Doces Palavras
7 Capítulo 7 ஃ "O Yuri vai estudar?"
Notas iniciais
7 — O Yuri vai estudar?
Monalisa Barelli tinha apenas onze anos, mas aconselhava como gente grande. Ela tinha um talento nato para saber exatamente o que dizer naqueles momentos em que a bad chegava e se recusava a ir embora.
Os dedos pequenos e cheios de anéis coloridos, passeavam entre os fios cacheados do irmão mais velho, enquanto o ouvia desabafar e apoiava a cabeça dele nas pernas.
Dionísio desabafava com a mãe: ela o abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Desabafava com Yuri: a solução do irmão era sempre mandar tudo à merda. Desabafava com Virgílio: com esse irmão, terminava sempre discutindo sobre química e física. Desabafava com o melhor amigo: Leonel dava tapinhas suaves em suas costas e pedia para que ele fizesse café.
E só restava sempre ir se confortar com a irmã. A pequena era tão sincera que as vezes doía nos ossos, mas era sempre a melhor opção.
— Não acha que é muita pretensão e ilusão eu pensar no Nicolai como se pudéssemos ter mais do aquele jantar? — Perguntou ao buscar os olhos azuis da irmã. Eram parecidos com os seus.
— Eu não diria pretensão, mas ilusão, é bem provável. — Monalisa respondeu do jeitinho sério e analítico. — Não é como se ele fosse deixar a bruxa, como você mesmo disse. E além do mais, ele logo vai voltar pra vida de sempre; viagens, compromissos, foco nos livros, essas coisas. Se ficar acreditando e colocar na cabeça que vai acontecer igual naquelas fanfics que você lê, pode ter mais do que uma bad quando a realidade bater. — E não que de fato não pudesse acontecer. Alguns clichês tornavam-se reais, só eram difíceis de se concretizar.
A caçula tinha razão, mas ele era tão absurdamente iludido, que até os nomes dos filhos já tinha listado. E não via o Werner há alguns dias.
— E tem o fato de ele nem gostar de homens, também. — Um sorrisinho triste surgiu após um suspiro. Era aquele o maior fato. Um deles. Um dos vários motivos para que não pudesse realizar o sonho de princesa ao lado de Nicolai. — Eu só 'tô um pouquinho ferrado e mais iludido que o normal.
— Cara, é sério isso?
O perfume exagerado misturado aos cigarros, surgiu junto a figura de camiseta estampada e calças estupidamente rasgadas. Tão rasgadas que Dionísio cogitou que o irmão havia encontrado os jeans no lixo e roídos por ratazanas.
— Esse escritorzinho deve ser um babaca. Manda ele se—
— Yuri… — Dio chamou o mais novo em tom de alerta. Palavrões estavam fora de questão naquela família. — Você é péssimo aconselhando. Só faltava dizer pra eu oferecer um cigarro pro Nico e chamar ele pra tomar cerveja em algum boteco. — Rolou os olhos.
— Deu certo com as garotas. — Yuri deu de ombros ao ajeitar a jaqueta de couro e se olhar no espelho quebrado que ainda insistiam em deixar na parede. Os cabelos castanhos úmidos e naquela bagunça organizada de sempre.
— Eu não acho que sejam “garotas”, no plural… — Monalisa implicou, como também sempre fazia. E como sempre acontecia, recebeu um olhar sinistro do irmão.
E despertou em Dio o lado paterno.
— Você não 'tá saindo com um monte de garotas, não né? — Sondou ao estreitar os olhos e avaliar a postura do irmão. — Você não é desses que iludem as mocinhas e depois abandonam e elas ficam grávidas e ao relento… Você é? — Porque fazer drama e pensar em tragédias, fazia parte de ser Dionísio.
— Credo, isso me faz parecer aqueles cafajestes das novelas que a mãe assiste. — O cenho se franziu com o pensamento e comparação ridícula. — No caso, agora, eu vou estudar.
Fez-se um minuto de silêncio o qual Dionísio olhou para a irmã e conversaram pelo olhar. Que papo surreal era aquele? Será que tinham ouvido direito? Só faltava aquelas risadas das séries de comédia ao fundo.
— Estudar? A essa hora? — Olhou rapidamente no relógio de parede e conferiu o horário: Oito da noite. — Essa foi a pior desculpa que você já deu, maninho.
— Estudar seria a última desculpa que eu inventaria. — Até porquê, ninguém ia acreditar. — Se eu disse que eu vou estudar, é porque eu vou estudar. Tem um trabalho de literatura inglesa pra fazer.
— Literatura inglesa? — A descrença não deixaria Dionísio naquela noite. — Vai recitar Shakespeare agora?
— Qual a surpresa, maninho? Talvez eu interprete o Romeu, estilo o Leonardo DiCaprio. — Era muito mais bonito que o ator, aliás.
