inspirador. Era óbvio que Nico só havia aceitado sua companhia pelo mesmo motivo o qual o havia convidado para aquele jantar, ainda em agradecimento por ter salvo a vida do pequeno filhote. Tudo bem. O que importava no fim, era que poderia tirar umas lasquinhas mais interessantes do escritor gato.
— 'Tá rolando uma coisa bem doida na internet.
Sua paz se perdeu naquele momento.
Não era muito fácil ter privacidade quando se tinha três irmãos mais novos e um trinco ferrado na porta.
— E que coisa doida é essa? — Virou o rosto para encarar o do segundo Barelli mais velho. O senhor inconveniência tinha um risinho bem sacana nos lábios e aquilo era preocupante.
Yuri tinha um celular mais útil que o seu e se aproximou para mostrar a tal coisa doida da internet. Ainda tinha que perguntar como estava sendo o trabalho de Literatura com o colega ruivo e sacaneá-lo em alguns assuntos, mas quem parecia muito disposto a ser o piadista por ali era o mais novo.
— Reconhece esse cara? — Yuri empurrou as pernas do irmão ao sentar na cama e enfiar o celular nas fuças dele.
Dionísio franziu o cenho em busca de algum reconhecimento. Era a mesma foto que Leonel havia mandado naquela mensagem bêbada... Era um garoto atrapalhado no colo de um homem bonitão através do vidro de algum bar ou café. Não era muito de fofocas, mas não tinha nada de interessante ali não. Devia ser somente um casal querendo chamar atenção. Nada de novo sob o sol.
... Um “casal” em uma cafeteria. Um casal em uma cafeteria com um cara maluco no colo do outro. Era tão melhor se a lerdeza não o tivesse deixado entender que o garoto doido na foto era ele e o outro homem era o Werner.
O rosto esquentou e ficou vermelho como uma pimenta quando o coração acelerou. Que porcaria!
— Não acredito que esse mico 'tá aí pra geral ver! — Cobriu o rosto e riu de nervoso. Ele odiava chamar atenção, mesmo que fosse atrapalhado e falasse mais que o recomendado. Aquilo era tão ruim e pior ainda para o escritor.
— Você só pode ter caído no colo do coroa. — Yuri comentou. — Do jeito que é desastrado...
— Valeu pelo apoio, maninho. — Retrucou com um torcer de lábios. Coroa? Desde quando, Nicolai era velho? — Foi um acidente, é claro. — Um acidente muito gostosinho, mas ainda assim um acidente. Não era para ninguém ficar sabendo daquele episódio vergonhoso. — A mãe não pode ver isso. — Descobriu os olhos que estavam maiores que o habitual. — Ninguém pode!
— Tarde demais... — Yuri guardou o celular no bolso da jaqueta. — 'Tá no grupo da família.
Como assim aquela foto ridícula estava no grupo da família? Sua vida social estava arruinada para sempre! Todos estavam rindo dele e daquela cena ridícula! Ele tinha a certeza de que estavam dizendo que ele havia se jogado no colo do Werner de propósito. Sua vida estava acabada e como era sempre um desastre, havia acabado com a vida de Nicolai também. Onde é que apertava para morrer?
— Respira e não pira. — O melhor conselheiro da cidade ditou. — Agora já foi.
Dionísio logo precisaria de aparelhos para continuar respirando. Não tinha como ficar calmo ao ser o protagonista de algo tão ridículo e que provavelmente estava sendo motivos de piada nos sites de fofoca. Que desonra! Ele tinha certeza de ouvir o Mushu gritando aquela clássica frase: Desonra pra tu, desonra pra tua família e desonra pra tua vaca!
Werner deveria odiá-lo e com razão. O homem tinha uma reputação a zelar e agora aquela foto comprometedora estava ali para acabar com a visão de moço comportado e cheio de recato que ele mantinha há tantos anos.
— Eu sou a pior pessoa do mundo. — Lamentou-se, mas a palhaçada já estava feita e não havia como mudá-la.
— Quer que eu concorde ou te dê apoio moral? — Irmãos mais novos também podiam apoiar, mesmo ele não sendo a Mona ou a dona Regina, não era tão ruim em ceder um ombro para os dramas do mais velho.
— Estão falando coisas muito ruins...? — Dio fechou um dos olhos ao perguntar em um fio de voz. Que vergonha, meu Deus, que vergonha!
— Tem uma galera bem puta porque queria estar no seu lugar e tem uma galera formando casalzinho com vocês. — Yuri deu de ombros. Achava aquilo o cúmulo da falta de ter o que fazer. E era mesmo melhor nem ler aquelas porcarias ou faria barraco com os desconhecidos e preconceituosos.
— Casalzinho? — O outro olho se abriu e Dionísio pegou o notebook para pesquisar sobre aquilo.
— Vocês já viram a... Ah. — Virgílio também estava com o celular em mãos, mas desistiu de completar a frase ao ver que os irmãos já estavam entrosados com alguma notícia.
— O Dio no colo do feioso de óculos? — Yuri riu, mas foi acertado por um tapa na nuca e engoliu um palavrão. — O cara é esquisito. — Alegou ao acariciar a região dolorida. Qual é? Se gostasse de homens, o cara seria o próprio James Dean e não o nerd esquecido no canto da sala.
— O Dio no colo de quem? — O mais novo dos três entrou no quarto ao ouvir aquela frase curiosa. — Eu perguntei sobre o trailer daquela nova ficção científica. — Justificou quando os olhos dos irmãos caíram sobre ele. — Mas que novidade é essa?
Se juntou a dupla para conferir do que se tratava o assunto. Era muito iludido por pensar que aqueles dois estariam reunidos por conta de um filme de sci-fi ou qualquer outra coisa que envolvesse ciências e fantasia na tela de uma tevê. Bem, ser iludido era de família.
— Essa novidade! — Yuri apontou para o notebook, já que Dionísio parecia ter perdido a fala. — Niconísio? Cara, que brega.
#Niconísio.
Havia uma hashtag e o nome de Nicolai seguido do seu nome. O nome de Nicolai seguido do seu em uma hashtag usada por desconhecidos na internet.
— Me belisca. — Falou para qualquer um dos dois que estivesse disposto a fazer aquela caridade. Não podia ser real. E como raios sabiam seu nome?
— Acho que deu tilt no nosso irmão. — Virgílio comentou ao ajeitar os óculos, mas não que realmente estranhasse aquela atitude. Conhecia Dionísio há quinze anos e era tempo suficiente para saber como ele se comportava diante de variadas situações.
— Alguém me belisca?! — Dio pediu novamente. Precisava ter certeza daquilo que estava diante dos seus belos olhinhos azuis.
— Melhor não... — O caçula era um doce, mas somente ele.
— Pronto. — Yuri resolveu atender o pedido do mais velho ao beliscá-lo no braço com toda sua delicadeza. Talvez a delicadeza tivesse ido passear assim como o bom humor tinha feito naquela tarde.
— Filho da...! — Os dedos esfregaram o local que ficaria vermelho, mas falar palavrão na frente dos irmãozinhos não era algo permitido por ele próprio. — Doeu! — Reclamou, mas logo mudou a expressão dolorida para uma desacreditada. — Isso realmente 'tá acontecendo. Eu e o Nico, nós somos um casal!
— Um casal desses, bicho. — Yuri assobiou e rolou os olhos em seguida. — Agora fala sério, esse cara num tentou se aproveitar de você não, né?
— É claro que não. — Dio suspirou. — Mas isso seria incrível. — Poxa, pelo menos uma mãozinha boba...
— Foi a cabeça dele. — Yuri alegou quando o caçula o encarou com a maior cara de “que porra é essa?” — Bateu quando era criança e ficou assim. A gente não pode rejeitar por esse detalhe. — Deu tapinhas nas costas do irmão. Só não esperava ser puxado para um abraço esquisito que roubou parte de seu fôlego. — Que merda, Dionísio!
— Não faz isso...! — Virgílio também reclamou ao ser puxado. Contato físico era um terror.
— Que noite feliz, não acham? — Dio comentou como se ouvisse o canto de pássaros em uma manhã de primavera.
— Eu também quero!
A próxima a surgir no quarto foi a única irmã. A mais sensata. A mais conselheira. A que se vestia melhor e a favorita da mamãe.
Exagerando um pouquinho, Monalisa se jogou sobre os três irmãos. Alguém acabaria se machucando...
E em seguida veio a mãe. Regina parou no batente da porta e levou as mãos ao rosto, afetada com aquela cena fofa. Estranha, já que o mais velho parecia enforcar os mais novos, mas ainda assim era fofa.
— O que estamos comemorando? — Mona perguntou ao soltar os garotos e livrar Virgílio daquele aperto. Yuri que ficasse ali por mais um tempo.
— É que—
— O Dio! — E foi exatamente Yuri quem se pronunciou ao conseguir se afastar do doido varrido que era o irmão.
— O que tem o meu filhote mais velho? — Regina ainda sorria como a mãe coruja que era. Droga! Devia ter fotografado aquela cena e usar contra eles quando desobedecessem suas ordens.
— 'Tá rolando uma foto do seu filhote sentado no colo de um cara aí na internet. — Yuri ajeitou o penteado e as roupas e foi logo saindo do quarto ao soltar aquela bomba. Era tão simples seguir as regras e não tocar nos seus cabelos!
— Ah, seu filho da...!
— É o quê, Dionísio?
As mãos da mãe estavam na cintura e a sobrancelha estava arqueada. Nada bom, nada bom.
Ferrou...
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Niconísio.
Nicolai recebeu aquela mensagem no celular e só pôde massagear as têmporas ao ler as barbaridades que corriam pelo cyber espaço. Ele era sempre tão reservado quanto a vida pessoal, que estar em tabloides de fofoca era relativamente assustador. Ainda mais com uma notícia tão sensacionalista daquelas.