— Eu ouvi direito? O Yuri vai estudar?
O irmão que faltava apareceu. Virgílio já estava de pijamas e preparado para assistir os documentários sobre ficção científica naquele canal famoso, mas ouviu os irmãos conversando – e eles não falavam baixo – e não acreditou no motivo da pequena discussão. Ele tinha que ver com os próprios olhos e até ajeitou melhor os óculos no rosto.
Yuri deixou um som de frustração surgir. Qual é? De repente todo mundo tinha resolvido implicar com ele?
— Acha que só você é o espertão da família? — Retrucou com um falso tom de indignação. Claro, tinham motivo para o espanto, e embora ele jamais se importasse com a opinião alheia quando o assunto era os estudos, eles estavam exagerando. Sempre que se empenhava um pouquinho, conseguia notas apresentáveis.
— Não, mas é a primeira vez que isso acontece. — Virgílio continuou descrente. Ele mesmo era um dos primeiros a fazer discursos sobre a importância dos estudos para um futuro promissor, por mais que mais jovem e nunca levado a sério.
— É só um trabalho. E é em dupla. — Cruzou os braços, já perdendo a paciência. — Eu não 'tô saindo pra noite como eu sempre faço. Deviam me apoiar e usarem camisetas com o meu rosto estampado. — Daquelas do tipo: Orgulho da família ou melhor aluno do ano. — Apoio! Sabem o que é isso?
— Eu sou o primeiro a apoiar! — Dionísio se ergueu. Aproveitou para tentar ajeitar os cabelos do irmão, mas recebeu uma carranca que o fez parar e afastar as mãos. — Finalmente a sua ficha caiu e agora você vai ser o irmão mais estudioso e que—
— Hey… Não viaja. Menos. — Yuri deu tapinhas no rosto do irmão, como se o despertasse de um transe. — Bem menos, Dio. Eu 'tô saindo pra fazer um trabalho, não pra me tornar outra pessoa. É só a porra de um trabalho.
— Vou lavar essa sua boca com sabão. — Dio resmungou. — Engole esses palavrões e vai lá estudar, bonitão. — Porque a noite já estava estranha demais.
— Se precisar de ajuda com o trabalho, já sabe. — Virgílio falou antes de se retirar e voltar para o quarto. Quem diria que viveria para ver o irmão rebelde falando de estudos…
— Se conseguir a nota máxima, a gente vai usar as camisetas. — Monalisa abriu um sorriso implicante e teria recebido mais do que um rolar de olhos quando a porta se abriu.
Regina parou na entrada e observou os três filhos. Eram tão lindos que poderia passar eras somente admirando a beleza daquelas crianças abençoadas.
— Pediram pizza? — Perguntou ao retirar o casaco e a bolsa, dispensando-os para o cabideiro ao lado da porta. A organização era muito importante naquela casa. — Ou estão brigando…? — Estreitou os olhos e já tinha o velho discurso na ponta da língua quando Dionísio a interrompeu.
— Na verdade, é algo melhor que pizza. — Sorriu ao ouvir o irmão ao lado respirar fundo. — O Yuri vai fazer um trabalho importante com algum coleguinha.
Coleguinha? Dionísio as vezes o tratava feito criança, claro, como se eles fossem muito distantes na idade.
Regina, no entanto, franziu o cenho e perdeu a postura de mãe que dá broncas para assumir a expressão de mãe orgulhosa que, era mais comum do que as brigas bobas entre os filhos.
— Mãe…? — Yuri falou por entredentes, temeroso do que viria a seguir. E como previsto, ele foi agarrado pelos braços calorosos da mãe e recebeu beijos melosos e exagerados. Era o único normal entre eles…
— Que orgulho do meu bebê! — Regina apertou as bochechas do filho e exibiu um sorriso enorme. Estava cansada, como sempre após um dia atribulado de serviço, mas estava feliz. — Quer que a mamãe te leve até lá? Quem é o coleguinha? Nós conhecemos? Os pais dele são gente de bem? Ele não usa drogas, não né? Ele também tem irmãos? Mora em um bairro decente? Ele—
— Dona Regina, para um pouco de fazer perguntas! — Yuri conseguiu escapar do ataque de mãe coruja. Os irmãos, que tinham toda a atitude de verdadeiros filhos da puta, estavam com expressões ridiculamente fofas em direção a ele.
— Eu sou uma mãe preocupada, ninguém pode me condenar por isso. — Ela soou ofendida. — Me diz quem é esse seu amigo. Assim eu me preocupo menos. — E agora estava exigindo. Quem é que mandava ali?
— É o Cooper. Satisfeitos? — Yuri ajeitou novamente os cabelos e conferiu as horas no visor do celular, saindo logo em seguida.
E deixando a família levemente estarrecida.