A mensagem tinha partido do querido cunhado que parecia ter achado certa graça naquilo tudo, já que um emoji risonho acompanhava a frase. Aquele folgado!
E agora havia perdido a inspiração conseguida com algum custo para dar continuidade ao novo projeto. A imprensa já havia ligado umas dez vezes para confirmar se havia realmente algum tipo de relação com o garoto da foto e os rumores somente se estendiam e tornavam-se piores.
Havia sido uma manhã bacana e até mesmo divertida. Dionísio era uma figura radiante e tinha um dos melhores cafés que já havia provado.
E por falar em café... Quem sabe um litro dele não o ajudasse a se concentrar novamente.
Dionísio era só um garoto. Alguém muito engraçado e atrapalhado, mas de bom coração. Ele não merecia passar por aquela exposição e aqueles comentários preconceituosos.
Tudo por causa daquele mal entendido o qual realmente havia achado graça. Era só uma foto mais despojada que o habitual, mas o julgamento de agora se parecia muito com o de anos atrás.
Suspirou ao se recostar melhor no sofá e buscar pela xícara com café. Café normal.
Café lembrava Dionísio. Deveria poupá-lo daquele passeio e evitar que as fofocas ganhassem mais força. Havia mesmo aceitado aquele 'encontro' somente por ainda dever ao garoto a vida de seu filho. Era uma eterna dívida e Dionísio parecia agradar-se muito de sua presença. Claro, como se ele ao menos conseguisse disfarçar qualquer intenção.
O barista era tão expansivo e Nico apenas fingia não notar que suas intenções iam muito além do carinho de um fã. Ele era muito bom naquilo; fingir.
Bebeu mais um gole do café quente e enfiou os dedos entre os cabelos claros, penteando os fios para trás. Tinha o número de Dionísio e ligaria para desmarcar o passeio inspirador. Não alimentaria as notícias ridículas acerca daquela imagem.
Isso. Estava decidido. Poderia compensá-lo de alguma maneira depois.
E talvez fosse mesmo melhor não encontrá-lo, já que o garoto o lembrava tanto de alguém. Suspirou ao cobrir o rosto com as mãos e deitar a cabeça no encosto do sofá, perdendo a aproximação de certa figura pequenina e de pijama de dinossauro.
— Era pra estar dormindo. — As mãos deixaram o rosto e os braços acomodaram o corpo pequeno contra o seu.
— 'Tô com saudades da mamãe. — Rafaello ergueu o rosto para encarar os olhos do pai. A babá o havia deixado na cama quando ele fingiu dormir, mas tinha comido doces durante uma parte da manhã e agora precisava conversar e gastar energia. — 'Tava pensando nela?
Os cabelos encaracolados e escuros eram muito parecidos com os de sua falecida esposa e os olhos redondos e brilhantes também. Era impossível olhar para o filho e não lembrar dela.
— Ou 'tava pensando no Dio?
A pergunta agora o fez franzir o cenho. Acabou sorrindo como se tivesse sido pego em flagrante e beijou a testa do filho. Ele era o quê? Adivinho? Ou talvez estivesse óbvio, mas claro, não pelos motivos que podiam estar passando por aquela cabecinha infantil.
— Só estava pensando. Nada importante. — Se ergueu com o pequeno nos braços e iniciou a caminhada para as escadas. — Quer ver um filme? — Deu a ideia somente para desviar do assunto, mas fazia certo tempo que não assistiam nada juntos.
— A gente vai sair com o Dio amanhã?
Alguém não parecia muito interessado em filmes por ali.
— Você gostou mesmo desse garoto. — O tom curioso se fez evidente ao buscar pelos olhinhos negros.
— A Lillian disse que você também devia gostar. — Ele ganhou o chão quando alcançaram o quarto e correu para bagunçar a cama espaçosa do pai. — Ela falou com o tio Rocco que o Dionísio é melhor do que a magricela da Bianca.
Só mais um assunto normal para uma criancinha curiosa que ouvia o que não devia. Quando Liliana se juntava com seu cunhado, era de se supôr que nada de bom saísse das conversas entre eles, mas como “adultos”, deviam tomar cuidado com o que diziam, principalmente com Rafaello por perto.
— Então...? — Raffa insistiu. Não estava preparado para dormir e o pai também não parecia estar. — Você gosta do Dio?
Céus! Que noite longa aquela.
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A xícara de chá foi levada aos lábios enquanto o polegar deslizava as notícias na tela do celular. Que curiosa aquela foto. Para alguém tão reservado e que odiava se expôr, Nicolai Werner parecia até mesmo descontraído naquela imagem como nunca o havia visto.
Um sorriso surgiu e uma mecha loira foi colocada atrás da orelha.
Talvez muitas coisas tivessem mudado naqueles anos.
Mas quem sabe não descobriria uma ou duas a respeito desse novo homem.
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