— Mas o tal Cooper não é aquele que…? — Regina balbuciou.
— É ele mesmo. — Dionísio continuou olhando para a porta fechada. Que raios tinha acontecido com o irmão?
Fez-se mais alguns momentos de silêncio até que Regina suspirasse e caminhasse até a cozinha, indo averiguar a geladeira.
— Acho que é melhor pedirmos pizza, mesmo.
ஃ
A casa dele combinava com o ar burguês que ele passava. Era grande, com jardim, piscina – a qual Yuri se conteve para não pular –, decoração rebuscada e aquelas escadas que ele via em filmes com gente rica.
Gente rica e oriental, por que tirar os sapatos antes de entrar, era palhaçada, né?
— Que é? — Anthony perguntou ao vê-lo com uma careta de descontentamento. — Quer sujar a casa toda com esses sapatos imundos?
— O que eu quero mesmo é acertar os meus sapatos imundos nessa sua cara feia. — Yuri retrucou ao empurrá-lo pelo ombro e subir os degraus para o hall. Tinha umas coisas absurdas que ele gostaria de quebrar, tipo vasos enfeitados, abajures e quadros com fotos de família. Que coisa mais ridícula.
— Vai ficar aí parado feito idiota ou vai subir? — O ruivo perguntou ao passar pelo 'colega', rumando para as escadas.
— Cadê a galera? — Yuri questionou, ainda fazendo análise sobre a decoração da casa, mas prestou atenção nos degraus em seguida. Se despencasse dali de cima, daria adeus ao futuro promissor que a família aspirava para ele.
— Que galera?
— A sua família! — Não era óbvio? — Ou você vive sozinho nessa casa exagerada? — Talvez ele fosse tipo Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim.
— Queria que eles te dessem às boas vindas e te recebessem com cartazes e docinhos? — Os olhos verdes chegaram a rolar nas órbitas. Ainda era um mistério o fato de ter aceitado aquela porcaria. Ter a presença daquele estúpido na própria casa, era bem fim de carreira. Mas antes na sua do que na dele.
— Se fosse a gostosa da sua irmã, eu não ia me importar. — O tom veio cheio daquele humor abusado que era uma das características de Yuri. E esse mesmo tom fez o ruivo parar quase no topo da escada. — Que é? — Ele deu de ombros. — Você pode abrir essa boca nojenta pra falar do meu irmão, mas eu não posso elogiar a sua irmã? — Se fez de inocente. E não, não era como se realmente estivesse de olho grande na irmã do embuste, ele só queria mesmo era irritá-lo e aquela era uma ótima maneira para isso.
— Essa merda toda é só pra me tirar do sério, né? — Anthony regrediu os degraus, ficando apenas um à frente de Yuri, encarando-o de cima.
— Claro, porque fui eu quem fez as duplas. — Uma das sobrancelhas se ergueu, naquele ar irritante onde o cenho se franzia, acompanhado de um sorrisinho mais que sarcástico. Não, era aquele tipo de sorriso de uma criança que os pais chamavam de “anjinho”, mas a criança era um verdadeiro demônio. Ele odiava aquela expressão.
Assim como Yuri odiava aquele arzinho cheio de menosprezo que o ruivo direcionava a ele. Se o jogasse da escada e chamasse a emergência logo em seguida, seria considerado um crime?
— Se falar mais alguma coisa da minha irmã, eu te expulso daqui na porrada. — Tony sustentou os verdes nos acinzentados, os lábios apertados e a vontade fulminante de esganá-lo.
— Eu queria ver você tentar. — Yuri provocou, mãos nos bolsos e o ar de desafio. Ele esperou, mas o ruivo deu as costas e fingiu que ia subir, voltando com o punho fechado para acertá-lo no rosto.
O soco não cumpriu o objetivo, mas o coração do Cooper quase saltou para a garganta quando Yuri se desviou e ele passou direto para o outro degrau, se desequilibrando e por pouco não rolando escada abaixo. E o único motivo para que não tivesse despencado e se confundido com o carpete, foi porque Yuri o segurou pelo pulso.
— 'Tá querendo se matar, infeliz? — Yuri bradou, soltando-o ao vê-lo sem o perigo de despencar feito fruta podre. Se bem que, a ideia era tentadora. — Mas nem pra isso você serve. — Tateou os bolsos em busca de um cigarro. Fumaria para evitar quebrar as fuças daquele babaca. Afinal, por que demônios tinha decidido ir com aquilo adiante? — E então? Vai me levar pro seu quarto ou vai ficar me olhando com cara de idiota? Eu salvei a sua vida. — Esgarçou um sorrisinho sarcástico, mas fechou a cara ao ter o cigarro roubado.
A noite seria uma bela porcaria ao lado daquele ruivo babaca.
Fale com o autor